iTurismo – Comentário de Atilio Forte

Um estudo da Agoda.com sobre o índice de exigência dos hóspedes da hotelaria, a possibilidade de um grupo chinês adquirir a Starwood Hotels e o aumento do peso das receitas de Food & Beverage nos hotéis são os “Tópicos da Semana” no iTurismo de hoje. Como “O + da Semana” Atilio Forte escolheu o tema da necessidade de inovação no turismo e em particular na hotelaria. O habitual comentário é preenchido com questões relativas ao Algarve.

Tópicos da Semana:

“Diz-me quem recebes?”: A empresa Agoda.com patrocinou um estudo que analisou mais de Produtos e Serviços milhões de críticas feitas por turistas do mundo inteiro, acerca dos locais onde ficaram hospedados, tendo concluído que os hóspedes mais exigentes que os hotéis recebem são os provenientes dos Emirados Árabes Unidos. Ao invés, também comprovou que os turistas russos são os mais generosos nos seus comentários.

Da China para o Mundo: Aquele que, em breve, será o maior grupo hoteleiro chinês, resultante da fusão do Plateno Group com a cadeia hoteleira Jin Jiang, está a ponderar a aquisição da Starwood Hotel & Resorts Worldwide. Caso tal venha a acontecer, estaríamos perante o nascimento do maior conglomerado hoteleiro à escala global.

Atenção ao F&B: Um recente estudo internacional elaborado pela STR Analytics sublinha que, num hotel, os lucros provenientes da área de comidas e bebidas têm crescido mais rapidamente do que os provenientes do alojamento. Os 5.000 hotéis analisados viram as suas receitas aumentarem em Produtos e Serviços% e os seus resultados operacionais crescerem Regiões%, tudo graças ao F&B.

Comentário

Turisver.com – O Algarve é a principal região turística do país mas é também aquela que parece mais frágil. Devíamos ter um secretário de Estado do Turismo para o Algarve?

Atilio Forte – A expressão que o turismo tem que ter na orgânica de qualquer que seja o governo, não deve estar de forma alguma ligada à dimensão correspondente que esta ou aquela região ou destino turístico tenha em Portugal. Julgo que são dois aspectos totalmente distintos até porque, no caso português, dada a exígua dimensão do nosso território e o peso cada vez maior que o turismo tem na criação de riqueza, emprego, coesão territorial, entre muitas outras valências, entendo que a actividade devia ser considerada dentro desta filosofia na orgânica governamental, e não ter qualquer ligação ou expressão com esta ou aquela região, pois se assim fosse estaríamos a fazer uma espécie de “regionalização” dentro da actividade turística – embora no respeitante ao Algarve, até fosse a mais pacífica de todas as regiões administrativas.
Assim, e do ponto de vista estratégico para o turismo em Portugal, não me agarrando à expressão “Secretaria de Estado do Turismo” mas mais ao peso que o turismo tenha numa orgânica governamental, sou de opinião que não deveria haver qualquer ligação directa entre, nomeadamente, o caso de que estamos a falar, o Algarve, e a possibilidade de haver alguém que fosse ministro do turismo do Algarve, secretário de estado do Turismo do Algarve ou o que lhe quisermos chamar, porque julgo que Portugal, desse ponto de vista, tem que ser visto como um todo.

Turisver.com – Mas o Algarve, se olharmos só para o turismo, tem problemas que o resto do país não tem, nomeadamente uma grande concentração de oferta com parte significativa a fechar durante meses, o que leva a que no Verão sejam muitas vezes contratados profissionais com menor preparação, com implicações negativas na qualidade do serviço.

Atilio Forte – Esta é uma temática que se prende com a questão da sazonalidade, a qual já aqui temos comentado inúmeras vezes, e de tudo o que ela acarreta, como a qualificação profissional que mencionou, entre muitos outros aspectos. O essencial é entendermos que um destino como o Algarve vai ter sempre sazonalidade, ela pode é ser mais ou menos esbatida, e para ser mais esbatida temos que pensar o turismo num sentido mais lato. Se olharmos para aquilo que tem sido a evolução (ou estagnação) demográfica do nosso país, e nomeadamente do Algarve, verificamos que deveria haver uma preocupação por parte das entidades oficiais em atraírem população residente para o Algarve, porque não há nada pior para alguém que vai visitar um destino que o encontrar vazio, com restaurantes e bares encerrados, empresas de animação inactivas, hotéis fechados, ruas desertas, comércio que não abre porque não tem clientes. Ou seja, numa situação desta natureza, acabamos por ter um efeito multiplicador proveniente de uma espiral que não é positiva e, sobretudo, que não é atractiva. Portanto, num caso como este, deveria fazer-se aquilo que há pouco mais de um ano referimos num dos nossos comentários, ou seja, que a solução está em termos um carrinho de gelados no Verão e conseguirmos que esse mesmo carrinho se reconverta, no Inverno, num de confecção de castanhas assadas. Só assim conseguiremos esbater a sazonalidade porque, embora nos dirijamos a diferentes públicos, teremos sempre clientes. E é um pouco nisto que devemos reflectir e que, em minha opinião, poderemos procurar fazer no Algarve, obviamente sempre com a comunhão de esforços de todos os agentes turísticos envolvidos, sejam eles do sector público, ou sector privado.

Turisver.com – Quando aborda a questão dessa forma, dá ideia que ao Algarve não há “Turismo 2020” que valha porque, por esse processo, nem daqui a 20 anos se reconverte a situação da região. Não há medidas de curto prazo que atenuem minimamente a degradação a que se está a assistir?

