iTurismo: A “Escapadinha” da União Europeia, por Atilio Forte

Esta semana, Atilio Forte comenta o facto de o Parlamento Europeu ter decidido manter uma Comissão de Transportes e Turismo, perdendo-se assim a oportunidade de dar maior relevo à actividade económica do Turismo, invertendo a denominação desta Comissão para “Turismo e Transportes”. Também no iTurismo de hoje está em foco o reconhecimento do valor do património cultural português pela UNESCO e o impacto que tem na notoriedade do destino.

 

Tópicos da Semana:

 

  • Um exemplo de gestão de recursos humanos sobre o qual vale a pena reflectir: Há 32 anos (desde 1987) que Tan Kim Heng é governanta no hotel Royal Plaza on Scotts de Singapura e não pensa deixar de lá trabalhar, graças à direcção daquela unidade hoteleira ter acedido ao pedido de redução do horário de trabalho – para 22 horas por semana –, com turno fixo da parte da tarde, que efectuou há 3 anos, de modo a permitir-lhe levar os netos à escola todos os dias. Apesar deste tipo de flexibilidade não ser propriamente comum nas empresas turísticas, este hotel asiático tem 17 colaboradores nessas circunstâncias – 15 dos quais com idade acima dos 50 anos –, pois entende que empregados mais experientes e maduros são activos de grande valor para a empresa que, entre outras vantagens, asseguram a transmissão dos seus conhecimentos e experiência aos mais jovens, com todos os benefícios que daí decorrem.

 

  • Turistas mal-educados podem ser banidos do centro de Roma por 48 horas: Em meados de Junho, a Presidente da Câmara Municipal da capital italiana (Virginia Raggi), suportada no voto unânime da Vereação, decidiu declarar “tolerância zero” para com todos os turistas que degradem ou estraguem o Centro Histórico da cidade, nomeadamente nos casos em que decidam trepar aos monumentos ou usá-los como local de refeição, tomar banho nas fontes ou passearem-se seminus pelas ruas. Se tal acontecer podem ser banidos por 48 horas da parte histórica de Roma, que está classificada pela UNESCO como Património Mundial. Esta medida vem na sequência das adoptadas noutras cidades italianas como, por exemplo, Florença, que aprovou aplicar uma multa no valor de cerca de 500 Euros a quem for encontrado a comer sentado nas bordas dos passeios ou nas soleiras das portas nas imediações das Galleria degli Uffizi.

 

  • Primeira mulher de raça negra a visitar todos os países do Mundo pode ser uma agente de viagens: Nascida em Detroit (Estados Unidos da América), Jessica Nabongo é proprietária de uma agência de viagens “boutique” – Jet Black – que actua no segmento de luxo, concebendo viagens exclusivas para clientes individuais e grupos. Contudo, o mais interessante é que após alguns anos em que dedicou todo seu o tempo livre a viajar, apercebeu-se que já tinha visitado 175 dos 193 países existentes no Mundo (de acordo com a Organização das Nações Unidas) e, dado ainda ser jovem (35 anos), tinha possibilidade de conquistar a “imortalidade” tornando-se na primeira mulher de raça negra a literalmente conhecer o “Mundo inteiro”, algo que se encontra (apenas) a 22 viagens de alcançar e que está empenhada em conseguir muito em breve.

 

Comentário

 

Turisver.com – O Parlamento Europeu entrou numa nova legislatura política e já são conhecidas as Comissões por áreas e actividades. Os Transportes e o Turismo são duas áreas que vão constituir uma dessas Comissões. Na sua opinião, o Turismo pela importância que tem para a economia europeia deveria ter outra representatividade?

