Covid-19: Como estão a lidar com a pandemia a Accor e a Carnival

Ao longo do passado mês de Março a pandemia de Covid-19 deixou de ser um problema de alguns para ser o problema de todos, uma premissa com consequências também para algumas das maiores empresas do sector turístico. Conheça o que mudou na vida destas empresas nesta rúbrica do Turisver.com. Enquanto a Accor Hotels mantém o foco na solidariedade e esperança, a Carnival Corporation tenta sobreviver ao impacto do Covid-19 através da venda de acções.

 

Accor foca-se na ajuda às comunidades locais

“Enquanto vivemos esta crise mundial, os nossos pensamentos estão com os indivíduos e comunidades impactadas por este momento sem precedentes”, explica a Accor Hotels. Na face da crise, o maior grupo de hospitalidade aumentada do mundo, com sede em França, que conta com 5.000 hotéis, resorts e residências em mais de 110 destinos, tem tido como foco a ajuda que pode garantir aos seus hóspedes, colaboradores, clientes, parceiros e autoridades locais.

A Accor assegura que o seu “espírito de comunidade e compromisso nunca estiveram mais fortes”. A nível global, os hotéis do Grupo uniram-se para partilhar uma mensagem de esperança, fazendo brilhar um coração nas fachadas dos seus hotéis, representando a vontade da empresa de apoiar as comunidades locais nestes tempos difíceis.

A 25 de Março, Sébastien Bazin, presidente e CEO da Accor, afirmava que era importante todos termos presentes a ordem de prioridades da empresa: “primeiro a segurança, em segundo a família e em terceiro o negócio”. O responsável avançava ainda que não podendo prever o futuro garantia que “a Accor vai participar nesse futuro”, esclarecendo que o shift no modelo de negócio adoptado pelo grupo nos últimos seis anos preparava-o para tempos menos favoráveis como os que vivemos.

Nesse mesmo dia, o grupo que conta com uma história de mais de 50 anos decidiu entrar na primeira linha de acção e disponibilizar os seus hotéis em França a profissionais de saúde, a todos os franceses mobilizados e envolvidos no combate à pandemia, bem como às populações mais vulneráveis. Estes hotéis disponibilizam um total entre as 1.000 e as 2.000 camas, para acomodar pessoas em condição de sem abrigo em França.

Foi criado, então, o Coronavirus Emergency Desk Accor – CEDA, para centralizar as necessidades por soluções de alojamento em colaboração com os donos dos hotéis e autoridades locais. “Acolher, proteger e tomar conta de outrem está no cerne da nossa actividade”, comentava a propósito Sébastien Bazin. Também em Portugal os hotéis do grupo se movimentaram neste sentido, abrindo as suas portas para garantir alojamento e catering, além de doar material de protecção. Ler mais [aqui].

Quanto ao seu negócio base, a hospitalidade, a Accor Hotels orientou os seus hotéis em termos de planos de continuidade de negócio, bem como na implementação de medidas adicionais de limpeza e desinfecção, de acordo com as orientações da OMS, autoridades de saúde e governamentais. Para as unidades que se encontram encerradas ou a operar com serviços limitados, de acordo com restrições de autoridades locais, o grupo aconselhou também a adopção de políticas de flexibilidade para com cancelamentos e alterações de reserva, até 30 de Abril.

No primeiro mercado afectado por esta pandemia, que começa agora a mostrar sinais de uma lenta recuperação, a China, a Accor Hotels vai apostar fortemente no mercado interno, num primeiro momento. Gary Rosen, presidente e COO da Accor para a China, atesta que o povo chinês é resiliente, tal como a indústria do turismo o é, pelo que estão “cautelosamente optimistas” em relação ao futuro. Está a ser feita uma aposta em promoções de recuperação focadas no feriado nacional de 1 de Maio, com foco no mercado interno.

 

Carnival Corporation quer arrecadar 7 mil milhões de dólares com venda de acções

A Carnival Corporation & plc é a maior empresa de viagens de lazer do mundo, contando com um portefólio de companhias de cruzeiro que totalizam uma frota de 100 navios que visitam mais de 700 portos em todo o mundo, esperando a entrega de 16 novos navios até 2025. As companhias Carnival Cruise Line, Princess Cruises, Holland America Line, Seabourn, P&O Cruises (Australia), P&O Cruises (UK), Costa Cruises, AIDA Cruises e Cunard acolhem anualmente cerca de 13 milhões de hóspedes, o que corresponde a perto de metade do total mundial de ‘cruzeiristas’.

