iTurismo: Diálogo Social, Precisa-se!, por Atilio Forte

A onda de contestações laborais, com manifestações e greves em vários sectores de actividade, a que se soma o anúncio de novas paralisações, incluindo de trabalhadores do turismo, para o mês de Agosto, é o tema em destaque no iTurismo de hoje. Atilio Forte comenta ainda a nova vaga de incêndios que está a assolar algumas regiões do país e as consequências que daí advêm para a actividade turística.

 

Tópicos da Semana:

  • Alojamento local de luxo da Airbnb está a revelar-se um êxito: Depois de nos últimos doze meses ter assistido a um “salto” de 60% nos alugueres acima de 1.000 dólares por noite, aquela empresa decidiu lançar uma nova marca – a Airbnb Luxe –, que oferece cerca de 2.000 propriedades cuja reserva custa, em média, cerca de 14.000 Dólares por semana, contemplando propostas de aluguer tão diversificadas como: ilhas; castelos medievais; mansões equipadas com escorregas de água, esqueletos de dinossauros e até campos de tiro com arco e flecha.

 

  • Aeroportos mais tecnológicos ou com melhores acessos?: De acordo com um inquérito realizado a 2.000 passageiros e elaborado pela empresa britânica de inteligência de viagens OAG, muitos aeroportos poderão começar a reconsiderar a quantidade de tecnologia que põem à disposição dos seus utilizadores, já que não é exactamente isso que quem viaja mais valoriza. Muito pelo contrário. A tomar como boas as respostas obtidas, a principal sugestão dos inquiridos não aponta para a implementação de equipamentos de leitura biométrica ou sequer sistemas de segurança mais sofisticados… mas antes para algo bem menos complexo, como a melhoria dos locais de tomada e largada de passageiros…

 

  • Baixo custo e facilidade nas deslocações locais são vitais para o sucesso de uma viagem: Apesar de quase 50% dos custos de uma viagem serem despendidos em meios de transporte, o mais frequente é vermos os turistas “às aranhas” com as opções de deslocação que têm ao seu dispor nos destinos, atenta a miríade de possibilidades existentes, as quais vão da partilha de automóveis ou aluguer dos mesmos à hora, até aos transportes públicos. Assim, ter a capacidade e o conhecimento para aconselhar o melhor meio de mobilidade e possuir boas aplicações (“Apps”) que qualquer um possa descarregar (gratuitamente), são argumentos que os destinos devem ter em conta se quiserem ser bem-sucedidos e ir ao encontro das necessidades daqueles que os visitam.

 

Comentário

 

Turisver.com – Num ano em que as questões laborais se avolumam e em que temos assistido a várias greves e manifestações, o turismo, pela sua grande força empregadora, tem também vivido alguns “casos” e há outros que se perspectivam em pleno Verão. Na sua opinião o sector privado, por via das suas associações empresariais, tem lidado de forma assertiva com os sindicatos?

Atilio Forte – Logo no início do ano tivemos oportunidade de aqui alertar para um conjunto de situações que antecipavam um aumento generalizado da contestação social e/ou laboral, existindo uma enorme probabilidade da mesma poder “chegar” ao turismo. E não nos enganámos!

É que a conjugação de uma série de factores objectivos, de entre os quais se destacavam, a diferença do SMN – Salário Mínimo Nacional entre os sectores público (635€) e privado (600€) e o total de horas de trabalho semanal – 35 horas para a função pública e 40 horas para os demais trabalhadores –, com outros de ordem política como sejam, a realização de Eleições Legislativas no princípio de Outubro e a necessidade dos Partidos Políticos com quem o PS – Partido Socialista celebrou acordos de incidência parlamentar para suportar o seu Governo, concretamente o BE – Bloco de Esquerda, o PCP – Partido Comunista Português e o PEV – Partido Ecologista “Os Verdes”, em demarcarem-se da solução que viabilizaram (vulgo “geringonça”) ao longo da Legislatura para assim poderem diferenciar-se junto dos eleitores e, ainda, vários de cariz económico, sobretudo, o crescimento da economia – apesar do seu valor modesto – e, a nível mais específico, o bom desempenho registado pela actividade turística nos últimos anos, a par da escassez de mão-de-obra com que esta se tem vindo a debater, deixavam antever que, mais cedo ou mais tarde, mas sempre antes do acto eleitoral que definirá a formação do futuro Executivo nacional, motivavam que esta fosse uma realidade incontornável.

