iTurismo: Flexibilidade ou Precariedade, por Atilio Forte

Os desejos dos turistas por autenticidade, transformar clientes em embaixadores e a avaliação do sector do alojamento são os “Tópicos da Semana” do iTurismo de hoje, em que Atilio Forte escolheu para “O + da Semana” os indicadores do ano turístico de 2016. O habitual Comentário versa sobre a flexibilidade / precariedade do emprego no turismo e os resultados que está já a dar a aposta da TAP nos EUA.

Tópicos da Semana:

  • Desejos mais autênticos: Sobretudo no segmento de luxo muitos são os hotéis que tudo estão a fazer para irem ao encontro dos desejos de autenticidade da experiência por parte dos seus hóspedes, o que implica disponibilizarem “verdadeira qualidade”, empregarem “pessoas genuínas”, contarem “histórias reais” e proporcionarem “profundas experiências locais”.

 

  • Transformar os clientes em embaixadores: A esmagadora maioria dos peritos em marketing é de opinião que as empresas turísticas, principalmente aquelas que estão presentes nas redes sociais, cada vez têm maior necessidade de manterem uma satisfação elevada dos seus clientes de modo a que estes “passem a palavra” acerca das qualidades/vantagens dos seus produtos e serviços. Razão porque também devem cultivar relações de longo prazo com os principais “Influenciadores”, atribuindo-lhes algumas compensações (viagens, estadas, visitas, etc.), dado que eles conseguem “formatar e formar” opinião.

 

  • Quanto vale o alojamento?: De acordo com a empresa MarketLine a avaliação do sector do alojamento ultrapassou, em 2015, os 719 biliões de dólares (719,1 para sermos mais exactos). Os mercados nacionais que mais contribuíram para o alcançar deste valor foram os Estados Unidos da América, o Reino Unido e a República Popular da China, respectivamente com 189.6, 59.8 e 59.6 mil milhões de dólares.

 

Comentário

Turisver.com – Os “Precários Inflexíveis” alertaram há dias para a situação de precariedade do emprego no Turismo, avançando que há trabalhadores a receberem 2,5 a 3€ à hora e que grande parte deles não tem qualquer vínculo com as empresas onde trabalham. Alertam também que esta é uma situação muito comum em espaços de informalidade como os hostels.  Em seu entender esta situação pode vir a ter reflexos negativos na qualidade que se pretende que tenha o nosso turismo?

Atilio Forte – Esta é daquelas questões cuja resposta é bem mais complexa do que à primeira vista parece. Por isso, cremos que vale a pena dar três notas prévias para seu melhor enquadramento.

Desde logo para referir que a taxa de desemprego em Portugal continua em patamares muito elevados, agravando-se quer no segmento dos jovens, quer no dos desempregados de longa duração, pese embora os números divulgados pelo IEFP – Instituto do Emprego e Formação Profissional venham consecutivamente demonstrando alguma diminuição deste verdadeiro flagelo social. Tal significa que este é, e deve continuar a ser, um tema prioritário no nosso país.

Em seguida para recordar que, apesar dos bons resultados alcançados pelas empresas turísticas nos últimos anos, a sua situação económica e financeira está longe de se encontrar estabilizada, uma vez que a devastação que sofreram, seja pela crise económica internacional, seja pelo programa de assistência financeira externa a que Portugal esteve sujeito, ainda se faz sentir.

Finalmente, é bom termos presente que se é verdade que a “explosão” da designada economia de partilha introduziu inúmeras vantagens e rasgou novos horizontes, não menos verdade é que nalgumas áreas de actividade económica, principalmente nas mais inovadoras e nas que maior adesão registaram por parte dos consumidores, acabou por “desestruturar” o “status quo” existente, em consequência da implementação de novos modelos de negócio que, na sua essência e no seu êxito, vieram romper com conceitos de gestão mais “tradicionais”.

