iTurismo: 2018 em Retrospectiva, por Atilio Forte

Neste primeiro iTurismo de 2019, Atilio Forte faz uma ampla retrospectiva daquilo que marcou o mundo em 2018, detendo-se na análise da actividade turística em termos internacionais e particularmente em Portugal. Espaço também para o facto que Atilio Forte elege como “O + da Semana”: a assinatura de um memorando de entendimento entre o Estado e a ANA – Aeroportos de Portugal que irá permitir o alargamento da capacidade aeroportuária de Lisboa.

 

Tópicos da Semana:

 

  • Procura por voz ganha adeptos no Reino Unido: Uma recente pesquisa levada a cabo pela Travelport Digital divulgou que mais de um terço dos turistas britânicos usa tecnologia de voz no planeamento das suas viagens. Contudo, a maior curiosidade revelada por este estudo é que mais de dois terços dos respondentes disseram não hesitar em disponibilizar dados pessoais, caso tal acelerasse um controlo de segurança biométrico que possa vir a ser realizado pelos aeroportos.

 

  • Elysium City pode vir a “nascer” aqui mesmo ao lado: Fontes governamentais espanholas revelaram a intenção do Grupo Cora Alpha (com sede na Califórnia – EUA) em investir 13,5 biliões de dólares na província espanhola da Extremadura para construir um mega-resort denominado “Elysium City” – que na prática será uma cidade inteligente feita de raiz –, o qual contemplará numa primeira fase, que se estima estar concluída em 2023: um casino, quatro hotéis, parques temáticos, um campo de golfe, um estádio e uma área residencial.

 

  • Surto de crescimento hoteleiro na Alemanha “dominado” pelas grandes marcas: De acordo com a informação divulgada pela IHA – Hotelverband Deutschland (International German Hotel Association) nos últimos dias do ano, o robusto crescimento que o sector tem vindo a demonstrar está a ser marcado pelo aumento do investimento estrangeiro e pela concentração de marcas colocando, por isso, desafios acrescidos às unidades independentes que operam naquele país. Sublinha ainda aquela estrutura associativa que a soma de novas construções, renovações e expansões ascendeu e/ou atingiu 695 unidades em 2018, número que compara com o de 571 verificado em 2017.

 

 

Comentário

 

Turisver.com – A exemplo do que temos vindo a fazer nos anos anteriores, neste primeiro iTurismo de 2019 vamos fazer uma retrospectiva do ano que findou e começaríamos por abordar alguns aspectos do turismo internacional. Quais são, para si, os destaques de 2018 em termos mundiais, quer pela negativa como pela positiva, tendo em conta que mesmo face a acontecimentos menos bons que afectaram o planeta, o turismo continuou a crescer à escala mundial?

Atilio Forte – Em virtude do iTurismo estar a comemorar o seu 5º aniversário gostaríamos de começar por agradecer a todos(as) os(as) nossos(as) leitores(as) a dedicação com que nos vêm acompanhando ao longo dos anos, que se tem traduzido num contínuo aumento de visualizações e partilha dos comentários que semanalmente aqui fazemos facto que, tendo em conta que estamos perante análises que versam quase exclusivamente sobre a actividade turística, não só é o melhor, maior e mais gratificante incentivo que podemos receber, como ilustra na perfeição o interesse crescente que a sociedade portuguesa vem dedicando ao turismo e que este espaço de opinião é, acima de tudo, pertença de quem o lê. A todas e a todos o nosso sincero e sentido muito obrigado!

Como é do domínio público foram múltiplos os aspectos que durante o ano de 2018 influenciaram positiva e negativamente a actividade turística a nível global, sobretudo se considerarmos que, porventura, estamos perante a mais transversal e pluridisciplinar de todas as áreas da economia. Assim, das questões geopolíticas às ligadas à protecção ambiental e às alterações climáticas, do terrorismo à demografia, da influência da tecnologia no nosso quotidiano aos desafios energéticos, passando pelos comportamentos sociais e pela conflitualidade comercial, para só referirmos alguns exemplos, temos diante de nós um vasto conjunto de factores que tiveram – e têm! – impacto no normal desenvolvimento do turismo.

Por este motivo analisá-los individualmente seria uma tarefa ciclópica, para não dizer impossível. Em função disso, optamos por salientar aqueles que se nos afiguram como mais importantes.

