iTurismo – Comentário de Atilio Forte

A reunião de CEOs dos cinco maiores grupos europeus da aviação, a recuperação económica da Europa e o mercado imobiliário e a cibersegurança preenchem os “Tópicos da Semana” do iTurismo de hoje em que Atilio Forte destaca como “O + da Semana” o segmento turístico da saúde e bem estar. Já o habitual comentário centra-se nas perspectivas positivas dos empresários turísticos para o Verão e na relação entre o crescimento turístico e o decréscimo do desemprego.

Tópicos da Semana:

Preocupante: Para dar resposta à consulta sobre uma nova estratégia para a aviação na União Europeia, feita pela Comissária dos Transportes, os cinco maiores grupos europeus do sector (Air France–KLM, International Airlines Group – British Airways e Iberia -, EasyJet, Lufthansa e Ryanair) reuniram-se e já fizeram chegar a Bruxelas as suas propostas. Se a Itália, a Grécia e Portugal (para não falar de outros) não concertarem posições e fizerem valer os seus direitos (iguais) de Estados-Membro, esta é uma notícia que pode vir a revelar-se como muito preocupante…

Últimas oportunidades: A recuperação económica da Europa, e principalmente do euro (após cerca de um ano de desvalorização), está a agitar o mercado imobiliário do “velho Continente” junto dos investidores asiáticos, pois a espectável valorização da moeda europeia, a curto prazo, criou-lhes a percepção que os melhores negócios podem ter os dias contados.

Cibersegurança: A crescente dependência tecnológica da constelação de sectores que integram o turismo faz com que a discussão sobre as ameaças à cibersegurança e a seriedade com que as mesmas devem ser encaradas comece a ganhar contornos de extrema importância. Avaliação do risco, representações de marcas e produtos turísticos e possíveis efeitos debilitantes de uma brecha na segurança são alguns dos temas em destaque, numa agenda a acompanhar de perto.

Comentário

Turisver.com – Os empresários turísticos estão optimistas relativamente ao Verão. De acordo com inquéritos publicados pela AHP e pelo IPDT, esperam resultados acima do ano passado para número de turistas, dormidas, receitas e preços. Na sua opinião faz sentido as empresas estarem tão optimistas, quando estamos longe de termos uma política de turismo como aqui tem revelado?

Atilio Forte – Por mais paradoxal que possa parecer, sim, faz sentido. E porquê? Porque a actividade económica do turismo, por ser eminentemente privada, não depende exageradamente da existência ou não de uma estratégia ou, se quiser, de uma política de turismo para que os resultados apareçam, sobretudo a curto prazo.
Para ilustrar o que acabo de dizer recordo a lenda que conta que quando Galieu Galilei foi forçado em julgamento, perante a Inquisição, a admitir que afinal estava errado e que era o Sol que se movia em torno da terra, uma vez que esta era o centro estático do Universo, terá murmurado “… e, no entanto, ela move-se”.
Ora com o turismo passa-se algo muito semelhante. Não nos esqueçamos que estamos falar de uma actividade que do ponto de vista económico é a maior do mundo, fortemente condicionada pela pressão do consumo. Como a economia mundial tem vindo a crescer ano após ano (apesar de alguns sobressaltos conjunturais) e o aumento demográfico é constante, isso traduz-se em cada vez termos mais gente, com maior poder de compra, a necessitar e a querer não apenas viajar, por necessidade profissional ou lazer, mas em busca de múltiplas e novas experiências e vivências, resultantes em grande parte do actual modelo social – a sociedade-mosaico.
Tal significa que existe um mercado, logo oportunidades objectivas de negócio que só podem ser satisfeitas pelo sector privado, isto é, pelas empresas (já que economicamente vivemos num modelo capitalista).
Assunto diverso, é quando saímos dessa esfera e entramos nas questões da protecção ao consumidor, da regulação e fiscalização, ou seja no garantir que todos os agentes económicos, independentemente da sua dimensão, têm acesso ao mercado em igualdade de circunstâncias ou, no médio e longo prazos, em opções de maior fôlego, como seja o estímulo a actividades com maior potencial de criação de riqueza e emprego, que garantam maior coesão territorial, na salvaguarda do património público cultural, monumental ou ambiental, na definição e canalização dos estímulos e apoios ao investimento (como os quadros comunitários) para a prossecução de determinado modelo de desenvolvimento económico ou mesmo, e não querendo ser exaustivo, nas questões ligadas à promoção internacional do país.
Isto para já não falar da importância vital que tem a articulação com outros sectores onde o Estado possui ou ainda detém um peso incontornável, como sejam a segurança (a começar pelas autorizações de entrada no país), ou as acessibilidades, ou a saúde, ou a educação, ou o ordenamento do território, para referir apenas alguns.
Aqui sim, o papel do Estado é insubstituível e por isso a existência de uma política de turismo, de uma estratégia a longo prazo, devidamente consensualizada entre os sectores público e privado (como sempre defendi), é condição “sine qua non” para o sucesso.
Para concluir com uma ponta de ironia e não obstante ser real a ausência de uma política de turismo, este é um caso para dizer (adaptando a suposta frase do matemático, físico, filósofo e astrónomo italiano): “…e, no entanto, o turismo cresce”.

