iTurismo: “Açores: A Herança”, por Atilio Forte

As próximas eleições para o Governo Regional dos Açores e a III Cimeira do Turismo Português realizada pela CTP no Dia Mundial do Turismo são os temas que constituem o comentário semanal de Atilio Forte. No iTurismo de hoje “O + da Semana” vai para a decisão dos operadores turísticos, tomada no seio da APAVT, de ressarcirem os clientes afectados pela greve dos funcionários de segurança dos aeroportos nacionais.

Tópicos da Semana:

  • Médio-Oriente cada vez mais “central”: Repetidamente vimos dando notícias acerca desta nova “centralidade” turística em que o Médio-Oriente se vem tornando. As excelentes acessibilidades aéreas têm permitido um desenvolvimento sustentável de outros sectores importantes na cadeia de valor do turismo, principalmente aqueles com investimentos mais “pesados”, como a hotelaria. A curto/médio prazo irão abrir na região 541 (!) novos hotéis, 180 dos quais nos Emirados Árabes Unidos e 134 na Arábia Saudita.

 

  • Um hotel dentro de um hotel: Este é o novo conceito vencedor que a Four Seasons, uma das mais emblemáticas cadeias hoteleiras do Mundo, começou a implementar. O “projecto-piloto” foi levado a cabo na sua propriedade localizada em Maui, no Havaí, que passou a incorporar 26 novos quartos e suites todos situados num mesmo andar, com entrada, espaços, serviço, comidas e bebidas exclusivos, exponenciando o grau de personalização e atenção dado aos clientes. Este (já garantido) sucesso advém da taxa de repetição dos hóspedes: uns incríveis 80%.

 

  • A arte distingue: Uma das últimas grandes tendências usadas no segmento do alojamento de luxo para escapar à estandardização é a compra e incorporação – com exposição – de obras de arte (verdadeiras!) nos hotéis com capacidade financeira para as adquirirem, de modo a fazerem sobressair a sua exclusividade, a sublinharem os seus factores de diferenciação e, claro, também para agradarem aos seus “abonados” clientes.

 

Comentário

Turisver.com – As eleições para o Governo Regional dos Açores são já dia 16 de Outubro. A política de liberalização de rotas para Ponta Delgada, que se irá estender à Ilha Terceira, tem dinamizado a procura turística em todo o arquipélago e gerados novos investimentos. Na sua opinião o trabalho desenvolvido será um “pesado fardo” para o Executivo açoriano que sair destas eleições?

Atilio Forte – Do nosso ponto de vista esta é uma das situações que qualquer Governo gostaria de herdar, já que a dinâmica revelada pelo destino Açores, muito motivada pela liberalização do transporte aéreo, tem conduzido a um aumento progressivo do investimento, à criação de novos empregos, empresas e oferta, apresentando resultados visíveis que se vêm traduzindo numa subida generalizada de todos os indicadores turísticos da Região.

Por estas razões, a actividade turística assume-se cada vez mais como um desígnio incontornável para o desenvolvimento económico e social do arquipélago e importante factor da sua coesão territorial.

Dito isto, somos de opinião – para usar a expressão contida na pergunta – que este “fardo só se tornará demasiado pesado”, se o Governo que resultar do próximo acto eleitoral não der continuidade ao trabalho que vem sendo desenvolvido – independentemente de qual seja o Partido Político vencedor – ou “tiver mais olhos que barriga” (para usar outra expressão popular), pondo de lado a sustentabilidade do destino e, consequentemente, o seu compromisso com a natureza, em nome ou na mira de um mais acelerado crescimento turístico.

Em diversas ocasiões já aqui expressámos as cautelas que os Açores precisam tomar para que o seu desenvolvimento turístico não caia na tentação da “massificação”, que corromperá aqueles que são os factores diferenciadores da sua oferta global, destruindo tudo o que de bom tem vindo a ser feito, tanto pelo sector privado, como pelo público.

Como também alertámos para o virtuosismo em juntar, debaixo da mesma Tutela, as pastas do turismo e dos transportes, nomeadamente a aviação, sector hoje em dia essencial do e para o turismo, pois é nele que reside a resposta para a primeira pergunta que qualquer consumidor se coloca aquando da escolha do destino para onde pretende viajar: “como é que lá chego?”.

