iTurismo – Comentário Semanal de Atilio Forte

O lugar do turismo no governo, o Código de Boas Práticas de Segurança e Higiene Alimentar apresentado pela AHRESP e o “fim dos charters” predito pelo CEO da Monarch, são os “Tópicos da Semana” do iTurismo de hoje em que Atilio Forte escolheu como “O + da Semana” o turismo multigeracional. No comentário fala-se de “massificação personalizada” e de política de turismo a propósito do perfil que deverá ter um novo secretário de Estado do Turismo.

 

Tópicos da Semana:

  • Vamos por partes: No último par de semanas muitas têm sido as conversas acerca do posicionamento orgânico do turismo no seio do futuro governo, com vários cenários a serem debatidos entre os agentes turísticos privados, preocupação que é de salutar. Contudo, não faria mais sentido ir por partes? Isto é, primeiro garantir que o turismo tenha lugar assegurado no governo e, só depois, procurar influenciar a forma dessa expressão. Convirá lembrar que em 2011 a actividade turística esteve muito perto da exclusão!
  • Boas Práticas: Numa iniciativa que merece todo o destaque, a Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal (AHRESP) apresentou, há poucos dias, um Código de Boas Práticas de Segurança e Higiene Alimentar, com o objectivo de apoiar todas as suas associadas, sobretudo as de menor dimensão, a cumprirem as obrigações legais que decorrem das normas de segurança e higiene alimentar, em defesa da saúde pública e da minimização dos custos de contexto que afectam as empresas.
  • Em causa própria: Recentemente, no decurso da Convenção da Associação Britânica de Agentes de Viagens (ABTA), o CEO da Monarch Airlines defendeu que, salvo raras excepções, o fim dos “charters” está para breve, pois as companhias de baixo custo já estão a preencher esse espaço. Recordo que, quando as “low cost” apareceram, também muitos altos responsáveis das companhias aéreas “regulares” vaticinaram que aquele modelo de negócio não iria vingar. O certo é que tal não aconteceu. Isto de ser juiz em causa própria tem muito que se lhe diga.

 

Comentário

Turisver.com – Numa intervenção que fez esta semana na Universidade Lusófona afirmou que “temos que criar uma massificação personalizada, sempre com o cliente como foco”. Esta frase suscitou alguns comentários no final. Pode esclarecer mais pormenorizadamente qual o seu sentido global?

Atilio Forte – Certamente que sim. Esta frase é, ou melhor representa, por assim dizer, o epílogo dos tremendos desafios que o turismo actual enfrenta. Ora, como é bem sabido, presentemente deparamo-nos com novos desafios que, seguramente, não conseguiremos superar com velhas ideias ou soluções.

E estes novos desafios decorrem das profundas transformações porque passou e passa a actividade turística. Não é em vão que, hoje em dia, quando nos referimos à actividade o fazemos designando-a por “novo turismo”. A realidade é que o turismo, tal como o conhecemos – e estudamos – pouco tem a ver com o de há algumas (poucas) décadas. Hoje vivemos no primado do consumidor, o qual tem acesso a um cada vez maior volume de informação e, consequentemente, de oferta. No fundo, sofisticou-se, ou seja, para além de viajar, também quer experienciar.

Paralelamente, também assistimos – à escala planetária – a um fortíssimo desenvolvimento da actividade turística que durante as próximas décadas, tudo para aí aponta, irá apresentar níveis de crescimento bem acima dos da média da economia mundial.

Assim, para darmos resposta ao “novo turismo”- e ao “novo turista”, pois é ele quem lhe dá sentido e existência -, e ao aumento projectado da actividade, no fundo aos novos desafios, necessitamos também de novas respostas, nomeadamente de um novo modelo estratégico para o turismo. E tal é válido para qualquer região, destino, país, ou empresa, pois do que se trata é de procurarmos captar a maior “fatia” possível do crescimento expectável, através de uma maior atractividade.

Ora, em minha opinião, esse novo modelo estratégico deve ter na sua base uma clara orientação para a inovação, para a criação de valor e emprego. E será nessa base que deverão ser cravados os quatro grandes pilares que servirão de suporte a este novo modelo estratégico, a saber: a diferenciação; a autenticidade; a massa crítica; e, a regulação.

No entanto, nada disto será suficiente se, simultaneamente, não intervirmos ao nível do produto, através da qualificação da produção, e ao nível da envolvente, através da qualificação dos factores.

