iTurismo: Os Amigos… da Mancha

A não inclusão de Portugal na lista de países seguros tornada pública, na sexta-feira, pelo Governo do Reino Unido, levando assim a que todos quantos cheguem a Inglaterra idos de Portugal tenham que cumprir uma quarentena de 14 dias é o tema do comentário desta semana de Atilio Forte.

 

Aqueles que nos acompanham com maior assiduidade sabem que desde o início do denominado “desconfinamento” que aqui vimos alertando para algum “facilitismo” que as autoridades políticas e de saúde pública têm deixado transparecer, ao qual se associou uma maior despreocupação comportamental que a generalidade da população portuguesa assumiu nos cuidados a ter (e manter) com o CoViD-19. Semana após semana, fomos sublinhando que o vírus não se tinha evaporado e que o abrandamento dos cuidados podia pôr em causa quer a saúde individual e colectiva quer, em caso de aumento ou manutenção de um número elevado de novos contágios, agravar a percepção externa do país, fazendo esquecer tudo o que de bom realizámos aquando do confinamento, para além de darmos aos nossos concorrentes argumentos sólidos para denegrirem, em seu favor, a imagem de Portugal e dos portugueses(as), particularmente no tocante à disputa pelos escassos fluxos turísticos internacionais que existirão neste Verão.

Por outro lado, ainda na semana passada (https://www.turisver.com/iturismo-em-tempos-de-guerra/) aqui enfatizávamos a necessidade de uma maior agressividade (no bom sentido do termo) por parte da nossa rede diplomática – embaixadas, consulados e outras representações nacionais no estrangeiro – para desmistificar alguma informação distorcida que estava a ser difundida, em simultâneo, com a atenuação que os efeitos que a persistente onda de novos infectados na Região de Lisboa e Vale do Tejo poderia trazer para o resto do país, sobretudo por termos plena consciência que o Governo do Reino Unido iria, daí a escassos dias, tomar uma decisão sobre os “corredores turísticos”, leia-se destinos seguros, que passaria a aconselhar aos seus cidadãos para gozarem férias, sem que no regresso estes se vissem obrigados a cumprir 14 dias de quarentena.

Ora, como tantas vezes referimos, pior do que ter razão, é tê-la antes do tempo! É que, não obstante todas as evidências, parece que muito poucos tinham dúvidas, ou sequer admitiam a hipótese, de Portugal não vir a figurar nessa “lista boa”, inclusivamente “actores de peso” da comunidade turística… Infelizmente, os nossos piores temores acabaram por confirmar-se e o país ficou rotulado de “não recomendado”, pelo menos até à próxima revisão, prevista para o final deste mês.

 

Muito já foi dito acerca dos fundamentos e da justiça desta decisão, mais concretamente pela falta da dita. Claramente o Algarve e a Madeira – duas das nossas três principais regiões turísticas, onde o mercado inglês pesa, e muito – foram inquestionavelmente prejudicados pelo que tem sucedido na designada “grande Lisboa”. E se no caso do Algarve a continuidade territorial pode ser um argumento (embora forçado) a invocar a Madeira, seja por ser um destino insular, seja pelo reduzido número de infectados que registou (sem qualquer óbito até à data!), é (aparentemente) penalizada apenas porque integra o todo nacional. Acresce a tudo isto um outro aspecto – para muitos de importância crucial – que é o de estarmos perante os “mais velhos” aliados do Mundo (a Aliança Luso-Britânica data de 1373) e, portanto, não ser admissível ou compreensível entre “amigos” de tão longa data uma atitude como esta.

Todos estes factos são verdade. Contudo, nenhum deles contraria o critério definido e posto em prática no passado dia 1 pela União Europeia (UE) para permitir a entrada nas suas fronteiras de quem provenha de países terceiros, o qual estipula que o número de infectados por 100.000 habitantes nos últimos 14 dias no país de origem, seja igual ou inferior à média da UE no mesmo espaço de tempo. Enquanto Estado-Membro, Portugal não só sabia da existência deste parâmetro, facto aliás muito e bem enfatizado pela própria comunicação social nacional, como certamente participou na sua definição, como também sabia que, a esta luz, se não integrasse o espaço comunitário veria vedada a entrada no mesmo a quem de si proviesse. Portanto, não pode agora estranhar-se a atitude da Inglaterra (veremos o que a Escócia, a Irlanda do Norte e o País de Gales farão) que se limitou a adoptar e aplicar uma norma idêntica à definida por quem integra o Espaço Schengen e a UE.

