iTurismo: A Quadratura do Ciclo, por Atilio Forte

O 44º Congresso da APAVT, que teve lugar de 21 a 25 deste mês, em Ponta Delgada, e debateu diversos temas relacionados com a actividade dos agentes de viagens e do turismo em geral, é o grande destaque nos comentários de Atilio Forte no iTurismo desta semana.

 

Tópicos da Semana: 

  • A garantia de privacidade deve ser uma prioridade dos hotéis: Um inquérito realizado pela empresa Mower demonstra que a maioria dos hóspedes preocupa-se com a sua privacidade quando acede a tecnologia disponibilizada pelas unidades hoteleiras. Não obstante, 44% dos inquiridos disseram que, muito provavelmente, estariam disponíveis para efectuar reservas num hotel inteligente (“smart” hotel no original).
  • Quartos não anunciados são o máximo da exclusividade: Quando analisamos o segmento de luxo é frequente depararmo-nos com algumas surpresas ou novidades. Não é por isso de estranhar que quartos não publicitados a preços extremamente elevados sejam uma das tendências que começa a ganhar dimensão na hotelaria de luxo como acontece, por exemplo, com a Blue Lagoon Suite do hotel Iceland Retreat, na Islândia, que não aparece listada no “site” daquela unidade, mas cujo preço ascende à módica quantia de 10.050 dólares por noite!
  • Amesterdão e Londres atraem investimento hoteleiro: De acordo com o Deloitte’s European Hotel Investment Survey 2018 Amesterdão é, pelo terceiro ano consecutivo, a cidade europeia que se apresenta com mais argumentos para atracção de investimento no sector hoteleiro, logo seguida de Londres,tendo ambas ficado à frente, respectivamente, de Paris, Madrid, Dublin e Barcelona nas preferências dos investidores.

 

Comentário:

 

Turisver – Durante o congresso da APAVT esteve em evidência uma discordância de fundo, havendo quem defendesse que o turismo português está em final de ciclo e quem defendesse o contrário. Qual a sua visão sobre este assunto?

 

Atilio Forte – Impõe-nos a consciência que antes de entrarmos na resposta à questão colocada aqui deixemos duas singelas notas:

A primeira para agradecer à APAVT – Associação Portuguesa das Agências de Viagens e Turismo o gentil convite que, uma vez mais, nos dirigiu para estarmos presentes no seu Congresso Nacional;

E a segunda para enaltecer o magnífico acolhimento que os Açores deram ao evento e a todos quantos nele participaram que, seguramente, fez com que a grande maioria – para não dizer a totalidade – saísse de Ponta Delgada com desejo e vontade de ali ter ficado mais tempo ou, mais importante, com uma enorme ânsia de regressar… muito em breve.

Feitos que estão estes sinceros e mais do que justos e merecidos sublinhados, centremo-nos então na pergunta que nos é formulada e que de alguma forma perpassou e influenciou os trabalhos desta reunião magna da APAVT: estará ou não o turismo português no final de um ciclo? Dito de outro modo, estaremos ou não perante o fim de um dos mais áureos períodos de crescimento e desenvolvimento (a todos os níveis) do turismo nacional e, consequentemente, na alvorada de um novo tempo? Ou, em oposição, o círculo virtuoso que a actividade iniciou há cerca de cinco anos ainda vai perdurar?

Contrariamente ao que possa parecer esta não é uma resposta simples e muito menos fácil, pois existem múltiplos argumentos, e de peso, a favor de cada uma das opiniões, particularmente se desejarmos fazer uma apreciação mais aprofundada do que verdadeiramente está em causa. E, mesmo assim, há que o admitir, a conclusão poderá ser dúbia, já que existe a tendência – e a tentação – para resvalar para campos mais subjectivos, decorrentes da perspectiva ou experiência pessoal de quem faz a análise, que levam ao uso de elementos objectivos – mensuráveis e quantificáveis – que acabam por ser utilizados para validar um e outro pontos de vista. No fundo, poder-se-á dizer que estamos perante o eterno dilema “do copo estar meio cheio ou meio vazio”…

Assim, se é verdade que devido à evolução da conjuntura internacional existem sinais claros e irrefutáveis de “arrefecimento” da actividade turística em Portugal, particularmente ao nível do turismo receptivo, devido a uma maior concorrência dos mercados mediterrânicos ou pela diminuição do poder de compra dos consumidores britânicos motivada pelo Brexit, e é igualmente certo afirmar-se da impossibilidade real e evidente de continuarmos, ano após ano, a crescer na casa dos dois dígitos como mais recentemente tem vindo a acontecer, não menos verdade é que o aumento quer da receita turística, quer do número de turistas chegados aos aeroportos nacionais não denota qualquer abrandamento – muito pelo contrário! –, caucionando o prolongar do período de expansão turística que temos vivido nos últimos anos.

