iTurismo: A Meio de 2019, a Pensar em 2020, por Atilio Forte

No iTurismo desta semana, Atilio Forte comenta os resultados da actividade turística em Portugal analisados à luz das perspectivas apontadas nesta rubrica no passado mês de Janeiro. Outro tema a merecer análise é o interesse do grupo chinês Fosun no operador turístico Thomas Cook.

 

Tópicos da Semana:

 

  • Reformulação da oferta de Comidas e Bebidas (vulgo, “F&B”) pode aumentar as receitas da hotelaria: Pelo menos é esta a opinião da esmagadora maioria dos especialistas, que afirmam que as opções mais convencionais de “comidas e bebidas” têm os “dias contados”, uma vez que estão a ser substituídas por conceitos mais avançados e personalizados, totalmente orientados para o cliente. Assim, a divulgação da cozinha local, o proporcionar de experiências mais autênticas e a concepção de propostas mais diferenciadoras para os hóspedes (coquetéis ou vinho a copo servidos nos quartos, a título de exemplo) são algumas das formas de modernizar o que os hotéis têm para oferecer neste domínio.

 

  • Aeroportos afirmam-se como mercado fundamental para a venda de produtos de luxo: As empresas que comercializam produtos de luxo, tais como, malas, bebidas espirituosas e artigos de cosmética, estão a ter um assinalável sucesso de vendas na maior parte dos aeroportos, devido ao crescente volume de compras realizado pelos passageiros enquanto aguardam a partida dos seus voos. De acordo com o último relatório da empresa de estudos de mercado The Data Circle, as vendas globais de produtos “duty free” somadas às feitas em outras lojas destinadas a quem viaja alcançaram um recorde de 76 mil milhões de Dólares em 2018, o que representou um aumento de 9,8% se comparado com os pouco mais de 69 mil milhões registados em 2017.

 

  • Bruges procura diminuir fluxo de turistas: A cidade de Bruges (noroeste da Bélgica) para além das suas belezas arquitectónicas e lindíssimos canais tem no seu Centro Histórico um dos motivos de maior atracção de turistas, dado o mesmo estar classificado pela UNESCO como Património Mundial o que, nas palavras do seu Presidente da Câmara Dirk De fauw, faz com que algumas das suas zonas pareçam “uma autêntica Disneylândia”. Por este motivo a autarquia prepara-se para adoptar um conjunto de medidas visando a diminuição dos fluxos turísticos, de entre as quais se destacam: a restrição às empresas que fazem passeios de barco pelos canais, que passarão apenas a poderem operar nos dias úteis, cumulativamente com a redução diária do número embarcações – de 5 para 2 – que podem transportar turistas; e, a suspensão das acções de promoção turística com o objectivo de atrair excursionistas (ida e volta no mesmo dia), sobretudo as efectuadas em Bruxelas e Paris, e o reforço das que contemplem pernoitas nos hotéis da cidade.

 

 

Comentário

 

Turisver.com – Em Janeiro o iTurismo publicou o balanço de 2018 e as perspectivas para este ano. Passados seis meses podemos dizer que os resultados do turismo estão dentro do que era expectável nessa altura?

Atilio Forte – Antes de entrarmos na resposta propriamente dita à questão que nos é colocada convirá referir que ainda não é possível fazer um balanço fidedigno do primeiro semestre de 2019, em virtude dos últimos dados publicados pelo INE – Instituto Nacional de Estatística respeitarem a Maio do corrente ano, embora se possa admitir que o derradeiro mês do segundo trimestre não motivará que os mesmos sofram grandes oscilações, no que respeita aos mercados externos. Ao invés, o número de feriados (e a possibilidade de “pontes”) verificado em Junho poderá ter influenciado positivamente o comportamento do mercado nacional o que, a verificar-se, apenas melhorará os valores que este já apresenta.

Dada esta nota prévia, vale a pena dizer, em termos gerais, que os resultados obtidos pelo turismo português estão em linha com o que em Janeiro passado aqui previmos para este ano, isto é, por um lado, a manutenção ou ligeira baixa quer do número de turistas não residentes, quer da receita por eles gerada e, por outro lado, um maior dinamismo do mercado interno motivado, sobretudo, pela continuação da recuperação do poder de compra dos(as) portugueses(as).

Assim, e de acordo com os indicadores disponíveis no que se refere aos estabelecimentos de alojamento turístico, a variação homóloga de Janeiro a Maio de 2019 se comparada com a do ano transacto, traduz um crescimento de +6,6% no total de hóspedes e de +4,1% nas dormidas totais, bem como um aumento dos proveitos globais em +6,7%.

Não obstante, uma leitura “mais fina” destes elementos demonstra que o número de dormidas dos residentes em Portugal cresceu 7,1%, enquanto as relativas aos residentes no estrangeiro se situou nos +3,0%.

