iTurismo: A Segurança Não Se Promove, por Atilio Forte

No iTurismo de hoje está em destaque o comentário de Atilio Forte à recente entrada de Portugal no ranking dos países mais seguros do mundo, onde passou a ocupar o terceiro lugar. Outro tema comentado tem a ver com o limite diário de visitas à Ilha da Berlenga, fixado em 550 pessoas, como forma de preservar o habitat natural da ilha.

 

Tópicos da Semana:

  • Afinal em que é que consiste o luxo na hotelaria dos dias de hoje?: Na opinião de muitos especialistas o conceito actual de luxo nos hotéis vai muito para além de paisagens aprazíveis, lençóis de seda ou linho ou, mesmo, casas-de-banho sumptuosas. Por isso defendem que um hotel deve possuir um carácter distintivo, um elevadíssimo nível de personalização do serviço, uma atmosfera tranquila, quartos excepcionalmente acolhedores e confortáveis e, principalmente, deve proporcionar aos hóspedes uma experiência única que justifique suportarem os inconvenientes da deslocação/viagem.

 

  • Grã-Bretanha quer assumir-se como um grande da Europa no Enoturismo: Quem não acompanha tão de perto a actividade turística pode ficar surpreendido(a) com esta afirmação, mas a realidade é que a Grã-Bretanha está a fazer um grande esforço para passar a ser considerada não apenas como mais um destino para os amantes do Enoturismo mas, sobretudo, para esmagar a concorrência e liderar este segmento turístico a nível europeu. A comprovar a seriedade das suas intenções está o aumento do total de área dedicada à plantação de vinhas em 2019 – mais 24% (cerca de 690 hectares) –, a produção de 15,6 milhões de garrafas de vinho obtida em 2018 (quase o triplo da sua “histórica” média anual) e, especialmente, o facto de perspectivar alcançar os 40 milhões de garrafas anuais, em cada um dos próximos 20 anos, factores que a levam a ser cada vez mais tida em conta como um destino a ponderar, pelos fãs deste produto.

 

  • Transformar barcos de cruzeiro de luxo em residências permanentes: É exactamente esta a proposta que a companhia Oceania Cruises desenvolveu no Estado da Florida (EUA), tendo adaptado dois dos seus mais luxuosos paquetes para o efeito – o World e o Utopia –, (re)equipando os seus camarotes com cozinhas, várias casas-de-banho e roupeiros de larga dimensão, para além de disponibilizar serviços de saúde (médicos e enfermeiros) 24 horas por dia. O objectivo final é transformar estas embarcações em autênticos lares de luxo e, assim, atrair a população sénior mais abastada.

 

Comentário

 

Turisver.com – Portugal entrou no pódio dos países mais seguros do mundo, ficando apenas atrás da Nova Zelândia e da Islândia, segundo o Global Peace Index 2019. Na sua perspectiva, esta situação muito positiva poderá ser potenciadora da actividade turística?

Atilio Forte – Num Mundo onde as tensões políticas, económicas, sociais, militares, ambientais, culturais e religiosas são cada vez mais visíveis e condicionadoras do progresso das Nações é sempre bom constatar que um país se destaca pela positiva num indicador desta natureza. Mais a mais quando, infelizmente, os atentados terroristas, as posturas hegemónicas, xenófobas e populistas/manipuladoras e o desprezo pelas (todas) formas de vida que habitam a Terra continua a grassar um pouco por toda a parte.

Convirá aqui abrir um parêntesis para explicitar que o “Global Peace Index” (GPI), que já vai na sua 13ª edição, hierarquiza 163 Estados independentes e territórios – cobrindo 99,7% da população mundial – em razão do seu grau de tranquilidade, utilizando para o efeito vários critérios qualitativos e quantitativos, que analisa de acordo com três grandes áreas temáticas, a saber: o nível de segurança e protecção social que oferecem; a extensão dos conflitos domésticos e externos em que estejam envolvidos; e, o patamar de militarização em que se encontram.

