iTurismo: BTL 2019 em Revista, por Atilio Forte

Decorreu na semana passada a 31ª edição da Bolsa de Turismo de Lisboa e Atilio Forte tece alguns comentários sobre aquela que é a mais importante feira de turismo realizada em Portugal. Outro tema abordado pelo nosso comentador no iTurismo de hoje é o facto de uma cidade portuguesa voltar a acolher a Capital Europeia da Cultura em 2027, em parceria com uma localidade da Letónia.

 

Tópicos da Semana:

 

  • Principais indicadores turísticos do Dubai em 2018: É crescente e incontornável a dinâmica turística que o Emirado do Dubai (um dos sete que integram os EAU – Emirados Árabes Unidos) tem vindo a revelar, particularmente na última década. Segundo o seu Departamento de Turismo a cidade (que tem o mesmo nome do Emirado) aumentou em 0,8% o número de visitantes que acolheu em 2018, tendo ficado perto dos 16 milhões de turistas (15,920 milhões), dos quais cerca de 2 foram oriundos da Índia, que continua a ser o seu principal mercado. A taxa média anual de ocupação dos hotéis situou-se nos 76%, sendo que o total de camas turísticas disponíveis (em hotéis e apartamentos) já atingiu as 116.000.

 

  • Alpes franceses atraem a atenção dos investidores: De acordo com a empresa multinacional de gestão e investimento imobiliário JLL os Alpes franceses estão a ser alvo de um autêntico dilúvio de dinheiro por parte dos investidores, de modo a conseguirem uma maior consolidação do parque hoteleiro existente na região e, desse modo, obterem um aumento das receitas e, simultaneamente, uma redução dos custos de operação das unidades.

 

  • Vórtice polar deixou marca na hotelaria americana: Quase dois meses depois já é possível analisar as consequências que o vórtice polar que afectou os Estados Unidos da América (EUA) na segunda quinzena de Janeiro provocou no sector hoteleiro daquele país. Assim, se num primeiro momento (meados do mês) ele não prejudicou a procura, assistindo-se mesmo a um pico na receita por quarto disponível (vulgo RevPAR) de aproximadamente +23%, se comparado com o verificado em igual período do ano anterior (2018), logo na semana seguinte (a que começou a 21 de Janeiro) e à medida que as condições climatéricas foram afectando as viagens deu-se o efeito inverso, traduzido numa queda abrupta de 15% do RevPAR.

 

Comentário  

 

Turisver.com – A BTL é anualmente um ponto alto do nosso turismo e, porque é realizada ainda no decorrer do primeiro trimestre do ano, acaba por dar indicadores sobre o pulsar desta actividade económica. Como é que olhou para esta edição da BTL e que indicadores esta lhe deixou?

Atilio Forte – É da mais elementar justiça que comecemos a análise desta semana por felicitar a organização da BTL – Bolsa de Turismo de Lisboa por, mais uma vez, ter brindado toda a comunidade turística com um evento de grande qualidade que honrou o turismo nacional, os seus diferentes agentes e todos quantos, de uma ou outra forma, estão ligados ou se interessam por esta fascinante – e importante! – actividade económica.

Feito este merecido elogio passemos então ao que, em nossa opinião, mais se destacou, pela positiva e pela negativa, na edição deste ano da principal e maior feira de turismo que acontece no nosso país.

Seguramente um dos aspectos que mais deve sublinhar-se – até porque é um dos grandes objectivos de muitos expositores – foi o que se prendeu com as reservas ou pré-reservas realizadas pelo público para o próximo Verão as quais, a fazer fé no que nos foi sendo transmitido, não apenas terão superado as expectativas como, inclusivamente, ficaram acima dos resultados obtidos no ano transacto, o que é um excelente indicador da maior maturidade que os consumidores portugueses vêm revelando ano após ano, fenómeno que, aparentemente, contraria previsões (incluindo as nossas) não tão optimistas em razão do aumento de ofertas de última hora a preços verdadeiramente excepcionais que aconteceram na passada “época alta”. Se estas intensões vierem a materializar-se (e seria bom que nos contrariassem) elas significarão “boas notícias” para muitos agentes económicos, mormente para agências de viagens e operadores turísticos com actividade em Portugal.

Ao invés, e no que respeita aos países emissores, o elemento mais notório é a diminuição da contratação prevista para o Algarve, principalmente no período de Maio a Outubro, em grande medida como consequência da turbulência que o mercado britânico atravessa e do ressurgimento “em força” de destinos nossos concorrentes no Mediterrâneo Oriental e Norte de África factos que, naturalmente, contribuem para uma maior pressão sobre os preços.

Uma outra área que é credora de destaque foi o cuidado posto na apresentação dos diversos espaços individuais de exposição, quer ao nível da sua boa qualidade global quer, sobretudo, ao nível dos temas que seleccionaram, onde a natureza, a sustentabilidade e a tecnologia foram os elementos reinantes, o que traduz uma leitura correcta das grandes tendências que actualmente se verificam e que mais seduzem ou merecem interesse por parte dos consumidores.

