iTurismo: Acerca da Volatilidade do Turismo, por Atilio Forte

No iTurismo de hoje, Atilio Forte comenta as avaliações feitas por alguns economistas para os quais a forte aposta do país no turismo é um erro, além de tecer também comentários sobre o incêndio que destruiu o Museu Nacional do Rio de Janeiro, deixando mais pobre a história do mundo lusófono. Em “O + da Semana”, Atilio Forte coloca o foco nas alterações climáticas.

 

Tópicos da Semana:

  • Cabinas de protecção solar para cuidar da pele dos clientes: As inovações ligadas à actividade turística não param de nos surpreender. Neste Verão, uma das mais impressivas foi a desenvolvida pela startup nova-iorquina “SnappyScreen” que criou uma cabina capaz de cobrir um ser humano de protector solar, em escassos 10 segundos. Equipada com produto de diferentes índices de protecção (15, 30 ou 40 UVA/UVB) e de fácil instalação (ao ar-livre), os hóspedes só têm de seleccionar o tipo de factor pretendido num ecrã e esperar serem gentilmente cobertos. Estes equipamentos podem já encontrar-se em vários hotéis dos Estados Unidos da América, do México e das Caraíbas, tanto em unidades de praia, como nas vocacionadas para o golfe, dado o produto utilizado (também) não danificar a roupa.

 

  • A saúde em primeiro lugar: Este é uma espécie de “mote” a que um cada vez maior número de hotéis está (literalmente) a aderir, de modo a dar resposta à crescente preocupação com a saúde e o bem-estar físico por parte dos seus hóspedes. Assim, os designados quartos ou suites “Stay Well” são já uma tendência no sector, disponibilizando comodidades específicas, tais como, iluminação especial, aromoterapia, purificação do ar e (até!) colchões com memória feitos de viscoelástico.

 

  • Investimento hoteleiro aumenta na Nova Zelândia: O crescimento sustentado do número de turistas está a ter um efeito positivo no investimento hoteleiro neste país da Oceânia o qual, por esse motivo, tem atraído a atenção de muitas das principais cadeias internacionais, bem ilustrada pelos 4.000 novos quartos de hotel cuja abertura está prevista acontecer em Auckland (a mais importante cidade do país), até 2025.

 

Comentário

Turisver.com – Vários economistas portugueses, em artigos publicados nos jornais, têm vindo a considerar que a aposta no turismo é um erro e que estamos a dar demasiado peso a uma actividade económica que tem grande volatilidade nos mercados emissores internacionais. Na sua perspectiva estas opiniões fazem algum sentido?

Atilio Forte – Esta é indubitavelmente uma excelente pergunta, cuja resposta – como procuraremos demonstrar – nem sempre é fácil ou, se se quiser, tão óbvia como à primeira vista pode parecer, principalmente porque a perspectiva que todos quantos conhecem em profundidade a actividade têm do turismo, nem sempre coincide com a percepção que os que não lhe estão directamente ligados possuem da mesma.

A este aspecto acresce o facto de o turismo (ainda) ser, do ponto de vista económico, uma área jovem (não nos esqueçamos que só a partir de meados do século passado é que se dá a grande expansão que o levou à liderança da economia mundial) e, portanto, não detentora do estatuto de importância, tradição e reconhecimento de outras actividades “mais consagradas”.

No que mais especificamente respeita ao nosso país, para além do que acabámos de mencionar, deve também somar-se a falta de informação, de análise e capacidade de formação de opinião que, não obstante os progressos feitos, ainda revelam alguma inconsistência por parte do turismo, dando assim azo a que exista quem expresse as suas opiniões, desejos ou intuições sem substrato científico e, fundamentalmente, sem contraditório. Mais a mais quando, em simultâneo, o Estado (Central, Regional e Local) tem sido agente activo na tomada de decisões que estão na génese do capital de queixa que sectores da nossa sociedade têm no que se refere ao excesso de pressão turística, as quais beliscam o imprescindível papel que a actividade teve na recuperação da economia, do emprego e da saída da crise por que passámos nesta última década (para não darmos exemplos temporalmente mais distantes), situação que facilmente é aproveitada pelos seus detractores ou por quem pretenda desvalorizar o seu peso no presente e no futuro de Portugal.

Dito isto, vale a pena que nos detenhamos nos prós e contras da argumentação apresentada por aqueles que consideram o turismo pouco sustentável, em razão da volatilidade dos mercados emissores:

Porventura, a maior das razões invocadas está intimamente ligada com o “arrefecimento” dos fluxos turísticos oriundos do estrangeiro que nos tempos mais recentes temos começado a sentir – para o qual oportunamente aqui alertámos –, que tem por base a evolução verificada na conjuntura internacional, de que a recuperação de destinos tradicionalmente nossos concorrentes (sobretudo mediterrânicos) e o “Brexit” (que tem prejudicado o poder de compra do mercado britânico) são os exemplos mais paradigmáticos.

