iTurismo: Em Tempo de Guerra

A “guerra aberta” pela conquista de turistas em que parecem estar os principais mercados europeus receptores de turistas e o aproveitamento que alguns deles, tanto receptores como emissores de fluxos turísticos, estão a fazer do estado da pandemia em Portugal, com destaque para a região de Lisboa e Vale do Tejo é o tema em análise no iTurismo de hoje. Atilio Forte revisita ainda a questão da “salvação da TAP”.

 

Vários foram os assuntos da semana passada que poderiam merecer a nossa atenção no comentário de hoje. Desde o “estado” da pandemia em Portugal, com destaque para o que se tem passado na Região de Lisboa e Vale do Tejo e o aparecimento de surtos noutros pontos do país, tal como aqui havíamos antecipado, situação que, finalmente, levou a que fossem tomadas medidas pelas Autoridades políticas e de saúde pública que, espera-se, se acompanhadas por uma atitude de maior responsabilidade por parte de todos nós, possam fazer diminuir drasticamente o número de contágios e manter a evolução da doença debaixo de controlo; à questão da salvação da TAP – sim, porque é disso que se trata! – que, por um lado, viu ser aprovada por Bruxelas a respectiva autorização para o Estado Português poder apoiar financeiramente a empresa, embora com condições, nomeadamente uma profunda reestruturação (rotas, pessoal, etc.), dado ser evidente que o problema já era muito anterior à pandemia e, por outro lado, confirmando-se o que aqui havíamos antecipado, com o futuro da principal transportadora aérea do nosso país passar a ser discutido na praça pública por tudo e por todos, como se de repente qualquer um fosse “formado” ou grande especialista em aviação comercial, ao que se somaram quer as audições parlamentares da sua Comissão Executiva e do seu Conselho de Administração que, pelo desnorte e desconhecimento demonstrados e, nalguns aspectos, ignorância que deixaram transparecer não antecipam nada de bom, quer pelo tratamento errático que o assunto tem merecido por parte do Governo (com múltiplos intervenientes a meterem a sua “colherada”), isto para nem sequer referir o total despropósito da providência cautelar entreposta pela Associação Comercial do Porto (aparentemente a mando de terceiros) e secundada por outras estruturas associativas que suspende qualquer possibilidade de ajuda pública à companhia até que os Tribunais lhe dêem ou não provimento ou o Estado invoque o superior interesse nacional, tão somente visando “regionalizar” em quintinhas e capelinhas a actividade de uma empresa que é, inquestionavelmente, estratégica para a economia portuguesa.

Tudo o que está a acontecer com e na TAP é, no mínimo, kafkiano, chegando a dar uma ideia muito nítida que existe quem entenda que o melhor é Portugal não ter uma empresa como esta. Que o nosso turismo, a nossa economia, o país, ganhariam se ela acabasse, se fechasse portas… A não ser loucura, o caso é sério e merecedor de uma urgente resposta do “país turístico” e, acima de tudo, por parte do accionista Estado, mesmo antes do possível acordo que venha a obter com os seus sócios privados.

 

Não obstante o “sumo” destes temas, gostaríamos sobretudo de enfatizar o que se tem passado a nível internacional com o nosso país, seja devido aos (maus) números da pandemia, seja pelo pacote de medidas recentemente anunciado para combater a sua evolução na comunidade. Como aqui afirmámos na semana passada, este vai ser um ano de fluxos turísticos internacionais escassos e, portanto, de tremenda concorrência entre destinos, onde cada um vai fazer tudo, mesmo tudo, para aparecer aos olhos do consumidor como aquele que oferece a melhor proposta de valor e, claro está, dá mais garantias sanitárias.

Ora, como é sabido, o desconfinamento não tem estado a correr bem em Portugal que, num ápice, passou de aluno aplicado a desleixado, em virtude de durante todo o mês que agora finda se ter mantido no topo dos países da União Europeia (UE) com maior número diário de (novos) infectados. Escusado será dizer que tal não apenas causa uma enorme mossa na nossa imagem internacional, principalmente junto daqueles (poucos) que já antecipavam cá virem gozar as suas férias, como é – tem sido – de imediato utilizado pelos nossos concorrentes para nos denegrirem, desvalorizarem e criarem um quadro de insegurança quanto às condições que presentemente Portugal tem para oferecer aos turistas. Afinal, como muitos já referiram, estes são tempos de guerra (comercial)!

Isto justifica que, entre outras, capas como a do “El País” a dizer que o Governo português decretou o confinamento de 3 milhões de pessoas na região de Lisboa, apesar de subsequentemente corrigida/desmentida, não são descuidos, nem gestos inocentes! Como também não o são atitudes como a da Grécia – um dos Estados da UE que menos testes realiza – de colocar quem provenha de Portugal na denominada “lista negra”… Tudo isto é pensado, trabalhado, às vezes provocado e invariavelmente aproveitado.

Poderíamos sempre responder da mesma moeda – afinal, e a título de mera ilustração, Espanha teve um “apagão” de óbitos que durou 14 dias – mas, o facto é que neste momento sairíamos a perder porque a realidade joga a nosso desfavor.

Naturalmente, que a melhor forma de prevenir esta espécie de “guerrilha” turística é reduzir o número de contágios em território nacional, tomando medidas que permitam mitigar os efeitos da pandemia, apoiadas por um empenhamento colectivo de autoprotecção e pela continuidade do esforço de testagem para detecção, isolamento e tratamento dos que se vier a provar que estão infectados.

Contudo, em nossa opinião, estas acções podem e devem ser complementadas com um maior empenhamento de toda a nossa (reputada e com provas dadas) “máquina diplomática” externa (embaixadas, consulados e outras estruturas de representação), nomeadamente: informando que Portugal não se reduz às 19 freguesias da Região de Lisboa e Vale do Tejo que ainda inspiram cuidados; que a disseminação dos casos a que temos assistido, estão maioritariamente associados a populações com determinados comportamentos ou condicionalismos socioeconómicos que as expuseram mais e cujas causas estão plenamente identificadas; que temos tido surtos pontuais, como acontece nos demais países por essa Europa fora; que o SNS – Serviço Nacional de Saúde está, felizmente, longe de ter a sua capacidade de resposta limitada, quanto mais esgotada; que somos dos Estados-Membro da UE que mais testam; que não “escondemos” números e, por isso, os que diariamente são divulgados transmitem a realidade; etc.; etc.. E, se tal vier a revelar-se necessário, trazer/convidar jornalistas e fazedores opinião (“opinion makers”) para visitarem o país e verem com os seus próprios olhos aquilo que realmente por cá se passa.

 

Esta atitude significaria readquirir o controlo da situação, abandonar a postura reactiva que vimos mantendo por uma mais enérgica e proactiva, mantendo a linha da “verdade e nada mais do que a verdade” – até porque a dita é como o azeite – e, cá para nós, deixarmos de ser “anjinhos”. É que em tempo de guerra não se limpam armas!

 

Protejam-se a vós, aos vossos e, se possível ou necessário, ajudem o próximo. #vamostodosficarbem!

 

Nota – Não é demais recordar que o endereço de email iturismo@turisver.pt continua ao dispor das(os) nossas(os) leitoras(es).