iTurismo: Brincar Com o Fogo

O desconfinamento e o aumento de novos casos de Covid-19 na região de Lisboa e Vale do Tejo, no Alentejo e no Algarve, e o impacto negativo que esta situação pode acarretar para a actividade económica do turismo no momento em que esta está a reabrir, em que as várias regiões turísticas estão a investir em campanhas de captação do mercado interno e em que Lisboa foi eleita para receber a fase final das Champions, são temas em que Atilio Forte reflecte no iTurismo desta semana.

 

Ao longo das últimas semanas, desde que passámos do “estado de emergência” para o “estado de calamidade”, ou seja, a partir do momento em que se deu início ao desconfinamento, que aqui temos vindo a alertar para o aumento de novos casos de infecção por CoViD-19 que se têm registado na Região de Lisboa e Vale do Tejo e, para além dos reflexos mais óbvios em termos da saúde pública, de como esta situação acabaria por impactar na actividade turística, seja porque é em Lisboa que se encontra a principal porta de entrada em Portugal (aeroporto), seja pelo seu “peso” populacional e económico, que fazem com que muitas das deslocações internas, por e para todo o país, nela tenham a sua origem, o seu final ou ponto de passagem, facilitando e promovendo, embora inadvertidamente, a disseminação da doença seja, ainda porque, quase inevitavelmente, o que aí se passa tem uma maior repercussão mediática, sinónimo de maior eco além-fronteiras o que, naturalmente, pode – e está! – ser aproveitado e explorado pelos nossos concorrentes, num momento em que se prevê que os fluxos turísticos continuem escassos e onde quem consome tem como principal preocupação aquando da escolha de um destino as garantias sanitárias que este lhe pode oferecer.

Por estas razões, e sem pretendermos entrar em questões mais técnicas para as quais não estamos habilitados, parece-nos óbvio que tanto por parte das autoridades, quer de saúde pública, quer do Estado (Central, Regional e Local), como por parte dos cidadãos, o abrandamento das medidas de contenção e a paulatina retoma da normalidade possível foi interpretada com bastante ligeireza, parecendo nalguns casos que o vírus já tinha sido erradicado ou que um tratamento eficaz fora encontrado. Assistimos, assim, por um lado, a muita despreocupação e, por outro lado, a alguma irresponsabilidade (não há como fugir à palavra), que criaram confusão em muitos espíritos, fazendo-os perder a noção da diferença, perdoem-nos a linguagem, entre estar “mais à vontade” ou completamente “à vontadinha”!

Não espanta pois que ao longo da semana passada tenhamos testemunhado a eclosão de novos surtos noutros pontos do país, onde se julgava que tudo estava debaixo de controlo (como no Alentejo e no Algarve), ou que o número de “concentrações espontâneas” combinadas através das redes sociais, sobretudo pelos mais jovens, tenha aumentado drasticamente um pouco por todo o lado. Perante as imagens e os relatos jornalísticos do que sucedeu, bem que alguém pode tentar contrapor que o crescimento ou a manutenção do número diário de infectados em Portugal se deve ao facto de realizarmos mais testes do que a esmagadora maioria dos nossos parceiros da União Europeia (UE), ou que somos dos (poucos) que divulgam números verdadeiros ou, ainda, mostrarmo-nos muito surpreendidos e (até!) indignados por termos sido colocados na “lista negra” de Estados europeus (Áustria, Dinamarca, República Checa, Eslováquia, Grécia, Lituânia, Letónia, Hungria e Chipre) que não permitem a entrada no seu território de quem provenha do nosso país… É que nos dias de hoje, o que parece, é!

Ora, tudo isto faz com que, do ponto de vista turístico, se exija dos poderes públicos uma actuação mais assertiva – musculada até, se necessário, como parece finalmente começar a acontecer – para rapidamente colocar um ponto final neste tipo de comportamentos os quais, para além da saúde individual e colectiva, podem ter consequências bem mais nefastas ou fazer-nos perder oportunidades, isto é, turistas.