Para além deste cenário deverá também ter-se em consideração tanto a brutal carga fiscal que continua a asfixiar o tecido empresarial e os rendimentos do trabalho, a qual motiva que uma parte substancial da riqueza gerada pelas empresas e dos vencimentos auferidos pelos trabalhadores seja entregue ao Estado, como a obrigação de assumir elevadas responsabilidades resultantes da criação de emprego que, de certa forma, acaba por limitar as remunerações efectivamente pagas, como ainda a “cegueira” em persistir em ter uma legislação laboral “igual para todos”, sem contemplar nem distinguir as especificidades próprias do turismo, em particular o estarmos perante uma constelação de sectores de mão-de-obra intensiva que trabalham 24 horas por dia, 7 dias por semana e 365 dias por ano, com picos horários ao longo dos dias e das semanas acrescidos da sazonalidade os quais, quase sempre, verificam-se em contraciclo com as demais áreas da economia, são aspectos que se é verdade que, de certo modo, justificam os níveis salariais praticados, por outro lado – não há como escamoteá-lo! –, fazem com que os trabalhadores do turismo sintam que os seus índices remuneratórios ficam muito aquém do exigível e, naturalmente, reivindiquem e lutem pela sua melhoria.

Ou seja, o Estado continua a fazer tábua rasa de quem mais emprego gera, não abdicando das suas receitas sobre o factor trabalho, nem tão pouco procurando esforçar-se para compreender que há diferenças de laboração entre as várias áreas de actividade económica, as empresas ficam perante um autêntico garrote fiscal e legislativo e acabam por refugiar-se nestes argumentos para não pagarem um pouco melhor e, claro está, os trabalhadores também permanecem insatisfeitos, pois o que para eles verdadeiramente conta é o montante líquido que resulta do seu ordenado e que no final do mês levam para casa.

A tudo isto há que somar a desvalorização que tem vindo a ser feita do denominado diálogo social, realizado em sede própria, isto é na CPCS – Comissão Permanente de Concertação Social, já que a presente solução governativa tem estimulado a sua transferência para a Assembleia da República (AR), com todos os notórios inconvenientes que daí resultam, nomeadamente a sua politização.

A consequência óbvia deste estado de coisas é o extremar e acantonar de posições e a (quase) inexistência de conversações frequentes, salvo raras e honrosas excepções, entre as associações empresariais e os sindicatos, em particular os ligados à Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses – Intersindical Nacional (CGTP-IN), optando quer umas, quer os outros, por ficarem de “costas voltadas”, em vez de procurarem pontos de contacto e, mesmo, quem sabe, conjuntamente influenciarem e sensibilizarem o Governo e a própria AR sobre certas matérias de interesse comum o que a acontecer, convenhamos, não seria inédito.

Não é pois de estranhar que o Sindicato dos Trabalhadores da Indústria de Hotelaria, Turismo, Restaurantes e Similares do Algarve, afecto à CGTP-IN, já tenha convocado uma greve regional para o próximo dia 1 de Agosto para dar eco às suas reivindicações, principalmente de melhoria salarial, e de forma cirúrgica e à semelhança do que se tem passado noutras áreas vitais (da justiça, à saúde, passando pela educação e pelo transporte de matérias perigosas, etc.) pressionar os representantes patronais para fazer valer as suas propostas, independentemente da adesão que a dita venha a registar a qual, já agora e para não fugirmos à questão, estamos em crer que não será muito elevada.

Perante este quadro dominado pela política e pelo voto, com um Governo que não se cansa de enaltecer o turismo, as suas vantagens para a economia nacional e os prémios e a notoriedade internacional que a actividade tem dado ao país, mas que persiste em “navegar à vista”, ignorar a transversalidade e a pluridisciplinaridade da mesma e tratar as grandes questões turísticas “pela rama”, em vez de ir ao seu âmago, os diferentes agentes empresariais e sindicais têm de adoptar uma outra atitude, focar-se no que é essencial e, acima de tudo, sentarem-se à mesa e conversarem, desprovidos de dogmas e preconceitos e, principalmente, darem provas de vontade firme em servir os seus representados.

Se não o fizerem arriscam-se, no mínimo, a ser parte do problema e não da solução, dando azo a que nada se altere. Ao contrário, caso consigam realizar algum progresso ou, até, acordos, constatarão que os seus entendimentos têm mais força e importância que o tacticismo parlamentar, recuperarão credibilidade e independência e, acima de tudo, cumprirão com a sua missão.

Em síntese, concluímos com uma frase que julgamos ser lapidar: diálogo social, precisa-se!

 

Turisver.com Os incêndios apareceram de novo em força numa região conhecida como o Pinhal Sul Interior que vinha tentando criar produto turístico e assim beneficiar com o crescimento da actividade. Na sua análise, a incapacidade para conter o flagelo dos fogos pode ditar o fim da estratégia de desenvolvimento destes territórios com base na captação de turistas?

Atilio Forte – Antes de mais impõe-se que aqui registemos uma palavra de solidariedade dirigida a todos quantos directa ou indirectamente, pessoal ou materialmente, estão a ser afectados por estes incêndios, de reconhecimento para com todas as forças de protecção civil que os enfrentam e de profundo lamento por a “Época dos Fogos” ser algo que, aparentemente, começa a fazer parte do quotidiano do país, nesta época do ano. É uma tristeza que a todos nos deve envergonhar e fazer reflectir assistir à actuação de um Estado que, nas suas diversas formas (Central, Regional e Local), persiste em revelar-se incapaz de actuar preventivamente e minimizar a origem dos fogos que anualmente assolam Portugal, sejam eles provocados por causas naturais, por incúria ou por actuação criminosa.

