iTurismo: A Encruzilhada

O deficit de recursos humanos que afecta o turismo e a possível importação de mão-de-obra para o suprir, as verbas destinadas à promoção turística e o debate que continua a existir em torno da localização do novo aeroporto que irá servir Lisboa, são os temas escolhidos  por Atilio Forte para o seu comentário semanal.

 

Pode dizer-se que a semana que findou marcou a entrada em pleno do turismo no “novo ano”, uma vez que trouxe para a luz do dia alguns dos temas que, em nossa opinião e embora não constituindo propriamente uma novidade, mais decisivos se revelarão para o comportamento da actividade neste e nos próximos exercícios mas, também, para se poder avaliar com propriedade até que ponto é que o país quer contar com ela no seu modelo de desenvolvimento económico futuro e qual o grau de compromisso e colaboração que, para o efeito, conseguirá gerar entre os diversos agentes turísticos, mormente entre os do sector público e os do sector privado. Referimo-nos à escassez de mão-de-obra, ao reforço das verbas para a promoção turística e ao novo aeroporto complementar de Lisboa (Montijo). Mas, vamos por partes:

Uma das áreas em que o desenvolvimento turístico do país mais se fez notar nos últimos anos foi a do emprego, pela criação de dezenas de milhares de novos postos de trabalho, ou não estivéssemos perante uma actividade económica de mão-de-obra intensiva. Contudo, se num primeiro momento o país e o turismo beneficiaram desse efeito, rapidamente se percebeu que a manutenção dos níveis de crescimento que se vinham verificando estaria na origem de novos desafios onde pontuavam a formação e a qualificação dos trabalhadores, o pagamento de melhores salários e a necessidade de valorização das carreiras e profissões turísticas que, a não terem imediata resposta, conduziriam a uma quase inevitável crise de recursos humanos, particularmente nos sectores da hotelaria e da restauração, acompanhada de uma diminuição da qualidade do produto e dos serviços prestados e, naturalmente, de uma perda significativa de capacidade de captação das novas gerações para trabalharem na constelação turística.

Ora, aqui chegados, o que constatamos é que apesar de esta ser uma matéria que reúne o consenso praticamente de todos, pouco ou muito pouco se tem avançado, pelo menos com a urgência que a necessidade obriga, seja na implementação de mecanismos efectivos que promovam uma maior capacitação de quem trabalha no turismo, envolvendo as instituições de ensino (básico, secundário, técnico-profissional e superior), as empresas e o Estado, seja na criação de estímulos ao pagamento de melhores salários, mormente por diminuição da carga fiscal e/ou contributiva que está associada aos rendimentos de quem trabalha e de quem emprega medidas que, por si só, acabariam por dar um importante contributo para uma maior atractividade das e às profissões turísticas.

Como forma de ultrapassar esta espécie de “nó górdio” em que o turismo parece ter-se envolvido, actores públicos e privados vêm crescentemente apontando o recurso à imigração como panaceia para este mal facto que, à primeira vista, não parece merecer qualquer reparo. Antes pelo contrário. Seria aparentemente uma medida bem-vinda, dado que, no mínimo, atenuaria a situação no imediato e, a prazo, até ajudaria a aliviar parcialmente o gigantesco problema demográfico com que já nos estamos a confrontar.

No entanto, as grandes questões permaneceriam sem (aparente) solução, uma vez que a importação indiscriminada e não qualificada de mão-de-obra, que aceitasse receber baixos salários, em nada ajudaria a “desatar o nó”. Seria mais do mesmo, com a agravante de, daqui a uns anos, regressarmos à encruzilhada onde presentemente nos encontramos!

 

Um dos assuntos que, desde sempre, maior e mais apaixonadas discussões motiva no seio do turismo é o dos montantes destinados à promoção turística. E, convenhamos, justifica-se que assim seja, pois quem quiser fazer contas facilmente constatará que qualquer Euro investido em acções promocionais tem um elevadíssimo retorno. Não se compreende por isso que o aumento de turistas que o país tem vindo a receber não seja proporcionalmente acompanhado pelo reforço dessas verbas.

Por isso, entendemos e acompanhamos a total legitimidade com que o sector privado está a procurar voltar a pôr este tema “em agenda”, mais a mais quando alguns dos nossos principais mercados estão em queda (alemão, francês e holandês) e o “Brexit” está a “bater à porta”, bem como a chamada de atenção que faz acerca da estagnação a que o Governo tem devotado aqueles valores nos últimos anos o que, se tivermos em conta as taxas de inflação anual registadas traduz-se, em nossa opinião, numa claríssima diminuição efectiva dos mesmos.

Sem prejuízo do que acabámos de afirmar, conviria que os diferentes actores tivessem presente que os dinheiros empregues na promoção turística do país além-fronteiras provêem, quase exclusivamente, das contrapartidas (leia-se impostos) pagas pelo sector do jogo ao Turismo de Portugal, onde (de)têm natural destaque os casinos. Assim, estranha-se que aparentemente ninguém pareça muito preocupado com o facto das receitas por eles geradas em 2019 terem tido uma quebra superior a 1% (1,13%), nem de na última década as ditas, mesmo quando registaram crescimento, terem ficado muitíssimo aquém dos aumentos verificados nos demais sectores do turismo nacional.

A isto acresce que os contratos de concessão das zonas de jogo do Estoril e da Figueira da Foz, que envolvem os casinos Estoril e Lisboa (os dois maiores de Portugal) e o da Figueira, terminam no próximo dia 31 de Dezembro e que, apesar das promessas e anúncios feitos pelo Governo (o último apontava o início de 2020), os respectivos concursos públicos internacionais ainda não foram lançados.

Em suma, qualquer discussão ou reivindicação relacionada com as verbas para a promoção turística, jamais pode ser dissociada desta problemática, sob pena do turismo se colocar numa encruzilhada da qual não conseguirá sair!

 

Finalmente, numa semana em que o Governo voltou a afirmar não existirem alternativas à localização do novo aeroporto complementar de Lisboa (Montijo) e em que os agentes turísticos viram nessas declarações “mais uma luz verde” para o começo das obras – supostamente apenas a aguardarem pelo fecho do “dossier ambiental” –, o país foi surpreendido num debate televisivo (SIC Notícias, programa “Negócios da Semana”) com uma nova “teoria do contra” que defende que a pista prevista para o aeroporto do Montijo é muito curta e, portanto, que compromete a sua operacionalidade futura.

Claro está que se avançava com uma outra alternativa, desta feita em Alverca, apresentada como sendo a melhor, mais viável, mais barata, mais tudo… Curiosamente, não vimos ninguém do turismo presente naquele debate o que, naturalmente, se lamenta (até porque o sector empresarial estava representado pela… indústria).

Como por várias vezes aqui o dissemos, e sinceramente esperamos estar errados, esta é uma história que ainda está longe de um fim. Todavia, o turismo não pode deixar de marcar presença efectiva sempre e quando o assunto for debatido. Sob pena de ficar hesitante em plena encruzilhada e acabar por ser ultrapassado. Não por quem sabe para onde ir, mas por quem simplesmente decide (e quer) atrapalhar.

 

Nota – Não é demais recordar que o endereço de email iturismo@turisver.pt continua ao dispor das(os) nossas(os) leitoras(es).