iTurismo: A “Ordem” dos Directores de Hotéis, por Atilio Forte

No iTurismo de hoje, está em análise o recente congresso da ADHP e o ganho de importância que este evento tem vindo a conseguir, situação para a qual tem contribuído, sublinha Atilio Forte, a “permanente preocupação que a ADHP manifesta com o envolvimento dos jovens na vida da Associação”. Em análise estão também os indicadores turísticos dos primeiros meses do ano.

 

Tópicos da Semana:

  • Hotelaria deve ter as alterações climáticas (cada vez mais) em atenção: Na opinião da esmagadora maioria dos especialistas o aquecimento global vai provocar uma maior constância de fenómenos naturais severos, razão pela qual o sector hoteleiro deve incorporar nos seus investimentos e procedimentos diários de operação medidas que visem proteger as propriedades e os clientes, nomeadamente, ao nível da resistência dos edifícios, das provisões e comunicações de emergência e da adequação dos pacotes de seguros contratados.

 

  • Maior cadeia hoteleira do Mundo soma e segue: A Marriott International acaba de anunciar que nos próximos três anos irá abrir cerca de 1.700 novos hotéis, facto que irá representar uma adição – entre 275.000 e 295.000 – ao total de quartos que, actualmente, já gere nas suas 7.000 unidades. Segundo os seus responsáveis com este aumento do número de camas a empresa espera um acréscimo de 400 milhões de dólares apenas no que respeita às receitas provenientes das taxas de gestão de propriedades que presentemente obtém.

 

  • Criar memórias significa garantir clientes futuros: Pelo menos é esta a opinião de um crescente número de hoteleiros que vêem nos seus trabalhadores, na decoração das suas unidades e nas actividades que aí promovem para gerar distintas conexões emocionais, os instrumentos e meios preferenciais para incutir nos hóspedes memórias duradouras e fidelização ao produto, conseguindo por essa via obter uma vantagem estratégica sobre outras formas de alojamento.

 

Comentário

 

Turisver.com – O Congresso da ADHP tem vindo a ganhar importância, quer pelas participações, quer pelas notícias vindas a público, ou mesmo pela relevância dada aos prémios Xénios. Como olha para esta situação, tendo em conta que estamos perante uma Associação de classe, que não é empresarial nem sindical?

Atilio Forte – Antes de entrarmos na resposta à questão que nos é colocada não podemos deixar de agradecer à ADHP – Associação dos Directores de Hotéis de Portugal e, muito em particular, à sua Direcção, o gentil convite que nos endereçou para participarmos neste seu XV Congresso Nacional, bem como na cerimónia de entrega dos Xénios 2019 – Prémios de Excelência na Hotelaria da ADHP e, simultaneamente, cumprimentar todos quantos com o seu trabalho e profissionalismo contribuíram para a organização destes eventos os quais, é justo reconhecê-lo, alcançaram um assinalável sucesso dignificando, uma vez mais, os seus promotores e o turismo português.

Feito este justo e merecido reconhecimento convirá referir que a importância que a Reunião Magna Anual dos Directores de Hotéis de Portugal tem paulatinamente vindo a granjear deve-se, em muito, à atractividade dos locais que a vêm acolhendo, à qualidade dos temas seleccionados para lhe servirem de pano de fundo – por exemplo, o Congresso deste ano realizou-se em Viseu e teve como mote “Património e Qualificação: Dois Vectores da Rentabilidade Hoteleira” – e a uma criteriosa escolha dos oradores convidados.

Se a esta feliz conjugação de factores adicionarmos a entrega anual dos prémios Xénios, cujos vencedores são apurados após uma votação online (os deste ano ultrapassaram os 104.000 votos!) da qual resulta a selecção que é colocada a um júri, constituído por personalidades da actividade económica do turismo, que toma a seu cargo a escolha final do vencedor em cada categoria, facilmente se constata estarem reunidos ingredientes mais do que suficientes para justificar a ascensão que este evento tem vindo a registar, seja em número de participantes, seja no seu impacto mediático.

