iTurismo: Água É Vida, por Atilio Forte

No iTurismo de hoje, Atilio Forte tece comentários sobre o problema da seca em Portugal, consequência das alterações climáticas que estão a agravar-se detendo-se no modo como o turismo e o país estão a lidar com a situação, para sublinhar que a actividade turística está a fazer a sua quota-parte no sentido de se tornar mais sustentável. As previsões de crescimento do turismo na Europa e em Portugal divulgadas pelo WTTC, são outro tema em análise.

 

Tópicos da Semana:

  • Maiores cadeias hoteleiras são as principais responsáveis pelo aumento da oferta: De acordo com o “Global Construction Pipeline Trend Report” publicado no início do mês de Março de 2019 pela consultora imobiliária internacional especializada no sector do alojamento Lodging Econometrics, as cadeias hoteleiras Marriott International, Hilton Hotels & Resorts, IHG – InterContinental Hotels Group e AccorHotels contabilizaram mais de metade do número de quartos em construção em todo o Mundo, durante o ano passado.

 

  • Primeiro hotel subterrâneo construído na China… numa pedreira: Já abriu o luxuoso hotel InterContinental Shanghai Wonderland, que conta com 336 quartos construídos ao longo da escarpa de uma pedreira abandonada e 16 das 18 lojas que compõem a sua zona comercial localizadas debaixo da lagoa que tradicionalmente se forma neste tipo de locais, facto que o torna no primeiro hotel subterrâneo do Mundo. Resta acrescentar que esta “novidade” do turismo industrial está localizada a cerca de 50 quilómetros da cidade de Xangai.

 

  • Viver a reforma em Portugal: Um artigo publicado recentemente pelo jornal espanhol El Mundo elege os cinco melhores destinos do Planeta para se viver após o final da vida activa, tendo em conta o custo de vida e a segurança, onde o nosso país aparece a par da Costa Rica, do Panamá, do Peru e da Tailândia. Ressalve-se que neste importante elenco Portugal é o único país europeu que aí figura.

 

 

Comentário

 

Turisver.com – Pode considerar-se que Portugal está a viver uma crise de água, os solos estão a ficar mais secos e as barragens com níveis abaixo do normal para a época, tal como o caudal dos rios e, segundo os especialistas, esta situação tende a agravar-se. No seu entender, como deve o país e o sector do turismo em particular reagir a esta situação?

Atilio Forte – Sem dúvida alguma que esta é uma questão da maior actualidade e pertinência e que, infelizmente, ultrapassa em muito o domínio do turismo ou do nosso país, já que está directamente ligada com as alterações climáticas que a Terra vem sentindo como consequência do aquecimento global, situação deveras preocupante e cujas medidas atenuantes tardam em ser assumidas como verdadeiras prioridades à escala planetária.

Entretanto, constatamos que a cada ano que passa mais frequentes e violentas catástrofes naturais vão-se sucedendo, causando mortes, devastação e sofrimento, desequilibrando habitats e pondo em risco a sobrevivência de todas as espécies vegetais e animais, incluindo a humana. É o protesto e a revolta da Natureza contra o que a Humanidade lhe tem feito e, acima de tudo, contra o comodismo e a recusa em alterar muitos dos seus comportamentos, persistindo em caminhar alegremente em direcção ao cadafalso.

Feita esta breve introdução, centremo-nos no que mais directamente ao nosso país respeita sendo que convirá começar por recordar o referido no último Boletim Climatológico do IPMA – Instituto Português do Mar e da Atmosfera que qualifica o Inverno que acaba de findar como o quarto mais seco deste século – a seguir aos de 2012, 2005 e 2000 –, fazendo com que Portugal esteja numa situação de seca meteorológica em todo o território (particularmente a Sul), característica que se verifica quando tem lugar uma precipitação abaixo do que é normal e que é a categoria menos gravosa dos quatro estados de seca. Os demais são, por ordem crescente de gravidade: a seca agrícola, quando se nota deficiência na quantidade de água existente no solo; a seca hidrológica, quando a água principia a escassear nas barragens; e, por fim, a seca socioeconómica, quando a falta de água começa a atingir as populações.

Como facilmente se depreende, não é preciso muito para que estas várias etapas se vão sucedendo, sendo suficiente a conjugação da ausência de chuva com o aumento das temperaturas o que, se atentarmos à tendência do verificado nos tempos mais recentes, é algo com elevadíssima probabilidade de voltar a acontecer. E com isso reincide-se naquilo que em anteriores comentários já aqui denominamos por “Época dos Fogos”, de tão triste e má memória para o país, sobretudo após as tragédias dos dois últimos anos.