Turisver.com – O desemprego tem vindo a diminuir em Portugal e a actividade económica do turismo tem vindo a crescer. Pensa que esta é uma situação de causa – efeito?

Atilio Forte – Apesar do turismo ser uma actividade de mão-de-obra intensiva e, por essa razão podermos ser tentados a admitir que tem uma relação mais directa com a diminuição do desemprego, infelizmente não creio que, globalmente, possamos daí extrair uma conclusão tão imediata.
Recordo que num dos “Tópicos da Semana” que aqui deixámos no mês transacto, de acordo com os números do INE (Instituto Nacional de Estatística), entre Setembro de 2014 e Março de 2015, só os sectores do alojamento e da restauração terão perdido cerca de 53.000 postos de trabalho.
Se pegarmos neste exemplo, verificamos que ele ilustra bem a sazonalidade acentuada que a actividade continua a demonstrar, uma vez que, como vem sendo habitual, é expectável que a partir de Abril/Maio e até Setembro se dê um aumento dos níveis de emprego.
Mas para além das flutuações próprias da sazonalidade, julgo que a análise deverá ir mais fundo, permitindo-me por isso destacar dois aspectos que considero essenciais sempre e quando falamos de emprego no turismo, principalmente nos anos mais recentes. São eles, por um lado, a crise económica internacional (com início em 200Restauração) e o programa de assistência financeira a que Portugal esteve sujeito (desde 20Regiões) e, por outro lado, o aumento do IVA no sector da restauração e similares.
Sobre a questão das crises – internacional e nacional – convirá dizer que se algo de bom elas nos trouxeram foi a pressão que colocaram no aumento dos níveis de eficiência e produtividade das empresas, ou seja, forçaram-nos a aprender a fazer mais e melhor, com menos. Bem sei que, do ponto de vista do emprego, esta é uma visão algo cruel, mas nem por isso menos verdadeira, pois na realidade aprendemos – porventura da pior das maneiras – a gerir melhor.
Quanto ao aumento do chamado “IVA da restauração”, creio estar já provada à saciedade quão nefasta foi esta medida, tendo entre muitos outros efeitos provocado o encerramento de milhares de empresas, com a consequente destruição dos seus postos de trabalho.
Em conclusão, sou de opinião que podemos afirmar que o aumento global da actividade turística nalguma coisa está certamente a contribuir para a diminuição do desemprego, embora devamos ter em consideração as razões que acabo de invocar, já que não tem existido por parte do governo uma inequívoca aposta no turismo.
Como este tema não se esgota no turismo, e em jeito de apontamento final, deverão ainda ter-se em conta, entre outros, os sinais globais de retoma económica – pois o crescimento económico tem sempre reflexos positivos na criação de emprego – e a emigração registada nos últimos anos.

O + da Semana:

O segmento turístico nacional da Saúde e Bem-Estar está no top europeu. No recente congresso da ESPA (European SPAS Association) três das nossas termas foram distinguidas através dos “Innovation Awards” atribuídos por aquela entidade. Às Termas de São Pedro do Sul coube o mais alto galardão na categoria de “Innovative Spa & Health Resort Destination” devido, quer à inovação na utilização das características únicas da água termal nos produtos dermocosméticos AQVA, quer à existência de uma estratégia bem definida para o desenvolvimento e crescimento daquela estância termal, quer ainda ao investimento no estudo das propriedades medicinais e de bem-estar da água termal. As Caldas da Felgueira Termas & Spa mereceram, pela sua originalidade, um prémio especial do júri internacional, devido ao seu programa de tratamento para doenças obstrutivas pulmonares crónicas. Por último, a Malo Clinic Termas Luso recebeu um prémio especial no âmbito do seu programa para controlo de peso, baseado no aconselhamento dietético especializado e reeducação alimentar, num conceito “healthy gourmet”. Portugal voltou, assim, a demonstrar que possui uma oferta turística de grande qualidade e diversidade.