iTurismo – Comentário Semanal de Atilio Forte

As implicações do abrandamento da economia chinesa no turismo, a utilização das tecnologias móveis pelas agências de viagens e o avultado número de hotéis à venda em Portugal são os “Tópicos da Semana” do iTurismo de hoje em que Atilio Forte escolheu para “O + da Semana” o tema do XLI Congresso da APAVT. O habitual Comentário centra-se em temas abordados, na passada semana, pelo presidente da Câmara de Lisboa e do Turismo e Lisboa no almoço da AHP.

Tópicos da Semana:

  • A China e o turismo: Na opinião de muitos especialistas, o abrandamento da economia chinesa irá ter importantes implicações no turismo, particularmente na hotelaria, pois embora o turismo interno daquele país continue a crescer a dois dígitos, o número de chegadas internacionais prosseguirá a sua diminuição devido a várias razões, das quais fazem parte, para além do menor crescimento da economia global, preocupações ao nível da qualidade do ar e da inflação da moeda.

 

  • Finalmente!?: Observando aquilo que se passa no mundo do turismo, existem fortes indicadores que as agências de viagens começam a “abraçar” a tecnologia móvel como forma de melhor interagir e atender os seus clientes, embora ainda não tenham interiorizado plenamente que as diferentes gerações não utilizam do mesmo modo as ferramentas que têm ao seu dispor.

 

  • A prova dos 9: Pode parecer paradoxal, mas não deixa de ser verdade. Apesar dos bons resultados turísticos que vêm sendo alcançados, o facto é que nunca estiveram tantos hotéis à venda em Portugal, como presentemente. Esta é uma prova incontornável, que merece uma profunda e séria reflexão, de que nem tudo está tão bem quanto parece, ou nos fazem crer… Por razões várias (novo governo, congressos associativos, etc.), os próximos meses são uma oportunidade única para que esta realidade se altere. Convirá não a perder!

 

Comentário

Turisver.com – A Câmara Municipal de Lisboa (CML) e o Turismo de Lisboa (ATL) foram notícia no final da semana passada na sequência da participação de Fernando Medina no almoço mensal da AHP (Associação da Hotelaria de Portugal). A propósito da intervenção que o presidente de ambas as entidades ali fez, os nossos leitores fizeram-nos chegar algumas questões, daí voltarmos a um tema já aqui comentado.

Quanto às taxas turísticas, estas constarão no próximo orçamento da CML, e são estimadas em 15 milhões de euros, oito milhões da taxa das dormidas que começará a ser cobrada a 1 de Janeiro de 2016, e o restante proveniente das taxas portuárias e aeroportuárias. No almoço da AHP, o presidente da autarquia garantiu que estas verbas irão para o Fundo de Desenvolvimento Turístico de Lisboa através do qual serão reinvestidas no turismo, em acordo com os privados, prevendo-se a criação de um comité de investimento que irá decidir quando onde e como serão aplicadas as verbas. Colocada assim a questão, como analisa hoje a situação?

 

Atilio Forte – Confesso que é com alguma decepção – não confundir com falta de ânimo – que se constata que, no que a este assunto respeita e após terem-se passado tantos meses, nada mudou.

Pior do que errar (algo intrínseco à condição humana), é persistir no erro, mesmo sabendo que, mais do que não ter razão, se põe em causa a competitividade e a imagem turística de um país. E a gravidade é tanto maior quando não se tem, ou não se quer ter, consciência das consequências que uma decisão desta natureza pode ter, quando tomada pela capital, no contágio dos demais municípios.

Quando há meses aqui comentámos este assunto, demonstrámos, e posteriormente constatámos, a perversidade desta medida, bem como a ligeireza com que a mesma tinha sido tomada. Vale a pena recordar que a embrulhada foi tal que os autores se viram na contingência de adiarem a sua entrada em vigor – no caso da taxa de dormida – ou apressadamente arranjarem uma solução temporária e de recurso – no caso da taxa aeroportuária –, através da empresa concessionária dos aeroportos nacionais.

Talvez devido aos expedientes que, como referimos, foram encontrados – não envolvendo directamente as empresas, nem os turistas –, ou talvez por algum laxismo dos agentes económicos privados, o facto é que o assunto caiu quase no esquecimento, deixando de estar no centro das preocupações do sector privado, totalmente ao arrepio de situações idênticas verificadas no passado – por exemplo em Aveiro -, onde a posição concertada das associações empresariais, conjuntamente com uma grande prova de inteligência (por não insistirem no erro) dos órgãos municipais locais, conduziram a que uma medida em tudo semelhante, não fosse por diante.

É por estas razões, como os nossos estimados leitores certamente já perceberam, que comecei por sublinhar alguma decepção relativamente a este assunto.

Mas, para além da aberração que é instituir taxas desta natureza num país em que a maior actividade exportadora é o turismo, cujo consumo dos produtos e serviços por ela exportados é feito dentro de portas – o que não acontece com nenhuma outra -, com inúmeros e óbvios efeitos indutores noutros sectores da economia, local, regional e nacional, importa referir que os valores de arrecadação de receita apontados pela edilidade lisboeta são relativamente despiciendos, já que, por um lado, não têm grande expressão no orçamento camarário e, por outro lado, não têm em consideração os custos empresarias – a suportar pelos agentes económicos privados – e de imagem – o impacto negativo causado em todos quantos visitem Lisboa -, respeitantes à implementação da medida.