Se a estes factores associarmos a inexistência de uma estratégia para o sector da aviação que o integre no turismo – o qual tem no avião o principal meio de transporte dos turistas e na capacidade aeroportuária a mais importante porta de entrada/saída de um destino –, a sazonalidade de alguns importantes segmentos da actividade – que influencia o funcionamento de muitas empresas, níveis de emprego e salários –, as deficiências que ainda se registam ao nível da qualidade dos serviços, da qualificação e formação dos profissionais, da diversidade e inovação da oferta (os avanços efectuados ainda são insuficientes) e, mesmo, alguma sobre valoração deste ou daquele produto, para nem sequer falarmos de uma quase exclusiva preocupação dos sucessivos Governos com o curto e o muito curto prazos, sem que se crie um entendimento prospectivo global entre todos os agentes políticos e turísticos, constatamos que uma ou outra das críticas formuladas faz, aparentemente, sentido.

Não obstante, deve ter-se presente que o turismo é, na sua essência, uma actividade global onde a competição desenrola-se, cada vez mais, à escala planetária, sendo por isso natural que a actividade seja fortemente influenciada por inúmeros factores (políticos, económicos, sociais, religiosos, naturais, etc.) que, queira-se ou não, têm impacto e originam flutuações nos fluxos turísticos. Sempre assim foi e sempre assim será! Podemos e devemos é aproveitar os “bons ciclos” para fidelizarmos mercados e consumidores, aspecto que eventualmente não fomos capazes de fazer tão bem quanto seria desejável nos anos mais recentes (em comentários anteriores já abordámos esta temática) …

Contudo, afirmar-se que essa é uma das grandes razões pela qual o turismo é volátil, sinceramente, parece-nos excessivo. Temos para nós que nesse plano é muito mais “perigoso” ter-se uma fábrica (para dar um de muitos exemplos) do que um hotel. É que a fábrica pode facilmente ser deslocalizada para uma qualquer outra parte do Mundo e continuar a produzir exactamente o mesmo produto, beneficiando de melhores condições económicas, de investimento, fiscais, salariais, etc., desde que mantenha a qualidade da matéria-prima, transporte os seus equipamentos para o novo local, assegure um rigoroso controlo da produção e dê a formação adequada aos que nela trabalham. Já com um hotel tal dificilmente acontecerá, pois não só o investimento na infra-estrutura é incomensuravelmente superior e complexo como, bem mais importante, o mesmo é planeado tendo em linha de conta a sua inserção numa determinada localização e considerando os demais activos turísticos que o rodeiam (naturais, patrimoniais, culturais, sociais, etc.) e dos quais interdepende umbilicalmente, já que são eles que o fazem ter mercado. É por isso que um hotel de cidade difere de um de praia e cada um destes, por sua vez, de um de neve. E é igualmente por isso que se diz que no turismo a oferta (leia-se produto/activo turístico) não é passível de deslocalização.

E não o sendo, tal quer dizer que o investimento, os postos de trabalho e a riqueza que geram, também o não são!

Finalmente – e muito mais haveria para dizer –, nem sempre são tidos em atenção (e consideração) os importantíssimos efeitos multiplicadores que o turismo induz nas demais áreas da economia, em virtude de cada activo turístico e cada turista provocarem a aquisição e o consumo de um sem número de produtos e serviços que, transversalmente, dinamizam e estimulam as demais actividades económicas (dos tijolos ao cimento para a construção de um hotel ou dos produtos alimentares à simples compra de uma revista adquirida por alguém que nos visita, para não nos alongarmos na ilustração).

Em conclusão, somos de opinião que a actividade turística carece de ser melhor conhecida e estudada, precisa de aprender a comunicar com maior eficácia enfatizando quer as suas especificidades, quer sublinhando que o que acontece no Mundo nela tem reflexos directos e objectivos, que Portugal ainda tem um longo caminho a percorrer no que respeita à afirmação do turismo e ao seu desenvolvimento sustentável e, cremos tê-lo demonstrado, embora de forma sucinta, que o turismo é tão ou menos volátil do que qualquer outra área da economia. Aliás, só isso justifica que todas as previsões o apontem como a actividade que maior desenvolvimento irá ter nas décadas mais próximas e a única que crescerá, consistentemente, acima da média da economia mundial.

Assim tivessem todas as actividades a mesma “volatilidade” do turismo e certamente que a economia, em geral, e a nossa em particular, estaria bem mais pujante.

 

Turisver.com – O património cultural e histórico mundial ficou mais pobre com o incêndio que destruiu o Museu Nacional do Rio de Janeiro. O Brasil e Portugal, pela sua ligação histórica, são os países que mais sentem esta perda de um acervo histórico não recuperável. Na sua opinião, também o turismo sofre uma perda irreparável?

