iTurismo: Comentário Semanal de Atilio Forte

A possível alteração de data da Páscoa, os restaurantes e bares dos hotéis como fonte de receita e a contratação de empresas de logística pela hotelaria são os “Tópicos da Semana” deste iTurismo em que Atilio Forte escolhe como “O + da Semana” o aumento da oferta de ensino no turismo. No habitual Comentário estão em foco a TAP e o vírus Zika.

 

Tópicos da Semana:

  • Bênção para o turismo?: O Arcebispo de Cantuária – líder da Igreja Anglicana – revelou que tem mantido contactos com os seus congéneres das Igrejas Católica, Ortodoxa e Ortodoxa Copta para avaliar da possibilidade da Páscoa deixar de ser uma celebração religiosa de data móvel, aparecendo os segundo e terceiro Domingos de Abril como dias de Páscoa mais consensuais. Caso tal venha a verificar-se poderá o turismo vir a beneficiar desse facto? Talvez apenas pela previsibilidade da data, pois até aqui não se tem notado qualquer influência nos fluxos turísticos.
  • A árvore e a floresta: Muitos analistas internacionais vêm alertando que os sucessivos recordes de receita que decorrem do alojamento podem estar a tolher as análises dos hoteleiros, fazendo com que os mesmos descurem outras importantes fontes de proveitos, como sejam os restaurantes e bares. Menus mais de acordo com as preferências dos hóspedes, optimização dos processos de compra, estabelecimento de padrões de serviço e análises comparativas com a concorrência, são alguns dos passos a dar para manter os clientes a comer e a beber nas unidades.
  • Empresas de logística ganham com o turismo: Um pouco por todo o Mundo, inúmeras unidades hoteleiras, principalmente as que actuam no segmento de luxo, vêm procurando crescentemente as empresas de logística para tratarem de aspectos tão diferentes como sejam renovações, restauros, desenvolvimento de novas unidades, ou mesmo transporte, armazenamento e instalação de equipamentos, de modo a ganharem maior liberdade e tempo para se focarem na sua principal prioridade: o negócio turístico.

 

Comentário

Turisver.comO Governo reformulou o negócio da TAP garantindo 50% do capital da companhia e a nomeação do presidente que tem voto de qualidade. Face a esta nova situação e com os dados disponíveis, que comentário lhe merece?

Atilio Forte – Há um par de semanas alertámos aqui que dava a sensação que o Governo se preparava para reparar um erro – o da privatização à pressa, em final de Legislatura e sem um consenso alargado – cometendo outro ainda maior – reversão do processo. Infelizmente, foi o que aconteceu.

Aliás, se no último ano há algo que podemos dar por adquirido tem sido a leviandade com que o poder político tem tratado a TAP, fazendo do processo de privatização da companhia uma arma de arremesso no xadrez político, transformando-a num autêntico joguete e, por isso, não salvaguardando os superiores interesses nacionais (do país, da economia, do turismo, da própria empresa e de todos quantos nela trabalham).

A tomada de decisões sem conhecimento de causa e omissa de qualquer estratégia tem imperado e, quando assim é, as incertezas futuras tendem a avolumar-se.

A comprová-lo estão os dados que são do domínio público, os quais levantam mais dúvidas do que certezas em relação ao futuro da empresa. Senão vejamos:

Imediatamente após a posse – ainda nem os gabinetes dos diversos ministérios estavam formados – já o Governo se apressava a chamar os representantes do consórcio vencedor da privatização para iniciar a reversão do processo. Mas não se ficou por aí pois, ao mais alto nível, era explícito nas suas intenções, declarando que – a bem ou a mal – a maioria do capital ficaria nas mãos do Estado. Contudo, o acordo assinado no passado Sábado não é isso que traduz, uma vez que o Estado apenas fica com 50% do capital, para o consórcio Atlantic Gateway ficam reservados 45%, subsistindo ainda 5% para os trabalhadores subscreverem sendo que, caso não o venham a fazer, poderão os privados tomar essa parcela, donde resultará uma paridade entre os accionistas.

