iTurismo: Contra a Homofobia, por Atilio Forte

No iTurismo de hoje estão em foco as declarações do Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro sobre o turismo gay, que Atilio Forte analisa à luz dos princípios da Declaração Universal dos Direitos Humanos e de Resoluções da OMT acerca da Prevenção do Turismo Sexual. Outro tema em destaque é o contributo de iniciativas como a Feira Ibérica do Turismo ou o Fórum “Vê Portugal” para o desenvolvimento turístico das regiões que os acolhem.

 

Tópicos da Semana:

 

Preço e comentários, os novos paradigmas da procura: Um recente inquérito levado a cabo pelo Expedia Group veio confirmar que os consumidores, quando procuram por alojamento em hotéis, valorizam mais o preço e os comentários efectuados por outros clientes do que os “nomes” ou as “marcas”. Apesar das promoções e dos descontos terem impacto, a grande maioria dos potenciais hóspedes está disposta a pagar um pouco mais por estadas em unidades que tenham melhores avaliações.

 

Crédito malparado dispara nas empresas turísticas: A imobiliária internacional CBRE veio há poucos dias alertar que, apesar de 2018 ter sido o melhor ano turístico de sempre a nível global – tanto em número de turistas, como em receitas geradas –, as empresas que operam na actividade têm assistido a um acréscimo do crédito malparado, ou seja, de contas/facturas que provavelmente não lhes serão pagas, facto que em grande parte é atribuído a uma maior aceitação dos cartões de crédito para a realização de pagamentos, uma vez que tal aumenta a sua exposição à fraude.

 

Cidades americanas e suíças são as mais caras para viagens de negócios: No último relatório que divulgou e que tem por objecto o corrente ano (2019), a consultora ECA – International (empresa que se dedica a pesquisar e fornecer informação acerca do custo de vida, valor dos salários, da habitação/alojamento, impostos, legislação laboral, regalias e qualidade de vida para quem pretende ir trabalhar para o estrangeiro) colocou as cidades de Nova Iorque, Genebra, Zurique e Washington D.C. no topo da lista das 10 mais caras para viagens de negócios. De entre os factores tomados em consideração encontram-se: o preço médio praticado por hotéis de quatro estrelas, o custo dos transportes, refeições e táxis.

 

Comentário

 

Turisver.com – O Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, afirmou na passada semana que “Se querem vir cá e ter sexo com uma mulher, fiquem à vontade”, contrapondo no entanto que “não podemos ficar conhecidos por ser um paraíso do turismo gay. O Brasil não pode ser um país do mundo gay. Nós temos famílias”. Que comentários lhe merecem estas declarações?

 

Atilio Forte – Antes de iniciarmos a resposta à questão que nos é colocada gostaríamos de recordar que, como sempre foi timbre do iTurismo, nunca comentamos pessoas ou declarações feitas por alguém, mas sim estratégias, políticas, negócios, deliberações ou outras tomadas de posição que, reflectindo uma vontade ou intenção colectiva, seja ela de um país, de um Governo, de uma região ou de uma qualquer organização, internacional ou nacional, de propósito económico, social, religioso, cultural ou político tenha, de alguma forma, efeito – positivo ou negativo – na actividade económica do turismo. Por isso não vemos razão ou fundamento para, agora, abrir uma excepção a esta regra que nos auto-impusemos. Mais a mais, quando estamos perante afirmações tão claras e inequívocas que, naturalmente, falam por si e cuja interpretação deixamos ao livre arbítrio e critério dos(as) nossos(as) estimados(as) leitores(as).

Assim sendo, iremos centrar a análise de hoje à luz dos princípios da Declaração Universal dos Direitos Humanos (adoptada pela ONU – Organização das Nações Unidas em 1948) e das Resoluções aprovadas nas Assembleias Gerais da Organização Mundial do Turismo (UNWTO) acerca da Prevenção do Turismo Sexual e sobre o Código de Ética Mundial para o Turismo, respectivamente realizadas nas cidades do Cairo (Egipto), em 1995, e em Santiago (Chile), em 1999, documentos que, entre outros aspectos, condenam quer a promoção de actividades turísticas com propósitos sexuais, quer a discriminação do Ser Humano em razão da sua orientação sexual.

Dadas estas notas prévias convirá que comecemos por tipificar, do ponto de vista económico e social, qual a importância que o denominado segmento LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transsexuais ou transgéneros) tem no turismo actual. Assim, e de acordo com estudos conduzidos pela UNWTO estima-se que, presentemente, 10% dos turistas mundiais (cerca de 140 milhões de pessoas) se enquadrem nesta categoria, a qual é responsável por, aproximadamente, 15% do total das receitas turísticas geradas.