Atilio Forte – A título prévio não podemos deixar de destacar a actualidade da questão que nos é colocada pois, como é do conhecimento público, no último mês e meio – desde as Eleições Europeias realizadas no final de Maio – têm sido múltiplos os contactos ao mais alto nível entre todos os Estados-Membro tendo em vista a distribuição de lugares e a composição dos diferentes Órgãos da União Europeia (UE), particularmente no que respeita à escolha dos próximos Presidentes da Comissão Europeia, do Conselho Europeu e do Banco Central Europeu processo que, como se sabe, ficou “provisoriamente” encerrado na passada semana, já que ainda carece de aprovação por parte do Parlamento Europeu (PE).

No que mais directamente tem a ver com a actividade económica do turismo, o PE decidiu manter uma Comissão de Transportes e Turismo, a qual está a realizar a sua primeira reunião em simultâneo com o momento em que fazemos este comentário (10 de Julho, pelas 15h15m, hora de Bruxelas), na qual vai eleger o seu Presidente e Vice-Presidentes para um mandato de dois anos e meio, razão por que não poderemos adiantar muito mais sobre as escolhas que vierem a ser efectuadas.

Contudo, sempre podemos dizer que, do nosso ponto de vista, lamentamos ter-se deixado mais uma vez passar a oportunidade para alterar o nome desta Comissão (invertendo a posição das duas áreas que a integram), passando a denominá-la por Comissão de Turismo e Transportes já que, mais do que uma mera mudança semântica, tal daria um sinal político inequívoco tanto do reconhecimento, como da importância, que uma das principais instituições da UE (o PE) atribui à actividade e indicaria que a mesma tomava em séria consideração quer o peso que a mesma detém na formação do Produto Interno Bruto da União (acima dos 10%), quer o número de empregos que assegura no espaço comunitário (quase 12% dos postos de trabalho totais) quer, ainda, valorizaria o facto do Continente Europeu continuar a manter-se como principal região receptora de fluxos turísticos a nível mundial.

Para além destes aspectos, a que ainda poderíamos acrescer os cerca de 2,5 milhões de empresas que integram os diversos sectores que dão corpo à constelação turística no seio da UE, e no que respeita à futura constituição da Comissão Europeia, também não se perspectiva que estes argumentos possam ser considerados para que seja criado o cargo de Comissário Europeu do Turismo, situação que sublinha, por um lado, a pouca força política dos “países do Sul” (maioritariamente receptores de turistas) face aos do “Centro e Norte” (principalmente emissores de turistas) e, por outro lado, enfatiza a falta de capacidade, de influência e de organização do tecido empresarial turístico, sobretudo dos movimentos associativos (nacionais e europeus), em colocar o turismo na “agenda” das instâncias comunitárias.

Assim sendo, o “Governo da UE” continuará a ser um espelho do que se passa nos “Executivos” dos diversos países que a integram, completamente “cego, surdo e mudo” às transformações económicas que estão em curso num Mundo em que a actividade turística cada vez mais se assume como grande motor da economia, fonte de criação de riqueza, emprego, coesão territorial e social, factor de paz, de compreensão e de entendimento entre os povos, promotora da protecção do património cultural e ambiental e da tolerância religiosa, à escala global.

E ao assumir esta postura anquilosada e ultrapassada, que para uns mais não representa do que querer manter-se fiel aos seus princípios, enquanto para outros – nos quais nos incluímos – significa a reiterada persistência em não querer abandonar a sua “zona de conforto”, fazendo “tábua rasa” do lema “Unidos na Diversidade” que sempre a guiou, a UE está a expor-se totalmente ao recrudescer dos nacionalismos e populismos que, paulatinamente, têm vindo a conquistar espaço nos seus próprios Órgãos e a utilizar a representatividade democrática, legitimamente conquistada pelos votos, para minar qualquer evolução e semear a discórdia.

