iTurismo: Açores Destino Sustentável, por Atilio Forte

Os destaques do comentador Atilio Forte no iTurismo desta semana vão para a sustentabilidade do destino turístico Açores, e para o anúncio, pelo Governo, do lançamento já este mês do Programa Best para capacitar gestores e empresários na área do turismo.

Tópicos da Semana: 

  • Turistas chineses já procuram por experiências mais imersivas: A fazer fé nas palavras do responsável máximo da JLL Strategic Consulting em Pequim, os turistas chineses que até aqui sempre revelaram mais apetência pelos destinos de maior nomeada começam, lentamente, a manifestar um crescente desejo e procura por experiências e emoções mais intensas e únicas, traduzidas na busca de paisagens diferentes, em estadas em hotéis boutique ou, mesmo, na realização de viagens e “escapadinhas” que lhes dêem um sentimento de evasão.
  • “Influenciadores” do Instagram ajudam na promoção turística: O marketing de influência na rede social Instagram está a tornar-se uma opção cada vez mais popular entre as empresas turísticas, considerando que vivemos numa época em que as pessoas partilham o seu quotidiano online, situação que resulta numa maior propensão para os utilizadores tomarem decisões sobre os destinos, produtos e serviços turísticos que adquirem baseados no que os seus amigos e seguidores e vão “postando” e comentando e no que vão sugerindo as personalidades que admiram.
  • Cadeia irlandesa Dalata vai continuar a apostar no Reino Unido: De acordo com informações vindas recentemente a público, o Dalata Hotel Group – a maior cadeia hoteleira irlandesa – mantém o seu ambicioso plano de expansão dentro do Reino Unido, apesar da eventual turbulência causada pelo Brexit. No entender do seu Presidente Executivo não é expectável uma rápida e/ou completa separação da União Europeia, daí que mantenha a aposta em abrir, até 2021, oito novos hotéis.

 

Comentário

 

Turisver – Após a liberalização do espaço aéreo em 2015, os Açores têm vindo a registar grandes crescimentos. Tendo em consideração que a preservação ambiental é a imagem de marca dos Açores, pensa que este crescimento poderá colocar em causa a sustentabilidade do destino?

 

Atilio Forte – A propósito do desenvolvimento turístico dos Açores, já aqui tivemos oportunidade de analisar que na génese do mesmo esteve o conjugar de duas grandes ordens de razões: a primeira, referida na pergunta, ficou a dever-se à liberalização do transporte aéreo para o Arquipélago, que tornou (muito) mais fácil e acessível aí chegar; e, a segunda, está relacionada com as alterações comportamentais dos consumidores que passaram a colocar a sustentabilidade dos destinos, nomeadamente a sua preservação ecológica e ambiental e a (boa) articulação entre estas e os activos turísticos existentes, no topo das suas prioridades e preferências.

Sem qualquer ponta de favor, podemos ainda considerar um terceiro aspecto que concorreu para este desiderato que é o que decorreu da percepção ou se se quiser do ganho de consciência por parte de todos os agentes turísticos – públicos e privados – das incomensuráveis vantagens que tinham (e têm!) em preservar a genuinidade e autenticidade que os Açores ofereciam, e que só se tornou possível graças a uma grande conjugação de esforços, partilha de responsabilidades e comunhão de objectivos, por forma a bem gerir o previsível aumento de fluxos turísticos que daí resultou sem que alguma vez, ou de algum modo, fosse posta em causa a sua sustentabilidade enquanto destino (essencialmente) de natureza.

Não obstante o sucesso que o turismo tem vindo a alcançar, bem demonstrado e sustentado nos crescimentos verificados ano após ano, uma análise sumária à carga turística existente permite-nos comprovar que, por um lado, ela tem sido bem gerida e, por outro lado, que ainda estamos longe – muito longe mesmo – de poder considerar que os Açores estão no limiar da saturação turística e, consequentemente, de serem alvo dos “malefícios” que daí poderiam advir.

