iTurismo: Bicampeões do Mundo, por Atilio Forte

Pelo segundo ano consecutivo Portugal foi eleito como Melhor Destino Turístico do Mundo na Grande Final dos World Travel Awards. Esta distinção é destaque de Atilio Forte no iTurismo desta semana. O comentador aborda também o bom momento das relações entre Portugal e Angola que pode abrir portas ao investimento português naquele país africano, nomeadamente na área do turismo.

 

Tópicos da Semana:

 

  • Turistas cada vez mais atraídos pelas reservas de última hora: Um estudo realizado pela Hoffman York, uma das mais reputadas agências de publicidade americanas, veio provar que quase metade das pessoas que decidem viajar optam por reservas tardias, com o objectivo de aproveitarem os melhores preços. A título de ilustração refira-se que 44% dos inquiridos revelou efectuar as suas marcações com apenas duas semanas de antecedência relativamente à data da viagem e 50% afirma estar muito interessado em promoções de última hora.

 

  • Hoteleira dos Estados Unidos da América (EUA) bate recordes: De acordo com uma pesquisa efectuada pela consultora Co Star Portfolio Strategy a ocupação média homóloga (Setembro de 2017 a Setembro de 2018) nos hotéis dos EUA situou-se nos 66,7%, o que significa que foi a maior alguma vez registada. Este resultado terá ficado, em muito, a dever-se ao facto de, naquele período, o número de quartos ocupados ter aumentado 2,5%, enquanto o crescimento total da oferta se situou nos 2%.

 

  • Novo protocolo torna Wi-Fi mais seguro: O advento do “HTTPS – Hyper Text Transfer Protocol Secure” (protocolo de transferência de hipertexto seguro) veio tornar o uso do Wi-Fi público – do género que pode se encontrar nos aeroportos, hotéis e locais mais visitados das cidades – mais seguro para quem não dispensa a utilização deste recurso quando em viagem, já que o mesmo conta com uma camada adicional de segurança que permite que os dados sejam transmitidos por meio de uma conexão encriptada.

 

Comentário:

 

Turisver – Pelo segundo ano consecutivo Portugal foi eleito como Melhor Destino Turístico do Mundo na Grande Final dos World Travel Awards mas para Portugal e para as empresas turísticas vieram mais 16 prémios. Estas distinções, na sua opinião, podem ser a mais forte motivação para alcançarmos ainda melhores resultados económicos nesta actividade?

 

Atilio Forte – É da mais elementar justiça que comecemos o nosso comentário de hoje por enfatizar o orgulho que sentimos, a par de milhões de portugueses(as), pelo facto do nosso país ter conquistado o mais almejado “Óscar do Turismo” pelo segundo ano consecutivo, ou seja, por voltarmos a ser considerados o “Melhor Destino Turístico do Mundo”.

E, estamos certos, este é um êxito que todos os agentes turísticos – públicos e privados – sabem que se deve ao trabalho diário que cada empresa, cada organismo, cada profissional desenvolveu em prol da actividade mas, também, que só foi alcançado graças ao empenho e à mobilização, consciente ou inconsciente, de todo o país e das suas gentes, pois são os mais simples pormenores e os mais singelos gestos, que fazem a diferença, que transformam e tocam aqueles que nos distinguem com a sua visita, tornando-a numa experiência única e plena de emoções.

Como sempre dissemos, Portugal é um verdadeiro concentrado de diversidade capaz de materializar os sonhos e ir ao encontro das motivações e preferências dos turistas mais exigentes, sempre com um traço comum, a arte de bem receber, a nossa crescentemente reconhecida e afamada hospitalidade, essa forma sincera, genuína e fraterna de bem acolher “em nossa casa” os que por cá passam – do Corvo a Sagres, de Porto Santo a Bragança –, fazendo com que todos sem excepção sintam que neste território “à beira-mar plantado” há sol, mar, cultura, tradição, património, história, natureza, animação, gastronomia, golfe… mas, principalmente, gente, boa gente, um povo que consegue contrariar o Mundo distante, frio, individualista e, por vezes, errático em que vivemos, com calor humano, com solidariedade, com partilha, com a amabilidade de um sorriso ou com a disponibilidade imediata para ajudar indicando uma simples direcção.

Por tudo isto (e seguramente por muito mais!), este é um prémio que deve ser celebrado com alegria, porque tem um pouco de todos e de cada um, um quase nada que, afinal e no final, voltou a fazer a diferença, que nos levou a repetir o feito de há um ano e que prova, mesmo para os que maldizem o turismo, que este é uma actividade económica incontornável no e para o progresso de Portugal!