Para além destes aspectos merece igualmente referência a permanente preocupação que a ADHP manifesta com o envolvimento dos jovens na vida da Associação, especialmente nos eventos que promove e na atracção dos mesmos para uma carreira nas várias áreas de chefia que o sector da hotelaria compreende, bem visível e demonstrável nos seus Congressos, dado sempre ter estado aberta à participação dos mais novos e, por isso, ser a que mais estudantes do ensino superior (universitário e politécnico) e técnico-profissional do turismo reúne nesses encontros, permitindo que estes bem cedo comecem a contactar com as realidades do quotidiano das diversas profissões da actividade as quais, como se sabe, ainda são bem diferentes daquelas que são aprendidas e apreendidas no seio das instituições académicas.

Mas esta preocupação não se esgota numa acção anual. Vai bem mais longe do que isso, já que estamos perante a única associação do turismo que privilegia estatutariamente os jovens, compreendendo um espaço próprio que serve, em paralelo, de embrião para a sua futura vida profissional e de promoção das vantagens do associativismo, a ADHP – Júnior, ajudando assim os mais novos a melhor prepararem a sua carreira na vida activa e criando e incutindo-lhes o hábito da participação cívica, tanto no que à profissão de Director de Hotel respeita, como no gosto pela abrangência e temáticas abarcadas na actividade turística.

Quanto ao facto deste sucesso ser atingido por uma Associação que não pode ser qualificada como empresarial ou sindical está, em nossa opinião, longe de constituir motivo para qualquer estranheza já que, nem uma, nem outra, esgotam as múltiplas maneiras de manifestação e representação através das quais a denominada “Sociedade Civil” encontra forma de se exprimir.

Basta atentarmos no modo como muitas outras actividades profissionais se organizaram para obterem expressão associativa, para confirmarmos que os Directores de Hotéis, à semelhança do que acontece com Advogados, Médicos, Engenheiros, Enfermeiros, Arquitectos, Contabilistas, Farmacêuticos, etc., que têm a sua respectiva “Ordem”, pela especificidade da sua profissão, pelas valências técnicas e profissionais que reúnem, pelas responsabilidades quotidianas que têm quer na liderança, formação e qualificação profissionais das equipas, quer na gestão e rentabilização dos investimentos feitos por proprietários e accionistas, quer ainda na formação do produto, inovação da oferta e criação de laços de confiança com o consumidor, há muito que ganharam a possibilidade (e a capacidade) de se reunirem numa entidade que, no seu entendimento, os represente e defenda.

Em conclusão, podemos afirmar que enquanto movimento de expressão e defesa dos interesses de uma classe que é vital para o desenvolvimento do turismo no nosso país, designemo-la por “Associação”, “Ordem”, ou qualquer outra forma de expressão com génese na “Sociedade Civil”, a ADHP hoje, tal como no passado, é um excelente arquétipo de valorização dos seus associados que, atento o trabalho que vem desenvolvendo, num futuro não muito distante verá certamente reforçado o seu peso e protagonismo no panorama turístico nacional, e servirá de exemplo de organização e representação de outras classes socioprofissionais da actividade, provando que, mais do que a vocação e do que o sentido de missão, a voz das diferentes profissões turísticas não só deve ouvir-se, como igualmente saber fazer-se ouvir.

 

Turisver.com – Num ano turístico que se encara como difícil para Portugal, já são conhecidos os números dos dois primeiros meses, que se mostraram relativamente positivos. Que leitura se pode já fazer destes indicadores referentes a meses de época baixa?

Atilio Forte – Antes de mais entendemos ser nossa obrigação alertar que os números recentemente divulgados pelo INE – Instituto Nacional de Estatística, relativos à actividade turística em Portugal nos meses de Janeiro e Fevereiro de 2019 devem ser analisados com extremo cuidado, sobretudo em termos de comparação homóloga, dado que em 2018 o Carnaval ocorreu em Fevereiro (enquanto este ano teve lugar em Março) e a Páscoa aconteceu no início de Abril (dia 1), enquanto este ano será no próximo dia 21, o que significa que em 2018 o seu efeito foi dividido entre o final de Março e o princípio do mês de Abril, influenciando os resultados desses dois meses. Por isso, é nossa opinião ser ainda muito prematuro retirar qualquer conclusão da leitura destes indicadores, uma vez que só podemos comparar o que é comparável (perdoem-nos a redundância) facto que, por enquanto, não é manifestamente possível (só após o final de Abril é que o conseguiremos fazer, com rigor).

