iTurismo – Comentário Semanal de Atilio Forte

A utilização de emojis para fazer pedidos de room service, o ganho de dimensão da Springwater Tourism com a aquisição da GeoStar e as boas dores de crescimento do turismo preenchem os “Tópicos da Semana” do iTurismo de hoje em que Atilio Forte destaca como “O + da Semana” a afirmação da região Oeste como potência mundial de surf. No habitual Comentário, o foco vai para o recente Congresso da Associação da Hotelaria de Portugal.

Tópicos da Semana:

  • Emojis: A Aloft – marca da Starwood Hotels & Resorts direccionada à geração do milénio – lançou um programa piloto designado “Text it. Get it.”, que permite aos hóspedes que façam os seus pedidos de “room-service” através dos célebres emojis. A cada item do menu que se encontra nos quartos corresponde um destes símbolos (emoji), que é utilizado para fazer o pedido, recebendo como resposta de confirmação um emoji de polegar levantado. Bem à medida do seu segmento alvo!
  • Dimensão Ibérica: Com a recente aquisição da GeoStar por parte da Springwater Tourism, o sector turístico da distribuição viu um dos seus principais actores ganhar uma dimensão acrescida, já que a sua facturação global passará a rondar os 500 milhões de euros/ano. Paralelamente a Springwater Capital (proprietária da Springwater Tourism) passa a ser um dos maiores grupos de turismo da Península Ibérica. A importância da existência de um grupo com este peso no Sul da Europa poderá, nos seus impactos, ir muito além do negócio propriamente dito.
  • Boas dores: Várias consultoras internacionais têm-se referido ao facto do bom momento porque passa o turismo permitir uma melhoria no cumprimento dos indicadores de gestão das empresas, nomeadamente os orçamentais, sobretudo na hotelaria. Ao analisarmos os resultados obtidos em 2014, verificamos que tanto ao nível dos proveitos, como dos lucros, os desvios verificados não excederam 0,4%. Estima-se que esta precisão se prolongue em 2016, o que dará maior confiança aos investidores e aos arrendatários, e credibilizará os elementos apresentados pelos operadores. As “dores de crescimento” também podem ser boas!

 

Comentário

Turisver.com – O 27º Congresso da AHP ficou muito marcado por uma intervenção feita pelo Secretário de Estado do Turismo num fórum recente em Lisboa. Tanto que nos corredores corria a dúvida sobre se o SET não estava no congresso por vontade própria ou porque o convite não se tinha mantido. Não me lembro de, neste sector, haver um congresso sem a presença de pelo menos um político. Para uma pessoa que presa tanto a relação institucional, também deve ser estranho…

Atilio Forte – Quero começar por dizer aos nossos leitores que, por compromissos profissionais inadiáveis, não me foi possível estar presente neste congresso da Associação da Hotelaria de Portugal (AHP). Embora me tenham chegado muitos ecos e muita informação acerca do que se lá passou, infelizmente não tive a oportunidade de o presenciar.

Relativamente à questão concreta que me coloca, ou seja, da ausência de um membro do Governo e, nomeadamente, daqueles que representariam a tutela mais directa do turismo na esfera do Ministério da Economia, num congresso tão importante como o da AHP, de facto é estranho. É estranho, e de acordo com as informações que me chegaram, acho que ambas as partes podiam ter estado melhor do que estiveram.

É verdade que num acontecimento, ocorrido cerca de uma semana e meia antes da realização do congresso, o Governo fez um discurso pouco simpático para com um sector tão importante do turismo, como é o da hotelaria, que tanto tem feito, sobretudo nos últimos anos de crise, ao nível do investimento, da manutenção de postos de trabalho, e até em muitos casos, ao nível da inovação da oferta turística, acusando-o de não se querer expor à concorrência e pugnar por medidas proteccionistas. Ora escolher um fórum, que não tinha directamente a ver com o sector, para apresentar algumas discordâncias relativamente às ideias que os empresários da hotelaria têm relativamente à sua actividade, pareceu-me bastante extemporâneo.

No entanto, havia a oportunidade de esclarecer a situação. Tanto quanto julgo saber, o convite estava feito para que o Governo participasse no congresso da AHP e aí, no local próprio e perante a plateia certa, pudesse expor os seus argumentos e, assim, abrir-se um debate que seria frontal e, por certo, construtivo.

Portanto, nesta primeira parte, o Governo esteve mal porque antes do tempo falou de um assunto num local que não era o mais certo.

Também não terá estado muito bem a organização do congresso porque, face a essas afirmações, em vez de “chamar” o Governo para o confrontar e explicitar melhor a mensagem que tinha passado, acabou por intervir de modo a evitar a materialização dessa presença, transformando-a numa oportunidade perdida.

