iTurismo: Dois Pesos e Duas Medidas

A “polémica” em torno da TAP, e a falta de uma estratégia global para a aviação nacional, as comemorações do 1º de Maio e a possibilidade de, em breve, serem retomadas as viagens intracomunitárias, como deixou transparecer há poucos dias a Comissão Europeia, são os temas analisados por Atilio Forte.

 

Tal como aqui tínhamos antecipado no comentário de há quinze dias (https://www.turisver.com/iturismo-transportes-aereos-portugueses/), na semana passada assistimos a um crescendo de intervenções sobre a TAP, nomeadamente por parte do Governo que, diga-se em abono da verdade, de modo pouco curial, não só trouxe para a “praça pública” discussões entre sócios/accionistas que deveriam ser reservadas, como demonstrou estar bem mais preocupado com a recuperação de poder na companhia, principalmente a nível da sua gestão diária, do que com a questão deveras mais importante traduzida, por um lado, na grave crise que o sector atravessa a nível global derivada da pandemia e, por outro lado, na imprescindível recapitalização da empresa sem a qual a presente fase será praticamente impossível de ultrapassar.

Embora se possa afirmar, salvo raríssimas excepções, que a gestão pública da TAP nunca produziu bons resultados, em razão da ausência de conhecimento técnico e específico sobre uma das actividades mais competitivas do Mundo, igualmente constatamos que o mesmo grau de desconhecimento se aplicou aos (quase todos) decisores políticos que sucessivamente foram tendo responsabilidades sobre a companhia, uma vez que, até hoje, nunca foram capazes de definir uma estratégia global para o sector da Aviação nacional que, como se sabe, tem no transporte aéreo um dos seus maiores expoentes. A tudo isto somou-se um processo de privatização onde, novamente, o Estado exibiu quer essa falta de visão prospectiva para a Aviação e para o que ela poderia contribuir para o progresso do país, quer a sua ignorância no que são os fundamentos do negócio de uma companhia aérea nos dias de hoje, situação que acabou por ter tradução e merecer aceitação na definição da actual estrutura de accionistas da empresa.

Ora, quando se junta desconhecimento a uma amálgama de interesses individuais, sem definir objectivos globais onde todos os intervenientes se revejam e para os quais se mobilizem, não se pode esperar que daí resulte algo de bom ou de positivo. Por esse motivo já antes da existência do CoViD-19 os resultados da TAP não estavam a corresponder ao delineado – neste quadro como é que poderiam? – e as relações entre (todos) os accionistas denotavam desgaste e, até, divergências.

Assim, mais importante do que “falar grosso” e avançar com ameaças, é o Governo adoptar uma postura mais humilde e serena, correcção que felizmente acabou por parcialmente acontecer mesmo no final da semana, e aproveitar esta “paragem forçada” para avaliar tudo o que foi (mal) feito no passado e tirar partido tanto do factor tempo, como da possibilidade de definitivamente “emendar a mão” e tratar a TAP e todo o sector da Aviação com a importância que ele merece e tem para a economia nacional e, sobretudo, para o (nosso) Turismo, de que é parte integrante e peça fundamental, rodeando-se e nomeando para conduzir este assunto de e por profissionais e especialistas de capacidade técnica incontestável, à semelhança do que é feito no sector por esse Mundo fora, e não dos habituais “amigos de confiança política” e, desta forma, quebrando definitivamente com este círculo vicioso, e pondo um ponto final na aparente sina de tudo o que está relacionado com a TAP ser sempre tratado com uma espécie de “dois pesos e duas medidas”!

 

É indiscutível que estamos desejosos de voltar ao nosso dia-a-dia e às nossas rotinas tão rápido quanto possível, e não ao que comummente se passou a designar por “nova normalidade”. Para isso temos todos, sem excepção, feito os esforços que nos têm sido recomendados e pedidos, em particular pelas autoridades de saúde pública, ou que a Lei nos tem imposto, para evitar a disseminação do novo coronavírus, mesmo quando os mesmos implicam termos de abdicar do impensável ou levar a cabo sacrifícios bastante dolorosos. Vários são os exemplos que poderíamos aqui dar e destacar, mas ficamo-nos pela impossibilidade de visitarmos os nossos familiares ou amigos, inclusivamente nos casos em que estando hospitalizados e quando o quadro clínico se complica e os médicos antecipam que não vão continuar entre nós, para deles nos despedirmos ou, até, para lhes prestarmos uma última homenagem marcando presença no seu funeral, para um derradeiro adeus.

Vêm estas palavras a propósito do sucedido na passada sexta-feira e da autorização concedida à CGTP- Intersindical Nacional para levar a cabo, em vários pontos do país, as comemorações do Dia do Trabalhador, motivando concentrações de pessoas muito acima do legalmente estipulado e autorizando a possibilidade de circulação entre concelhos aos participantes nessas manifestações, contrariamente ao que era permitido por Lei à restante população.

Esperamos, sinceramente, que daqui a duas semanas (tempo médio de incubação do novo coronavírus) tal não afecte os bons resultados que temos vindo a obter na contenção do CoViD-19 e que tantos elogios têm merecido por parte da comunidade internacional acerca da forma como temos lidado com a pandemia e do quanto Portugal é “recomendável” para se viajar, mal seja permitido fazê-lo. Escusado será dizer que esta nossa posição nada tem a ver com a Confederação Sindical em questão, que merece o nosso maior respeito e que temos em grande consideração mas, apenas e tão só, por integrarmos a fileira de portugueses(as) que não se conformam por viverem num país em que a celebração de uma data é posta à frente da vida humana pelas autoridades de saúde, em suma, de um Portugal em que há dois pesos e duas medidas!

 

A 17 de Março os Chefes de Estado e de Governo da União Europeia (UE) acordaram na interdição de entradas internacionais “não essenciais” em território europeu por 30 dias e a 8 de Abril, a Comissão Europeia (CE) convidou os Estados-Membro a prolongarem essa interdição até 15 de Maio, situação que, ao que tudo indica, irá ser prorrogada, no mínimo, até ao próximo Outono. Entretanto, e como é do domínio público, as fronteiras entre os países que integram quer a UE, quer o Espaço Schengen, também foram encerradas à livre circulação de pessoas, mesmo para os que neles residem. No entanto, no final da semana passada a mesma CE veio entreabrir a porta à retoma das viagens a nível intracomunitário e, consequentemente, dos fluxos turísticos, mal a situação sanitária dos diversos países o permita, posição que naturalmente se saúda, pelos reflexos positivos que tal pode vir a ter a curto prazo na Actividade Económica do Turismo.

Isto significa que mal os Estados-Membro estabilizem a sua situação ao nível da saúde pública e cheguem a acordo acerca da reabertura das fronteiras, em princípio os nossos mercados turísticos mais tradicionais, que representam cerca de 70% dos turistas que anualmente recebemos (Reino Unido, Espanha, Alemanha, França e Países Baixos), serão os primeiros a poder viajar o que, sem querermos “embandeirar em arco”, claramente nos abre boas perspectivas, apesar de sabermos que os fluxos turísticos de e para a UE continuarão a ser alvo de limitações ou, possivelmente, proibição. Contudo, e para além do mercado interno, não sendo admissível por razões sanitárias uma abertura total das fronteiras, o menos mau será podermos contar com estes dois pesos e duas medidas.

 

Protejam-se a vós, aos vossos e, se possível ou necessário, ajudem o próximo. #vamostodosficarbem!

 

Nota – Não é demais recordar que o endereço de email iturismo@turisver.pt continua ao dispor das(os) nossas(os) leitoras(es).