 

Como exemplo maior do que acabámos de referir, temos a notícia fantástica da realização, justamente em Lisboa, da fase final da Liga dos Campeões, e a possibilidade da mesma poder vir a ter público. Imagine-se o bom que seria para a região, para a nossa economia e para o país conseguirmos, no total, ter uns milhares de adeptos a poderem vir assistir aos jogos, comendo, bebendo, pernoitando, comprando, numa palavra, consumindo!? Porventura, não seria isso muito melhor, bem mais merecedor de atenção, de mobilização e de galvanização geral, do que realizar uma despropositada cerimónia de “palmadinhas nas costas” e auto-elogios? Não seria este um motivo mais digno para que fosse feita uma chamada de atenção, para além da promoção internacional da imagem de Portugal que nos traz um evento desta natureza, para o que adicionalmente dele ainda podemos vir a conquistar ou tirar partido? No fim de contas estamos a falar em criar riqueza numa altura em que tanto dela precisamos e, muito provavelmente, uma oportunidade para salvar algumas empresas e, consequentemente, garantir postos de trabalho…

Para cúmulo – um mal nunca vem só! – esta situação está a coincidir com o enorme esforço que a maior parte dos agentes económicos do turismo estão a fazer para reabrir em segurança e, simultaneamente, a investir (o que têm e o que não têm, endividando-se) em campanhas de publicidade que apelam, sobretudo, ao mercado interno. Mas não só. Numa concertação rara, vemos estas iniciativas levadas a cabo pelas empresas serem secundadas, e por vezes lideradas, pelas próprias ERT´s – Entidades Regionais de Turismo (ex-Regiões de Turismo) e inclusivamente pelo Turismo de Portugal, I. P., o qual apresentou no princípio da semana passada a nova campanha de turismo interno, em nossa opinião de grande qualidade, só pecando pelo mote “#TuPodes”, uma vez que, infelizmente, há muitos (nossos) concidadãos que na actual conjuntura e por razões diversas “não podem”. Isto quer dizer que, a não serem tomadas medidas e alterados comportamentos, todos estes esforços podem revelar-se inglórios e, facilmente, os investimentos e as esperanças irem “por água abaixo”, já que o receio de viajar, mesmo sendo “cá dentro”, pode (voltar) instalar-se.

 

Como se vê, em plena fase de (re)abertura da maior parte das fronteiras tanto do Espaço Schengen, como da UE, e com consciência que qualquer medida tomada hoje só fará sentir os seus verdadeiros efeitos daqui a duas semanas, ainda temos muito trabalho pela frente, muito que rectificar, que sensibilizar, que proteger, que ganhar… ou perder. De entre as muitas lições que esta pandemia nos deu, indiscutivelmente uma é termos visto as cidades, as vilas, as aldeias, as estradas e ruas, os aviões, os aeroportos, os hotéis e os restaurantes, etc., etc., vazios, sem vida, sem pessoas, sem turistas. Mesmo os detractores do Turismo admitem a falta que nos faz quem nos distinguia com a sua preferência e aqui vinha, de livre vontade, gastar o seu dinheiro, contribuindo para o nosso progresso.

Por isso, temos de ser exigentes. Connosco, com os nossos pares, com aqueles que democraticamente escolhemos para nos governarem e pararmos imediatamente de brincar com o fogo!

 

Enquanto andamos enredados neste quadro, outros fazem pela vida… e pelo (seu) Turismo! É o que acontece na nossa vizinha Espanha, que no final da passada semana apresentou um plano de promoção e revitalização da constelação turística, que dotou com qualquer coisa como 4.262 milhões de Euros, sendo as duas parcelas mais significativas deste valor destinadas a acções para estimular a actividade (3.360 milhões) e a medidas de melhoria da sua competitividade (859 milhões). Recorde-se que antes da pandemia a Actividade Económica do Turismo representava 12% do PIB – Produto Interno Bruto espanhol e era responsável por 13,6% do emprego da população activa.

Palavras para quê?! Nem sequer vale a pena fazer qualquer tipo de comparação quer quantitativa, quer qualitativa, sobre a forma muito séria, estratégica mesmo, como os “nuestros hermanos” olham (para) o Turismo. Como diz o ditado, de lá podem não vir bons ventos, ou bons casamentos. Mas, certamente, no que ao Turismo respeita vêm bons exemplos, como este! E nós por cá, continuamos a falar muito, a elogiar ainda mais, a encher o peito com os sucessos turísticos que vamos obtendo mas, na hora da verdade, no momento crucial, adiamos, enrolamos, desvalorizamos, vamos perdendo oportunidades… Em suma, persistimos em brincar com o fogo.

Protejam-se a vós, aos vossos e, se possível ou necessário, ajudem o próximo. #vamostodosficarbem!

 

Nota – Não é demais recordar que o endereço de email iturismo@turisver.pt continua ao dispor das(os) nossas(os) leitoras(es).