Quanto aos fluxos turísticos vindos do exterior, salientam-se pela positiva os aumentos registados neste período (Janeiro a Maio 2018 versus 2019) dos mercados britânico (+2,5%), espanhol (+9,4%), brasileiro (+9,0%), americano (+20,8%), chinês (+17,1%) e canadiano (+16,8%) e, pela negativa, os decréscimos verificados nos mercados alemão (-7,3%), holandês (-6,8%) e francês (-2,4%).

Desde o início do ano, a estada média apresenta uma evolução homóloga global negativa (-2,3%), fruto da diminuição de 3,2% registada neste indicador por parte dos turistas estrangeiros, apesar do aumento (+0,4%) verificado ao nível dos residentes.

No que respeita ao acumulado de dormidas nas diferentes regiões, todas têm vindo a mostrar aumentos, excepção feita à Madeira que, apesar do crescimento do mercado nacional (+3,0%), apresenta uma diminuição homóloga de 3%, motivada pela redução em 3,6% deste parâmetro no que se refere às pernoitas dos não residentes.

Não é demais sublinhar que estamos apenas a analisar os resultados dos cinco primeiros meses do ano, portanto, excluindo a denominada “época alta” que, atento o seu grande “peso”, naturalmente influenciará decisivamente os números finais de 2019 os quais, estamos em crer, acentuarão a importância do mercado nacional, mormente no Algarve – mais a mais se tivermos em consideração as promoções em curso –, e tenderão a atenuar o ligeiro crescimento que o mercado britânico actualmente apresenta, sendo mesmo verosímil que o mesmo feche em terreno negativo, atenta a diminuição do volume de contratação externa efectuada a que aqui aludimos em anteriores comentários.

Caso tal se venha a materializar – o que de todo não desejamos, mas que é (quase) incontornável – poderemos chegar ao final do ano com quebras nalguns dos nossos principais mercados externos e de que historicamente mais dependemos, nomeadamente o alemão, o francês, o britânico e o holandês que, tomando em consideração a dimensão dos seus fluxos, dificilmente serão compensadas pelo crescimento de outros mais longínquos como o norte-americano (Estados Unidos da América e Canadá), o brasileiro e o chinês.

Já quanto à emissão de fluxos turísticos nacionais para o estrangeiro, que beneficiaram de uma boa oferta e de preços bastante atractivos, bem traduzidos no assinalável número de pré-reservas realizado, perspectiva-se um bom Verão para os operadores turísticos e agências de viagens portugueses, tanto nas deslocações de curto e médio curso – principalmente mediterrânicas –, como nas de maior distância, apesar da infestação de algas que afectou destinos muito populares como a República Dominicana e o México.

Aliás, esta reacção do mercado nacional está em linha com a verificada noutros países e é consequência directa da competitividade com que algumas regiões ressurgiram no mercado, em consequência da diminuição do terrorismo e da aposta que tanto os seus Governos, como os seus empresários, estão a fazer na retoma turística, de que a Tunísia, o Egipto e a Turquia são, porventura, os exemplos mais paradigmáticos.

Para além destes aspectos deve ainda ter-se em consideração que, ao contrário do que se previa no início do ano, não se antevê que as taxas de juro na “Zona Euro” venham a subir neste segundo semestre o que, a concretizar-se, é uma excelente notícia para o turismo, já que significa que o consumo não será penalizado (nem as prestações do crédito à habitação agravadas), motivando que a predisposição dos(as) portugueses(as) para viajar se mantenha, seja dentro, seja fora de portas, fruto de uma maior disponibilidade financeira.

Pelo exposto e em jeito de balanço, do ponto de vista turístico podemos dizer que em tudo o que está relacionado com os mercados externos, a segunda metade do ano levanta-nos várias interrogações e incertezas (e preocupações!), que claramente apontam para um arrefecimento da actividade, às quais será preciso dar atenção e acompanhar em permanência. Ao invés, tudo indica que o mercado nacional terá um comportamento distinto, mais dinâmico e, consequentemente, propenso a um continuado aumento do consumo de produtos e serviços relacionados com o turismo.

São, pois, estes os dados de reflexão que os diversos agentes turísticos têm ao dispor para planearem o próximo ano e com que, após o Verão, iniciarão a contratação para 2020.

 

Turisver.com – O operador britânico Thomas Cook  tem vindo, já desde há algum tempo, a apresentar grandes debilidades económicas. Agora o grupo chinês Fosun prepara-se para injectar na empresa mais de oitocentos milhões de Euros. Na sua opinião que ilações se podem tirar desta situação?

Atilio Forte – Em primeiro lugar deve ter-se presente que, embora em fase adiantada, o negócio ainda não está totalmente “fechado”, situação que (ao que tudo indica) só ficará concluída por volta do fim de Setembro, a que se seguirá a submissão do processo às autoridades reguladoras, atirando a decisão para perto do final do ano.

