iTurismo: A Morte do Artista

O papel do movimento associativo do turismo num momento tão difícil como aquele que esta actividade atravessa, com incomensuráveis prejuízos para as suas empresas, é um dos temas em análise nesta edição do iTurismo. Atilio Forte tece também comentários sobre o pedido de ajuda financeira que o Grupo SATA dirigiu ao Estado.

 

Embora não sendo propriamente uma novidade, o tema que hoje aqui trazemos tem vindo paulatinamente a ganhar uma “força” aparentemente proporcional àquela com que a pandemia vem afectando o Turismo. Falamos do dedo acusatório que, por um cada vez maior número de empresas e empresários, vem sendo apontado ao que qualificam como inacção do movimento associativo perante o cenário dantesco que se vem instalando, fruto da diminuição súbita e persistente do consumo de produtos e serviços turísticos. A consequência natural deste “mal-estar” é um crescendo de conversas nos “bastidores” da actividade acerca da criação de novas associações, que melhor e mais objectivamente possam fazer a representação dos diversos sectores que integram a constelação turística junto dos diferentes interlocutores nacionais e internacionais, mormente dos decisores políticos.

Para quem, como nós, não só acompanha em permanência tudo o que acontece em torno do Turismo, como teve o privilégio de participar na fundação de algumas estruturas associativas e, ainda, integrar equipas dirigentes de outras, este é, compreensivelmente, um assunto que não “nos passa ao lado”. E também não deveria “passar ao lado” de ninguém ligado à actividade, sobretudo num momento tão difícil como o presente. Se enfrentar a pior crise de sempre já não se afigura tarefa fácil, fazê-lo sem unidade – algo bem diferente de unicidade – pode vir a revelar-se uma mistura explosiva, causadora de danos directos e colaterais incalculáveis.

Para que melhor se possa entender a génese do actual estado de coisas, há que recuar alguns anos/meses, até aos tempos pré-pandemia, nos quais a actividade prosperava e as empresas criavam riqueza e emprego. Nessa altura, como sempre que se atravessam períodos de bonança, o movimento associativo é, de um modo geral, secundarizado e, mesmo, desvalorizado, em razão das atenções empresariais se concentrarem quase exclusivamente nos ganhos que se vão fazendo situação que, por um lado, muitas vezes “ajuda a esquecer” ou não dar tanta atenção à resolução de problemas concretos que a todos dizem respeito e que se podem avolumar num futuro mais adverso, justamente pela demissão de participação e, por outro lado, deixa os dirigentes associativos “mais à vontade” para decidirem pelo colectivo, tanto no que se refere aos aspectos a resolver com entidades terceiras como, nalguns casos, a formas de se perpetuarem no poder.

Para que se não vejam críticas onde elas não existem, convirá referir que, entre muitos outros factores, entendemos o dirigismo associativo como uma das mais nobres funções que se podem desempenhar, que a qualquer um permite trabalhar em prol do “bem comum” (mais ou menos alargado), que a existência de uma “Sociedade Civil” forte demonstra a pujança de um país, das suas instituições e da sua democracia. Mas, para além do erro fazer parte da condição humana, ser dirigente associativo é também estar exposto à crítica e à discordância, pois nem sempre os consensos são possíveis de gerar, particularmente quando as coisas não correm tão bem quanto se espera e facilmente se cai na tentação de arranjar “bodes expiatórios” que arquem com as responsabilidades dos insucessos, disfarcem as omissões individuais e ajudem a aliviar as consciências mais pesadas… Nem sequer vale a pena recordar que criticar é, incomensuravelmente, mais fácil do que fazer ou construir!

Escusado é dizer que igualmente há quem veja no movimento associativo uma possibilidade de promoção pessoal e/ou valorização individual, mais a mais em tempos onde os populismos ganham um crescente número de adeptos. Felizmente, que a esmagadora maioria daqueles que enveredam pelo exercício desses cargos o fazem para servir e não para se servirem! Contudo, “ovelhas negras” existem em todo o lado… e não hesitam em usar qualquer expediente para conseguirem os seus intentos.