Ora, a mera conjugação destes factores – taxa de desemprego elevada, empresas economicamente débeis e novos modelos de negócio –, à qual podemos sempre adicionar a elevadíssima carga fiscal (directa e indirecta) que impende sobre o “trabalho”, de imediato deixa antever que, num mercado em que a oferta de mão-de-obra (qualificada ou não) é muito superior à procura, em que o tecido empresarial ainda tem a sua gestão muito condicionada pelos custos e em que surgiram novos negócios baseados essencialmente no preço e no volume de transacções e ainda, nalguns casos, como complemento de rendimento (como acontece parcialmente com o alojamento local), a resultante desta equação origina não apenas salários mais baixos, mas maior precariedade laboral.

Claro está que tal ganha uma superior dimensão no caso do turismo, já que esta é uma actividade económica de mão-de-obra intensiva, sujeita a grande sazonalidade e, não menos importante, porque muitos dos seus sectores estão em permanente funcionamento (24 horas por dia, 365 dias por ano), o que acarreta necessidades (e disponibilidades) muito específicas e flexíveis, nomeadamente em termos da distribuição da carga horária (diária, semanal e mensal), por parte de quem emprega e de quem trabalha.

Aliás, se atentarmos bem nos alertas feitos tanto pelos “Precários Inflexíveis” como pela “Associação Habita” verificamos que os mesmos se concentram maioritariamente nos novos modelos de negócio resultantes da economia de partilha – com o alojamento local e os “hostels” à cabeça – e nos mais voláteis – bares e restaurantes mais sazonais e apoios de praia, entre outros – do que em sectores mais tradicionais do turismo, onde, porventura, existe um entendimento diferente sobre a importância e a estabilidade dos recursos humanos no bom desempenho da operação turística.

Se a estes aspectos juntarmos as especulações que têm vindo a público, até agora nunca desmentidas pelo Governo, no que respeita a uma maior restrição à elaboração de contratos de trabalho a termo certo e ao condicionamento dos bancos de horas – que, a verificarem-se, poderão revelar-se extremamente nefastos para o turismo, como já aqui o referimos a propósito de outras matérias –, não será difícil entender-se “as maiores cautelas” que as empresas adoptam em tudo o que esteja relacionado com matéria laboral.

A isto acresce ainda, atenta a tipologia de algumas actividades cujas necessidades de mão-de-obra recaem no domínio do “tempo parcial”, uma outra realidade que muitos trabalhadores preferem (por vezes, exigem), que se prende com o não terem qualquer vínculo laboral (e fiscal), dado considerarem essa prestação ou como “segundo emprego” ou como “biscate”, de modo a que o rendimento obtido fique fora do alcance do sistema contributivo, isto é, na informalidade.

Mas tal não significa (nem pode significar) que o Estado deixe de assumir imperiosamente e por inteiro o seu inalienável papel de “regulador/fiscalizador” e através dos organismos competentes para o efeito, nomeadamente a ACT – Autoridade para as Condições do Trabalho, proceda e realize um maior número de acções inspectivas, por forma a assegurar que todos os agentes económicos actuam e acedem em igualdade de circunstâncias “no” e “ao” mercado e que tanto trabalhadores como empregadores cumprem com as obrigações que decorrem da legislação laboral.

Como julgamos ter demonstrado este é um problema verdadeiramente complexo, atentas as suas origens e ramificações, e cuja solução passa, por um lado, pela total compreensão da realidade que a actual conjuntura encerra e, por outro lado, pela adopção de soluções e (boas) práticas empresariais, laborais e regulatórias que criem condições para garantir a qualidade global da oferta turística nacional, no presente e no futuro.

 

Turisver.com – Até Novembro, a TAP transportou 423 mil passageiros nas suas rotas dos Estados Unidos, mais 155,4% do que no ano passado. Entretanto, a companhia continua a apostar forte neste mercado, para onde vai abrir novas rotas e está mesmo a fazer uma forte campanha publicitária no destino, nomeadamente em Nova Iorque, promovendo o seu programa “Portugal Stopover”. Esta pode ser uma oportunidade para que Portugal possa conquistar uma importante fatia de um mercado tão relevante como o norte-americano?

Atilio Forte – Há alguns meses tivemos oportunidade de aqui elogiar a aposta que a TAP decidiu iniciar no mercado norte-americano, concretamente nos Estados Unidos da América (EUA), quer como forma de “contrabalançar” perdas sofridas noutros mercados – como o Brasil (entretanto a dar sinais de recuperação) ou Angola –, quer de modo a aproveitar os benefícios que uma maior paridade entre o euro e o dólar poderia proporcionar do ponto de vista do aumento dos fluxos turísticos entre os EUA e Portugal/Europa.

