iTurismo – Comentário Semanal de Atilio Forte

No rescaldo do 41º congresso da APAVT que decorreu a passada semana no Algarve, Atilio Forte analisa, no iTurismo de hoje, as intervenções proferidas nas sessões de abertura e encerramento do evento, bem como as notas deixadas aos congressistas sobre o futuro da TAP por parte de Fernando Pinto, presidente executivo da companhia.

 

Turisver.com – Acompanhou o congresso da APAVT que decorreu na passada semana no Algarve e começava por lhe pedir uma apreciação sobre as intervenções feitas na sessão de abertura, quer pelo presidente da Associação, quer pela secretária de Estado do Turismo.

 

Atilio Forte – Começo por uma nota prévia de agradecimento à APAVT – Associação Portuguesa das Agências de Viagens e Turismo, pelo gentil convite que me endereçou para acompanhar os trabalhos do seu XLI congresso nacional.

De uma forma geral podemos dizer que ambos os discursos foram, por um lado, bastante serenos e, por outro lado, relativamente objectivos, uma vez que o presidente da APAVT centrou muito a sua intervenção, e bem, naquelas que são as questões mais candentes e mais desafiantes para os agentes de viagens e, por parte do Governo que, por estar no seu primeiro dia de funcionamento, não seria espectável que viesse apresentar algo mais que não fossem as grandes linhas orientadoras contidas no seu Programa e que nos dispensamos de aqui repetir porque as temos comentado ao longo das últimas semanas.

Porventura, apesar dessa serenidade, dessa relativa objectividade e desse sublinhar de intenções políticas, nomeadamente por parte do Governo, creio que o único senão em ambos os discursos terá sido o não terem ido um pouquinho mais longe, sendo mais voltados para a frente, para o futuro, tendo dado voz a muitos ecos do passado. Com isto quero dizer, até porque este era um congresso que tinha por tema “Partilhar o Futuro”, que ambas as intervenções deveriam ter expressado um olhar mais para diante.

Apesar de compreender que o presidente da APAVT o tenha feito porque estava perante a “sua” plateia, os seus associados, e tinha por isso que prestar contas, sobretudo no final de uma Legislatura – de um Governo e de um ciclo político – que se concluiu, em nossa opinião deveria ter dado mais ênfase a uma ou outra matéria, nomeadamente, do ponto de vista político, empresarial e turístico, ter sublinhado mais a questão da eventual reversão do processo de privatização da TAP – bem sei que havia um painel, no dia seguinte, em que iria estar presente o presidente executivo da TAP –, que é hoje o problema mais candente e que mais preocupa todos os agentes do turismo em Portugal, no sentido de se saber como irá evoluir este assunto pois, pelo que é público e que consta do Programa do Governo, podemos vir a assistir a uma alteração significativa neste processo.

Assistimos, assim, ao colocar uma maior tónica no passado, principalmente pela parte do Governo, através da sua representante, a secretária de Estado do Turismo, que fez questão de a recordar, indo recuperar os tempos mais recentes em que a pasta do turismo esteve nas mãos do Partido que agora é responsável pela governação.

Embora do ponto de vista da lógica política do discurso tudo isto pareça fazer sentido, naquilo que seria mais do interesse quer dos empresários e, particularmente, dos agentes de viagens, que estavam neste evento, quer dos agentes turísticos, de uma forma geral, quando ainda para mais o tema do congresso era “Partilhar o Futuro”, entendo que as intervenções se podiam (e deviam) ter orientado mais para o futuro.

A única atenuante, ou justificação, é a que já referimos: porventura ainda não era este o tempo e o momento de o poder fazer, porque estamos com um Governo praticamente no “dia um” do seu início de funções.

 

Turisver.com – No segundo dia, e perante uma plateia cheia, o Congresso contou com a presença do Eng. Fernando Pinto que veio, de certo modo, tranquilizar os agentes de viagens que estão muito dependentes de uma forte parceria com a TAP.

 

Atilio Forte – Como disse na sua pergunta, o facto de termos tido uma plateia cheia para ouvir o Eng. Fernando Pinto, confirma aquilo que vimos dizendo, ou seja, que neste momento a principal fonte de preocupação dos agentes turísticos em Portugal é a questão do futuro da TAP.

Quanto à intervenção que fez, dentro da nova lógica da empresa, acho que tranquilizou muito todos os agentes turísticos acerca daquilo que será a estratégia futura da companhia. Obviamente, subsiste a pergunta a que não lhe competia responder e que por isso mesmo continua em aberto – daí o nosso entendimento de que deveria ter sido abordada na abertura do congresso –, e que tem estritamente a ver com os actuais accionistas da TAP e com o Governo, que é a da eventual reversibilidade, ou não, do processo de privatização da companhia.