Perante este quadro é legítimo e até natural que quem nos está a ler se interrogue sobre qual destes dois prismas de olhar uma mesma realidade está certo ou, pelo menos, é o mais correcto, atenta a validade dos factores substantivos que assistem a ambos.

Em coerência com o que há alguns anos vimos afirmando – e alertando! – nestes nossos comentários e não obstante reconhecermos que existem méritos na argumentação por parte de quem defende que o ciclo não terminou, somos de opinião que estamos perante um quadro diverso que, necessariamente, deve ser encarado como um outro tempo e, por isso, que nos trará novos, diferentes e mais ousados desafios, na esteira do que noutras análises antecipámos e vaticinámos. Por isso, é sem hesitação que nos colocamos ao lado daqueles que agora dizem termos atingido o fim de um período ou, se se quiser, que estamos perante o iniciar de um outro ciclo, já que é essa a lógica natural da vida e, por maioria de razão, da evolução económica.

Todavia, também estamos em crer que tal está longe de querer dizer que iremos voltar a momentos de contracção e de decréscimo abrupto dos fluxos turísticos que recebemos – como aconteceu há uma década – e, por isso, que nova crise se avizinha (pelo menos no curto e médio prazos). O que acreditamos que sucederá será a reposição da “ordem natural” dos mercados, que tenderão a “auto corrigir-se” desaparecidos ou mitigados que foram os epifenómenos que em larga medida os subverteram e dos quais, inquestionavelmente, acabámos por beneficiar, cujo exemplo mais paradigmático foi o da “Primavera Árabe”, que esteve na génese de uma nova tipologia de terrorismo ou, se se quiser, que deu origem a uma “versão 2.0” da inaugurada nos Estados Unidos da América no fatídico dia 11 de Setembro de 2001, o qual condicionou – e de que maneira! – a evolução internacional da actividade turística.

Claro está que esta nossa perspectiva engloba algum risco, sobretudo num Mundo onde (como infelizmente sabemos) a imprevisibilidade pode estar ao “virar da esquina”.Porém, a probabilidade de tal vir a verificar-se apesar de real é diminuta, razão pela qual doravante deveremos contar, para além do aumento de concorrência, com taxas de crescimento turístico bem mais moderadas, seja ao nível da entrada de turistas no nosso país, seja ao nível das receitas por eles geradas seja, também, com alguma correcção em baixa do nível de preços praticados pela nossa oferta turística, motivada pela competição e, quer queiramos, quer não, igualmente como maneira de “aplainar” algumas deficiências que começam a notar-se na qualidade da prestação dos serviços que providenciamos.

Sem prejuízo do que afirmámos, convirá ainda sublinhar que toda esta teorização e análise deverão ser suportadas e comprovadas não por um ou outro elemento estatístico indiscriminadamente seleccionado, a bel-prazer de quem o evoca, até para evitar torções ou distorções de acordo com as conveniências, mas pelo único conjunto de indicadores definidos e aceites internacionalmente, isto é, os critérios da Organização Mundial do Turismo (UNWTO) que estão contidos na CST – Conta Satélite do Turismo, cujos resultados convirá que o Estado português, em particular, e os demais agentes turísticos, em geral, zelem por produzir com maior celeridade e monitorizem em constância, não apenas para que se obtenham elementos comparativos e evolutivos fiáveis sobre a nossa concorrência, mas também para que se adquira o conhecimento e o saber imprescindíveis à tomada de decisão e consequente passagem à acção sobre a evolução dos mercados, os produtos preferidos e as tendências de consumo de quem viaja.

Se assim não for, arriscamo-nos a cair numa discussão estéril que inexoravelmente nos conduzirá ao que (ironicamente) poderá apelidar-se por uma “quadratura do ciclo”!

 

Turisver – Ao longo das sessões de trabalho do 44º Congresso da APAVT, nos Açores, uma larga panóplia de especialistas debateu diversos temas relacionados com a actividade dos agentes de viagens e do turismo em geral. Que apreciação faz do evento?

 

Atilio Forte – É da mais inteira justiça que comecemos por felicitar a APAVT e a sua Direcção por terem organizado não apenas (mais) um excelente Congresso mas, sobretudo, por terem conseguido na presente edição dar um salto qualitativo na sua dinâmica e forma de abordagem da temática proposta, inovações que, estamos certos, abrirão portas a novas formas de debate, reflexão e mesmo de participação nos seus próximos encontros anuais.