Dito isto, há que ter presente que durante muitos anos – décadas mesmo – a região Centro mais não foi do que um local de passagem entre o Norte e o Sul do país e, por esse motivo, sem grande expressão turística. Contudo, desde o começo do milénio e apesar do hiato ocorrido nos anos da “crise e da troika” o turismo tem-se ali vindo paulatinamente a afirmar, quer tirando partido da dinâmica nacional registada, quer graças à acção e empenho dos vários agentes turísticos regionais (públicos, semipúblicos e privados).

Mas é uma evidência que, por muito que todos façam, tudo é posto em causa pela recorrência e gravidade com que os incêndios vêm assolando esta parcela do nosso território continental, destruindo património natural e alterando dramaticamente a paisagem, afinal dois dos maiores activos e factores de diferenciação turística oferecidos pela região.

Embora o turismo já nos tenha dado inúmeras provas da sua resiliência e impressionante capacidade de regeneração, deve reconhecer-se que perante este quadro as coisas ficam mais difíceis, quanto mais não seja porque nenhum turista – nacional ou estrangeiro – arrisca viajar para um local onde sabe que, de um momento para o outro, pode ser confrontado com o perigo.

E mais. Esta também é uma situação péssima para a nossa imagem externa. Não podemos esquecer-nos que vivemos num Mundo em que a informação é instantânea e é consumida ao momento e com grande voracidade, o que por vezes leva a que apenas se retenha uma impressão ou ideia mais genérica do que vai acontecendo. Ora, se as coisas são assim, o que fica no subconsciente de quem viaja é que no Verão “lá está outra vez Portugal a arder”! Portanto, o melhor é evitar o destino nessa altura do ano.

Para finalizar, não diremos que a estratégia de desenvolvimento destes territórios por acção do turismo esteja liminarmente comprometida – ainda! –, mas ficará seguramente bem mais laboriosa e demorada o que, para além do “custo” turístico, penalizará de outras formas o país, particularmente, ao nível do repovoamento do interior e da (re)dinamização das economias locais.

 

O + da Semana:

 

Desde finais da última década do século passado em que a zona ribeirinha oriental de Lisboa foi requalificada, a propósito da realização da Expo’98, que defendemos publicamente uma intervenção semelhante do lado ocidental de modo a devolver aquela esplendorosa área da capital aos lisboetas e aos portugueses e, simultaneamente, transformá-la num verdadeiro pólo de atracção turística internacional, solução que poderia passar pela instalação de um grande Parque Temático ligado aos Descobrimentos, tirando partido quer dessa gigantesca epopeia nacional, quer da temática monumental envolvente quer, ainda, da tremenda evolução e progresso das tecnologias digitais. Um projecto dessa natureza obrigaria também a encontrar uma solução para essa enorme barreira física que é constituída pela ferrovia, qual muro divisório que impõe o divórcio de um dos locais mais históricos e emblemáticos da capital com a barra do Tejo, de onde partimos para dar “novos mundos ao Mundo”. Mas nestas questões há que ser pragmático, abdicando de convicções individuais e atirando o idealismo “para trás das costas”, em nome de outras opções e, sobretudo, daquilo que verdadeiramente importa que, neste caso, é dar vida (económica, social, cultural, ambiental, científica, etc.) àqueles terrenos quase abandonados. Por tudo isto não poderíamos deixar de destacar a apresentação e lançamento da “nova Expo”, feita no início desta semana, que irá requalificar toda a frente de rio entre Pedrouços e a Cruz Quebrada, num investimento global que rondará os 300 milhões de Euros dos quais, estima-se, 73% terão origem privada. O projecto denominado “Ocean Campus”, desenrolar-se-á ao longo de três fases (2019-2022, 2022-2026 e 2026-2030) e pretende assumir-se como um espaço de referência de nível mundial nas áreas das Ciências Marítimas e Marinhas e da Economia Azul, com o propósito de estimular a investigação, o desenvolvimento e a inovação (ID&I) nestes domínios. Resta salientar que, no que aos equipamentos turísticos respeita, está prevista a construção de um hotel, duas marinas (Pedrouços e Jamor), a reabilitação das praias de Algés e da Cruz Quebrada e a candidatura à obtenção da bandeira azul das de Caxias e de Paço de Arcos e a instalação de vários estabelecimentos de restauração e bebidas.

 

Aproveitamos para desejar a todos os nossos leitores umas boas e relaxadas férias. Aos muitos que darão o melhor de si mesmos para proporcionarem estadas e viagens inolvidáveis aos demais, votos de bom trabalho. Voltaremos no final de Agosto, para continuarmos a analisar e comentar o que de mais importante se vai passando no turismo, seja em Portugal, seja no Mundo.