Para além desta enorme distinção é também justo e merecedor de destaque que se enalteçam os 16 demais vencedores nacionais da edição de 2018 dos World Travel Awards, alguns dos quais igualmente “repetentes”, já que permitiram que mais do que duplicássemos os 7 galardões obtidos no ano passado (recorde-se que em 2016 tínhamos “apenas” 4 “Óscares”) e que confirmam as nossas capacidades e qualidades em categorias tão diferentes como a Aviação, o Turismo de Aventura e Natureza, a Hotelaria, a Recuperação e Conservação do Património, Destino Insular e Citadino e Organismo Oficial de Turismo.

A título de curiosidade vale a pena referir que os “Óscares do Turismo” tiveram a sua primeira edição em 1994, mas só dois anos depois (1996) passaram a contar, entre outras, com a categoria de “Melhor Destino Turístico do Mundo”. Do restrito leque dos que já a venceram, onde Portugal se inclui (em 2017 e 2018), destacam-se: Paris (França, em 2002), Índia (em 2011 e 2012), Orlando (Florida, EUA, em 1996, 1997 e 2006), Las Vegas (Nevada, EUA, em 1998, 1999, 2000 e 2003), Londres (Inglaterra, em 2001, 2005, 2007, 2009 e 2010 e Dubai (EAU, em 2004, 2008, 2013, 2014, 2015 e 2016).

Assim, passado que seja este momento de euforia e o sentimento de dever cumprido, não temos dúvidas que esta distinção motivará todos quantos diariamente dão o melhor de si mesmos a esta fascinante actividade que é o turismo a quererem fazer mais, melhor e diferente, em prol das suas empresas e organizações, da economia nacional e do país, pois sabem que o sucesso só é atingível com muito trabalho e dedicação, com elevado sentido de responsabilidade e humildade.

Mas de igual modo têm consciência que essa é uma tarefa que não se esgota no universo turístico, uma vez que a competição saudável cresce a cada dia que passa e que terceiros cobiçam e anseiam alcançar (e ultrapassar) legitimamente o patamar a que chegámos, razões mais do que ponderosas para que rapidamente se superem os actuais estrangulamentos com que a actividade se debate, de que a construção do novo aeroporto complementar de Lisboa ou a qualificação dos recursos humanos e a valorização das carreiras e profissões turísticas são dos exemplos mais impressivos, e que em definitivo se acabe com a hipocrisia com que amiúde o turismo é tratado, nomeadamente pela classe política, que não hesita em colar-se aos seus êxitos mas na prática faz “ouvidos de mercador” às mais do que legítimas pretensões e sugestões daqueles que conhecem verdadeiramente e em profundidade a actividade, identificam os seus constrangimentos e desafios e para eles indicam caminhos e propõem soluções.

Como na semana passada aqui tivemos oportunidade de analisar estamos na alvorada de um novo ciclo que nos confrontará com questões tão vastas e importantes como a digitalização, a preservação ecológica e ambiental, a turistificação, a turismofobia e a gentrificação, as migrações e a evolução demográfica, o exacerbar dos nacionalismos, das tensões comerciais e políticas, para só referir algumas das mais emblemáticas. Mas, ao que tudo indica, entre tanta incerteza uma coisa manter-se-á constante: o crescimento do turismo.

Assim, será bom que aproveitemos este (excelente) momento para reflectir sobre com que “fatia” desse crescimento pretendemos ficar ou, dito de outra forma, o que é que podemos fazer – sobretudo aqueles que possuem o poder decisório entre mãos – pelo turismo português, para que consigamos ir um pouco mais além da mera gestão do quotidiano e para que nos consolidemos como destino líder “de” e “a” nível mundial na actividade turística.

Incontáveis vezes temos dito e afirmado que o turismo não é uma panaceia! Como jamais defendemos (ou defenderemos) uma economia quase exclusivamente assente na actividade e, portanto, vulnerável a quaisquer oscilações que a mesma possa ter. Pelo contrário. Quanto mais diversificadas forem as nossas fontes de criação de riqueza, maior pujança terá o turismo, ou não estivéssemos a referir-nos a uma das mais transversais áreas económicas que é das poucas que, simultaneamente, depende e estimula as demais.

Em síntese, (re)pensar (n)a actividade turística em Portugal mais do que um dever, é uma obrigação. No fim de contas temos de demostrar saber estar à altura das conquistas alcançadas. Pois essa é a maior das responsabilidades dos campeões. E Portugal é Bicampeão do Mundo… em turismo!

 

Turisver – As mudanças políticas em Angola estão a abrir portas ao investimento no país, nomeadamente na área do turismo. Na sua perspectiva, esta é uma situação a que as empresas portuguesas têm de estar atentas e que podem aproveitar?