Atilio Forte – Este recente incêndio que reduziu a cinzas o espólio do Museu Nacional do Rio de Janeiro – a mais antiga instituição científica do Brasil e um dos maiores de História Natural e Antropologia do continente americano – pode ser considerado como uma enorme tragédia não apenas para o “país irmão”, mas para todo o “Mundo Lusófono”. E, nesse sentido, é também uma perda irreparável para a actividade turística dado ser um ponto importante de visita da “cidade maravilhosa” para os milhares de turistas que por lá passam.

Ultrapassado o choque e absorvido o vazio cultural e civilizacional gerados, esta grande perda deve obrigar-nos (a todos e não apenas aos brasileiros) a reflectir sobre o valor de bem preservar e cuidar do nosso património e da importância que tem garantirmos o perpetuar da nossa herança histórica, para que, tal como nós, aqueles que nos sucederem também com ela possam aprender e dela usufruir.

Infelizmente, muitas (demasiadas mesmo!) são as vezes e os acontecimentos que levam a que só o sentimento de extinção nos possibilita dar o devido valor ao que já não temos e que para sempre perdemos. É nesses momentos que, pela pior das razões, compreendemos que afinal aquele museu (podia ser qualquer outro) não era apenas uma responsabilidade da UFRJ – Universidade Federal do Rio de Janeiro, mas de todos os brasileiros, de todos os portugueses, de toda a comunidade lusófona e, no limite, de toda a Humanidade.

E, uma das grandes lições que daqui devemos retirar é que nenhuma restrição orçamental, nenhuma medida de poupança, justifica o pôr em risco a memória e a herança de um povo.

Agora, resta-nos confiar na comunidade científica e nos esforços que certamente fará para, na medida do possível, reconstituir e recuperar os acervos perdidos – na certeza que jamais voltaremos a estar na presença dos originais –, e esperar que (mais) este triste exemplo nos tenha servido de lição e, simultaneamente, de ponto de partida para que tenhamos e demonstremos uma maior preocupação e motivação para com o nosso património. O turismo certamente que nos agradecerá. Mas a nossa consciência e os que depois de nós vierem e viverem agradecer-nos-ão muito mais.

 

O + da Semana:

 

As alterações climáticas provocadas pela diminuição da camada de ozono, pela poluição e por um sem número de factores que interferem com as condições de habitabilidade da nossa “casa comum” são, como ficou amplamente consensualizado nos Acordos de Paris (Dezembro de 2015), uma das maiores preocupações da Humanidade, já que se nada for feito para melhorar a “saúde do Planeta Azul” a vida das várias espécies que habitam a Terra (incluindo a humana) sofrerá alterações radicais (e dramáticas) que poderão, a prazo, pôr em causa a sua própria existência, pelo menos da forma como a conhecemos. Faz por isso sentido que todos (empenhadamente) procuremos dar o nosso contributo – por mais insignificante que ele possa parecer – para estancar esta espiral de autodestruição por que enveredámos. Ora, numa semana em que tanto ouvimos falar na redução dos preços dos passes sociais dos transportes públicos (em Lisboa e no Porto) como forma de promover a sua utilização e diminuir os índices de poluição nos grandes centros urbanos e, simultaneamente, melhorar a qualidade de vida das populações, é bom recordar o que muitos já estão a fazer. Assim, desde 1 de Janeiro de 2013 que Talin (Estónia) é a primeira capital europeia onde os transportes públicos são gratuitos; em Fevereiro deste ano, o Governo Alemão anunciou que até ao final de 2018 vai testar idêntica medida em 5 cidades (Bona, Essen, Herrenberg, Reutlingen e Mannheim), com o objectivo de a alargar a todo o país, caso os resultados sejam animadores; o País de Gales (Reino Unido) está a fazer um teste semelhante, mas (ainda) apenas aos fins-de-semana; em França, a cidade de Niort desde Setembro de 2017 que segue o exemplo de Talin, Dunquerque anunciou ir dar-lhe início este mês e Paris tomará uma decisão até ao final do ano; Seul (capital da Coreia do Sul, que é o país da OCDE – Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico com pior qualidade do ar) vai fazê-lo nas “horas de ponta” e nos dias de maior índice de poluição do ar; e poderíamos continuar referindo Zagreb (Croácia), Sidney (Austrália), Changning e Changzhi (China), Hasselt (Bélgica), Silva Jardim (Brasil) … Isto significa que, bem mais cedo do que pensamos e para além da preservação ambiental do Planeta, este também será um “argumento de atractividade turística”, pelo que aqueles que o tenham à disposição não hesitarão em utilizá-lo e promovê-lo, dado terem consciência que tal lhes trará dividendos junto dos potenciais turistas.