iTurismo: Estabilidade + Confiança = Consumo, por Atilio Forte

As possíveis repercussões no sector turístico da instabilidade política que se vive de momento no país é um dos temas do iTurismo desta semana, em que Atilio Forte fala da importância da estabilidade no sector para que seja transmitida confiança aos consumidores. Como puxar o tema “turismo” para o debate das eleições para o Parlamento Europeu que se aproximam é outro dos temas em destaque.

 

Tópicos da Semana:

  • O melhor de dois “mundos”… ou os híbridos do alojamento: Não são propriamente uma novidade ou sequer algo que fosse impossível adivinhar que viria a suceder. Contudo, estão em franca expansão. Referimo-nos a casos como o Hotel 850, localizado em Hollywood Oeste, no Estado da Califórnia (EUA), que combina na perfeição o conforto, o ambiente e o à vontade de uma casa/apartamento residencial com as ofertas propostas por um hotel boutique de luxo, colocando à disposição dos seus hóspedes, entre outras comodidades, 24 horas de “room service”, arrumação e limpeza dos quartos e serviço de portaria (vulgo, “concierge”), o que o coloca – como a muitos mais – na linha da frente da “fusão” entre o melhor de um hotel e o melhor de um alojamento local.

 

  • Aposta nas reservas directas não pára: Mais do que um objectivo a atingir e/ou mais do que diminuir os custos de intermediação esta é uma convicção de algumas das maiores cadeias hoteleiras do Mundo que acreditam, no entender dos seus mais altos responsáveis, que aquando da realização de uma reserva se for possível ao consumidor escolher o quarto onde quer ficar ou o tipo de cama em que irá dormir, a sua adesão às marcações directas aumentará exponencialmente.

 

  • Marriott Hotels & Resorts pode entrar no alojamento local: A maior cadeia hoteleira do Mundo estará prestes a revelar os seus planos de entrada no negócio do alojamento local, com uma estratégia bastante agressiva e que visa concorrer com a Airbnb. Pelo menos é o que os rumores que correm no mercado asseguram que irá acontecer nas próximas semanas… Igual intenção terá também a Hilton Hotels & Resorts e a Hyatt, embora a primeira tenha prontamente negado perseguir esse propósito.

 

Comentário

 

Turisver.com – O país está a atravessar dias de instabilidade política, situação que inevitavelmente abala a confiança dos consumidores. Este quadro de maior incerteza, que poderá durar apenas alguns dias ou bastante mais, coincide com o período de marcação de férias dos portugueses, pelo que existem já alguns receios junto dos profissionais de que esta situação possa vir a fazer parar o ritmo de vendas que estava a ser superior ao do ano passado. No seu entender, estas situações são de evitar para que a confiança dos consumidores não se quebre?  

Atilio Forte – Ao longo dos comentários e análises que semanalmente produzimos um dos aspectos para o qual chamamos incessantemente a atenção prende-se com a enorme transversalidade e pluridisciplinaridade da actividade económica do turismo e, consequentemente, para a miríade de factores que podem, tanto positiva como negativamente, influenciar o seu comportamento e desempenho.

E se há alguns que são impossíveis de prever, como sejam as catástrofes naturais, os atentados terroristas ou um qualquer surto epidémico, outros existem que o não são e, por esse motivo, estão constantemente debaixo do escrutínio dos consumidores, pelas implicações que podem ter, quer nas suas condições de vida, quer no seu poder de compra presente e futuro, sobretudo em tempos onde o acesso à informação é (quase) instantâneo, como aqueles em que vivemos.

Quer isto dizer que a percepção de alterações políticas, económicas e sociais, com possibilidade de impacto directo na vida de cada um, é motivo mais do que suficiente para levar a uma retracção ou expansão do consumo. A título de exemplo, veja-se como os consumidores reagem à compra de habitação própria com recurso a crédito bancário quando se antecipa uma baixa das taxas de juro ou, em sentido inverso, o que acontece quando são anunciados aumentos de impostos. E nem sequer vale a pena aqui referirmos os efeitos de situações bem mais complexas, tanto do ponto de vista económico – a subida do preço do petróleo –, como político – o “Brexit”.