Como gosto de fazer estes comentários sempre pelo lado construtivo, acho que a presença do Governo podia permitir ao turismo e, nomeadamente, ao sector da hotelaria, uma melhor clarificação e, possivelmente, uma discussão mais franca e mais aberta de toda esta temática que, infelizmente, acabou por não acontecer, tendo o assunto andado a pairar durante todo o congresso. Do ponto de vista político e com um Governo que está a finalizar o seu mandato, tudo podia e devia ter sido mais clarificador.

 

Turisver.com – Outro tema que marcou o congresso e mereceu um painel específico foi a economia paralela e o alojamento local, que tem surgido como “cogumelos” especialmente nas zonas urbanas de Lisboa e do Porto. É uma matéria sensível em que uma das conclusões que saiu deste congresso é que não há regulação sobre este tipo de oferta. Concorda com esta linha de pensamento?

Atilio Forte – Recordo que há uns meses tivemos a oportunidade de comentar as alterações legislativas relativas ao alojamento local. Na altura dissemos que o Governo tinha andado relativamente bem, sobretudo, pelo facto de ter chamado ao sistema da regulação e fiscal e cadastral um conjunto de actividades que lhe eram marginais. Ou seja, não se sabia quantas eram, quem eram, não havia cadastro nem registo das mesmas, estando aberta a porta para que funcionassem à margem de todo o sistema e, portanto, não cumprissem com um conjunto de obrigações, quer legais, quer fiscais, quer de outra natureza, como as de segurança.

Digo isto para recordar o mérito que houve nesta legislação por parte do Governo, que se traduziu, quase que imediato, por uma “explosão” de legalização de um conjunto muito vasto de unidades de alojamento (apartamentos).

Mas também dissemos que era preciso ir mais longe porque, apesar de se conseguir que muitos agentes deixassem de estar na chamada economia paralela e passassem a fazer parte das regras naturais de funcionamento do mercado, colocando em igualdade de circunstâncias todos os agentes económicos, o que é um facto é que, como agora se prova – e no congresso foi, por aquilo que sabemos, uma questão muito debatida -, continua a haver evasão fiscal e continuamos a não ter um registo, por exemplo, do número de hóspedes que vão para essas unidades de alojamento, ou assegurado o cumprimentos de normas de segurança.

A razão ou as razões ficam de algum modo divididas, seja por quem legislou, seja pelos empresários do sector do alojamento. O grande problema é que, entretanto, não comunicaram mais, ficaram de costas voltadas.

Mantenho a opinião que foi importante ter chamado ao sistema quem não estava nele. Mas por se tratar de uma novidade e por estarmos confrontados com uma nova realidade, as conversações deveriam ter prosseguido com os representantes dos agentes económicos para que se pudessem ter introduzido mais afinações à legislação e regulamentação, evitando-se a eclosão de um problema que hoje é bem real.

Há uma coisa de que não nos podemos esquecer e que tem como pano de fundo a forma como tudo funciona. É que o consumidor actual de serviços turísticos procura este tipo de produtos. Esta é uma realidade incontornável. Portanto, não adianta a nenhuma das partes tapar o sol com a peneira porque, estas empresas, estejam ou não dentro do sistema, só existem porque há quem queira consumir o seu produto. Assim, se há mercado, quer quem tem a responsabilidade de o regular, quer aqueles que são os seus principais actores, não podem fingir que ele não existe mas antes, têm que arranjar soluções e entenderem-se para que tudo possa funcionar de modo mais harmonioso porque, no limite, haverá sempre “espaço” para todos.

Julgo que este é, mais uma vez, um dos assuntos em que deveria ter havido mais diálogo e em que não vale a pena escamotear-se a realidade para o problema desaparecer.

 

Turisver.com – Gostava de pedir a sua opinião sobre esta frase proferida por um hoteleiro, neste caso, Gonçalo Rebelo de Almeida, moderador de um dos painéis que, depois da primeira ronda de intervenções, afirmou que “com estes elementos todos, continuamos a perceber que o que tem crescido menos tem sido o preço médio de venda dos quartos dos hotéis”, deixando um desafio ao afirmar que não se pode esquecer que quem controla os preços são os hoteleiros.

Atilio Forte – Creio que o que está na origem dessa frase – com a qual genericamente concordo – remonta a 2008 e decorre, quer da crise económica internacional quer, depois, da própria crise nacional e subsequente entrada de Portugal no programa de assistência financeira, as quais, como todos bem sabemos, fizeram com que a economia internacional e nacional passassem um mau bocado, o que se reflectiu numa depreciação, sendo que os indicadores apontam que só no ano que está agora a findar é que, eventualmente, chegaremos a um nível de preços mais próximo do que tínhamos em 2007. Quer dizer que estamos a falar de uma situação com início há oito anos, o que é muito tempo.