Atilio Forte – É claro que, quando falamos de investimentos no turismo os resultados nunca são a muito curto prazo, mas poderão existir medidas pontuais que possibilitem atenuar a situação. Por exemplo, a captação de grandes eventos: no Algarve tivemos, nos últimos anos, experiências muito positivas com a atracção de grandes eventos que se estenderam ao longo de alguns meses os quais, nos locais onde se realizaram, acabaram por justificar a abertura de unidades hoteleiras que sem eles estariam fechadas. Ora, quando sistematicamente não se apoia a realização de grandes eventos, está-se a prejudicar também – e por maioria de razão – a sazonalidade no Algarve, porque é o maior destino turístico português. Quando não fazemos e não promovemos ligações ao mar, do ponto de vista da oferta, também prejudicamos todo o turismo algarvio. Porquê? Porque temos uma costa fantástica, das melhores que há na Europa (senão mesmo a melhor) e, pura e simplesmente, continuamos a achar que o mar “acaba”, como costumo dizer, na rebentação das ondas.
Mas há outras questões que podem (e devem) ser consideradas, como por exemplo investimentos na área da cultura no Algarve. Diz-se muito que os turistas querem experiências, querem algo de novo – eu até entendo que os turistas já passaram a fase da experiência e se encontram num outro patamar que é o das emoções – mas o Algarve, do ponto de vista cultural, enquanto destino turístico, tem uma oferta extremamente reduzida e isso não é bom, quer para quem lá reside, quer porque também não funciona como factor de atracção para quem lá possa querer ir.
Um outro aspecto: a penalização do IVA no golfe, que se fez no início desta legislatura, quando o golfe era justamente um dos produtos que atenuava fortissimamente a sazonalidade no Algarve, veio claramente prejudicar o turismo algarvio. Se me disserem “mas está a recuperar lentamente”, claro que está! Mas o turismo, como bem sabemos, tem uma resiliência, uma capacidade de ultrapassar obstáculos que é fantástica e única. O verdadeiro problema está no ponto de partida do raciocínio que, para ser correcto, deve iniciar-se noutro sentido, que é o de nos interrogarmos se tal não tivesse sido feito qual era o partido que poderíamos daí ter extraído. Dito isto, já aqui temos três ou quatro aspectos que não constituindo nenhuma panaceia, não sendo qualquer deles “a mãe de todas as soluções” para o problema, com certeza seriam uma grande atenuante para o mesmo.

Turisver.com – A falta de reconversão de parte das unidades hoteleiras do Algarve também não contribui porque muitas são boas para o Verão, mas não funcionam bem no Inverno.

Atilio Forte – Nesse aspecto permito-me recordar os factores que elenquei na resposta anterior: qualquer uma das unidades que estão localizadas no Algarve sofre desses efeitos. Para além disso temos um problema estrutural da nossa oferta turística que é a diminuta diferenciação, o diminuto acréscimo de valor acrescentado bruto, no fundo o dar algo mais ao cliente pelo mesmo. As experiências só conseguem ser sentidas, só conseguem ser vividas pelos turistas se houver diferença, se houver genuinidade e autenticidade, porque não estamos 30 anos atrás quando os turistas queriam ir para um resort quase como estando num gueto. Hoje querem sair, querem contactar com as populações locais, querem viver e sentir o local onde se encontram.
Embora não me queira fixar na resposta que já dei, se tivermos em conta uma estratégia relacionada com uma maior competitividade fiscal no golfe, com a captação de grandes eventos, com maiores ligações ao mar em termos da oferta turística, com a existência de um maior número de eventos culturais e com atracção de mais gente para residir no Algarve, temos logo aqui cinco factores que em alguma coisa iriam influenciar o funcionamento dessas unidades. Finalmente, outro dos aspectos que foquei é o que tem a ver com o facto da nossa oferta turística ser ainda demasiadamente homogénea – não apenas no Algarve, aí poderá sentir-se mais porque é o nosso maior destino turístico, mas é um pouco aquilo que se passa em todo o país -, ou seja, não há suficiente diferenciação, não há suficiente inovação, não há a preocupação de acrescentar valor, e isto não tem exclusivamente a ver com a parte que toca a quem investe, a quem gere, ou seja, aos empresários, ao sector privado, mas também, e em muito, com aquelas que são as políticas públicas.

O + da Semana:

Todos temos consciência que a inovação é uma componente decisiva do sucesso de qualquer empresa, principalmente nos dias de hoje. Só que na actividade económica do turismo, e muito principalmente no sector hoteleiro, tal ganha uma ainda maior dimensão. Como as mudanças se sucedem a um ritmo vertiginoso, aqui deixamos, para reflexão, alguns exemplos do que várias das mais prestigiadas cadeias hoteleiras estão (já) a fazer: alteração ao nível do acolhimento/atendimento ao cliente (portaria e recepção), pois não basta aconselhar e fazer uma reserva num restaurante, mas antes conseguir que o seu Chefe proporcione uma degustação privada; estão a ser derrubadas as barreiras entre as áreas tecnológica e de análise de dados e os demais sectores ou funções, nomeadamente os das vendas e marketing, de modo a permitirem uma maior partilha de objectivos dos quais resultem vantagens comerciais, só possíveis através da utilização massiva da tecnologia e de um mais profundo conhecimento do cliente; a incorporação de uma história na componente promocional, de modo a tornar as acções de marketing mais efectivas.

Quero aproveitar para desejar a todos os nossos leitores umas boas e relaxadas férias, mesmo que, pelas razões conhecidas, as gozem na sua própria casa. Para os muitos que darão o melhor de si mesmos para proporcionar umas férias inolvidáveis aos demais, votos de bom trabalho. Cá estaremos em Setembro, para continuarmos a comentar o que de mais importante se vai passando no Turismo, seja em Portugal, seja no mundo.