De acordo com essa linha de raciocínio entendemos destacar no plano internacional três “boas notícias” que a actividade turística teve em 2018:

Em primeiro lugar a drástica diminuição do terrorismo, mormente em torno do Mediterrâneo (incluindo a Europa), para a qual muito contribuiu a derrota do autoproclamado estado islâmico e a consequente libertação dos territórios por ele ocupados, o que permitiu estabilizar esta região do Globo e fazer com que a pacificação daí resultante contribuísse para o ressurgir da confiança dos mercados e dos consumidores em vários destinos turísticos. Infelizmente o Mundo não se “viu livre” das pérfidas acções que quase sempre atingem inocentes mas, pelo menos, foi bem-sucedido no desmantelar de uma das estruturas terroristas mais importantes (uma vez que a problemática dos “lobos solitários” continua candente).

Em segundo lugar sublinhamos o número de fusões e aquisições de empresas turísticas registado durante o ano transacto o qual, se considerarmos apenas os últimos cinco anos, atingiu um novo máximo, o que comprova a robustez presente e futura da actividade e a crença dos investidores no seu desenvolvimento e crescimento nas décadas vindouras.

E em terceiro lugar um duplo realce: desde logo para o aumento da economia mundial (estima-se cerca de + 3,7% comparativamente a 2017), apesar das tensões comerciais verificadas ao longo de 2018, principalmente entre os Estados Unidos da América (EUA) e a República Popular da China e entre os EUA e a União Europeia; e, em seguida para o turismo, pois este será mais um ano em que crescerá bem acima da média do Mundo (prevê-se que ronde os + 5% em relação ao ano passado), consolidando a sua posição no “pelotão da frente” das actividades económicas que lideram a criação de riqueza e emprego à escala planetária.

Quanto às notícias “menos boas” que 2018 trouxe ao turismo a nível internacional relevamos:

Os inúmeros ataques informáticos – uns mais públicos do que outros – que atingiram duramente muitas empresas turísticas e que puseram a nu as falhas dos seus sistemas no que respeita à protecção de dados pessoais dos clientes, os quais comprovaram que se a tecnologia é uma poderosa e preciosa ferramenta para a evolução do turismo, esse papel só poderá ser cumprido se houver uma maior prevenção e consciência para a importância da cibersegurança (algo que não respeita apenas à actividade, mas que abrange outras áreas como a economia, a política, a militar, a dos serviços de inteligência, etc.).

O ano que acaba de findar fica também marcado pelo aumento das catástrofes naturais – quase sempre com origem nas alterações climáticas – que aconteceram um pouco por todo o Planeta e muitas vezes “fora de estação”, as quais ceifaram vidas humanas e destruíram bens e, paralelamente, condicionaram o escorreito desenvolvimento turístico das regiões que por elas foram afectadas.

A indefinição em torno do “Brexit” foi outro dos pontos mais marcantes de 2018 pois não só condicionou a quinta maior economia do Mundo (Reino Unido), como um dos principais mercados emissores de fluxos turísticos, situação que criou (e está a criar), pelas incertezas que gerou (e gera), uma enorme instabilidade nos destinos que normalmente os acolhem (entre os quais Portugal se inclui).

E, para não sermos exaustivos, destacamos ainda o pulular de ideologias nacionalistas, populistas e xenófobas que, a prazo, podem vir a constituir-se como um dos maiores entraves (também seria apropriado falar em “muro”) à actividade turística, isto para não referir os perigos que as mesmas podem representar para a própria evolução da Humanidade e da vida em sociedade, pelo menos na forma como hoje a conhecemos e entendemos.

 

Turisver.com – Em Portugal, o ano 2018 foi marcado pela continuação da estabilidade política. Pode dizer-se que esta situação foi a mais positiva do ano para o turismo português? Na sua análise o que correu menos bem no país, com implicações na sociedade e na economia?

Atilio Forte – Será bom recordar que a estabilidade política é sempre o melhor aliado que existe para o desenvolvimento económico. Por essa razão, e apesar de quando aqui perspectivámos o ano de 2018 termos dito que a grande “prova de fogo” por que o actual Governo e a maioria parlamentar que o suporta iriam passar seria a votação do Orçamento de Estado para 2019, o facto é que, com maior ou menor dificuldade, com mais ou menos cedências e concessões, o mesmo foi aprovado e, assim, (praticamente) garantiu-se o completar da Legislatura.

Ora, sendo a actividade turística uma das parcelas mais importantes da nossa economia, podemos afirmar que desse ponto de vista esta estabilidade também concorreu para o seu bom desempenho. Contudo, dizer-se que a mesma foi o que de mais positivo se verificou para o turismo nacional parece-nos francamente exagerado pois, se outras razões não houvessem, basta recordar que estamos a referir-nos a uma área da economia que é eminentemente privada, ou seja, em que são as empresas (leia-se, o sector privado) a sua verdadeira força motriz.