Escusado será dizer que do ponto de vista da actividade turística a diminuição dos caudais dos rios e dos níveis das barragens prejudica claramente o turismo fluvial e náutico (nas suas múltiplas vertentes), altera substancialmente a paisagem (presentemente já há partes do Tejo – o maior rio da Península Ibérica – que podem ser atravessadas a pé!), abala os ecossistemas, enfim, transforma Portugal num país totalmente diferente e menos atractivo.

Mas não só. A tudo isto acresce tanto um maior risco de incêndios de grandes proporções em plena “época alta” que, entre outros reflexos, afugenta fluxos turísticos (internos e externos), como um aumento da possibilidade de eventuais cortes ao normal abastecimento de água – transtornando a laboração habitual das empresas e o lazer dos turistas – e ainda, numa situação mais extrema, dificulta ou impossibilita a produção de géneros alimentares o que encarece o destino, pois os mesmos só poderão ser supridos com recurso à importação.

Tendo plena noção dos nefastos efeitos que tudo o que descrevemos pode provocar no normal desenrolar da operação turística, vale a pena aqui enfatizarmos o esforço que o tecido empresarial do turismo tem vindo de há muito a efectuar, seja através do aproveitamento das águas pluviais ou do tratamento das águas residuais para outras finalidades, de entre as quais se destaca a rega dos campos de golfe, seja de campanhas como a iniciada em 2018 pela AHP – Associação da Hotelaria de Portugal sob o mote “We Care About Water”, com o objectivo de promover junto dos seus associados e dos hóspedes destes as melhores e mais eficientes práticas de preservação deste recurso natural cada vez mais escasso que é a água, seja ainda de todo um conjunto de medidas de protecção ambiental e sustentabilidade ecológica que, desde a década de ’80 do século passado, têm vindo a ser paulatinamente introduzidas, e de que a abolição das palhinhas de plástico é o exemplo mais recente.

Ora, se o turismo tem feito e cumprido com “a sua quota-parte” nesta missão, não se entende porque é que outros não lhe têm seguido o exemplo, nomeadamente o Estado, nas suas diversas representações (Central, Regional e Local) que, a par da prevenção e da sensibilização da população no que respeita aos incêndios deveria, igualmente, já ter posto em marcha uma campanha de consciencialização para a necessidade de poupança de água, antecipando e minorando por essa via qualquer cenário menos favorável, e não ficando na (incerta) dependência de uma possível confirmação do ditado popular “Abril, águas mil”…

Não obstante tudo o que foi mencionado, é preciso termos bem presente que 97% do total de água que existe na Terra é salgada, o que deixa apenas 3% como doce e uns singelos 0,6%(!!!) com a condição de potável o que, como a ONU – Organização das Nações Unidas oportunamente alertou (e bem!), pode vir a colocar-nos nas décadas mais próximas perante um colapso mundial no que toca ao abastecimento de água, quer devido ao crescimento da população, quer pelo aumento da poluição e contaminação dos recursos hídricos naturais.

Isto significa que devemos olhar a água como um bem escasso, precioso e essencial para a existência de vida na “nossa casa comum”. Por esta razão não admira que muitos já a designem por “ouro branco do século XXI”.

Portanto, se é verdade que o papel das organizações internacionais e nacionais e dos Governos dos diferentes países é importante como acabámos de ver, não menos verdade é a forma criteriosa como todos e cada um de nós deveremos usar este recurso cada vez mais raro. Para ilustrar esta afirmação e para que melhor possamos reflectir sobre os nossos comportamentos e os pequenos gestos que fazemos no quotidiano, aos quais nem sempre atribuímos o devido valor, recorde-se o que relatam inúmeros relatórios da UNICEF – United Nations International Children’s Emergency Fund: “cerca de 20.000 crianças morrem anualmente por falta de água potável, enquanto muitas pessoas fazem a barba ou lavam os dentes com a torneira aberta ou, simplesmente, gastam meia hora num banho que poderia ser tomado em 15 minutos”.

Em conclusão, e porque todos temos responsabilidade no maior ou menor contributo que damos, é urgente e vital que comecemos a cuidar melhor do “Planeta Azul” e dos recursos que ele nos oferece e que garantiram que chegássemos até aqui, nunca nos esquecendo do compromisso que temos para com as gerações vindouras, pois o seu futuro depende, em grande parte, do que hoje formos capazes de fazer. E uma coisa é certa: não haverá amanhã sem água, porque ela é fonte de vida!