Esta situação já mereceu reparos dos demais Partidos da coligação parlamentar que suporta o Governo – Bloco de Esquerda, Partido Comunista Português e Partido Ecologista “Os Verdes” -, dado defenderem uma maioria pública do capital, tal como o Partido Socialista inicialmente também defendia. Aguardemos, portanto, pelos desenvolvimentos e eventual clarificação da situação.

Outra das dúvidas prende-se com a assinatura do último acordo, no qual o Estado devolveu à Atlantic Gateway os 1,9 milhões de euros que esta tinha dado, a título de sinal, aquando da assinatura do contrato de privatização com o anterior Governo. Como o consórcio, apesar de tudo, ficou com, pelo menos, 45% do capital, conviria aclarar por que razão esta verba foi integralmente devolvida.

Acresce também que nenhum dos Governos envolvidos esclareceu cabalmente quem irá suportar o passivo da empresa ou, no mínimo, garanti-lo junto da banca. É que tanto num caso, como no outro (especialmente se houver incumprimento), dá a clara sensação que se algo correr mal será o Estado português – leia-se os contribuintes – a pagar.

Quanto ao investimento temos uma situação idêntica, já que, a fazer fé no que tem sido afirmado, o plano estratégico de desenvolvimento da companhia desenhado pela Atlantic Gateway permanece válido (rotas, aquisição de aeronaves, etc.). Isso significa que o Estado terá que contribuir nesse esforço de investimento, nem que seja com os 30 milhões de euros de que se fala (verba que consideramos extremamente exígua), e arranjar modo de o fazer de forma que as autoridades europeias da concorrência o aceitem, tarefa que não se afigura fácil.

Mas, tal como eu, os nossos leitores também já ouviram declarações do Governo dizendo que este novo acordo vem salvaguardar a manutenção das ligações ao mundo lusófono e, até, ao levantar de vozes – para já, ainda apenas a Norte do país – a reclamar a reabertura de rotas que, por razões comerciais e/ou de mercado (ou falta dele), foram ou serão, entretanto, descontinuadas. Ora tudo isto (perdoem-nos a escolha das palavras) cheira a “serviço público”, expressão que durante muitos anos dominou a actuação da TAP, com o impacto que se conhece nos resultados da companhia.

Com um conselho de administração, embora paritário, onde o presidente – nomeado pelo Estado – terá voto de qualidade, este é um caminho que, no mínimo, nos parece perigoso, uma vez que impregnará as decisões com subjectividade (para não dizer interesse político), ao invés do que seria normal na gestão de uma empresa “totalmente” privada, onde o critério da rentabilidade do produto e da sua procura no mercado é sempre preponderante.

Fazemos esta afirmação com o à vontade de quem há muitos anos defende a criação de um mercado interno de raiz atlântica e génese lusófona, pois temos plena consciência que mais tarde ou mais cedo a questão acabará por colocar-se, mesmo ficando (ao que parece) a gestão diária da empresa entregue aos privados. É que se assim fosse, não faria sentido o Estado ter feito “finca-pé” na atribuição de voto de qualidade ao presidente do conselho de administração, órgão no qual, naturalmente, serão tomadas todas as decisões estruturantes da vida da companhia. Sinceramente, esperamos não estar certos.

Para terminar, até porque certamente os nossos leitores nos farão voltar ao tema, deixamos duas notas.

A primeira para sublinhar algo que, pelos vistos, a classe política ainda não se apercebeu (ou percebeu): caso venha a existir um qualquer problema com a TAP (coisa que esperamos e desejamos não aconteça), as consequências para o turismo português serão devastadoras, pois os turistas veriam quartadas, em muito, as possibilidades de terem como chegar a Portugal.

A segunda para motivar o Ministério da Economia a estar presente e a envolver-se nesta matéria, pois ela é vital não apenas para o turismo, mas para todo o tecido empresarial português.

