Bernardo Trindade: futuro será feito com menos aviões, menos rotas e menos companhias aéreas

A forma como Portugal abordou a pandemia e o serviço pelo qual é reconhecido são, para Bernardo Trindade, um “bom ponto de partida” para a retoma turística do país, mesmo que não se consiga prever quando vai acontecer. Importa que o sector se adeqúe à nova realidade, que se construa uma “nova relação de confiança” com os clientes e que novas e antigas realidades possam coexistir em harmonia.

Titular da pasta do Turismo entre os anos de 2005 e 2011, Bernardo Trindade foi um dos seis ex-secretários de Estado que, com a actual SET, debateram, na passada terça-feira, o tema “Covid-19 e Turismo: E daqui em diante?”, num webinar organizado pela Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril (ESHTE).

Num painel formado por personalidades tão diversas, as concordâncias foram muitas, a começar pela imprevisibilidade do futuro e pela demora que o turismo vai ter em recuperar e chegar a números equivalentes aos dos últimos anos.

Reconhecendo, com os restantes painelistas, que “o turismo vai ser dos últimos sectores a arrancar” até porque depende das acessibilidade, da abertura de fronteiras, da livre circulação e do transporte aéreo, Bernardo Trindade considerou que saber qual a dimensão temporal desta crise é a “pergunta de 1 milhão de dólares”, já que nem os organismos internacionais se atrevem a fazer previsões. Acabaria, no entanto, por dar uma visão mais pessimista sobre o futuro próximo do que os restantes intervenientes ao avançar que a retoma só deverá acontecer “no final de 2021, mas só em 2022 é que podemos almejar ter números como os que tivemos em 2018 ou 2019 que, é bom não esquecer, foram os melhores anos de sempre” para o turismo em Portugal.

Uma das razões que aponta para estas datas passa pelo transporte aéreo que, na sua opinião, vai passar por uma “profunda reestruturação” provocada pelas enormes dificuldades por que estão a passar algumas das maiores companhias aéreas do mundo, incluindo low costs.

Para Bernardo Trindade, é ponto assente que “o transporte aéreo, no futuro, será feito com menos companhias aéreas, menos rotas e menos aviões no ar” e, por via disso, será também um futuro em que haverá “um aumento de concorrência entre os destinos turísticos” na captação de turistas. Tudo isto significa que poderá haver alterações sensíveis do lado da procura.

Ainda assim, considera que Portugal tem um percurso que funciona como um “bom ponto de partida” já que “abordou bem a questão da pandemia nas suas diferentes regiões”, é uma referência ao nível do serviço prestado, cuja qualidade é reconhecida internacionalmente, pelo que “está bem colocado em termos de destinos a visitar”.

Embora estas sejam “notícias boas”, o ex-secretário de Estado do Turismo e actual administrador do Grupo PortoBay, considera ser necessário que todos os agentes do sector devem estar preparados para “o novo normal” que aí vem, desde a necessidade de saber se há a possibilidade de testar os turistas na origem, o que considerou ser “essencial para garantir a segurança”, ao domínio das infra-estruturas, sejam aeroportos ou unidades hoteleiras.

Pela sua experiência como hoteleiro, o ex-governante considera imprescindível “adequar os hotéis à nova realidade e a uma nova relação com o cliente”, que tem que ser construída na base da confiança, o que passa pela utilização de novos equipamentos e por serviços que são disponibilizados de maneira diferente. “Hoje, os próprios clientes já reivindicam novos equipamentos e procedimentos de segurança sanitária”, disse, exemplificando com o caso dos seus hotéis onde “hoje já temos acrílicos, máscaras, gel, entre outras matérias que se relacionam com os espaços comuns”.

Para Bernardo Trindade “mais do que os manuais de procedimentos, que são importantes, importante é sobretudo a relação de confiança que estabelecemos com o clientes ao nível do serviço”, ou seja, hoje “a segurança sanitária é um indicador essencial” e deve ser acrescentada aos vários atributos que fazem de “Portugal um destino turístico muito apetecível”.

Sobre as alterações que a crise pandémica vai trazer ao lado da procura, Bernardo Trindade afirma que uma delas está já à vista e reside na grande presença do mercado interno. “Já este ano vamos ter uma situação diferente, com uma presença mais acentuada do nosso mercado nacional, apesar de termos que ter em conta que as pessoas em lay off tiveram uma redução de um terço no seu rendimento”.

Admitindo que a pandemia “vai trazer novas realidades”, deixou claro que estas nunca deverão aparecer em ambiente de substituição “mas, sobretudo, numa lógica de estreita colaboração” pois “só assim poderemos consolidar a ideia de que o turismo é o melhor instrumento de coesão política, económica e social”.