Covid-19: Como estão a lidar com a pandemia a United Airlines e a Hertz Corporation

Ao longo do mês de Março a pandemia de Covid-19 deixou de ser um problema de alguns para ser o problema de todos, uma premissa com consequências também para algumas das maiores empresas do sector turístico. Conheça o que mudou na vida destas empresas nesta rúbrica do Turisver.com. Um apoio de 5 mil milhões de dólares do Governo dos Estados Unidos para a United Airlines e os esforços por preservação da liquidez da Hertz Corporation.

 

O equilíbrio entre ajudas do governo e medidas severas da United Airlines

“Há duas semanas discutimos o impacto das vossas chamadas e cartas dirigidas ao Congresso enquanto eram debatidos os apoios financeiros para a indústria da aviação. Washington ouviu-vos perfeitamente, aprovando uma legislação vital que providenciará às companhias de aviação civil um total de 50 mil milhões de dólares em doações e empréstimos”. É assim que começa o comunicado interno enviado a perto de 100.000 trabalhadores da United Airlines, assinado por Oscar Munoz, CEO, e Scott Kirby, presidente, a 15 de Abril.

Esta é a última de diversas mensagens que a direcção da United tem enviados aos seus trabalhadores, prometendo “comunicação frequente e transparente” nestes tempos de luta contra o Covid-19. Munoz e Kirby comprometeram-se, desde o início, a partilhar internamente a realidade do impacto da pandemia no negócio e que passos teriam de, e estão a, tomar para gerir esta nova realidade. “Sentimos uma obrigação perante cada um de vós de proteger-vos e à vossa capacidade de sustentar as vossas famílias”, atestavam.

A 15 de Março a companhia aérea americana informava que nas duas primeiras semanas daqueles mês, geralmente o mais movimentado do ano, tinham contado com menos um milhão de passageiros a bordo dos seus aviões. Ainda assim, desde Janeiro que a empresa estava a tomar medidas agressivas para gerir uma crise que se previa profunda. Numa altura dita normal, a United Airlines e United Express operam aproximadamente 4.900 voos por dia, para 362 aeroportos em todo o mundo.

A 15 de Abril, a United Airlines confirmava que espera receber aproximadamente 5 mil milhões de dólares do Governo dos Estados Unidos, através do Payroll Support Program associado ao plano de apoios no âmbito da pandemia – o CARES Act. Os fundos serão utilizados para pagar os salários e benefícios aos trabalhadores da empresa. “Agradecemos ao Congresso e ao Governo por ter rapidamente aprovado uma legislação que protegerá os salários de dezenas de milhares de empregados da United Airlines”, afirma Frank Benenati, porta-vos da United.

Na última carta enviada aos trabalhadores pelos líderes da empresa, Munoz e Kirby informavam que “o desafio que nos espera é maior do que qualquer outro que enfrentámos na nossa história de 94 anos”. Explicam que o fundo que receberão do Governo não será suficiente para cobrir as despesas com salários, mas que a empresa manterá a promessa feita em Março de que “não haverá licenças involuntárias nem reduções nas taxas de pagamentos para os trabalhadores nos Estados Unidos antes de 30 de Setembro”.

O comunicado elucida também que os salários correspondem apenas a 30% do total dos custos da empresa. “Custos operativos fixos como rendas aeroportuárias e de infra-estruturas são significativas e não vão desaparecer”, pelo que “temos sido são agressivos a reduzir a nossa programação, a cortar despesas de capital, na contracção do nosso trabalho com fornecedores e consultores, e no corte em metade dos salários executivos”, asseveram.

Os planos de contenção de custos serão ainda mais severos, com a companhia aérea a reduzir a 10% a sua programação para Maio, reduções semelhantes serão depois apresentadas também para o mês de Junho. A operação da United Airlines fica assim reduzida em 90%, de acordo com os parâmetros do CARES Act, mantendo ligações domésticas. Assim, todos os grupos de trabalhadores devem esperar novas opções de cortes salariais, como novas licenças voluntárias. “O vosso sacrifício é ao mesmo tempo profundamente apreciado e importante para o futuro da empresa”, asseguram os líderes.

A companhia aérea justifica estas medidas com as brutas quedas que vem registando no tráfego aéreo. “A procura é essencialmente zero e não mostra sinais de melhoria a curto-prazo”, sendo que “menos de 200.000 pessoas voaram connosco nas duas primeiras semanas de Abril, comparativamente com mais de seis milhões durante o mesmo período em 2019, uma queda de 97%”. Avançam ainda que “esperamos transportar menos pessoas durante todo o mês de Maio do que transportámos em apenas um dia de Maio de 2019”.

A United Airlines prevê, também, um regresso lento à normalidade, com as restrições a irem sendo levantadas a ritmos diferentes entre estados e países e com as preocupações relacionadas com o vírus a dominarem a procura por viagens. “Prevemos que a procura continue reduzida durante o resto do ano e provavelmente no próximo ano”. Informam, assim, que “as desafiantes perspectivas económicas significam que temos algumas decisões difíceis a tomar, tendo em conta que planeamos que a nossa companhia e força de trabalho sejam menores do que foram até agora, a partir já de 1 de Outubro”.