Por outro lado, deve também sublinhar-se que, de um modo geral, os turistas LGBT, tal como os heterossexuais, não têm como estímulo na procura de um destino ou na escolha de uma viagem qualquer objectivo de cariz sexual, embora devamos reconhecer que evitem países ou culturas de características homofóbicas mais vincadas, precavendo-se por essa via de eventuais situações ou formas de discriminação ou de não-aceitação.

Não obstante, é fundamental que compreendamos que, por um lado, o turismo sexual continua a ser um flagelo transversal a toda a actividade, onde também se inserem a pedofilia, a misoginia e a misandria, que é necessário e urgente continuar a combater e a recusar com total veemência e, por outro lado, que o mesmo não está conotado com a orientação ou preferência sexual de cada indivíduo, mas antes com comportamentos cívicos e sociais desviantes (por vezes até à margem da Lei) e, por este motivo, condenáveis tanto do ponto de vista humano, como do relacionado com o direito internacional.

Seguindo esta linha de raciocínio deve igual e categoricamente reprovar-se todo o tipo de incentivo, estímulo ou qualquer outro modo de apelo ou promoção, incluindo a turística, ao sexo com mulheres – como consta na pergunta que nos é formulada – ou homens, ainda que se trate de uma relação heterossexual, uma vez que acima de tudo e independentemente do género estão (sempre) a condição e a dignidade humanas.

Paralelamente, deve ter-se em consideração que as alterações na estrutura social verificadas nas últimas décadas, sobretudo as motivadas pelo advento da sociedade-mosaico, vieram de algum modo “alargar, ampliar ou modernizar” o conceito mais tradicional de família que, durante séculos (milénios mesmo) tivemos e demos por adquirido, e que se alicerçava (e definia) na existência de dois cônjuges (um do género masculino e outro do género feminino) e dos seus descendentes [filho(a)(s)]. Ora, o que hoje em dia constatamos é que tanto aceitamos esta forma de família, por assim dizer, mais conservadora, como igualmente, as situações em que ela assume diferentes expressões, como são os casos das famílias monoparentais, pluriparentais, sem descendentes (por opção ou não) ou de igualdade de género (dois pais ou duas mães, com ou sem descendentes), para só darmos alguns exemplos.

Por tudo o que atrás se disse é com relativa facilidade que se pode constatar e concluir que o grupo comportamental composto pelos turistas LGBT já tem um peso significativo no turismo mundial e é detentor de um elevado poder de compra, o que tem motivado que um crescente número de países, destinos e empresas turísticas cada vez apostem mais (e bem!) na promoção da sua atracção, captação e fidelização, pois sabem que ao fazê-lo têm (quase) a garantia de obterem um retorno económico assinalável que, inequivocamente, justifica os investimentos realizados.

Como também somos obrigados a reconhecer que o Mundo mudou e que a organização da sociedade, mesmo na sua expressão mais simples, mas nuclear (a família), acompanhou essa transformação, valorizando acima de tudo a “pessoa” e não o “género” a que se pertence ou a “orientação sexual” que se escolhe (consciente ou inconscientemente) e que não é aceitável – muito menos tolerável! – que alguém seja sexualmente explorado ou ostracizado.

Antes de finalizarmos, e para que não se diga que fomos omissos relativamente ao Brasil, salientamos que um estudo elaborado pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), publicado no início do corrente ano, afirma que o segmento turístico LGBT cresceu 11% em 2017, valor que compara com apenas 3,5% de aumento registado pelo global do turismo brasileiro naquele ano. Já quanto às receitas por ele geradas, a empresa de consultoria Out Now revelou na última edição (Novembro 2018) do WTM – World Travel Market (uma das maiores feiras de turismo do Mundo que se realiza anualmente em Londres) que o efeito directo e indirecto das mesmas na economia do Brasil ascendeu a 26,8 biliões de dólares, em 2017. Um e outro caso comprovam o inegável “peso” que este grupo comportamental tem na actividade turística do “país irmão” e sublinham os principais argumentos pelos quais, mesmo que apenas atentemos ao ponto de vista estritamente económico, seria um erro enjeitá-lo.

Em suma, sendo o turismo a mais humana e humanizada de todas as actividades económicas e, por esse motivo, feita por pessoas para pessoas, é impensável que não considere, pense e sinta o Ser Humano na plenitude da sua heterogeneidade, já que ele é o seu elemento central e, consequentemente, a única razão que justifica e fundamenta a sua própria existência, repudiando e levantando sempre a voz contra toda e qualquer atitude ou comportamento homofóbico.