Quanto ao mais, não deixou, com a frontalidade que todos lhe conhecemos – bem expressa, por exemplo, no ter reconhecido alguma precipitação na implementação da sobretaxa aplicada às reservas para o período de Natal e Fim de Ano -, e com o conhecimento profundo que tem do mercado, de dar alguns alertas, nomeadamente dirigidos às agências de viagens, como sejam os relativos à necessidade de acréscimo de valor e à utilização das novas tecnologias.

De uma forma geral descansou a toda comunidade turística e os agentes de viagens em particular, que continuarão sempre a ter na TAP um parceiro, um aliado, alguém que quer, conjuntamente com eles, construir e evoluir numa relação comercial e melhorar o desempenho do turismo nacional.

Mas, volto a sublinhar, não deixou de dar duas notas muito importantes: atenção ao acréscimo de valor e atenção à evolução que a tecnologia cada vez mais irá ter e ao papel que desempenhará na vida das empresas, principalmente das que actuam no campo da distribuição.

 

Turisver.com – Vamos deixar para um eventual comentário futuro os outros painéis e avançamos para a sessão de encerramento. Como analisa as intervenções proferidas?

 

Atilio Forte – Na sessão de encerramento, tal como na de abertura, assistimos a discursos serenos mas, desta feita, com maior objectividade. Apraz-me registar, na intervenção do presidente da APAVT, uma vez que já não são apresentadas conclusões e recomendações do congresso, a solução encontrada, que consiste em percorrer, ainda que sucintamente, todos painéis e transmitir as ilações que, enquanto presidente do congresso e presidente da APAVT, deles extraiu, o que resultou numa resenha muito feliz, que espelhou perfeitamente aquilo que foi discutido ao longo do congresso.

Outra nota digna de registo vai para a intervenção do presidente da Confederação do Turismo Português (CTP) que pontuou as acções mais imediatas que a CTP irá tomar, face ao novo ciclo político que se abre, concretizando os assuntos que tem em agenda e o papel que a Confederação, seja enquanto Parceiro Social, seja enquanto organismo de cúpula do movimento associativo empresarial do turismo, vai ter nessas matérias, criando a convicção – e por consequência uma expectativa fundada e legítima das suas responsabilidades – que, a breve prazo, e sobre cada um dos temas elencados, virá apresentar publicamente os dossiers que, sobre os mesmos, já estão certamente preparados.

Finalmente, a intervenção do presidente do Turismo de Portugal. Não a da sessão de encerramento – que foi mais de circunstância -, mas a feita cerca de duas horas antes, num painel em que se dirigiu ao congresso. Essa estava bastante bem estruturada, quer do ponto de vista da sua concepção, quer quanto aos objectivos.

Infelizmente, e tal como ele próprio reconheceu, foi uma intervenção que, pelas dificuldades de existência de elementos económicos e estatísticos que possam fundamentar muitas das coisas que aí afirmou – se beneficiámos ou não dos efeitos da Primavera Árabe, ou porque é que cresce o turismo em Portugal –, se ancorou muito em percepções e elementos actualmente carentes de validação científica, em razão de ainda não ter sido retomada a Conta Satélite do Turismo (CST) …

 

Turisver.com – Mas houve quatro anos para a criar…

 

Atilio Forte – De facto, existiram quatro anos para a criar mas, como já aqui comentámos, só no princípio deste ano (2015) foi anunciada a sua reimplementação. Neste momento, e do que sabemos, podemos adiantar aos nossos leitores, porventura em primeira mão, que no âmbito do protocolo estabelecido no início do ano entre o Turismo de Portugal e o Instituto Nacional de Estatística, já foi efectuada a transferência de verbas contratada para começar com os trabalhos da Conta Satélite do Turismo e, por essa razão, temos a certeza que, daqui a um ano, o presidente do Turismo de Portugal, numa intervenção semelhante, já não terá que compilar elementos que poderão ser frágeis ou falíveis, mas terá dados objectivos e estribados em rigor científico, baseados nos critérios da CST definidos pela Organização Mundial do Turismo, para a poder suportar.

Por último, uma nota menos positiva, para mencionar que mais uma vez assistimos por parte da entidade reguladora do turismo em Portugal, a um discurso muito centrado na promoção turística, deixando de lado outras valências muito importantes e que também são da sua competência, nomeadamente, as que têm a ver com a formação profissional, com o financiamento à actividade turística e com a regulação e consequente fiscalização, que achamos seriam de todo o interesse abordar, num congresso que transvasa em muito as fronteiras do sector da distribuição.

Nota: Não é demais recordar que esta é uma rubrica em que privilegiamos o envolvimento com os leitores que podem colocar questões a Atilio Forte através do e-mail iturismo@turisver.pt.