Se atentarmos bem, à excepção da denominada “Época Alta” (sobretudo nos meses de Julho e Agosto) e quase exclusivamente em Ponta Delgada (São Miguel) e Angra do Heroísmo (Terceira), constatamos a presença de uma forte sazonalidade que não só afecta estas duas Ilhas fora desse período como, também, um enorme potencial de progressão turística nas demais sete, o que tem um duplo significado, ou seja, que a margem de crescimento do destino no seu todo é bastante grande e, com igual importância, que o inestimável contributo que a actividade turística pode dar à economia açoriana está apenas num estado de desenvolvimento (quase) embrionário.

Contudo, não podemos ignorar que o turismo também tem detractores que apenas o vêem como uma actividade predatória dos recursos (naturais, patrimoniais, etc.) e da qualidade de vida das populações locais, esquecendo-se da riqueza que cria, dos empregos que gera, da coesão territorial que proporciona, dos efeitos económicos que induz e das melhorias que motiva no quotidiano das vilas e das cidades, das regiões e dos países.

Mas, mesmo para os mais cépticos, ou para aqueles que amiúde não hesitam em agitar as “bandeiras” da turistificação e da turismofobia, acreditamos que o cuidado que os Açores têm vindo a pôr quer na gestão e preservação da sua oferta turística, quer nas medidas preventivas que têm tomado para acautelar o seu património cultural e natural – dos governantes aos habitantes, passando pelos empresários –, lhes dão todas as garantias quanto à sustentabilidade futura do Arquipélago, seja enquanto destino turístico, seja como território seja, ainda, quanto a não beliscar, quanto mais delapidar, a herança do seu povo construída com tanto labor e em íntima comunhão com a natureza, ao longo dos séculos.

Para prová-lo recordamos dois exemplos, plenos intenção… e de consciência turística:

Um relacionado com a implementação de limites de carga em determinadas áreas protegidas que as autoridades açorianas colocaram em prática desde o passado dia 1 de Julho, visando uma melhor gestão de zonas sensíveis, sem que tal afectasse a sua fruição, como são os casos do estabelecimento de tectos diários ao número de visitantes com acesso: ao Vulcão dos Capelinhos e à Reserva Natural da Caldeira, na Ilha do Faial; aos Ilhéus da Praia e de Vila Franca do Campo, respectivamente, nas Ilhas Graciosa e de São Miguel; ou, para não sermos exaustivos, à Reserva Natural da Montanha do Pico – o ponto mais alto de Portugal, situado a 2.351 metros de altitude –, na Ilha do Pico.

Vale a pena que aqui abramos um parêntesis para saudar a coragem destas medidas e, sobretudo, para sublinhar que muitos outros locais, monumentos e regiões do nosso país as deveriam estudar e eventualmente aplicar, à semelhança daquilo que já é feito em inúmeros sítios no estrangeiro.

Feito este “à parte”, falemos agora do outro exemplo, o qual está ligado à apresentação da candidatura para certificação como região turística sustentável, pelo Global Sustainable Tourism Council, que poderá ocorrer já no próximo ano, e que a ser aprovada fará dos Açores o primeiro Arquipélago do Mundo a obter semelhante qualificação, para a qual é necessário o preenchimento de um vasto conjunto de requisitos e, bem mais importante, sendo os mesmos objecto de auditoria anual para eventual renovação, o que quer dizer que conforme o “título” é conquistado também pode ser perdido, caso não exista um compromisso constante no assegurar da sua manutenção por parte de todos os actores.

Em conclusão, e como cremos ter devidamente explicitado, os Açores são um destino em que a totalidade dos seus agentes turísticos (e não turísticos, mas que entendem na perfeição a importância da actividade) vive com uma permanente obsessão. Uma obsessão saudável, que diariamente procuram tornar em desígnio: promover o crescimento e o desenvolvimento do turismo e, simultaneamente, preservar e garantir (a todos os níveis) a sustentabilidade do Arquipélago!

 

Turisver – No encerramento do 30º Congresso Nacional da Hotelaria e Turismo, que decorreu a semana passada em Lisboa, a Secretária de Estado do Turismo anunciou que o Governo vai lançar já este mês o Programa Best, um programa de capacitação de gestores e empresários na área do turismo. Este programa visa capacitar gestores e empresários em áreas como competências digitais, de planeamento e de gestão da inovação e de novos produtos. Como encara a criação deste programa?

