iTurismo: A Arte de Bem Procrastinar, por Atilio Forte

O estudo de impacto ambiental para o futuro aeroporto do Montijo chumbado pela Comissão de Avaliação, o que vai atrasar ainda mais a construção desta infra-estrutura, e o papel da área da restauração no contexto da actividade económica do turismo, constam dos comentários de Atilio Forte no iTurismo desta semana.

Tópicos da Semana: 

  • Em França o turismo está a recuperar: Na opinião da consultora multinacional KPMG a actividade turística em França encontra-se em plena recuperação, já que se prevê um aumento das receitas entre os 10 e os 20% durante o ano em curso, muito graças ao desempenho de Paris que, assim, mantém um “peso” significativo nos resultados globais do país. Caso tal venha a confirmar-se, 2018 poderá tornar-se num ano (turístico) excepcional!
  • O “novo” luxo é experiencial: De acordo com a maioria dos analistas o segmento de luxo (em franco crescimento) pode aprender muito com as marcas de estilo de vida (“lifestyle”) que paulatinamente vêm entrando no sector hoteleiro, dado que as mesmas oferecem/propõem experiências de altíssima qualidade e, principalmente, únicas, pois focam-se naquilo que é essencial para o hóspede descartando tudo o que este possa considerar supérfluo.
  • Na hotelaria a independência pode trazer benefícios: Não pára de aumentar o número de hoteleiros que optam por “desembandeirar” (leia-se, sair debaixo da protecção das grandes marcas/cadeias) e tornar-se independentes, porque entendem que ao fazê-lo têm possibilidade de serem mais criativos e gerirem as (suas) unidades tanto a seu gosto, como com um menor número de restrições e obrigações.

 

Comentário: 

Turisver – O estudo de impacto ambiental para o futuro aeroporto do Montijo foi chumbado pela Comissão de Avaliação, o que vai atrasar ainda mais a construção desta infra-estrutura complementar ao aeroporto de Lisboa. Na sua opinião, porque se chegou a uma situação destas?

 

Atilio Forte – Antes de mais convirá que comecemos por dizer que estamos perante mais um infeliz capítulo na já longa história da imprescindível e inevitável construção de um novo aeroporto que não só sirva a região de Lisboa, como o país e, consequentemente, a economia nacional, com a actividade turística “à cabeça”.

Daquilo que nos é dado observar a tentação mais óbvia é, no mínimo, admitir que o assunto foi tratado com alguma ligeireza, sobranceria ou com a expectativa que, atenta a urgência e a necessidade de colocar em operação o novo equipamento, os níveis de exigência do estudo de impacto ambiental a efectuar poderiam de algum modo ser atenuados – como se tal fosse possível!? – e, portanto, que bastaria a elaboração de um documento que concluísse pela viabilidade ambiental do projecto para que o mesmo pudesse de imediato avançar.

Contudo, não acompanhamos esta (possível) versão do sucedido, nem cremos que a mesma seja verosímil, pois tal significaria que todas as entidades envolvidas – do Governo, à ANA – Aeroportos de Portugal, passando pela APA – Agência Portuguesa do Ambiente – fariam “tábua rasa” dos vários avisos recebidos por parte da União Europeia, sobre a sensibilidade do local desde que o mesmo ficou definido e, tão ou mais grave, “esquecer-se-iam” das inúmeras “peripécias ambientais” por que passou a construção da Ponte Vasco da Gama que, tal como o futuro aeroporto, foi edificada no estuário do Tejo, zona de grande biodiversidade e, na opinião (comprovada) dos especialistas, a última/primeira e mais importante área de paragem das aves que habitualmente fazem migrações entre a Europa e África (e vice-versa).

Em nossa opinião o que se passou foi a simples procrastinação do assunto. E porquê? Pois bem, por um lado, porque era (é) importante dar a sensação – ao turismo e ao país – que tudo está a andar senão a “pleno gás”, pelo menos a “passo acelerado” e, por outro lado, para “comprar tempo” para fechar todo um conjunto de matérias consideradas fundamentais para a construção de um novo aeroporto civil naquele local, de entre as quais destacam-se o acordo a levar a cabo com a Força Aérea (afinal quem vai ser “despejado”), as negociações com as várias autarquias envolvidas, nomeadamente para estabelecer as comparticipações na realização de infra-estruturas complementares, concretamente acessibilidades e outras que suportem o previsível aumento populacional, sem esquecer os respectivos investimentos públicos da responsabilidade do Estado Central os quais, como aqui vimos na passada semana, (ainda) não aparecem inscritos no Orçamento de Estado para o próximo ano e, acima de tudo, para dar oportunidade à comissão de renegociação (criada em Março passado) do actual contrato de concessão entre o Estado Português e a Vinci Airports (proprietária da ANA – Aeroportos de Portugal) para concluir os seus trabalhos.

Só isto explica e justifica a apresentação de um estudo de impacto ambiental com tantas lacunas, inconsistências e desconformidades, que chegam ao ponto do risível, de que a falta de análise da extensão da pista sobre o rio ou as consequências que a construção e operação de um equipamento com estas características tem na biodiversidade local, nomeadamente nas aves (só foram avaliados os danos que estas poderiam provocar nos aviões???), são exemplos mais paradigmáticos. Como também só isto esclarece a razão pela qual, ainda em Julho, a ANA – Aeroportos de Portugal solicitou à APA – Agência Portuguesa do Ambiente o encerramento do procedimento de avaliação de impacto ambiental que estava em curso, argumentando para o facto com a necessidade de aprofundar o referido estudo, o que, como (agora) se sabe, obrigava ao reinício imediato de todo o processo.