Propõe a autarquia a criação de um Fundo de Desenvolvimento Turístico de Lisboa, co-gerido entre públicos e privados, onde se decidirá (através de um comité) qual o destino – no turismo – a dar às verbas arrecadadas pela aplicação destas taxas.

Sinceramente, uma actividade com o peso (cada vez maior!) que o turismo vem demonstrando na economia lisboeta, já há muito que merecia a existência de uma instituição com essa natureza, atributo e finalidade, de modo a contribuir para o desenvolvimento e crescimento mais harmoniosos do turismo na nossa capital. E não como paliativo para suavizar uma decisão tão sem sentido.

Assim, a posição que os agentes económicos privados tomarem, nomeadamente a que for expressa pelos seus legítimos representantes (associações empresariais), será determinante. Se pactuarem com a implementação destas taxas e aceitarem fazer parte da gestão deste Fundo, mais do que claudicarem, provarão que tratam situações semelhantes (Aveiro e Lisboa) com peso e medida diferentes.

Acredito que tal não acontecerá. Por isso, tenho fundada esperança que a decepção dê lugar à acção.

Turisver.comRecentemente a Câmara e a Assembleia Municipal de Lisboa tomaram a decisão de entregar à ATL, por um período de 50 anos e cerca de 3,5 milhões de euros, o direito de superfície sobre o Pavilhão Carlos Lopes. A bancada municipal do PSD contesta o procedimento e apresentou uma queixa à Procuradoria-Geral da República (PGR). Como analisa estas duas situações?

Atilio Forte – De modo a clarificar melhor o que está em causa creio que, acima de tudo, o mais importante seria ter-se dado esclarecimento público sobre qual o ou os objectivos da entrega ao Turismo de Lisboa (ATL), por 50 anos, do direito de superfície sobre o Pavilhão Carlos Lopes. Mais até do que o valor em causa, já que poderá acontecer que a concessionária fique obrigada a realizar investimentos (de requalificação, de readaptação, etc.) que, obviamente, deverão também ser tidos em linha de conta.

Sublinho que esta não é a primeira vez que tal acontece entre a CML e o Turismo de Lisboa – recordamo-nos, entre muitas outras, do sucedido com o parque de campismo do Monsanto, com a Praça da Ribeira ou com o Páteo da Galé. E, nestes casos, como noutros, o que viemos a constatar é que as intervenções aí realizadas devolveram à cidade – e ao turismo – alguns espaços, que hoje são pólos de atracção importantes, dotados de infra-estruturas de qualidade para acolherem eventos e turistas.

Como diz o povo no seu infinito saber: “quem não deve, não teme”. Por isso, e esperando que a intervenção solicitada à justiça (PGR) seja célere – o pior que poderia acontecer seria o arrastar da situação, conduzindo a uma cada vez maior degradação de um equipamento tão emblemático, quanto desaproveitado -, e que o que esteja em causa não seja apenas uma querela política, sou de opinião que deveremos aguardar pela rápida resolução da situação.

Numa coisa, creio, todos concordamos: é um crime (em sentido figurado, sublinhe-se) que o Pavilhão Carlos Lopes continue abandonado, quando a cidade está tão carente de locais centrais e de fácil acesso para a realização, por exemplo, de eventos (reuniões, congressos, exposições, etc.).

 

O + da Semana:

“Turismo: Partilhar o Futuro” foi o tema seleccionado pela Associação Portuguesa das Agências de Viagens e Turismo (APAVT), para o seu XLI Congresso Anual. Porventura, esta não terá sido a escolha mais feliz. Como também não será a mais empolgante. Contudo, e disso não temos dúvida, é seguramente da maior oportunidade. As razões para tal são múltiplas e da maior pertinência. Para além das elencadas pela própria APAVT – o Congresso ser um dos maiores pontos de encontro dos principais actores do turismo nacional; a sua realização ter lugar no Algarve, a mais importante região turística do país, que se debate com problemas estruturais que urge resolver; a promoção e a troca de experiências entre diferentes gerações de empresários e profissionais da actividade turística; a importância de continuar a olhar para o futuro do turismo português -, valerá a pena ainda acrescentar outras, como a do “tempo político” em que o evento irá decorrer – a estreia de um novo governo e com o orçamento do estado para 2016 em debate -, a de qual será a política de turismo que Portugal irá prosseguir e, para não ser exaustivo, como tirar o devido partido do turismo ser a mais simbiótica de todas as actividades económicas, compaginando, quer interesses sectoriais de grandes e pequenas empresas, quer os que inter-sectorialmente decorrem da constelação turística. Por tudo isto, a expectativa é grande e a escolha foi acertada!

Nota: Não é demais recordar que esta é uma rubrica em que privilegiamos o envolvimento com os leitores que podem colocar questões a Atilio Forte através do e-mail iturismo@turisver.pt.