Em conclusão, e independentemente do resultado eleitoral do próximo dia 16 de Outubro, acreditamos que os Açores, no que ao turismo respeita, continuarão a trilhar o caminho do desenvolvimento sustentável, mantendo uma completa harmonia no processo decisório, através da partilha de responsabilidades entre os actores públicos e privados, defendendo e preservando sempre o seu património natural, afinal a mais “pesada” de todas as heranças e a única que verdadeiramente é determinante para o futuro da actividade turística naquela Região Autónoma.

 

Turisver.com – A CTP – Confederação do Turismo Português realizou, no Dia Mundial do Turismo, a 3ª Cimeira do Turismo. Sei que esteve presente por isso pedia-lhe que fizesse uma análise a este encontro que teve por objectivo contribuir para uma reflexão séria e construtiva sobre o turismo.

Atilio Forte – Do nosso ponto de vista a CTP foi extremamente feliz na forma que encontrou para celebrar este Dia Mundial do Turismo, pois com a realização desta Cimeira conseguiu um tríplice objectivo:

Em primeiro lugar, concentrar as atenções mediáticas na importância estratégica do turismo para o desenvolvimento do nosso país e, através dela, sensibilizar ainda mais a sociedade portuguesa, ou seja, a opinião pública, para este facto;

Em segundo lugar, mobilizar os mais importantes actores políticos nacionais – Presidente da República e Primeiro-Ministro –, entre muitas outras personalidades externas à actividade, envolvendo-os e comprometendo-os com a “causa” do turismo;

Em terceiro lugar, mas nem por isso com menor ênfase, sublinhar o seu papel enquanto organização proeminente da chamada sociedade civil, assumindo as responsabilidades que o estatuto de Parceiro Social lhe confere.

A actualidade dos temas escolhidos para os diferentes painéis é outro aspecto que merece ser destacado, quer pela qualidade e “peso” dos oradores e moderadores, quer pela sensação de “saber a pouco” com que os presentes ficaram no final de cada módulo.

E, foi neste ponto, que residiu o factor não tão positivo do evento, aliás comentado por muitos dos participantes, uma vez que qualquer dos assuntos abordados merecia que lhe fosse dedicado mais tempo, como ainda que houvesse a possibilidade de intervenção por parte da plateia a qual, embora não sendo muito alargada, era altamente qualificada e, por isso, poderia ter enriquecido ainda mais os conteúdos. Mas, como o próprio nome do encontro dizia, tratava-se de uma Cimeira e não de uma reunião de outra índole, como por exemplo um Congresso, aceitando-se desse modo a opção tomada, tal como a ausência de conclusões.

Em jeito de balanço, e como é referido na pergunta, realizou-se uma reflexão séria e construtiva sobre o turismo, que dignificou a actividade e a Confederação e à qual nem sequer faltou uma micro manifestação promovida pela CGTP – IN (Confederação Geral dos Trabalhadores – Intersindical Nacional) para “abrilhantar” o evento.

 

O + da Semana:

No final da passada semana foi notícia a decisão tomada no seio do Capítulo dos Operadores Turísticos membros da APAVT – Associação Portuguesa das Agências de Viagens e Turismo, em ressarcirem os clientes afectados pela greve dos funcionários de segurança dos aeroportos nacionais ocorrida há algumas semanas que, como é sabido, fez com que muitos passageiros se vissem impossibilitados de viajar. Nessa sequência irão ser-lhes entregues “vouchers”, com validade de um ano, no montante igual à parte dos serviços não utilizados (que em muitos dos casos corresponde ao preço integral da viagem), numa acção cujo valor total estima-se que ascenda ao meio milhão de euros. Se a memória não nos atraiçoa, desde a criação da figura do “Provedor do Cliente” que não assistíamos a uma decisão com tamanha magnitude, quer na credibilização do sector junto dos consumidores que recorrem às Agências de Viagens, quer com tão grande impacto positivo na imagem das empresas associadas da APAVT. Enquanto outras entidades directamente envolvidas e com responsabilidades objectivas no sucedido “sacudiram a água do capote”, a APAVT e as suas associadas defenderam os interesses dos clientes e (inteligentemente) o seu próprio negócio. E, por isso, temos a certeza que serão não apenas reconhecidas como, a prazo, sairão claramente beneficiadas.