Não obstante, e no que respeita ao prisma económico e social de 2018, a manutenção do crescimento da economia – apesar do seu valor modesto – e as continuadas baixas do défice orçamental e do desemprego são aspectos em que esta solução política (vulgo “geringonça”) merece elogio.

Já quanto ao que correu menos bem no país com implicações na sociedade e na economia, somos de opinião que, entre outros assuntos, vale a pena salientar:

As opções políticas que em larga medida suportaram o bom desempenho das contas públicas, baseadas em cativações excessivas, numa brutal carga fiscal directa e indirecta sobre as pessoas singulares e colectivas e em níveis de investimento público muito aquém do necessário, que colocaram em causa o funcionamento de diversos serviços sociais essenciais, como a saúde, a educação e a segurança de pessoas e bens, foram aspectos que, queira-se ou não, acabaram por inibir um maior desenvolvimento económico e que em nada abonaram – pelo contrário agravaram – a imprescindível recuperação da imagem do Estado, sobretudo após o seu rotundo (e trágico!) falhanço no ano anterior (2017).

Mas o pior é que o mesmo Estado continuou a apresentar falhas em 2018, já que voltámos a ter fogos descontrolados (felizmente sem a perda de vidas humanas) e testemunhámos o colapso de uma estrada (no concelho de Borba) – aqui com mortes a lamentar – que reacendeu memórias e fantasmas do passado em que infra-estruturas básicas cederam por alheamento ou omissão de responsáveis da Administração Central, Regional ou Local ou mesmo por falta de investimento público. E, como se tal não fosse suficiente, ainda assistimos a “guerrinhas” em torno da ANPC – Autoridade Nacional de Protecção Civil que em nada descansaram as populações quanto à actuação do Estado em caso de necessidade.

Paralelamente, observámos um intensificar da contestação social que, para além dos profissionais dos sectores já mencionados, ainda envolveu outros como os da justiça, dos transportes públicos, dos portos, etc., que redundaram quase sempre em greves as quais, não pondo em causa a sua legitimidade reivindicativa e/ou constitucional, prejudicaram o quotidiano dos cidadãos e do país e, em simultâneo, cercearam a generalidade da actividade económica e abalaram a confiança dos investidores, fossem eles nacionais ou estrangeiros.

Escusado será dizer que todos estes aspectos acabam (e acabaram!) por ter repercussão no exterior, o que prejudica a imagem externa do país e, consequentemente, em nada ajudam ao escorreito desenvolvimento da actividade turística, mais a mais, quando respeitam àquele que foi considerado, pelo segundo ano consecutivo, como “Melhor Destino Turístico do Mundo”.

A concluir esta resposta gostaríamos de aproveitar para recordar o nosso último comentário de 2018, onde tivemos oportunidade de destacar os pontos mais positivos e negativos do ano que findou no que respeita ao turismo português e que poderá ser (re)lido em https://www.turisver.com/iturismo-o-brinde-e-a-fava-por-atilio-forte/.

 

Turisver.com – Em 2018, a economia portuguesa ficou mais ou menos dependente do turismo?

Atilio Forte – Estando no início de Janeiro é ainda muito cedo para termos elementos fiáveis que possam de alguma forma, mas sempre com sustentação, permitir-nos dar uma resposta rigorosa a esta pergunta.

Segundo os poucos indicadores que temos disponíveis, nomeadamente os da CST – Conta Satélite do Turismo (produzida pelo INE – Instituto Nacional de Estatística de acordo com os critérios definidos pela UNWTO – Organização Mundial do Turismo), o total das actividades turísticas foi responsável por 13,7% do nosso PIB – Produto Interno Bruto, em 2017.

Ora, como já foi amplamente noticiado, no ano passado (2018) as receitas geradas pelo turismo terão ultrapassado as de 2017 (em Outubro o crescimento homólogo já ascendia a 10,5%), apesar do número de turistas estrangeiros que recebemos ter diminuído ligeiramente. A manter-se essa tendência nos últimos dois meses do ano, isso significa que se a economia nacional cresceu um pouco acima dos 2% em 2018, a actividade turística terá superado largamente esse valor e, naturalmente, visto aumentar o seu contributo para a totalidade da riqueza gerada em Portugal.

Contudo, e como em Setembro passado aqui tivemos oportunidade de analisar, tal não quer dizer que tenhamos um país mais “turismo-dependente”. Muito pelo contrário. Atendendo a que a oferta turística não é passível de deslocalização (ao contrário do que, por exemplo, pode acontecer com uma fábrica), isso significa que os investimentos realizados, os postos de trabalho criados e as receitas geradas também o não são. E isso é bom para a economia nacional.