Quase como ilustração do que acabámos de afirmar destaca-se o lançamento por parte da Entidade Regional de Turismo (ERT) do Algarve de um “Observatório Regional para o Turismo Sustentável”, em parceria com a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Algarve (CCDR Algarve) e a Universidade do Algarve (UAlg), contando com o apoio do Turismo de Portugal (TdP), com o objectivo de vir a tornar-se num instrumento operacional de estudo, análise e acompanhamento em permanência do destino nos domínios da sustentabilidade económica, social e ambiental. Neste âmbito vale ainda a pena acrescentar o propósito de o submeter à avaliação da Organização Mundial de Turismo (UNWTO) para que possa vir a integrar a Rede Internacional de Observatórios para o Turismo Sustentável o que, a acontecer, tornará Portugal no único país europeu a ter duas (o Alentejo já tem a sua) instituições desta natureza naquela rede da UNWTO.

A realização durante a BTL da 4ª Bolsa de Empregabilidade organizada pelo Fórum Turismo 21, com um aumento de 15% no número de empresas presentes relativamente à edição do ano transacto e as 10.000 vagas de emprego por elas disponibilizadas, foi um dos acontecimentos que também deve ser realçado, mais a mais num momento em que toda a constelação turística é afectada por escassez de mão-de-obra e em que muitos procuram (e anseiam) dar um novo rumo ou início – no caso dos jovens – à sua vida activa, vendo no turismo uma oportunidade de o conseguirem, mas nem sempre sabendo como o podem fazer ou a quem se devem dirigir.

De entre as várias acções anunciadas pelo Estado ao longo da feira seleccionámos duas apresentadas pelo TdP as quais, embora de cariz totalmente diverso, revelam uma preocupação quer com a situação internacional e de como ela pode afectar os nossos mais importantes mercados externos – no caso o britânico –, quer com a necessidade em procurar inovar e promover alguns dos produtos que possuem uma maior capacidade de crescimento, como sucede com o Enoturismo.

Assim, saúda-se a apresentação da campanha “Brelcome”, dirigida especificamente ao mercado britânico, que tem por objectivo atenuar a turbulência causada pelo “Brexit”, independentemente do desfecho político que daí vier a resultar, a qual na sua base genética procura passar uma mensagem positiva dirigida aos consumidores e facilmente adaptável a qualquer tipologia de oferta, com o mote “We will never leave you” (em tradução livre, “nunca vos abandonaremos”), que marcará presença no Reino Unido até Junho, representando um investimento de cerca de 200.000 Euros, valor que se nos afigura excessivamente exíguo considerando que este é “tão só” o nosso principal mercado externo.

Como igualmente aplaudimos a aposta no Enoturismo, produto que será alvo de acções de promoção e formação específicas ao longo dos próximos três anos, num investimento que rondará os 5 milhões de Euros, donde se destaca a criação de uma plataforma digital denominada “Portuguese Wine Tourism”, e que ambiciona – e bem, pois o potencial existe! – transformar Portugal numa referência mundial neste segmento.

Uma palavra deve ainda ser dada às associações empresariais do turismo que marcaram presença e estiveram particularmente activas durante o certame através da realização de vários eventos – quase todos de grande interesse –, pois o seu exemplo é fundamental para manter a dinâmica e um cada vez maior envolvimento dos seus associados neste (e noutros) tipo de acontecimentos turísticos.

Nos aspectos a rever ou, se se quiser, menos positivos, voltamos a sublinhar a ausência de um “stand” do TdP em mais uma feira de turismo, mantendo-se a falta de qualquer tipo de explicação ou esclarecimento sobre o sucedido, situação que neste caso foi agravada pelo não preenchimento do espaço que lhe estava destinado (logo no pavilhão 1), deixando à vista “um enorme buraco vazio” o que, como se compreende, não é abonatório para aquele Instituto Público, para a própria organização da BTL e, no limite, para a imagem do turismo português.

Finalmente – não podemos deixar de o referir –, foi-nos transmitido por parte de muitos visitantes da BTL – profissionais, expositores e público – o incómodo sentido pela nova política de acesso à feira, que denota uma clara opção dos organizadores em apostarem num aumento das receitas geradas pela venda de bilhetes e que teve como efeito mais visível um incremento significativo no preço das entradas, seja nas adquiridas online, seja nas efectuadas fisicamente, seja ainda no número de convites atribuídos a cada expositor.

Apesar dos dois pontos que acabámos de mencionar, o balanço da edição de 2019 da BTL é claramente positivo e, acima de tudo, demonstra que não obstante o turismo nacional estar confrontado com uma conjuntura económica internacional mais adversa do que a verificada nos últimos anos e, simultaneamente, com um aumento da concorrência – sobretudo dos destinos mediterrânicos –, há empenho, vontade e querer em prosseguir na senda dos bons resultados, embora com o realismo e o pragmatismo de quem sabe que está na alvorada de um novo ciclo turístico.