Ora, tendo este fundo como cenário, ao qual acresce a grande incapacidade que a maioria das estruturas associativas demonstraram (e ainda demonstram) desde o início da pandemia em explicitar ao país, em geral, e às autoridades políticas, em particular, as especificidades da actividade turística e, consequentemente, as razões pelas quais o Turismo ou os sectores que representam deveriam beneficiar de apoios distintos dos concebidos para os demais, apesar de haver uma ou outra excepção que, aliás, em tempo oportuno aqui elogiámos, a par de uma falta de renovação dos quadros dirigentes da esmagadora maioria das associações, é natural – quase compreensível – que o desespero de empresas e empresários faça com que em cima da mesa se coloquem hipóteses mais radicais.

Só que estes não são tempos em que o discernimento seja o melhor. E, muito menos, propícios a atitudes divisionistas, quanto mais “abrir uma caça às bruxas”. Definitivamente este não é o momento de procurar fazer à pressa o que não foi feito, com calma, no passado, isto é, reformular as associações por dentro. Como? Apresentando outras listas, outros projectos, outras equipas, aos actos eleitorais e deixar que sejam os associados, afinal quem justifica a existência da instituição, a decidir. Isso sim, é como as coisas devem ser feitas! Agora andar a despender e dispersar energias, quando o necessário é concentrá-las e uni-las, pensar em criar novas associações julgando que se vai conseguir algo mais com isso é, perdoem-nos a crueza, a mais pura das ilusões.

Este é o tempo de todas as divergências serem postas de lado. Do Turismo reagir e ultrapassar esta ameaça terrível com que se depara. De lutar pela sua sobrevivência e pela de todos os sectores que o integram. De escolher os melhores para o representarem. De pugnar por verdadeiros apoios que sirvam às empresas e mantenham os empregos e não que lhes sejam disponibilizados mais financiamentos bancários, a que não conseguem aceder ou que apenas mantêm o seu estertor. Em suma, este é o momento em que é mais importante valorizar tudo o que une e não o que divide. É que a alternativa pode ser “a morte do artista”…

 

Por manifesta falta de espaço, na semana passada não chegámos a comentar o pedido de apoio financeiro que o Grupo SATA efectuou ao Estado Português, no valor de 163 milhões de Euros, para fazer face “a necessidades de liquidez” (sic). Depois da TAP era mais do que previsível (óbvio!) que também a transportadora aérea açoriana recorresse à concessão de ajudas públicas em razão dos impactos sofridos por causa da queda abrupta das suas receitas provocada pelo novo coronavírus.

Só que, e à semelhança do que acontece na TAP, também a SATA tem vindo a acumular prejuízos ao longo dos anos, apesar das incontáveis tentativas e planos de recuperação postos em prática por sucessivas Administrações, debaixo da supervisão do Governo da Região Autónoma dos Açores, que sempre evocou (legitimamente) as componentes de serviço público e continuidade territorial, tanto nas ligações entre ilhas, como nas com o continente, para justificar os consecutivos défices anuais.

Perante este quadro, e para evitar que daqui a uns meses o país seja confrontado com novos – e mais do que prováveis – pedidos de ajuda para ambas as transportadoras, não será esta mais uma excelente oportunidade para se fazer uma reflexão profunda sobre o assunto e, de uma vez por todas, definir-se uma estratégia para o sector da Aviação nacional? E já agora, aceitar a evidência de que ele é parte integrante e peça fundamental da actividade turística?

Já constatámos que em matéria de transporte aéreo as decisões tomadas, seja porque Governo for, tendem a ser, invariavelmente, o menor dos males. Mas sempre um mal! Que, queira-se ou não, de modo directo ou indirecto, tem custos para o bolso dos(as) portugueses(as). Que um dia podem dizer basta! Tal como as autoridades comunitárias podem não autorizar mais subvenções estatais. E o mais provável é que esse dia chegue, mais depressa do que muitos julgam. Quais as consequências de tudo isso para o Turismo nacional? Seguramente catastróficas ou, para parafrasear o título do comentário de hoje, seriam “a morte do artista”!

 

Protejam-se a vós, aos vossos e, se possível ou necessário, ajudem o próximo. #vamostodosficarbem!

Nota – Não é demais recordar que o endereço de email iturismo@turisver.pt continua ao dispor das(os) nossas(os) leitoras(es).