 

Atilio Forte – Seguramente este será um dos temas ao qual, muito provavelmente, voltaremos em maior detalhe durante o próximo ano, atenta a eliminação do “irritante” (como tem sido comummente designado o mais recente período de arrefecimento nas relações entre Angola e Portugal) e, consequentemente, a fase de retoma da normalização do convívio político, diplomático e económico entre ambos os países, que neste momento atravessamos.

Uma lusofonia forte precisa, também, de laços fortes entre todos quantos integram o “mundo lusófono”, por isso é natural que este“novo tempo” possa vir a impulsionar a cooperação económica entre os dois Estados e, sobretudo, entre os seus tecidos empresariais.

Escusado será salientar o incontornável papel político, económico e social que Angola detém no continente africano onde, cada vez mais, irá desempenhar um papel estratégico no desenvolvimento de África, particularmente na região subsariana que, por sinal, é apontada – os dados já são claros – como uma das que conhecerá maior expansão turística ao longo das décadas vindouras.

Por seu turno, desde que entrou em funções o Governo de Angola tem demonstrado grande vontade em ultrapassar a difícil situação económica com que o país se vem deparando através de uma maior abertura ao sector privado, apesar de tal implicar a “saída” do Estado de algumas áreas consideradas vitais para a sua economia.

Ora, esta maior abertura à captação de investimento estrangeiro, a par da estabilização da situação interna, das projecções demográficas – que indicam um claro aumento da população – e da necessidade de uma maior diversificação das fontes de criação de riqueza e emprego vai, sem qualquer dúvida, abrir múltiplas oportunidades de negócio nas quais o turismo certamente terá um lugar cimeiro.

Estas são razões em que vale a pena reflectir – e eventualmente agir – sobretudo quando pensamos no desenvolvimento da actividade turística, não apenas enquanto grande promotora da compreensão entre os povos, mas igualmente como vocação natural de expansão das empresas portuguesas.

Assim sendo, e considerando o saber e o conhecimento turístico que existe actualmente em Portugal (não é em vão que voltámos a ser eleitos “Melhor Destino Turístico do Mundo”, como vimos na resposta à pergunta anterior), somos de opinião que um estreitar do investimento e da cooperação turísticas entre ambos os países e as suas empresas conduzirá a ganhos recíprocos que, posteriormente, poderão contagiar e beneficiar outros Estados lusófonos.

E, não resistimos em aqui o destacar, uma oportunidade concreta está em “cima da mesa” com o recente anúncio de abertura do capital da TAAG – Linhas Aéreas de Angola, por parte do Governo angolano (sendo que a Emirates já manifestou o seu interesse)… Considerando o papel determinante que a aviação tem no turismo actual, como tantas e tantas vezes aqui temos sublinhado, esta é uma possibilidade que teria de ser encarada com a maior seriedade e sobre a qual os empresários portugueses deveriam (pelo menos) ponderar.

Um outro sector onde rapidamente se poderia (deveria) actuar é o da formação – académica e profissional –, nomeadamente em turismo, pois qualquer empresa que decida investir em Angola, ou que já lá esteja e pretenda expandir-se, necessitará de mão-de-obra qualificada e pronta a entrar em funções. E, neste caso, até temos a facilidade da língua…

Portanto, a manter-se a actual trajectória nas relações entre Angola e Portugal seguramente oportunidades de cooperação e de negócio não faltarão. Assim os empresários de ambos os países saibam construir, também eles e entre eles, um relacionamento baseado na partilha de objectivos e na confiança recíproca.

 

O + da Semana:

De modo a dar corpo à estratégia de acolhimento de refugiados e migrantes que Portugal tem vindo a seguir e a uma melhor inserção na sociedade dos imigrantes integrados, o Turismo de Portugal anunciou que, com início em Janeiro do próximo ano, vai lançar uma iniciativa de formação, qualificação e capacitação profissionais especialmente dirigida a este público, denominada RefuTur, a qual conta com a parceria da Presidência do Conselho de Ministros e insere-se nos Programas desenvolvidos pelo Alto Comissariado para as Migrações. A primeira edição deste meritório projecto, a que aqui damos o devido destaque, irá decorrer nas Escolas de Coimbra e do Porto daquele Instituto Público, tendo por objectivo a criação de competências profissionais nos participantes por forma a habilitá-los a trabalhar nos sectores turísticos do alojamento e da restauração. Com 158 horas de duração e incluindo um estágio de um mês, a ter lugar em empresas da hotelaria e da restauração, pretende proporcionar-se aos formandos uma capacitação prática em contexto de trabalho. Com este Programa o nosso país dá mais passo no sentido de garantir melhores condições de vida e de inserção social a quem se viu obrigado a deixar as suas origens em busca de uma nova esperança e, em simultâneo, também dá um pequeno contributo para a atenuação da falta de mão-de-obra que manifestamente existe em algumas áreas da constelação turística.