 

Turisver.com – A Beira Interior vai receber em breve dois eventos que já se consolidaram no calendário turístico português, a Feira Ibérica de Turismo que acontece na Guarda desde a primeira hora, e o congresso “Vê Portugal” que este ano vai ter lugar em Castelo Branco. Que contributo é que este tipo de iniciativas pode dar ao desenvolvimento turístico das regiões que os acolhem?

 

Atilio Forte – Já por inúmeras vezes aqui falámos sobre a importância que o turismo pode ter na atenuação das assimetrias entre o litoral e o interior do nosso país, no impulso (único) que pode dar à dinamização das economias locais e regionais e, consequentemente, à criação de emprego, aspectos que, por sua vez, promovem a fixação das populações, contribuindo para atenuar a desertificação a que parcelas do território aparentam estar condenadas.

Para além destes factores fulcrais, este tipo de acontecimentos turísticos concorrem ainda para dar visibilidade aos locais que os acolhem, não apenas pela cobertura mediática que quase sempre acabam por ter (sobretudo em períodos em que a actividade é alvo de maior atenção, como acontece actualmente) mas, tão ou mais importante, porque atraem muitos agentes turísticos que encontram nessa sua participação uma maneira de conhecerem melhor o nosso país – principalmente o interior – contactando mais de perto com a diversidade e a riqueza da oferta turística existente, o que muitas vezes acaba por influenciar positivamente o aparecimento de mais e melhor produto disponibilizado aos consumidores e, nalguns casos até, uma maior propensão para o investimento (público e privado).

Atenta a nossa diminuta extensão territorial, particularmente de Este para Oeste, acresce ao que acabámos de referir um outro factor que merece realce e que se prende com a natural dimensão ibérica que este tipo de eventos normalmente adquire, pois torna-se quase incontornável não apelar à presença dos agentes turísticos do país vizinho, sobretudo os que se situam nas zonas raianas, já que entre outras, a continuidade cultural, patrimonial, gastronómica e turística sobrepõe-se, com plena naturalidade, ao limite existente entre Portugal e Espanha, isto é, à fronteira.

Vale ainda a pena referir que tanto a FIT – Feira Ibérica de Turismo como o Congresso “Vê Portugal” comemoram este ano a sua sexta edição, o que prova que são manifestações que têm, paulatinamente, vindo a conquistar um espaço próprio no panorama dos eventos turísticos que anualmente se realizam em Portugal, atestando assim o mérito dos seus organizadores, o interesse e as valências que comportam, independentemente de terem uma localização mais fixa – como acontece com o primeiro – ou itinerante – como é o caso do segundo –, e que são bem expressas no crescente número de participantes e expositores que atraem.

 

O + da Semana:

 

O produto “Sol & Praia” continua a ser um dos principais, maiores e mais emblemáticos cartazes da oferta turística portuguesa e, por essa razão, responsável pela vinda até nós de muitos milhares de estrangeiros, bem como pela preferência de muitos dos nossos concidadãos que nele vêem a melhor motivação para “irem para fora cá dentro”. Assim, é natural que o activo “praia” nele assuma um natural protagonismo – e importância – do ponto de vista qualitativo, pois a sua deficiente classificação, seja a que nível for, pode comprometer ou condicionar a manutenção do seu sucesso e, com isso, pôr em causa o desempenho de um incontável número de agentes económicos e actores turísticos, sendo por esse motivo, e sem sombra para qualquer dúvida, um dos aspectos pelo qual todos os anos é aguardada com particular ansiedade a divulgação por parte da ABAE – Associação Bandeira Azul da Europa sobre quais as praias marítimas e fluviais que passam a ter a possibilidade de hastear, ao longo de toda a época balnear, aquele símbolo de qualidade quer da água, quer dos equipamentos, quer da segurança quer, ainda, da informação e educação ambiental. Ora tomando em consideração a divulgação feita por aquele organismo na passada terça-feira, o nosso país tem motivo para (uma vez mais!) estar satisfeito com os resultados alcançados, já que não só viu aumentar o número de “bandeiras azuis” atribuídas em relação ao ano transacto (+ 20) como, pela primeira vez, superou a marca das três centenas e meia de praias distinguidas (352), passando a contar com 317 na orla costeira e 35 a nível fluvial. Mantendo a tradição (e a responsabilidade) o Algarve continua a ser a região do país mais “galardoada”, com um total de 88 praias (todas localizadas na sua costa).