A empresa, com sede corporativa em Miami e várias sedes regionais espalhadas pelo mundo, tem acções listadas na Bolsa da Nova Iorque e na Bolsa de Londres, sob o símbolo CCL, e é o único grupo do mundo a estar incluído nos índices S&P 500 e FTSE 100. Em 2019, a Carnival Corporation contou com um resultado operacional de 20,8 mil milhões de dólares, com um lucro líquido ajustado de 3 mil milhões de dólares.

A história da Carnival Corporation fundiu-se com a história do novo Coronavírus em Fevereiro, quando um navio da Princess Cruises, o Diamond Princess, se tornou o primeiro navio forçado a realizar duas semanas de isolamento a bordo antes de proceder ao desembarque dos passageiros, no Japão, tornando-se o segundo foco epidémico de Covid-19 depois da China. Depois deste primeiro navio em quarentena no Japão seguiram-se outros isolamentos obrigatórios em outros navios da companhia, incluindo o Grand Princess ao largo da California, até que a Princess Cruises decidiu suspender a sua operação por 60 dias, no dia 12 de Março.

A decisão da Princess Cruises foi seguida pela Carnival Cruise Line (suspensão até 10 de Abril), da Seabourn (inicialmente até 14 de Abril, estendendo-se depois até 14 de Maio), bem como da Cunard North America (suspensão recentemente prolongada até 15 de Maio) e a Holland America Line, até eventualmente atingir todas as companhias de cruzeiro do grupo. Ainda assim, e embora os dois navios com maior incidência de casos de Covid-19 até à data pertençam à Corporação, Arnold Donald, CEO da Carnival Corporation, continua a afirmar que navios de cruzeiro não são mais atreitos à propagação de vírus do que qualquer actividade terrestre.

Num relatório publicado a meados de Março, a Corporação avançada que no primeiro trimestre do ano, terminado a 29 de Fevereiro, o impacto do Covid-19 se tinha manifestado num prejuízo líquido de aproximadamente 0,23 dólares por acção.

“A Corporação acredita que os efeitos do Covid-19 nas suas operações e reservas globais vão ter um impacto negativo nos seus resultados financeiros e liquidez. A Corporação acredita, também, que os efeitos do Covid-19 nos estaleiros onde os seus navios estão em construção resultarão em atrasos nas entregas desses navios. A Corporação está a tomar medidas adicionais para melhorar a liquidez, incluindo despesas de capital e redução de despesas, e procura por financiamento adicional”, assevera em comunicado.

Ao admitir que a procura não recuperará tão cedo dos impactos da pandemia, a Carnival Corporation espera arrecadar 7 mil milhões de dólares em novos financiamentos. Pretende arrecadar 4 mil milhões de dólares em títulos garantidos aos seus navios (inicialmente avançado como 3 mil milhões de dólares), outros 1,75 mil milhões em títulos conversíveis e ainda 1,25 mil milhões com a emissão de novas acções.

O plano inicial de arrecadar 6 mil milhões de dólares (acrescido posteriormente para 7 mil milhões), permitiria ao grupo um balanço de 9,5 mil milhões de dólares o que, segundo a Corporação, permite a sua liquidez até ao mês de Novembro, sendo que carece de mil milhões de dólares por mês. Num comunicado endereçado ao mercado financeiro, e que anuncia os seus planos de refinanciamento, a Corporação atesta que o Coronavírus “poderá ter um impacto a longo prazo no factor de atracção das nossas marcas, o que poderá diminui a procura”.

A Carnival Corporation, que fala também nos custos adicionais com o repatriamento de passageiros, assistência a tripulações e sanitização de navios, foi ainda processada por diversos dos passageiros que se encontravam a bordo do Grand Princess, aquando do seu isolamento em alto mar ao largo da California no início de Março. Sendo que nunca antes a Corporação tinha experienciado uma suspensão completa das suas operações “a nossa capacidade de prever o impacto nas nossas marcas e perspectivas futuras é incerta”.

Na sua vertente solidária, a Carnival Corporation pediu a governos e autoridades de saúde para considerarem os navios de cruzeiros como hospitais temporários. Esta iniciativa visa a utilização de navios convertidos para a hospitalização de doentes não-Covid-19, para aliviar a pressão nos hospitais em terra, para que possam utilizar a sua máxima capacidade para tratar os atingidos por este vírus. A oferta requer apenas o pagamento dos custos essenciais das operações dos navios enquanto estiverem no porto.