Hoje em dia a actividade empresarial é fria, é crua, é extremamente exigente e, por isso, não se compadece com visões mais ou menos românticas. A aviação comercial é, provavelmente, o sector onde há maior concorrência. Nele a competição faz-se à escala global. Companhias aéreas de bandeira é coisa que já não existe. Grandes potências económicas e turísticas há muito que o perceberam e escolheram outros caminhos, nalguns casos mesmo, promovendo a junção de forças entre empresas até então concorrentes.

E, já agora, por favor, não façam do futuro da TAP uma birra política!

 

Turisver.com – As entidades quer nacionais quer internacionais, incluindo a OMT, têm sido cautelosas na análise das consequências, para a actividade, da propagação do vírus Zika. Alguns players do mercado começam a ficar bastante apreensivos, até porque já se nota alguma dificuldade nas vendas para alguns países atingidos de forma mais intensa pelo vírus. Na sua opinião este pode ser o primeiro grande travão ao crescimento do turismo em termos mundiais?

Atilio Forte – Deixe-me começar por salientar que, como tem vindo a ser notório, ainda existe um grande desconhecimento acerca do vírus, da sua evolução, da sua transmissão e das consequências na saúde daqueles que por ele sejam contaminados. Daí a atitude prudente por parte das autoridades, onde se inclui a Organização Mundial do Turismo (UNTWO).

Da informação que temos recolhido tudo leva a crer que só durante os próximos seis meses é que poderá ser feita uma melhor avaliação da situação e das suas consequências. No entanto, os alertas e cuidados recomendados por diversas instituições, particularmente a Organização Mundial de Saúde, devem ser acatados e levados muito a sério.

Neste quadro, é natural que, no imediato, exista uma ligeira retracção dos consumidores em viajarem para alguns dos países onde o foco do Zika assume maiores proporções. Contudo, e caso a situação não se agrave, a tendência será de um progressivo regresso à normalidade. O que se passou no Brasil – país mais atacado pelo vírus – nos últimos dias (na semana do carnaval!), como o provaram as inúmeras reportagens aí realizadas, é disso um bom exemplo, já que, tanto a população, como os turistas, embora conscientes das precauções a tomar, não demonstraram preocupação de maior.

Particularmente nos últimos anos, o turismo tem revelado ser de uma enorme resiliência a problemas múltiplos que têm afectado a humanidade, desde as guerras ao terrorismo, da crise económica e financeira à saúde pública (as várias estirpes do vírus da gripe, o ébola, etc.).

Assim sendo, e com base naquilo que presentemente sabemos, não acreditamos que a eclosão do Zika possa prejudicar o normal crescimento da actividade turística a nível global.

 

O + da Semana:

Gradualmente temos vindo a assistir, sobretudo no sector da hotelaria nacional, a um crescendo de iniciativas empresariais com vista à selecção e recrutamento de novos profissionais de modo a referenciarem e, mesmo nalguns casos, a preencherem vagas presentes ou futuras. Simultaneamente, os estabelecimentos de ensino superior com cursos de turismo também vêm intensificando acções, em parceria com muitas empresas turísticas, com o objectivo de proporcionarem aos seus alunos oportunidades de entrada no mercado de trabalho. Tanto num caso, como no outro, são medidas que se saúdam, pois denotam preocupação quer com a educação, quer com a empregabilidade. Mais a mais numa actividade económica de mão-de-obra intensiva e de crescimento continuado como é a do turismo e, por estas razões, cada vez mais ávida de profissionais com conhecimentos e qualificações. Num tempo certamente não muito distante, iremos assistir ao cruzamento, ou fusão, destes caminhos, seja a nível regional, seja a nível sectorial, de onde resultará uma maior proximidade entre quem ensina e quem emprega, com ganhos evidentes para aqueles que pretendem iniciar a sua vida activa, para a actividade turística e, claro está, para o país.