Esperamos, sinceramente, que a demora na decisão, seja por estas razões, seja por quaisquer outras ainda por esclarecer, não venha colocar em causa a construção do novo aeroporto, uma vez que, embora tenuemente, começam a fazer-se ouvir murmúrios quer sobre o “arrefecimento” da actividade turística, quer acerca do aumento de capacidade dos aviões futuros, quer também de eventuais melhorias que podem ser feitas ou introduzidas no Aeroporto Humberto Delgado…

Lamentavelmente de uma coisa temos certeza, tudo isto vai conduzir a um (mais um!) inevitável adiamento do prazo previsto para a entrada em operação da nova infra-estrutura aeroportuária (que, recorde-se, estava programada para os finais de 2021, inícios de 2022), situação que continuará a penalizar sobremaneira a actividade turística e a economia nacional, facto que, aparentemente, parece não perturbar muito os responsáveis por esta “arte de bem procrastinar”.

 

Turisver – Há quem considere que a restauração é um pilar do desenvolvimento do turismo, e quem minimize a sua importância. Como olha para o papel da área da restauração no contexto da actividade económica do turismo?

 

Atilio Forte – É sem qualquer ponta de favor ou excesso de simpatia que nos incluímos entre aqueles que consideram o sector da restauração como um dos mais importantes e vitais para o turismo, principalmente num momento em que a actividade “vive” cada vez mais da diversidade e autenticidade das emoções e experiências que proporciona aos consumidores.

Ora, como se sabe, a gastronomia traduz na perfeição a cultura, a herança histórica, os usos, costumes e tradições de um destino turístico, o que significa que é um “importante actor” na parte sensorial de qualquer viagem, dado que transcende em muito a satisfação de uma necessidade básica do ser humano – a da alimentação –, tornando-a num factor de atractividade e, por isso de motivação adicional, aquando da selecção de um local para viajar.

E, neste particular, os restaurantes funcionam não apenas como “sala de visitas e apresentação” de todo esse património mas, também, como paladinos do receituário da região ou país que assumem na sua ementa, o qual não raras vezes é por eles recuperado, reconstruído, reinventado e, desse modo, preservado. Por isso, quando “desenraizados”, actuam igualmente como importantes veículos promocionais que ajudam a levar um pouco das “suas origens” a pessoas que, embora clientes, ao encontrarem satisfação numa refeição podem acabar por desejar conhecer aquele destino convertendo-se, assim, em turistas.

Mas não são apenas estes aspectos, mais exógenos, que fazem com que a restauração seja importante para a actividade turística. Do ponto de vista endógeno é também a esta área que o turismo fica a dever muita da sua dimensão, sobretudo a que respeita ao número de empresas e de empregos.

Por ser um sector fortemente atomizado, formado na sua esmagadora maioria por micro e pequenas empresas – muitas de cariz familiar –, é composto por um grande número de sociedades que, no seu conjunto, contribuem decisivamente para o global do universo do tecido empresarial que compõe o turismo, dando-lhe assim enorme representatividade.

E, tal como os restantes sectores que integram a constelação turística, também a restauração recorre a mão-de-obra intensiva, o que faz com que o volume de trabalhadores que nele exercem actividade profissional seja bastante elevado, daí possuir e dar à actividade turística um peso social assinalável.

Em suma, sem a presença endógena e exógena da restauração nas suas fileiras seria impossível ao turismo poder afirmar-se como actividade com tão grande expressão empresarial, social e económica e, simultaneamente, como uma das que, do ponto de vista externo, mais representações (“diplomáticas”) ou âncoras promocionais consegue congregar.

 

O + da Semana:

Há cerca de dois anos e meio tivemos oportunidade de aqui comentar as consequências turísticas, particularmente para o Algarve, da prospecção de petróleo ao largo de Aljezur, localidade situada na denominada Costa Vicentina. Volvido todo este tempo, com algumas tensões sociais e jurídicas pelo meio, que culminaram em Agosto último com o deferimento, pelo Tribunal Administrativo e Fiscal de Loulé, de uma providência cautelar interposta pela Plataforma Algarve Livre de Petróleo (PALP), o consórcio formado pelas petrolíferas GALP (portuguesa) e ENI (italiana), que tinha até 15 de Janeiro de 2019 para levar a cabo o respectivo furo prospectivo, anunciou na passada segunda-feira que abandonaria o projecto em virtude das “condições existentes tornarem objectivamente impossível”(sic) prosseguir com o mesmo. Esta decisão, já muito saudada por empresários, autarcas, associações regionais e, de um modo geral, pelos algarvios, vem pôr um ponto final às eventuais repercussões que a exploração de petróleo poderia trazer ao principal destino turístico nacional, no caso de vir a comprovar-se a existência de “ouro negro” em quantidade explorável. Num momento em que as questões ambientais vêm subindo na escala das preocupações dos países e das pessoas – e, naturalmente, dos turistas – e em que o recurso a fontes de energia alternativa e menos poluente se assume cada vez mais como uma obrigação, de modo a melhor preservarmos a “nossa casa comum”, esta é uma boa notícia não apenas para o Algarve, mas para todo o “destino Portugal”.