Ora tal sublinha aquilo que aqui temos vindo a dizer. Tanto é verdade que o turismo nacional, no seu todo, tem apresentado melhores resultados e começado a crescer de forma mais sustentada, o que se tem reflectido numa maior procura e feito aumentar o preço médio, como também é verdade que as empresas continuam, independentemente desses bons resultados globais, a apresentar muitas fragilidades, porque não podemos esquecer que o seu número, nomeadamente no sector do alojamento, não parou de crescer. Se quiser, o que conseguimos a mais, está a ser dividido por muitos mais.

Para além disto, entraram no mercado novas tipologias de alojamento fruto de um consumo cada vez mais ávido de produto diferenciado, o que ainda mais veio retardar a chegada desses bons resultados globais ao seu verdadeiro destino, isto é às empresas e, essas acabam por se ressentir de toda esta situação.

O turismo português está pois num momento e numa fase na qual – para além da conjuntura que atravessamos de grande incerteza -, há também uma instabilidade, porventura mais profunda, e que não tem tanto a ver com a parte política do país, mas muito mais com aquilo que tem sido a evolução da actividade turística nos últimos anos, não só em Portugal, não apenas na Europa, mas um pouco por todo o mundo.

O turismo está num profundo processo de mutação e não vai parar. A actividade económica do turismo está em mudança e, como está alicerçada em perspectivas de crescimento para as próximas década muito acima do que será o crescimento médio da economia mundial, quer dizer que vamos ter mais consumidores de produtos e serviços turísticos a quererem cada vez mais novas soluções, novas experiências, novos produtos, que correspondam àquelas que são também cada vez mais as suas reais (e novas) necessidades de consumo. Portanto, estamos perante um gigantesco desafio, sobre o qual era – e é – importantíssimo todos reflectirmos.

É por isso que entendo que num congresso tão importante como o da AHP que, tanto quanto julgo saber, foi muito participado, que teve sessões quase sempre com sala cheia, fazia todo o sentido analisar e trazer ao debate esta questão.

Considero que foi muito oportuna a escolha do seu tema. Mas se calhar eram precisos mais congressos a produzirem idêntica reflexão porque, de uma coisa podemos estar certos: o mais importante de tudo é encontrarmos (boas) soluções.

 

Turisver.com – A instabilidade política que se vive no país não foi sentida neste congresso da AHP, não foi matraqueada pelos oradores como às vezes acontece noutros fóruns. Foi um congresso que decorreu como se nada se passasse que pusesse em causa o futuro do turismo.

Atilio Forte – Não nos cansamos de repetir que o turismo é uma actividade económica eminentemente privada. Mas esta condição não o torna imune a que o poder político, no sentido mais lato, o condicione, como tão bem sabemos e até exemplificámos nalguns comentários que aqui hoje acabámos de produzir. Em alguns aspectos intervém e interfere directamente com a boa e escorreita evolução do turismo.

Mas muito mais importante é o papel dos empresários, porque são eles que conhecem a actividade melhor do que ninguém, devendo, por isso, serem eles os primeiros a preocupar-se com os seus problemas, porque no fim de contas trata-se do sucesso, tanto das suas empresas, como dos postos de trabalho que têm à sua responsabilidade, numa palavra, do que se traduz, na prática, por aquilo que designamos como oferta turística nacional.

 

O + da Semana:

Há poucos (mesmo muito poucos!) anos, ninguém se atreveria a prever que Portugal e, muito em particular a nossa região Oeste, se afirmaria como uma das grandes potências entre os principais destinos mundiais de surf. Para que tal tenha sido possível é certo que muito contribuíram as imagens, quer de Garrett McNamara a surfar aquela onda gigantesca na Nazaré, quer de Peniche se ter fixado como anfitriã de uma prova do circuito mundial de surf (a edição deste ano está em curso), que correram (e ainda correm) o Mundo. Sem retirar o mérito e o impacto destes dois exemplos, convirá também sublinhar – e enaltecer – o esforço, o empenho e o compromisso criado entre empresários, autoridades locais, regionais e nacionais, pois foi ele que permitiu criar o substrato que caucionou a emergência da região, neste segmento turístico em franco crescimento. No início foram (são sempre!) apenas alguns “loucos”, aqueles que acreditaram. Hoje, graças a eles, todos já sabemos o que é “o canhão da Nazaré”. E, como inúmeras vezes temos sublinhado, o Mar tem tanto, mas tanto mesmo, para dar à nossa oferta turística.

 

Nota: Não é demais recordar que esta é uma rubrica em que privilegiamos o envolvimento com os leitores que podem colocar questões a Atilio Forte através do e-mail iturismo@turisver.pt.