 

Turisver.com – O World Travel & Tourism Council (WTTC) estima que, este ano, o sector do turismo na Europa irá crescer 2,5%, ao mesmo tempo que para Portugal a previsão do WTTC aponta para  um crescimento de  5,3%, ou seja, mais do dobro da média europeia. Que leitura faz desta previsão?

Atilio Forte – Em nossa opinião, e apesar de poder parecer excessivamente optimista, esta previsão está em linha do que ao longo das nossas análises temos vindo a projectar, uma vez que deve tomar-se em consideração que os Relatórios efectuados por esta entidade, que reúne as maiores empresas da actividade a nível mundial, consideram sempre e de forma cumulativa os efeitos directos, indirectos e induzidos provocados, ou se se quiser gerados, pela actividade económica do turismo.

Isto quer dizer que para além da contabilização das receitas directas que decorrem exclusivamente da dinâmica turística – gastos em hotéis, restaurantes, transportes, etc. – e que são realizadas pelos turistas, entram também para “esse bolo” os proveitos indirectos, ou seja, os provenientes dos investimentos efectuados – por exemplo a construção de hotéis, ou a compra de aviões –, tal como todos os que são induzidos na economia, como sejam as despesas levadas a cabo por quem trabalha na actividade turística – já que elas decorrem dos salários auferidos nas diferentes profissões turísticas.

Esta é a explicação pela qual não deve estranhar-se que o crescimento previsto pelo WTTC para o turismo nacional no corrente ano atinja um valor tão elevado, mesmo se tivermos em consideração quer o aumento da concorrência internacional, nomeadamente dos demais destinos mediterrânicos, quer a contracção do mercado britânico motivada pelas incertezas relacionadas com o “Brexit”, quer ainda o arrefecimento da economia europeia e mundial.

No entanto, e como se sabe, o único critério com validade e plena aceitação internacional é o da CST – Conta Satélite do Turismo, estabelecido pela Organização Mundial do Turismo (UNWTO) e acolhido pelos países que a integram, pois o mesmo proporciona a obtenção de dados fiáveis e comparáveis relativos aos diferentes destinos turísticos elaborados, por um lado, de acordo com os procedimentos contabilísticos que por aquele instrumento são definidos e, por outro lado, pelos organismos públicos responsáveis pela produção e divulgação da informação estatística oficial de cada Estado.

Para rematar, e cingindo-nos apenas aos números divulgados pelo WTTC, deve acrescentar-se que o turismo português cresceu 8,1% em 2018, sendo que a previsão para 2019 ascende (como é referido na pergunta) a 5,3%, ou seja, também nos valores adiantados por aquela entidade a desaceleração continua a ser visível, embora não preocupante.

 

O + da Semana:

 

De modo a minorar os transtornos provocados aos turistas nas fronteiras aeroportuárias nacionais, nomeadamente atenuar os tempos de espera, o SEF – Serviço de Estrangeiros e Fronteiras reforçou os principais aeroportos do país, desde a passada segunda-feira (dia 1 de Abril), com 55 novos inspectores que aí estarão em funções até ao final do mês de Setembro, procurando dar resposta ao tradicional e previsível aumento do fluxo de passageiros que acontece na chamada “época alta”. Assim, e durante o referido período, o aeroporto de Lisboa vai contar com 22 novos inspectores, o do Porto com mais 8, o de Faro com mais 20, o de Ponta Delgada com mais 4 e o do Funchal será reforçado de acordo com as necessidades diárias, sendo que pelas nossas contas e considerando o número total divulgado, apenas estará em causa a colocação pontual de mais 1 elemento. Naturalmente, esta é uma medida que se saúda. Mas, porventura a merecer maior destaque, é a anunciada intenção daquele serviço de segurança e órgão de polícia criminal em fazer com que este seja apenas um primeiro passo na melhoria da qualidade do serviço prestado nas fronteiras aéreas, já que é sua intenção proceder à incorporação de 45 outros elementos a partir de Dezembro de 2019, os quais, entre Junho e Setembro, exercerão funções tuteladas no Aeroporto Humberto Delgado, ajudando e contribuindo de alguma forma para também mitigar as graves deficiências que esta infra-estrutura aeroportuária tem vindo, neste particular, a manifestar durante o Verão.