Dito isto, há que contextualizar as razões do interesse de um dos maiores conglomerados chineses – a par do HNA, do Dalian Wanda e do Anbang – num dos principais operadores turísticos do Mundo.

Assim, e de acordo com o afirmado pelos seus responsáveis, a Fosun tem procurado dividir as suas aquisições em três grandes áreas: a saúde, particularmente no sector farmacêutico; a financeira, mormente na gestão patrimonial; e, a felicidade/bem-estar, nomeadamente nas viagens e na moda.

Depois, considerar que não estamos perante uma tentativa de entrada na actividade turística, uma vez que aquela empresa asiática já possui vários “resorts” tanto na China, como no Dubai e, em 2015, adquiriu o Club Med.

Finalmente, é importante referir que ambas as empresas (Fosun e Thomas Cook) iniciaram em 2016 uma “joint venture” com o objectivo de ganharem quota no mercado chinês de viagens, tirando partido quer do seu crescimento (quase) exponencial, quer da experiência e do conhecimento da Thomas Cook em criar “pacotes turísticos” tanto na Europa, como em todo o Sudeste asiático (destinos preferenciais dos chineses).

Contudo, os resultados desta “parceria” ficaram longe do perspectivado, por variadíssimas razões, de entre as quais se destacam: a fraca notoriedade daquele operador turístico na China; a inadaptação continuada do mesmo à “era digital”; e, também, porque nesse momento o mercado chinês já reconhecia a preponderância de duas grandes agências de viagens online – a Ctrip e a Meituan –, com acordos estabelecidos com congéneres estrangeiras que lhes permitiam ter uma oferta à escala mundial.

Para que se possa ter uma ordem de grandeza do que se tem passado no mercado turístico chinês de viagens convirá recordar alguns números que, mais do que impressivos, ilustram a situação na perfeição: no ano passado a “aliança” entre a Fosun e a Thomas Cook teve a adesão de cerca de 160.000 consumidores, ficando distante do objectivo a que se tinha proposto (200.000), enquanto a Ctrip contou com 200.000 clientes mensais e a Meituan anunciou que 2.000 quartos de hotel foram reservados diariamente através da sua plataforma. A estes aspectos acresce um importante dado que é o de, em finais de Maio de 2019, o operador europeu ter anunciado um prejuízo antes de impostos de 1,5 mil milhões de Libras, referente ao último exercício (no Reino Unido o ano fiscal vai de 6 de Abril a 5 de Abril).

Em conclusão, e caso o negócio se venha a concretizar, o mesmo não poderá ser classificado como “dinheiro em caixa” para os asiáticos uma vez que, como vimos, o risco que lhe está associado é extremamente elevado. E é sempre bom lembrar que os grandes conglomerados chineses continuam debaixo de especial atenção por parte das autoridades do seu país, sobretudo no tocante aos investimentos que fazem no estrangeiro, que já conduziram à intervenção pública no HNA e à nacionalização do Anbang e prisão do seu fundador…

 

O + da Semana:

 

Como vem sendo habitual nesta altura do ano o Observador Cetelem divulgou no passado dia 11 os resultados do inquérito sobre as férias dos(as) portugueses(as) para o período da época Alta (Julho a Setembro), conduzido pela empresa de estudos de mercado Nielsen. De entre os dados e conclusões divulgadas merecem destaque as seguintes: em média cada português(a) gastará 1.350 Euros, sendo que os com idade compreendida entre os 35 e os 44 anos serão quem mais despenderá, 1.615 Euros; entre os que decidem fazer férias na sua residência, os que ficarão em Portugal e os que sairão para o estrangeiro também há diferenças quanto às intenções de despesa média, que se situará, respectivamente, em 538€, 1.142€ e 1.903€; já quanto à preferência das opções do regime de estadas, apenas 5% escolherão a meia-pensão ou pensão completa, para o que em média reservarão 929€, 23% preferirão só alojamento ou alojamento e pequeno-almoço, para o que contarão com um valor de 588€ e, finalmente, a maioria optará pelo regime de “tudo incluído” (35%), contando desembolsar em média 2.000€; 47% dos inquiridos que afirma ir gozar férias nesta altura prevê gastar 291€ em despesas de deslocação, 24% estima despender 189€ em actividades de lazer e 22% calcula um custo de cerca de 166€ para compras e lembranças. A título de curiosidade e do ponto de vista regional merecem um sublinhado especial os consumidores do Centro, pois serão eles os mais “gastadores” no regime de “tudo incluído” (2.483€); e os do Sul, porque serão quem mais abrirá “os cordões à bolsa” no que respeita a actividades de lazer (179€).