Ora, num Mundo que económica e comercialmente está crescentemente a polarizar-se entre aquilo a que poderíamos chamar por eixo americano, liderado pelos Estados Unidos da América, e eixo sino-russo, liderado pela China e pela Rússia, uma Europa (ou União Europeia) enfraquecida e desagregada é algo que, a prazo, pode vir a representar um elevadíssimo “preço a pagar” pelo “Velho Continente”, não apenas económico, mas igualmente político, social, demográfico, ambiental e cultural que, caso se materialize, gerará ondas de impacto inimagináveis de onde resultará uma única certeza: o definhamento do papel da UE no panorama geopolítico e geoeconómico mundial.

Caso o Brexit se venha a verificar, poderemos já a curto prazo, embora numa dimensão menor, ter uma noção mais próxima que ilustre o que acabámos de afirmar, dado que tal infligirá um duríssimo golpe na identidade atlântica da Europa que terá por consequência, uma maior deriva continental que, quase de certeza, recentrará a própria UE.

É claro que muito, ou quase tudo, do que dissemos, não se compagina com a velocidade a que vivemos, nem com o dito tempo mediático que concebemos e muito menos com a vertigem de protagonismo social que construímos, onde o “eu” erradicou o “nós” e a aspiração individual se sobrepõe à colectiva. É mais importante ser o primeiro a publicar uma novidade ou comentar qualquer trivialidade numa rede social, do que saber História, conhecer Geografia ou, até, conversar, dialogar, discutir se necessário, “olhos nos olhos”… Quanto mais discorrer sobre as “virtudes” do turismo e de como ele nos pode ajudar a reconquistar valores que vamos deixando e/ou dando como perdidos com o passar dos anos.

No entanto, acontece que o turismo pelas suas características endógenas, a que atrás aludimos, poderia funcionar como uma espécie de catalisador, daí que uma maior representatividade nas instituições comunitárias fosse recomendável – e desejável! –, em razão de ser uma actividade cujo foco se situa “nas pessoas” e no seu bem-estar, na preservação das diferenças, no acentuar da autenticidade e da genuinidade, no fundo, em cada um ter o seu espaço e liberdade, permitindo desta forma restaurar a maior parte dos princípios que presidiram à fundação da antiga CEE – Comunidade Económica Europeia, agora UE.

Por isso, e em jeito de conclusão, terminamos com um trocadilho irónico que, simultaneamente, é também uma provocação: afinal o turismo poderia tornar-se na “escapadinha” da UE!

 

Turisver.com – O Património português é cada vez mais considerado a nível mundial, sendo já 17 os bens patrimoniais do nosso país a integrar o Património Mundial que figura na lista da UNESCO. Há poucos dias esta distinção foi atribuída também ao  Real Edifício de Mafra e ao Santuário do Bom Jesus, em Braga,  além de o Museu Nacional Machado de Castro ter sido integrado na área classificada da Universidade de Coimbra, Alta e Sofia. Na sua perspectiva esta valorização vai contribuir para a elevação do turismo cultural em Portugal?

Atilio Forte – Portugal tem no seu património cultural (monumental e natural) um dos factores de maior diferenciação turística e, consequentemente, de maior atractividade, que ilustra a sua longa e rica História e diversidade enquanto Nação, apesar de ser um país com um território de reduzidas dimensões.

Isso mesmo tem vindo a ser (re)confirmado ao longo das últimas décadas pela UNESCO – United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization, através da sucessiva classificação como Património Mundial: do Centro Histórico de Angra do Heroísmo, nos Açores, do Convento de Cristo, em Tomar, do Mosteiro de Santa Maria da Vitória, na Batalha e do conjunto formado pelo Mosteiro dos Jerónimos e pela Torre de Belém, em Lisboa, em 1983; do Centro Histórico de Évora, em 1986; do Mosteiro de Alcobaça, em 1989; da Paisagem Cultural de Sintra, em 1995; do Centro Histórico do Porto, em 1996; do Sítio Pré-histórico de Arte Rupestre do Vale do Côa, em Vila Nova de Foz Côa, em 1998; da Floresta da Laurissilva, na Madeira, em 1999; do Centro Histórico de Guimarães e do Alto Douro Vinhateiro, em 2001; da Paisagem da Cultura da Vinha da Ilha do Pico, nos Açores, em 2004; da maior Fortificação Abaluartada do Mundo, em Elvas, em 2012; da Universidade de Coimbra, em 2013 (a que se juntou agora o Museu Nacional Machado de Castro que, devido a obras de restauro, não foi na altura incluído); e, desde a semana passada, o Santuário do Bom Jesus, em Braga, e o conjunto composto pelo Palácio, Basílica, Convento, Jardim do Cerco e Tapada, em Mafra.