Propositadamente, fizemos esta breve introdução para referir que a realidade em que vivemos já traz instabilidade mais do que suficiente à actividade turística, razão pela qual não há fundamento para que a mesma possa ser agravada com a criação de crises mais ou menos artificiais e apenas resultantes do esgrimir de argumentos políticos com fins estritamente eleitorais, como aparentemente está a ser o caso, sem sequer esclarecer devidamente o país (todos nós) e os directamente interessados (os professores) sobre o que os diferentes actores (Partido Políticos) se propõem fazer e defendem ou qual a solução que preconizam para resolver a situação em concreto. Ao que parece, deixar tudo no “limbo” é bem mais conveniente… como, estamos em crer, nos próximos dias se verá.

Mas o maior problema é que este não é o único ponto de interrogação que actualmente paira na cabeça dos(as) portugueses(as). Se o fosse, acreditamos que o seu reflexo na marcação de férias não teria grandes repercussões. A questão é que ele não só pode ditar novas greves por parte dos docentes do ensino público do continente, e com isso trazer uma grande incerteza à vida das famílias, dado existir a possibilidade delas terem implicações nas avaliações finais da época escolar, lançando assim a dúvida (para aqueles que podem) sobre se e para quando deverão efectuar as suas reservas, como somar-se ao constatável arrefecimento da economia nacional, europeia e mundial que, mais tarde ou mais cedo, irá reflectir-se no desempenho das empresas e por consequência no emprego e nos salários, à lenta – mas visível – subida da taxa Euribor (referência maior para quem tem crédito à habitação) que, paulatinamente, irá agravar as “prestações da casa” ao longo de 2019 e, para não sermos exaustivos, às alterações em curso ao IMI – Imposto Municipal sobre Imóveis as quais, na esmagadora maioria dos casos, ditarão um aumento dos encargos a suportar por quem possui casa própria, a partir de 2020.

Tudo medidas que fazem os consumidores nacionais pensar antes de gastar, porque afectam directamente “os seus (nossos) bolsos”, e que se somam à elevadíssima carga fiscal que já suportam, diminuindo o seu poder de compra, e que colidem e coincidem com o tradicional momento de marcar as férias de Verão, podendo “suster ou suspender” o bom ritmo a que as reservas se vinham processando e, por esse motivo, alimentando a dúvida junto dos agentes económicos.

Assim sendo, não constitui surpresa que este seja um dos factores que está a deixar apreensivas muitas das empresas e regiões turísticas do nosso país, nomeadamente as que têm operações contratadas para os destinos estrangeiros mais populares e as que em particular operam no Algarve, mais a mais porque ele vem acrescer à contracção verificada nalguns dos mercados europeus dos quais historicamente mais dependemos, como o britânico e o alemão.

Portanto, o mínimo que se pode (e deve!) exigir à “classe política” é que, sem pôr em causa a sua legitimidade e o seu propósito, tenha bem presente que os seus gestos, atitudes e tomadas de posição acerca de uma determinada matéria têm inúmeras vezes um alcance e um impacto que transcende em muito o assunto em causa com, quase sempre, reflexos objectivos no que à actividade turística respeita, em virtude de afectarem as vidas e decisões de milhares de consumidores.

Decisões que, em si mesmas, já são influenciadas pelo que decorre dos diferentes calendários (das estações do ano, das escolas, da laboração das empresas, etc.) que regem o nosso dia-a-dia. Ora, qualquer perturbação introduzida pode deitar tudo a perder – por vezes até chegar a comprometer toda uma “época turística” –, uma vez que, como sempre afirmamos, em turismo não se podem criar “stocks”, o que significa que o que não for vendido naquele dia ou para uma dada partida, ao contrário do que acontece com um par de sapatos, um televisor ou uma casa, jamais o poderá ser. Para sempre fica perdido.

Em síntese, a actividade turística precisa de estabilidade porque sabe melhor do que ninguém o quanto ela transmite confiança aos consumidores. É que não há consumo sem haver quem compre, tal como não há turismo sem pessoas. Numa fórmula simples: Estabilidade + Confiança = Consumo.

 

Turisver.com – Estamos praticamente a entrar em campanha eleitoral para as eleições europeias. Em Portugal, segundo opiniões de diversos quadrantes políticos, temos discutido muito pouco de Europa e nada de áreas económicas.  No seu entender como seria possível  puxar o Turismo para o  debate, dada a importância desta actividade para a economia portuguesa?

Atilio Forte – Infelizmente, diz-nos a tradição que as Eleições para o Parlamento Europeu nunca foram devidamente valorizadas, quer por eleitores, quer por eleitos, na grande maioria dos países que integram a União Europeia (UE), muito devido ao facto das mesmas serem encaradas pelos diversos Partidos Políticos, quase sempre, como uma forma plebiscitária de avaliação do desempenho dos respectivos Governos nacionais.