Embora com uma operação reduzida a 10% do que normalmente seria, a United Airlines tem colocado os seus aviões ao serviço de passageiros que queiram regressar às suas casas ou precisem de se deslocar por circunstâncias relacionadas com esta nova realidade. A companhia aérea firmou uma parceria com a cidade de Nova Iorque para o transporte de voluntários que queiram ajudar na luta contra o Covid-19, a 3 de Abril, juntando-se a 9 de Abril ao estado da Califórnia com um acordo semelhante, que pretende garantir as deslocações de profissionais de saúde para onde são mais precisos.

Relativamente aos seus passageiros, a companhia aérea garante flexibilidade nas suas reservas até ao final de 2020. A 7 de Abril a United anunciava que os clientes que queiram efectuar alterações ou cancelar as suas viagens até ao final do ano podem fazê-lo sem taxas adicionais, se o fizerem até ao final deste mês de Abril. Conta também com uma política que permite que qualquer reserva realizada até 30 deste mês para datas futuras, possa ser alterada sem custos durante os próximos 12 meses. Os estatutos dos membros MileagePlus Premier serão também estendidos até Janeiro 2022, a par com outras benesses para membros do programa de fidelização da companhia aérea.

 

Hertz Corporation aprende a lidar com a reduzida procura

A Hertz Corporation, subsidiária da Hertz Global Holdings, com sede nos Estados Unidos, opera as marcas de rent-a-car Hertz, Dollar e Thrifty em cerca de 10.200 localizações espalhadas pela América do Norte, Europa, Caraíbas, América Latina, África, Médio Oriente, Ásia, Austrália e Nova Zelândia. Esta, que é uma das maiores empresas de aluguer de veículos a nível mundial, partilhou no final de Março os seus planos de negócio para lidar com a pandemia de Covid-19 e o impacto que teve na indústria das viagens.

A mensagem assinada por Kathryn V. Marinello, CEO, presidente e membro do Conselho de Administração da Hertz Corporation, começa por constatar que “como o resto do sector global das viagens, o impacto do Covid-19 atingiu rapidamente a Hertz e o reverter da procura de clientes tem sido significativo”. Para lidar com esta realidade “estamos a tomar acções agressivas para apoiar as operações e preservar a liquidez, enquanto confrontamos os problemas que surgem de uma das mais difíceis situações económicas que já experienciámos”.

Nos meses de Janeiro e Fevereiro a produtividade da empresa estava ainda em altas, seguindo o percurso traçado por 10 trimestres consecutivos de crescimento de receitas e nove trimestres de melhorias do EBITDA ajustado. Contudo, desde o início de Março que as restrições têm sido implementadas, as companhias aéreas vêm deixando os seus aviões em terra, “causando um crescimento dos cancelamentos de alugueres e declínio nas reservas futuras”. Desde então que a empresa vem traçando planos de contingência.

A Hertz tem vindo a ajustar a sua frota em resposta à baixa procura, alavancando as frotas de carros usados, e negociando com fornecedores o adiar de novos pedidos ou modificação daqueles anteriormente já realizados. Está, também, a “cortar agressivamente os custos e a reduzir substancialmente os investimentos”, a delinear as vendas e estratégias de marketing em linha com o actual ambiente económico, enquanto oferece flexibilidade e apoio aos seus clientes. Na Europa e nos Estados Unidos tem consolidado as localizações dos seus espaços, oferecendo pontos de pick up alternativos, quando necessário.

A empresa implementou programas de licenças para os seus trabalhadores nos Estados Unidos, no que foi “uma decisão muito difícil, sabendo que muitas boas pessoas serão afectadas”. Ainda assim, a Hertz afirma querer “trazer de volta para a empresa tantos membros quanto possível uma vez que as viagens recuperem”. Outra medida de contenção de custos passa pelos significativos cortes aos ordenados dos líderes sénior, com Kathryn Marinello a prescindir, de momento, da totalidade do seu salário base.

A nível financeiro, a empresa tem acesso a aproximadamente mil milhões de dólares em liquidez, sem vencimentos significativos da dívida corporativa até Junho de 2021. Além das reduções nos gastos operacionais e gerais, e do diferimento das despesas de capital, a Hertz está a tomar acções relacionadas com o seu património excedente de forma a garantir liquidez adicional. Contudo, avisa que a “a liquidez disponível vai depender da duração e magnitude da baixa procura nas viagens, bem como de outros factores como tendências de valores de carros usados”.

O comunicado acaba a esclarecer que “a Hertz, juntamente com os seus colegas de rent-a-car, está activamente envolvida em negociações com os governos europeus e dos EUA, à procura de apoios financeiros que ajudem a indústria neste período difícil”. Embora a situação “não tenha precedentes”, a Hertz é “uma empresa resiliente, com marcas resilientes e trabalhadores resilientes”, assevera Marinello. “As acções que estamos a adoptar agora devem posicionar-nos no caminho certo para navegar o actual ambiente e emergir como um negócio mais forte enquanto o mundo recupera”, conclui.