Assim, e por muito que tal nos custe admitir, os primeiros responsáveis pelo sucedido somos nós. Naturalmente, que uns mais do que outros, com o Governo “ à cabeça”, uma vez que, geriu mal a “reabertura” do país, não salvaguardou (ou conseguiu salvaguardar) diplomaticamente os interesses nacionais e só muito tardiamente é que tomou medidas para controlar a situação vivida na Região de Lisboa e Vale do Tejo que, antevia-se, iria causar “estragos” na nossa reputação sanitária internacional. Por isso, e embora noutro patamar, continua a ser tão importante mantermos as regras recomendadas pelas autoridades de saúde pública, como a higiene e a limpeza e o distanciamento social…

Escusado será dizer que, do ponto de vista turístico, a situação é grave – não há como escondê-lo! – e vai trazer complicações adicionais a inúmeras empresas que, em muitos casos, irão mesmo repensar a retoma da actividade que estavam a planear, com todas as repercussões que daí advêm. Esperemos, ainda, que outros Estados ou instituições (como a UEFA) não sigam a opção inglesa ou deixem-se influenciar pelos nossos concorrentes que, sublinhe-se, não descansarão nem deixarão de aproveitar esta oportunidade que, parcialmente, lhes proporcionámos… de bandeja. Igualmente não adiantará de muito, sugerir aos ingleses que queiram vir ao Algarve que o façam via Sevilha (de avião, mais 1 hora de autocarro), utilizando o subterfúgio da livre circulação, até porque os nossos vizinhos espanhóis não “andam a dormir” e são um dos nossos maiores concorrentes, isto para nem sequer referir a incógnita que é a evolução do nível de infectados tanto por cá, como por lá, e de como ela pode vir a influenciar os turistas.

 

Por estas razões, neste momento o mais importante é concentramos, em simultâneo, os nossos esforços em três áreas cruciais: diminuir drasticamente e tão rápido quanto possível o número de novos casos e o aparecimento de surtos, em todo o país; delinearmos uma ofensiva diplomática que reverta a situação, impeça que terceiros a adoptem e contribua para a dinamização de outros mercados, mormente os que a par do inglês integram o “núcleo duro” de proveniência dos turistas que anualmente recebemos, como sejam o alemão, o francês, o espanhol, o dos Países Baixos e o restante britânico; montar uma campanha de informação/promoção onde seja dada voz aos ingleses residentes em Portugal, pois são cerca de 35.000 pessoas que constituem a terceira maior comunidade estrangeira que vive entre nós, para que os que a integram relatem aos seus concidadãos o que verdadeiramente por cá se passa e, desse modo, funcionem como mais um instrumento de “difusão da verdade” e de pressão para o seu Governo reverter a decisão tomada.

Em face do que assistimos em Inglaterra relacionado com a reabertura de bares, restaurantes, cinemas, etc. (desconfinamento), durante o passado fim-de-semana, é nosso entendimento que deve monitorizar-se de muito perto a evolução da situação epidemiológica naquele país pois, não desejando mal a quem quer que seja, os comportamentos de risco adoptados e que foram (bem) visíveis podem sugerir que daqui a duas semanas – tempo de incubação do vírus – possamos ter um grande aumento de infecções e, porventura, a necessidade de sermos nós, para salvaguardarmos quem está no nosso território – porque cá vive ou está de visita em turismo –, a pôr em prática a norma que presentemente tão nefasta se nos afigura.

Em suma, tudo o que atrás se disse é legítimo ou tem lógica e, por conseguinte, defensável. O que não se entende, principalmente entre “velhos amigos” – os mais velhos do Mundo! – é, seguindo exactamente o mesmo critério, sermos preteridos por outros que estão bem pior do que nós (Turquia, Sérvia e Luxemburgo). Por cá a isso chama-se “amigos da onça”, ou seja, aqueles que nos falham num momento muito importante e de enorme necessidade, marcando e estigmatizando indelevelmente uma grande e longínqua amizade. O que neste caso em concreto nos permite dizer, mesmo sem fazer uso da localização geográfica inglesa, que estamos literalmente perante “amigos… da mancha”!

 

Protejam-se a vós, aos vossos e, se possível ou necessário, ajudem o próximo. #vamostodosficarbem!

Nota – Não é demais recordar que o endereço de email iturismo@turisver.pt continua ao dispor das(os) nossas(os) leitoras(es).