iTurismo: Gastronomia das e nas Estrelas, por Atilio Forte

A (im)provável ligação entre o petróleo e o turismo, os programas de fidelização mais flexíveis, e os contratos de gestão em hotelaria, são os tópicos do iTurismo de hoje. O comentador Atilio Forte dá os parabéns à gastronomia portuguesa pela conquista de novas Estrelas Michelin, enquanto no “+ da Semana” avalia as actuais tendências de poupança para viajar.

 Tópicos da Semana: 

  • A (im)provável ligação entre o petróleo e o turismo: Apesar de não se poder estabelecer com segurança um nexo de causalidade, a verdade é que a diminuição do preço do petróleo se vem reflectindo numa menor taxa de ocupação hoteleira e demais venda de produtos e serviços turísticos, principalmente nas regiões do Mundo mais dependentes desta matéria-prima. Para ilustrar esta afirmação basta analisar o verificado nos últimos dois anos em Houston (EUA) ou em Lagos (Nigéria), cidades que viram o número de turistas diminuir em idêntica proporção à quebra verificada na perfuração e produção de “ouro negro”.
  • Programas de fidelização mais flexíveis: A tendência dos hóspedes para rebaterem os pontos (que vão amealhando) fora dos hotéis ou das cadeias que lhes oferecem programas de fidelização tem vindo a aumentar significativamente, tal como o espectro da sua utilização (marcação de voos, espectáculos e “tours”, por exemplo). Isso significa que quem disponibilizar programas com um número de “parceiros” mais alargado será premiado com a preferência dos consumidores.
  • Contratos de gestão facilitam expansão: As principais marcas hoteleiras de luxo vêm revelando preferência pela realização de contratos de gestão, como forma de aumentarem a sua presença no mercado (em número de unidades) sem grandes custos associados e sem perderem qualidade ou abdicarem dos seus factores distintivos.

 

Comentário:

 

Turisver – A gastronomia portuguesa (restaurantes e “Chefes”) está de parabéns pelo destaque obtido na cerimónia de atribuição das “Estrelas” do Guia Michelin, em Girona, onde esteve uma delegação portuguesa de que fazia parte a Secretária de Estado do Turismo (SET). O objectivo da presença da SET foi lançar a candidatura de Portugal para receber este evento. Que comentários lhe merecem as distinções agora atribuídas e a hipótese de este evento poder vir a realizar-se no nosso país?

 

Atilio Forte – É da mais inteira justiça que comecemos este nosso comentário dirigindo um cumprimento muito especial de felicitações a todos os que na edição deste ano foram distinguidos pelo afamado Guia Michelin, obviamente extensivo aos que, embora não tendo sido contemplados com uma das desejadas e ambicionadas “estrelas”, investiram e deram o seu melhor para que a elas se pudessem “candidatar”.

Pese embora continuemos a não ter qualquer restaurante com a classificação máxima – 3 estrelas –, vale a pena destacar que, comparativamente com o ano transacto, Portugal contou com 9 novas estrelas, tendo passado de um total de 14 estabelecimentos com 17 estrelas para 21 restaurantes que somam 26 estrelas, o que demonstra bem o crescendo qualitativo e quantitativo que se vem fazendo sentir na restauração nacional.

Se muitos ficaram espantados com a obtenção destes resultados, convirá referirque eles não são motivo de surpresa, sobretudo para aqueles que têm tido o privilégio de acompanhar este “crescimento da gastronomia” portuguesa ao longo dos anos, mas antes a continuidade de umlongo processo, que teve como um dos seus pontos mais marcantes a Resolução do Conselho de Ministros nº 96/2000, de 7 de Julho, que veio consagrar a gastronomia como parte integrante do património cultural português – para o qual demos o nosso modesto contributopessoal –, e que, seguramente, são o prenúnciodas muitas e boas notícias que ainda trarão e darão ao nosso país.

Queira-se ou não, pela sua transversalidade, a gastronomia é – a par da hospitalidade – uma das áreas com presença maisimportantena globalidade da oferta do nosso turismo e um dos factores que mais contribuem para a notoriedade turística internacional portuguesa. Quem o diz são os turistas. E certamente têm razão, pois são eles quem escolhe e quem paga!