Será na conjugação de todos estes aspectos – um novo modelo estratégico alicerçado nos quatro grandes pilares que mencionei e nas intervenções tanto ao nível do produto, como da envolvente – que reside o segredo do sucesso, pois será este o modo que nos permitirá fazer com que cada turista/consumidor se sinta especial, sinta que a experiência que lhe é proporcionada é única e irrepetível.

Contudo, e disso temos toda a consciência, é impossível customizar um produto ou serviço turístico, para cada consumidor. Daí que a chave do êxito resida na capacidade que manifestarmos em criar uma “massificação personalizada” (propositadamente a expressão configura um paradoxo), cujo centro ou alvo de todas as atenções seja sempre o cliente, pois vivemos no seu primado. Tal significa ter um produto de “série” que incorpore tanta inovação e com tanto acréscimo de valor, que seja valorizado por quem o adquire, que faça com que quem o compre sinta que parece que ele foi concebido para ir ao encontro dos seus desejos e motivações, no fundo, que foi criado especialmente para si.

 

Turisver.com Cada momento é diferente do anterior, o tempo não pára. Nos últimos anos tivemos a Secretaria de Estado do Turismo ocupada por duas personalidades vindas da área da política. Para o tempo que vivemos qual lhe parece que deveria ser o perfil ideal para o próximo SET?

Atilio Forte – Como inúmeras vezes temos referido nos comentários que fazemos, mais importante do que as pessoas, são as estratégias, os projectos, as ideias ou, como no caso presente, as políticas.

Por esta razão, creio que a todos deverá preocupar mais qual a política de turismo que iremos ter – se é que, finalmente, a teremos – do que definir um perfil de quem a irá corporizar. Porque se não houver uma visão, um caminho que se queira seguir, partilhado por todos os agentes turísticos, sejam eles públicos ou privados, em que a responsabilidade das escolhas esteja igualmente repartida por todos, por mais “iluminado” que seja o titular da pasta do turismo, andaremos sempre aos ziguezagues, andaremos sempre a “navegar à vista”, ao sabor das circunstâncias.

Esta é, em minha opinião, a questão central que urge resolver. E se atentarmos bem, com a sua solução tudo se tornará (ou tornaria) bem mais fácil, pois definido um rumo, certamente que encontrar a melhor equipa para o levar por diante não será o mais complexo.

Não sou adepto de pessoas providenciais. Muito menos nos tempos actuais. Ao longo da vida fui testemunha – e nalgumas vezes actor privilegiado – que o trabalho de e em conjunto, a partilha de responsabilidades, conduz sempre a melhores resultados. Ninguém tem “varinhas de condão” que façam, por um qualquer truque de magia, que o trabalho a realizar apareça, não apenas pronto, mas bem feito.

Isto é o que considero essencial, mesmo numa situação que, não escondo será sempre a mais desejável, possamos vir a ter na tutela da actividade, alguém profundamente conhecedor da realidade turística, da sua importância (nacional e internacional) e com capacidade para gerir a sua transversalidade, criando os desejáveis e necessários consensos, tanto dentro como fora do governo.

 

O + da Semana:

Cada vez assistimos a um maior número de operadores turísticos e hotéis a apostarem no segmento do turismo familiar ou, como agora é moda dizer-se, do turismo multigeracional, principalmente na gama de maior poder de compra, disponibilizando uma vasta oferta de produtos e serviços como forma de corresponder às diferentes solicitações de consumo de cada membro do agregado familiar. Não é em vão que o próximo WTM (World Travel Market) lhe vai dedicar um dos seus seminários. A oferta turística está, assim, a adaptar-se e a responder a uma procura cada vez mais específica e personalizada, que provem do núcleo mais representativo e duradouro da nossa vida em sociedade, a família. Mas, o que mais deve ser realçado, por quem analise de perto esta situação, é que a resposta dada contempla o alargar (ou actualizar) do conceito de “família” que decorre da chamada sociedade mosaico. É que para além do mais conservador e tradicional agregado familiar – cônjuges e descendentes -, inserem-se igualmente na definição de família, os agregados monoparentais, pluriparentais, de igualdade de género, etc., etc.. Isto revela o turismo em todo o seu esplendor, a “trabalhar” a sua matéria-prima única, sensível, enriquecedora e desafiante: as pessoas!

 

Nota: Não é demais recordar que esta é uma rubrica em que privilegiamos o envolvimento com os leitores que podem colocar questões a Atilio Forte através do e-mail iturismo@turisver.pt.