Vale também a pena mencionar que, desde a sua criação, o GPI foi sempre liderado pela Islândia que, assim, pode ser considerada como o país mais pacífico e seguro do Planeta, sendo que Portugal tem vindo, paulatinamente, a subir nesta escala, primeiro entrando no “top 20” (em 2013, para a 18ª posição), depois obtendo um 5º lugar (2018) para, no presente ano (2019) ter alcançado o terceiro posto, imediatamente a seguir à Nova Zelândia.

Dito isto, é inegável que na perspectiva do desenvolvimento da actividade económica do turismo a posição agora atingida, que consolida o caminho percorrido nos últimos anos, deve ser vista como uma mais-valia, uma vez que este é um dos factores que vem ganhando maior importância e “peso” no processo de decisão dos consumidores aquando da escolha de um destino turístico.

Contudo, e apesar de estarmos perante um aspecto que não podemos menosprezar, também o devemos encarar com alguma prudência e, sobretudo, não hipervalorizar ou, pior, dele fazermos grande alarde, pois actualmente nenhum país pode, com certeza, afirmar-se e/ou apresentar-se aos mercados com este tipo de argumento (que implica garantias), em virtude do inesperado ser algo que, por definição, é impossível controlar. Como bem se sabe as tragédias, independentemente da sua natureza, não se fazem anunciar… Por isso todos os cuidados são poucos em matéria tão sensível.

Como há muito vimos afirmando, a segurança não se promove, garante-se! Portanto mais do que nos divulgarmos e anunciarmos com base nesta periclitante premissa, o que deve relevar-se é que Portugal continue a percorrer o seu caminho, tomando todas as precauções e mantendo bem vivas as medidas preventivas que as possam acautelar, e deixar que “relatórios” como o presente nos coloquem em posição de destaque a qual, atento o elevadíssimo grau de acesso à informação quer das sociedades, quer das pessoas, principalmente das que viajam, será devidamente interiorizada, valorizada e percepcionada pelos consumidores que, de forma crescente, cada vez atribuem maior preponderância e têm mais consciência do que tal significa e das vantagens que pode representar a escolha de um “destino seguro e tranquilo” para irem de férias.

 

Turisver.com – Recentemente, foi publicada uma portaria do Ministério do Ambiente que fixa o limite diário de visitas à Ilha da Berlenga em 550 pessoas, como forma de preservar o habitat natural da ilha. Esta é uma situação que está a ser adoptada por várias localidades e estruturas culturais, tendo em vista a sua preservação no tempo. Que pensa da medida agora tomada e como encara a sua proliferação em Portugal?

Atilio ForteVale a pena começarmos a nossa resposta recordando que o Arquipélago das Berlengas – de que fazem parte três pequenas ilhas, a Berlenga Grande (que se subdivide em Berlenga e Ilha Velha), as Estelas e as ilhotas dos Farilhões – foi, do ponto de vista histórico, a primeira “área protegida” de Portugal, em virtude de no Reinado de D. Afonso V (1465) aí ter sido proibida a caça. Mais recentemente, adquiriram o estatuto de “Reserva Natural” (1981) e de “Zona de Protecção Especial para Aves Selvagens” (1999). Desde 2011 que a Reserva Natural das Berlengas é considerada “Reserva Mundial da Biosfera da UNESCO” (United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization).

Por esta breve introdução constata-se que estamos perante uma área de extrema sensibilidade ecológica e ambiental, cuja sustentabilidade importa acautelar, sobretudo se tivermos em consideração que, apenas no ano transacto, a mesma recebeu cerca de 82.000 pessoas e que em 19 desses dias (todos na denominada “Época Alta”) foram ultrapassados os 1.000 visitantes números que, na opinião dos investigadores da Universidade de Aveiro que realizaram o estudo em que se apoia esta decisão do Ministério do Ambiente, acabaram por ter um óbvio impacto na sua biodiversidade, nomeadamente, ao nível da “perturbação da avifauna nidificante, do pisotear da flora, do risco de disseminação da flora exótica por transporte de sementes, pólen e fragmentos vegetativos agarrados ao calçado e roupa, lixo atirado sem cuidado, poluição orgânica na praia e águas circundantes, destruição e vandalização dos equipamentos de acolhimento aos visitantes e pressão sobre os sistemas de abastecimento de água doce e de recolha do lixo”.