 

Turisver.com – Em 2027 caberá a Portugal (em conjunto com a Letónia) acolher a Capital Europeia da Cultura e várias cidades portuguesas já anunciaram a sua candidatura. Na sua opinião, esta situação demonstra a vitalidade e o valor que cada vez mais damos ao nosso património e à nossa cultura?

Atilio Forte – Depois de Lisboa em 1994, do Porto em 2001 e de Guimarães em 2012, uma cidade portuguesa voltará a acolher em 2027 a Capital Europeia da Cultura, em parceria com uma localidade da Letónia, facto que deve ser saudado, por motivos mais do que compreensíveis e claramente explicitados nos princípios que regem esta iniciativa da União Europeia (UE), que visa: “acentuar a riqueza e diversidade de culturas na Europa, celebrar as marcas culturais partilhadas pelos europeus, aumentar nos cidadãos o sentido de pertença a um espaço cultural comum e fomentar o contributo da cultura para o desenvolvimento citadino”.

Para além destes aspectos, por assim dizer mais formais, estes acontecimentos têm vindo a atingir muitos outros objectivos, pois têm-se assumido como oportunidades únicas para “regenerar cidades, aumentar o seu perfil internacional, fortalecer a auto-estima dos habitantes, reanimar a cultura urbana e desenvolver o turismo”.

Por estas razões não espanta que várias tenham já sido as cidades do nosso país que (de imediato) manifestaram o seu interesse e vontade em apresentarem uma candidatura à organização do evento, a saber e de Norte para Sul: Viana do Castelo, Braga, Aveiro, Viseu, Guarda, Coimbra, Leiria, Caldas da Rainha (englobando vários locais da região “Oeste”), Oeiras, Cascais, Évora e Faro.

Até ao momento da decisão, que ocorrerá em 2023, todas elas – ou as que formalizarem a sua candidatura – terão oportunidade de apresentar publicamente os seus projectos os quais, pelo menos é essa a nossa expectativa, esperamos que possam contar desde a sua concepção com o envolvimento dos agentes do turismo local e regional, de modo a exponenciar os atributos turísticos que possuem, atenta a nossa riqueza e diversidade culturais mas, também, englobar a qualidade e quantidade de motivações que a nossa oferta turística proporciona e que nos torna num país tão atractivo e autêntico aos olhos daqueles que nos visitam.

Presentemente, a única certeza que temos é que os municípios que aceitarem este desafio tudo irão fazer para o vencer e isso vai significar, entre muitos outros factores, recuperar património, estimular os usos, costumes e tradições e demais aspectos ligados à cultura, mobilizar as comunidades locais, criar e promover mais amplos cartazes culturais, etc., etc., o que quer dizer que Portugal enquanto destino turístico sairá sempre vencedor, uma vez que estas acções exaltarão a genuinidade das nossas cidades e das suas gentes, qualificarão e criarão novos activos turísticos, numa frase, contribuirão para que o nosso país progrida tanto cultural como turisticamente. E isso será bom porque no final teremos a nossa herança comum mais cuidada e preservada e, seguramente, um turismo mais competitivo e diversificado.

 

O + da Semana:

 

Aqueles que nos acompanham mais de perto sabem que já por diversas vezes temos aqui abordado a importância que a CPLP – Comunidade dos Países de Língua Portuguesa pode (e deve!) vir a desempenhar no estreitar das relações económicas entre os seus Estados-Membro a qual, não apenas permitirá “relançar” esta imprescindível instituição como, sobretudo, dar-lhe uma nova “motivação” e alargar o seu âmbito de actuação em áreas porventura mais mensuráveis, mas também mais de acordo com os propósitos que presidiram à sua criação: “aprofundar a amizade mútua e a cooperação entre os seus Membros”. Sendo o turismo uma das actividades económicas que mais contribui para a compreensão e para a solidariedade entre os povos mas, também, que mais pode influenciar a melhoria da qualidade de vida das populações faz todo o sentido que os Governos dos países que integram a CPLP procurem por essa via estreitar laços e promover a colaboração recíproca. Seguindo este princípio não podíamos de deixar de destacar nesta rubrica o II Fórum de Negócios e Investimentos Turísticos no Espaço CPLP que reuniu os titulares da “pasta” do turismo dos países que integram esta “Comunidade” conjuntamente com representantes do sector privado, durante a edição da BTL que acaba de findar, com o objectivo de cada um apresentar os principais projectos de desenvolvimento turístico que detém e dar nota dos incentivos ao investimento que estão disponíveis, de forma a potenciar as oportunidades de negócio existentes e, assim, intensificar a ligação entre todos quantos integram o “Mundo lusófono”.