E já que estamos a falar dos consumidores, cremos ser de salientar dois aspectos que nos parecem fulcrais para os viajantes actuais: de um lado, a procura (quase) incessante pela experiência, pelo único, pelo diferente, pelo exclusivo, pelo autêntico; e, do outro lado, o desejo de “estar” na moda”, de acompanhar as últimas tendências, de estar associado ou procurar associar-se ao que é reconhecido ou que transmite “estatuto” social, económico ou de outra natureza, a que ainda poderemos acrescentar a vontade de ter hábitos de vida mais saudáveis, caso em que a alimentação também se inclui.

Ora, pelo que acabamos de afirmar, ao vermos, ano após ano, a gastronomia lusa ir subindo degraus na difícil escada do mundialmente célebre Guia Michelin, facilmente se compreende a importância acrescida que as distinções atribuídas têm para potenciar o nosso país como destino turístico de excelência, já que aparece associado quer à exclusividade, quer à notoriedade, que todos reconhecem àquela publicação.

É pois perfeitamente natural, e pleno de justificação, que o Governo português se empenhe na captação da cerimónia de atribuição destes prémios, tanto pelos seus enormes reflexos promocionais, como também porque sabe que tal motivará um ainda maior empenhamento por parte de todos os actores da nossa gastronomia que, no caso de Portugal vir a acolher este evento, certamente transcender-se-ão.

Neste quadro, fazem todo o sentido as propostas conjuntas da Academia Portuguesa de Gastronomia e da Real Academia de Gastronomia (Espanha), quer para a criação de um Observatório Europeu da Gastronomia, iniciativa da qual se espera, na eventualidade de vir a ser bem-sucedida, que as autoridades portuguesas tudo façam para que a sua sedefique no nosso país, quer para a candidatura à “declaração como património cultural da Humanidade” dos elementos singulares das cozinhas portuguesa e espanhola, como a cataplana e a “paella”.

 

O + da Semana:

 

A multinacional Intrum Justitia, empresa europeia especializada em serviços de gestão de crédito, divulgou o seu mais recente “European Consumer Payment Report” (ECPR) onde revela uma pesquisa feita a 21.317 consumidores europeus, de 21 países, em que se incluem 1.010 cidadãos nacionais, no qual 42% dos inquiridos referem expressamente que todos os meses poupam dinheiro para viajar. Um outro estudo, levado a cabo pelo ”Observador Cetelem/Nielsen”, com vista a avaliar as principais opções de compra e poupança, feito através de 600 inquéritos telefónicos a pessoas de Portugal continental, menciona que no topo das prioridades de consumo dos portugueses estão os produtos ligados à área do lazer/viagens, com 14% das preferências (seguem-se os telemóveis/smartphones com 13% e os electrodomésticos com 8%). Tanto num caso, como no outro, podemos constatar a predisposição dos portugueses para viajarem, mesmo que para isso tenham de fazer alguns sacrifícios diários e, talvez mais importante, que o turismo é de longe a área da economia em que os consumidores entendem valer a pena gastar o seu dinheiro, seja por motivação, seja por necessidade. Claro está que a percepção de recuperação de rendimentos não será alheia a esta manifestação de vontade, que auspicia, para 2017, a manutenção da retoma do mercado nacional e, consequentemente, mais oportunidades de negócio para as empresas turísticas do nosso país.Talvez ou também por isto, o sector das agências de viagens e operadores turísticos seja o que mais cresce na marcação de espaços para a edição do próximo ano da BTL – Bolsa de Turismode Lisboa.

 

Nota da Redacção: Em virtude de amanhã (1 de Dezembro) ser feriado e para não privar os nossos leitores do habitual Comentário de Atilio Forte optámos por antecipá-lo, razão porque aparece em formato mais curto, situação que se repetirá na próxima semana com idêntico fundamento (8 de Dezembro). Agradecemos a vossa compreensão.