Deve também referir-se que o nosso país possui ainda várias artes classificadas como Património Cultural Imaterial da Humanidade, a saber: o Fado (2011); a Dieta Mediterrânica (2013); o Cante Alentejano (2014); a Manufactura de Chocalhos (2015); o Processo de Manufactura da Olaria Preta de Bisalhães, de Vila Real, e a Falcoaria Portuguesa (2016); e, a Produção de Figurado em Barro de Estremoz (2017).

Portanto, e como se demonstrou, Portugal (continental e insular) tem uma vastíssima oferta (24 casos) de património dotado de valor excepcional universal, conforme definido pela Convenção adoptada em 1972 pela UNESCO, que o nosso país ratificou em 1980.

Ora, em nossa opinião, tal significa que já estamos muito para além do âmbito ou, se se quiser, da mera esfera de influência do turismo cultural, tendo entrado num plano mais vasto, isto é, no domínio da valorização da Nação como um todo, o que se traduz na perspectiva turística, por um lado, num acréscimo de notoriedade global do destino e, por outro lado, na disponibilização de um produto autêntico e genuíno, confirmado pelos “selos de garantia” que ano após ano fomos conquistando os quais, naturalmente, “estimulam o apetite” de quem viaja para que mais facilmente nos eleja como local a visitar.

Atenta a sua importância, mormente enquanto ferramenta de promoção turística, não podemos deixar de aqui reconhecer o esforço de todos(as) quantos(as) têm afincadamente trabalhado na elaboração das diferentes candidaturas entregues à UNESCO, cujo resultado está bem à vista e que tanto valor tem acrescentado ao turismo e ao país.

 

O + da Semana:

 

Por diversas vezes temos aqui vindo a destacar a constante inovação e evolução a que os diferentes produtos turísticos estão sujeitos para que consigam manter-se no topo das preferências e tendências dos turistas actuais, situação que só é possível alcançar com espírito crítico, capacidade criativa, total abertura à reinvenção de procedimentos e/ou estereótipos, mesmo que se saiba estar a pôr em causa dogmas ou pormenores que, no final, revelam-se “pormaiores”. Vem isto a propósito de há alguns anos termos afirmado nesta rubrica que, mais cedo do que tarde, iríamos assistir à desmaterialização das recepções dos hotéis, pelo menos da forma “tradicional” como as conhecíamos, em resultado de uma maior necessidade de optimização do serviço e de uma melhor prestação no que respeita ao acolhimento personalizado do cliente, factores que em muito seriam impulsionados pelo progresso das ferramentas tecnológicas que estariam à disposição de quem as pretendesse utilizar. A verdade é que, um pouco por todo o Mundo, tem-se verificado uma autêntica revolução nesta importante área de qualquer hotel, tornando “obsoletas” algumas rotinas como, por exemplo, o “check-in”, que cada vez mais é feito pelo próprio turista a partir de meios digitais, o que permite libertar os recursos humanos que habitualmente lhe estavam afectos para se focarem nas boas-vindas ao cliente e, pessoalmente, apresentarem-lhe o que a “sua unidade” tem para oferecer. Por tudo isto, não espanta que o hotel Mercure Porto Centro, do Grupo Accor, se tenha tornado na primeira unidade hoteleira do nosso país a prescindir do “velhinho” balcão de recepção. Outros, certamente e em breve, seguir-lhe-ão o passo.