E é uma pena que tal aconteça, uma vez que, como é do conhecimento geral, com o passar do tempo a importância das decisões tomadas nas instâncias europeias, tanto em Bruxelas (sede da Comissão Europeia), como em Estrasburgo (sede do Parlamento Europeu), têm vindo a ganhar um protagonismo e uma repercussão crescentes no quotidiano interno dos diferentes Estados-Membro da UE.

Assim, e por maioria de razão, se as organizações políticas que se candidatam ao Parlamento Europeu não trazem para o debate as questões europeias que interessam a todos os cidadãos da UE, não surpreende que algumas das áreas de maior “peso” económico, como acontece com o turismo, fiquem completamente arredadas do discurso politico e, por consequência, ausentes da discussão pré-eleitoral e, posteriormente, fora da “agenda” dos seus actores.

Por outro lado é bom não se esquecer a dicotomia turística que existe no seio da União, entre os países do Norte e do Centro e os do Sul, isto é, entre os que tradicionalmente são emissores de fluxos turísticos e os que maioritariamente os recebem, sendo os segundos, porventura à excepção da França e parcialmente da Itália, considerados como “os parentes mais pobres” de todos os que integram a UE. Aspecto ao qual acresce a desvalorização sucessiva de que o turismo sempre foi alvo a nível comunitário, bem expressa no facto de só aparecer pela primeira vez referido num Tratado Europeu em Outubro de 2004, na sequência da criação do Tratado que Estabeleceu uma Constituição Europeia – no qual Portugal teve um papel decisivo –, em resultado dos trabalhos realizados pela Convenção Para o Futuro da Europa (que tivemos a honra de pessoalmente integrar), apresentados em Julho de 2003.

Assim, e considerando tudo o que já foi dito, somos de opinião que este é um dos casos típicos em que as organizações da apelidada “Sociedade Civil”, nomeadamente as associações empresariais, podiam e deviam ter um papel mais incisivo e influenciador da agenda política, pelo menos no que respeita aos candidatos a Deputados Europeus em representação do nosso país, através da promoção de um ciclo de encontros ou de debates, à semelhança do que muitas vezes fazem para os demais actos eleitorais internos, mormente para as Eleições Legislativas, de modo a esclarecer o que cada “força” política se propõe defender e fazer pelo turismo, caso passe a marcar presença em Estrasburgo, isto para apenas darmos um dos muitos exemplos, sugestões ou ideias que sobre este assunto nos ocorrem.

Com iniciativas deste género não apenas se esclareceriam os agentes da actividade sobre as propostas de cada Partido Político como, igualmente, se municiariam os diferentes candidatos com informação e conhecimento acerca da importância estratégica que ela tem para Portugal e para a União Europeia e, simultaneamente, abrir-se-iam linhas de diálogo e obter-se-iam garantias de que o turismo, pelo menos no que aos nossos eleitos respeita, ganharia maior visibilidade em todas as matérias europeias que fossem alvo de análise pelo Parlamento Europeu.

 

O + da Semana:

Num ou noutro dos nossos comentários, num ou noutro dos nossos “Tópicos da Semana”, num ou noutro dos nossos “O + da Semana” sempre procurámos dar destaque à liderança da actividade económica do turismo em tudo o que tem a ver com inovação, mesmo quando a mesma é disruptiva, e da inevitabilidade desta, mais tarde ou mais cedo, acabar por se expandir para lá das barreiras que até aqui a têm condicionado, ou seja, em ir para além das suas actuais fronteiras naturais. Pois se dúvidas existissem eis que o que para muitos não passa(va) de um sonho começa a ganhar contornos de realidade. Uma realidade tangível e, nalguns casos, já não tão distante quanto se julgava. Vem esta reflexão a propósito da realização da primeira Cimeira mundial sobre turismo espacial e subaquático, a SUTUS – Space & Underwater Tourism Universal Summit, que ocorrerá em Marbella, Espanha, nos dias 23 e 24 do próximo mês de Setembro (coincidindo com o equinócio de Outono). Os seus organizadores (Medina Media Events e a reputada Escola de Turismo Les Roches) pretendem fazer deste evento o início de uma nova era de descoberta e, naturalmente, de possibilidades de viagem, propondo uma reflexão sobre modelos de negócio emergentes, com foco no luxo espacial e no turismo subaquático, e na exploração de territórios menos habituais, através de uma outra perspectiva, provando mais uma vez que as potencialidades do turismo são (quase) ilimitadas!