Dito isto, e tal como já havíamos aqui referido a propósito de idênticas medidas tomadas em diferentes partes do território nacional, este tipo de limitações/proibições à presença humana, mais do que se justificarem, impõem-se como alternativa incontornável à preservação da diversidade biológica ou ao garantir da salvaguarda patrimonial da nossa herança comum.

Aliás, não se tratam de medidas inéditas, já que em todo o Mundo, do Ocidente ao Oriente, são em número crescente as parcelas de território, monumentos e outros locais de elevada carga turística que têm vindo a ser objecto de semelhante tratamento por parte das Autoridades chegando nalguns casos, para protecção, a ser encerradas(os) temporariamente (até que regenerem) ou parcialmente (durante determinados meses do ano).

Claro está que a este tipo de decisões não é alheio o ganho de “consciência ambiental e cultural” que trespassa a sociedade actual e o respeito crescente pelos diversos habitats naturais, tal como pelo património. E, este ponto em particular, deveria merecer maior atenção (e dedicação) por parte dos diferentes agentes turísticos, nomeadamente, na propositura de medidas que visassem tanto a sua defesa, como a sua sustentabilidade, de modo a aliviar a pressão turística sobre os mesmos e, simultaneamente, garantir a sua fruição duradoura, quer pelas presentes, quer pelas futuras gerações, sem esperar a tomada de medidas pelas Autoridades que, se por vezes são atempadas, noutras chegam tardiamente e eivadas de um dedo acusador apontado ao turismo o qual, inexoravelmente, é aproveitado pelos seus detractores.

Em suma, no caso em análise estamos perante uma decisão que se justifica. Mas o grande desafio é fazer com que a própria actividade turística consiga ir mais além liderando, proactivamente, este tipo de iniciativas para que não seja apanhada na sua teia e voracidade de maiores receitas no presente, pondo em causa quer a sustentabilidade dos activos, quer a sua própria subsistência, num amanhã não muito longínquo.

 

O + da Semana:

Como já vem sendo habitual nesta época do ano o IPDT – Turismo e Consultoria divulgou nos últimos dias o estudo/inquérito sobre as férias dos portugueses, neste caso respeitante a 2019, realizado com o apoio do Operador Turístico Soltrópico. Dos resultados obtidos através dos 538 questionários realizados entre os dias 10 e 30 de Maio, merecem particular destaque os seguintes: 77% dos portugueses dizem ir gozar férias de Verão (entre Junho e Setembro) fora da sua residência (em 2018 este valor atingiu os 80,4%); o “ir para fora cá dentro” obteve a preferência de 40% dos inquiridos, o que coloca o país como principal destino escolhido, sendo que o Algarve é quem reúne maior número de intenções e, por isso, destaca-se das demais regiões; daqueles que optam por ir para o estrangeiro, 28% decide-se pelo “Velho Continente”, com Espanha “à cabeça”; o mês de Agosto mantém-se como período preferencial de gozo de férias; 44% dos questionados afirma já ter efectuado as suas reservas através da internet (on-line); a principal motivação das viagens continua a ser o “Sol & Mar” que reuniu 61% do total de respostas; no que se refere ao alojamento, 29% prefere os hotéis de 4 estrelas, seguidos das moradias e apartamentos alugados (18%) e da casa de familiares e amigos (13%); quanto aos gastos, o estudo estima que a média diária ascenda a 59 Euros por pessoa, valor semelhante ao do ano passado, e que o montante médio individual despendido em férias se situe nos 434 Euros; finalmente, deve realçar-se que 72% dos respondentes opta por estadas até 7 noites.