 

Atilio Forte – Como é do domínio comum um dos maiores desafios com que o turismo nacional se confronta é o da formação, qualificação e permanente actualização dos seus recursos humanos, pois só desse modo poderá dar cabal resposta aos reptos da procura e da concorrência que a actividade enfrenta diariamente e prosseguir o caminho em direcção à melhoria da qualidade dos produtos concebidos e da prestação dos serviços disponibilizados.

Ora sendo o turismo uma actividade feita por pessoas e para pessoas, onde as empresas e os empresários desempenham um papel fulcral, faz todo o sentido que quem está na linha da frente do seu desenvolvimento, nomeadamente os proprietários, sócios, accionistas e gestores de topo, possam sistematicamente actualizar-se e mesmo percepcionar as enormíssimas vantagens que pessoalmente podem retirar de um maior investimento em acções de formação e qualificação profissionais e da importância que tal também tem para as equipas que lideram, tanto pelos conhecimentos por si adquiridos, como pelo ganhar consciência do quão decisivo é para qualquer organização possuir recursos humanos devidamente habilitados e que para o conseguir é preciso constantemente neles investir.

Assim, não hesitamos em saudar esta medida anunciada pelo Governo já que uma maior e melhor capacitação dos nossos empresários e gestores terá, seguramente, reflexos directos no desempenho do turismo nacional, como ficamos com a fundada expectativa que este Programa tenha uma expressiva dotação financeira e reúna uma enorme adesão por parte dos seus destinatários.

E dado que irá abranger áreas cruciais como o planeamento e a inovação e também será dirigido a gestores, esperemos que de igual forma conte com a presença daqueles que exercem esse tipo de funções no sector público – sejam elas políticas ou técnicas –, que tantas e tantas vezes são os principais responsáveis pelas decisões que afectam – positiva e negativamente – a actividade, para que também eles possam devidamente actualizar-se e/ou qualificar-se e adquirirem uma visão mais profunda e estratégica no que respeita à evolução futura do turismo, de modo que na sua acção não se limitem apenas à pura gestão do dia-a-dia ou da conjuntura, como acontece na maior parte das vezes, mas antes que lhes permita antecipar tendências e traçar políticas de fundo, isto é, com análises, objectivos e efeitos no longo prazo.

Se há actividades em que ninguém pode dizer que sabe tudo e onde se está constantemente a aprender, o turismo é seguramente uma delas. Mesmo quando se alcançou (ou se acha que alcançou) um modelo de negócio ou um produto de êxito, que gera riqueza e atrai clientes e, por isso, se julga que não é preciso continuar a inovar, a tentar fazer mais e melhor ou a conseguir ganhos de eficácia e eficiência. Nesse caso, está inexoravelmente a dar-se o primeiro passo em direcção ao definhamento o qual conduz, necessária e obviamente, ao insucesso.

E é esta postura, tão válida para o sector privado quanto para o sector público, que é preciso procurar contrariar. Por isso Programas com este são (sempre) bem-vindos!

 

O + da Semana:

No passado dia 14 o plenário do Parlamento Europeu aprovou o Quadro Financeiro Plurianual pós-2020 que contempla uma dotação orçamental de 330 milhões de Euros para apoio à actividade turística, medida e valor sem precedentes a aplicar durante um período de sete anos que visa, por um lado, aumentar a qualidade e a sustentabilidade dos destinos e, por outro lado, auxiliar o tecido empresarial a dar resposta aos desafios com que se depara. Será bom recordar que esta decisão contraria a proposta inicial de orçamento da Comissão Europeia facto que, naturalmente, aqui merece ser destacado e saudado, mesmo considerando que, anualmente, tal traduzir-se-á numa verba de pouco mais de 47 milhões de Euros, o que é manifestamente exíguo para estimular aquela que já é a terceira maior actividade económica da União Europeia, sendo responsável por cerca de 10% do Produto Interno Bruto (PIB) e 17 milhões de empregos dos 28.A proposta será agora objecto de análise por parte do Conselho Europeu, Órgão eminentemente político, composto pelos Chefes de Estado e de Governo dos Estados-Membro da União, pelo Presidente da Comissão Europeia e pelo Presidente do Conselho Europeu, havendo natural expectativa na consumação da sua aprovação que, caso venha a suceder, será interpretada como uma mensagem inequívoca de aposta no crescimento e desenvolvimento sustentáveis do turismo.