Salvaguardado que está este aspecto, sempre podemos adiantar que os elementos apresentados relativos ao ano em curso são bastante animadores, pois apesar do que atrás mencionámos, mesmo assim demonstram um aumento acumulado quer no número total de dormidas (+ 1,6%), quer no total de proveitos (+ 6,5%), que vêm confirmar as previsões que em tempo oportuno aqui efectuámos, ou seja, que a actividade turística nacional tenderá a “arrefecer” em 2019, pese embora possamos chegar ao final do ano, pelo menos, com receitas semelhantes às obtidas em 2018.

De entre os factores menos positivos que estes números nos revelam, merecem destaque – e particular atenção – os respeitantes à Madeira, já que evidenciam uma quebra no número total de dormidas de 3,1% e, igualmente, uma diminuição de 3,5% nos proveitos, sendo que o caso das dormidas apresenta-se como mais preocupante em virtude de evidenciar um crescimento de 8,1% nas de residentes e um decréscimo de 4,1% nas de não residentes, o que sublinha a clara diminuição do número de turistas estrangeiros recebidos por aquela Região que, é bom recordar, a par da do Algarve e da de Lisboa é um dos “baluartes” do turismo português.

Relativamente ao comportamento dos diferentes mercados externos nos dois primeiros meses de 2019 destacam-se pela positiva, o britânico (+ 3,2%), o norte-americano (+ 29,1%), o irlandês (+ 17,1%) e o chinês (+ 21,3%) e pela negativa, o alemão (- 7%), o francês (- 2,8%) e o brasileiro (- 1,2%), sendo que o espanhol não apresentou qualquer variação homóloga.

Em conclusão, pode afirmar-se que “a procissão ainda nem ao adro chegou”. No entanto, já existem sinais (positivos e negativos) claros do que poderá ser o ano de 2019 em termos de turismo no nosso país e de como os resultados da actividade poderão vir a ser influenciados pelo recrudescer da concorrência que nos é feita pelos demais destinos mediterrânicos, pelo abrandamento da economia europeia e mundial e, claro está, por aquilo que se vier a passar no Reino Unido a propósito do “Brexit”.

 

O + da Semana:

A inovação e a superação das expectativas são actualmente duas das mais importantes constantes que devem marcar presença no pensamento, no investimento e nas acções das empresas que queiram ter sucesso, pela marcação da diferença, na actividade turística dos nossos dias. Não é por isso de espantar que diariamente cheguem ao mercado centenas – para não dizermos milhares – de novas propostas com o objectivo de captarem a atenção do consumidor e proporcionarem-lhe a oportunidade de viver e sentir experiências e emoções únicas e, como é óbvio, irrepetíveis. Ora, seguindo esta linha de pensamento, foi exactamente isso que a Four Seasons, uma das principais cadeias hoteleiras do Mundo no segmento de luxo, veio agora apresentar através do programa que especialmente concebeu para o efeito: o Four Seasons Pop Down, que consiste em levar os atributos e características dos seus hotéis a localizações no mínimo… fora do comum. Trata-se de eventos/festas imersivos que ocorrem em locais totalmente inesperados por parte dos clientes, como sejam uma escola abandonada em Filadélfia ou um iate de luxo avaliado em 500 milhões de dólares em Miami (para já o programa só esteve disponível no mercado norte-americano e asiático esperando-se que, em breve, faça a sua primeira aparição na Europa), onde contam e integram a participação de artistas e músicos, conceituados “Chefs” e mixologistas (especialistas em coquetéis) que interagem com os hóspedes que servem ou para quem actuam, produzindo uma experiência autêntica e fiel à proposta de valor que aquela cadeia tradicionalmente disponibiliza aos seus clientes. Escusado será dizer que o principal público-alvo deste tipo de acções é a geração do milénio, para a qual o luxo nem sempre funciona como elemento fundamental de atracção. E foi exactamente para contrariar essa percepção que estes eventos/festas foram criados!

 

Aos nossos leitores e respectivas famílias desejamos uma Páscoa Feliz!

 

Nota da Redacção: Em virtude da próxima quinta-feira ser feriado nacional, coincidindo com o dia semanal de publicação do iTurismo informamos que, excepcionalmente, o Comentário de Atilio Forte chegará aos leitores(as) na quarta-feira, 24 de Abril.