Verifica-se, agora, que esta decisão está a dar frutos, apesar dos números de partida se situarem em patamares relativamente baixos, o que não retira qualquer mérito à iniciativa desencadeada e deixa antever boas possibilidades de crescente sucesso futuro, ancoradas num maior esforço promocional (já em curso) e na abertura de novas rotas.

Merece ainda destaque, o facto deste “movimento” por parte da companhia aérea portuguesa ter sido acompanhado pelo de muitos outros agentes turísticos nacionais (agências de viagens, hotéis, etc.), que não deixaram passar a “oportunidade” em claro, acabando e contribuindo, também, por “arrastar” e envolver o Turismo de Portugal nessa dinâmica.

Contudo, se é indesmentível que a oportunidade existia e existe, somos de opinião que os próximos meses serão decisivos para podermos fazer uma melhor avaliação de toda a situação, uma vez que, na sequência das eleições presidenciais americanas, não é totalmente líquido que os consumidores americanos venham a manter as suas tendências/preferências ao nível do consumo.

As incógnitas relativas à futura Administração Trump ainda são muitas e, sobretudo, não deixam antever, com clareza, quais serão, por um lado, as grandes linhas da política externa daquele país – e em que medida as mesmas poderão afectar, positiva ou negativamente, as suas relações com a Europa (onde Portugal se inclui) – e, por outro lado, se a vontade já expressa de criar uma ainda maior dinâmica económica interna, não poderá conduzir ao “aconselhamento” dos consumidores a “comprarem mais americano”, isto é, a privilegiarem o turismo “dentro de portas”. Ou, até, poderemos assistir à conjugação de ambas as situações…

Uma coisa é certa, se não existirem sobressaltos tanto a TAP, como Portugal, começam a ficar bem posicionados para poderem captar mais tráfego proveniente dos EUA, principalmente o que decorre dos segmentos do lazer, de negócio e do MICE (Meetings, Incentives, Congresses and Events), podendo recuperar parte significativa do que o mercado norte-americano já representou para o turismo nacional, nas décadas de 70 e 80 do século passado.

 

O + da Semana:

Independentemente dos números relativos a 2016 que a reactivação da Conta Satélite do Turismo (CST) vier a revelar (é com grande expectativa que os aguardamos durante o primeiro trimestre de 2017), é um dado seguro que o ano que agora finda estará entre os melhores de sempre do turismo português. Portugal irá crescer em todos os indicadores – receitas, turistas, hóspedes, dormidas, etc. – e em todas as sete grandes regiões turísticas em que se encontra dividido. São, sem dúvida, excelentes notícias. Contudo, há uma região que merece o nosso destaque, quer pela sua importância histórica no turismo nacional, quer pelo peso que nele sempre teve, quer ainda por tantas e tantas vezes ter sido “menosprezada” ou, até, classificada como estando “esgotada”. Referimo-nos, claro está, ao Algarve. Algarve que, de acordo com os indicadores recentemente revelados pelo INE – Instituto Nacional de Estatística respeitantes ao “crescimento nas dormidas e proveitos” de 1 de Janeiro a 31 de Outubro, já ultrapassou (pulverizou!) os números obtidos em 2015, seja em pernoitas (acima dos 17 milhões, contra um total de 16,6 milhões em 2015), seja em receitas (+ 19,1% do que no período homólogo do ano passado), seja em hóspedes (3,8 milhões até Outubro, que comparam com 3,66 milhões em todo o ano de 2015). Mais do que animadores, estes resultados sublinham bem a importância do turismo algarvio no todo nacional e clamam por uma maior atenção (e consideração) ao Algarve em todas as linhas de orientação e actuação do turismo português.

 

Atenta a Quadra Natalícia o “iTurismo” só voltará no dia 5 de Janeiro de 2017.

Desejamos a todos os nossos leitores e respectivas famílias um Feliz Natal e um 2017 pleno de sucessos pessoais, profissionais … e turísticos!