Ao que devemos acrescer os importantes efeitos multiplicadores que o turismo induz nas demais áreas de actividade económica os quais, por seu turno, também são bons para o país.

Portanto, cremos que pode afirmar-se que o turismo continua a fazer a sua parte no que à nossa economia respeita. E, embora não com tanto sucesso, o mesmo acontece com as demais actividades económicas pois é isso que justifica que em 2018 tenhamos registado o maior crescimento económico deste século, apesar do mesmo ainda se situar num patamar modesto, como atrás dissemos.

 

Turisver.com – Sem entrarmos nas perspectivas futuras, que abordaremos na próxima semana, e ainda sem números finais do ano turístico, já pode dizer-se que, pelo menos, em algumas regiões do país a actividade turística parece ter sido “salva” pelo mercado interno num ano em que Portugal foi reeleito Melhor Destino Turístico da Europa e do Mundo. Isto não parece uma contradição?

Atilio Forte – Sinceramente, não vislumbramos a existência de qualquer contradição, pois uma coisa é o que tem directamente a ver com a nossa diversidade, autenticidade, genuinidade, hospitalidade e qualidade enquanto receptores turísticos – que foi o que esteve na origem da nossa reeleição como “melhores do Mundo” – e outra, bem diferente é, por um lado, as quebras verificadas em alguns mercados externos importantes, como são os casos do britânico e do alemão, quer em razão do “Brexit”, quer pelo “regresso à competição turística”, com uma oferta muito atractiva, de muitos destinos mediterrânicos e, por outro lado, a dinâmica turística manifestada pelos consumidores nacionais dentro de portas.

Para além deste aspecto deve também referir-se que o mercado interno sempre teve um peso significativo no total da actividade turística nacional. E nem precisamos de recuar muito no tempo para validar esta afirmação. Basta recordarmos o quanto ele “ajudou” as empresas turísticas durante o período da “crise e da troika”, ou ter em conta que a progressiva diminuição do nível de desemprego e a recuperação de poder de compra – por parte dos portugueses(as) – registadas nos últimos anos são, por si só, motivos que seguramente contribuíram para que no ano passado houvesse mais pessoas a “irem para fora cá dentro”.

Finalmente, a “onda de solidariedade” gerada em resultado dos trágicos incêndios de 2017 (sobretudo no Centro) e o aparecimento de promoções de última hora na denominada “época alta” (nomeadamente no Algarve), são argumentos adicionais que, em nossa opinião, igualmente concorreram para o bom desempenho do turismo interno. E tudo isto num ano que nem sequer foi dos mais pródigos nas chamadas “pontes”…

 

O + da Semana:

Para todos quantos, como nós, há décadas se batem pela construção de uma nova solução aeroportuária que sirva a região de Lisboa e o país, a passada terça-feira foi um dia (no mínimo) especial e, naturalmente, a merecer que aqui lhe dêmos o devido destaque, pois ficou marcado pela assinatura (finalmente!) entre o Estado português e a ANA – Aeroportos de Portugal do memorando de entendimento que vai permitir a construção de um novo aeroporto complementar no Montijo – onde actualmente está localizada a Base Aérea nº6 –, a realização de obras de melhoria no aeroporto Humberto Delgado, a compra à Força Aérea do aeródromo militar de Figo Maduro e onde se define o respectivo modelo de financiamento que suportará os investimentos a levar a cabo pela empresa concessionária, durante os próximos anos (até 2028). Mesmo tendo plena noção que este acordo mais não é do que um pequeno passo numa longa caminhada e que ainda muito há por clarificar – desde o (célebre) estudo de impacto ambiental, às acessibilidades ao “futuro” aeroporto, passando pela nova estrutura de taxas aeroportuárias a cobrar em ambos os equipamentos, para só darmos três exemplos – e a menos que tudo o que foi assinado não passasse de “uma fachada” para prolongar a vida da actual e única infra-estrutura deste tipo existente na região e empurrar no tempo a opção Montijo (algo que perante o actual cenário não é descabido de fundamento, mas que o país jamais compreenderia), é justo que se reconheça o mérito da iniciativa e, da mesma forma que nunca nos coibimos de criticar a inacção, também é correcto que agora reconheçamos e felicitemos os responsáveis pelo avanço desta solução que, quando em operação (esperemos!), trará enormes benefícios ao turismo e, muito principalmente, a toda a economia nacional.