E dizemo-lo fundados na crescente utilização das novas tecnologias que a APAVT vem incorporando nos seus Congressos que, muito provavelmente e bem mais cedo do que pensamos, irá permitir enriquecer os trabalhos com intervenções e intervenientes que não necessitarão de estar fisicamente no local do evento, já que o podem estar a acompanhar em qualquer outro sítio, dando um ainda maior “fôlego” aos impactos que o mesmo tem, nomeadamente junto de todos os agentes turísticos nacionais.

Portanto, uma primeira ilação que podemos tirar é que a própria APAVT deu uma excelente resposta ao repto que lançou para discussão e que elegeu como pano de fundo desta sua reunião magna: “Os Desafios do Crescimento”.

Um outro aspecto que resultou claro dos debates produzidos prende-se com a assunção e compreensão do “mundo digital” e do modo como o mesmo vai cada vez mais assumir-se como o maior aliado, ou a mais poderosa ferramenta, que as empresas e os profissionais de turismo têm ao seu dispor, facilitando-lhes tarefas, eliminando ou simplificando outras, no fundo criando condições para que o foco, o centro da atenção, seja (e esteja) sempre (n)o consumidor. É que no fim do dia é ele quem paga. E quem paga não só “manda” como, enquanto cliente, tem o direito de exigir que a oferta vá ao encontro dos seus desejos, sonhos ou necessidades, pois não há turismo sem turistas!

E este é um ponto ao qual os agentes de viagens estão particularmente atentos e que ditará a evolução futura das suas empresas na cadeia de valor do turismo, pois em tempos de desintermediação do negócio turístico, em que todos competem pelo mesmo cliente e onde “produtores” e “compradores” estão directamente “conectados”, quem souber tirar o devido partido do “digital” e do manancial de informação que aí está à sua disposição – à distância de um clique –, construirá laços mais duradouros (e paradoxalmente mais personalizados) com clientes e fornecedores ou, dito de outro modo, quem não “abraçar” esta mudança condenar-se-á ao definhamento e, consequentemente, à exclusão do mercado. Ao invés, quem melhor se adaptar, mais do que sobreviver, prosperará.

Finalmente, gostaríamos de destacar que o Congresso também acentuou a urgência na (re)solução de alguns dos temas “mais quentes” com que a actividade se debate, de que é exemplo máximo o do novo aeroporto complementar de Lisboa, e que provam à saciedade que cada vez existe mais “política” no turismo e cada vez menos “turismo” na política, situação deveras preocupante já que significa que quem decide fá-lo sem conhecer em profundidade a realidade ou por reacção (leia-se intoxicação) a correntes de opinião que, embora minoritárias, sabem fazer ouvir a sua voz, acusando a actividade de personificar o “capitalismo selvagem” do século XXI .

E este é um desafio difícil e complexo, que só pode ser vencido com congregação de esforços, com convicções fortes, muito trabalho, sabedoria, conhecimento, arte e algum engenho, mas que a actividade económica do turismo não pode dar-se ao luxo de recusar ou perder.

 

O + da Semana:

Já por diversas vezes aqui temos vindo a referir-nos ao crescente sentimento que a Humanidade vem percepcionando e demonstrando acerca da imperiosa necessidade de pugnar por uma maior preservação ecológica e ambiental da “nossa casa comum” e de como isso tem vindo, paulatinamente, a alterar consciências e, acima de tudo, algumas práticas e pequenos gestos diários que fazemos, tantas e tantas vezes quase de forma mecânica. Também temos chamado a atenção para a tradução que tal tem tido no comportamento dos consumidores, particularmente ao nível da selecção dos destinos, produtos e serviços turísticos, alterando escolhas, estimulando (novas) motivações, privilegiando e distinguindo aqueles que, por opção, têm enveredado pela denominada “economia verde”. Por seu turno, a actividade turística desde cedo (ou sempre) percebeu a importância vital do seu papel nesta aérea, não sendo por isso de estranhar que, por exemplo, o sector do alojamento tenha sido pioneiro no combate ao desperdício de água e ao (ab)uso de detergentes e químicos, bem ilustrado pelos pequenos – e simpáticos – avisos que nos habituámos a ver nos quartos de hotel acerca da mudança dos atoalhados e da roupa de cama. Mesmo assim, não deixa de ser surpreendente que os mais recentes estudos apontem o turismo, em geral, e os sectores do alojamento e da restauração, em particular, como aqueles que mais têm contribuído (e contribuem) para a eliminação/diminuição do plástico na sua operação corrente, facto que deve orgulhar toda a comunidade turística e que, bem vistas as coisas, teve o seu início com a simples ideia de erradicação das palhinhas de plástico que tradicionalmente acompanhavam as bebidas… o que prova que há pormenores que, afinal, são “pormaiores”!