iTurismo: Haver ou Não Haver Brexit, por Atilio Forte

O impacto do Brexit na economia portuguesa, com o turismo a ser, previsivelmente, uma das áreas mais afectadas, de acordo com um estudo promovido pela CIP, bem como a fixação da Web Summit em Portugal durante mais uma década e as suas repercussões positivas para a imagem do país, são comentados por Atilio Forte no iTurismo desta semana.

Tópicos da Semana

  •  Campismo de luxo em afirmação: O segmento turístico do campismo de luxo – também conhecido por “glamping” – vem paulatinamente afirmando-se como uma das principais escolhas entre os viajantes mais abastados, dado proporcionar-lhes experiências únicas. Não espanta por isso que alguns países/destinos, como a Costa Rica ou o México, estejam a apostar fortemente nesta tendência emergente.
  • Hotéis X armas de fogo, o novo dilema do turismo americano: A hotelaria dos Estados Unidos da América está “a braços” com a questão das regras relativas ao porte de arma já que, se por um lado tem de acomodar os hóspedes que por elas se fazem acompanhar, por outro lado tem de garantir e fazer cumprir os procedimentos e protocolos respeitantes à segurança de todos. Curiosamente, tem sido a “Cadeia Trump” uma das que maior resistência vem apresentando à permissão de armas de fogo nas suas propriedades.
  • Inovar e poupar com sustentabilidade: A empresa francesa Varinot & Varinot Architectes apresentou ao concurso anual “Radical Innovation Award” um imaginativo projecto de aproveitamento de águas pluviais baseado em aquaponia – combinação da aquicultura tradicional com a hidroponia (cultivo de plantas e vegetais em água) –, que terá o sector hoteleiro como principal destinatário. A ideia é reciclar a água da chuva canalizando-a para aquários onde são criados peixes e, simultaneamente, transformar os dejectos dos mesmos em fertilizante para o cultivo de plantas e vegetais, permitindo ainda construir jardins e hortas na vertical.

 

 Comentário

Turisver – Um estudo promovido pela CIP, feito com o apoio da Ernst &Young – Augusto Mateus & Associados, analisa o impacto do Brexit na economia portuguesa, com o turismo a ser, previsivelmente, uma das áreas mais afectadas. Que reflexão lhe merece esta conclusão?

 

Atilio Forte – Seria injusto não começarmos por enaltecer a iniciativa da CIP – Confederação Empresarial de Portugal pela elaboração do estudo “Brexit – As Consequências para a Economia e as Empresas Portuguesas”, tanto pela sua oportunidade, como pelas análises que nele são efectuadas – consubstanciadas em alertas e propostas –, apesar de considerarmos que o mesmo extravasa em muito o âmbito associativo e confederal daquela entidade e que, por essa razão, teria ganho “força” com o envolvimento dos demais Parceiros Sociais representativos da Agricultura, do Comércio e Serviços e do Turismo.

Mas, queira-se ou não, o Brexit está – e vai estar nos próximos meses! – cada vez mais na ordem do dia, quanto mais não seja por já ter hora e data marcadas para acontecer (23 horas do dia 29 de Março de 2019), pelos impactos económicos, financeiros e sociais que, entretanto, provocou, porque coloca quer a União Europeia (UE) quer um dos seus Estados-Membro em território inexplorado (nunca um país dela pretendeu e decidiu sair) e, sobretudo, pelo crescendo de contestação interna (no Reino Unido) de que é alvo, traduzido em múltiplos apelos e pressões à realização de um novo Referendo.

A esta argumentação devem somar-se os inúmeros custos que, a todos os níveis, tal representará para ambas as partes, mais a mais num momento de grande tensão comercial entre a UE e os Estados Unidos da América (EUA) como aquele por que passamos, para nem sequer referirmos a instabilidade institucional e governativa vivida em muitos Estados-Membro motivada pelo “ganhar terreno” ou ascensão ao poder de ideologias de base nacionalista/populista que estão a corroer as fundações do “Mercado Comum”, da UEM – União Económica e Monetária e da própria livre circulação de pessoas. É que a factura política, económica e social a pagar, mais do que elevada, pode vir a revelar-se incomportável!

Dito isto, será bom recordar que actualmente o Reino Unido, embora não faça parte da “Zona Euro” ou o “Espaço Schengen”, é a 5ª maior economia do Mundo sendo,também, um dos maiores contribuintes líquidos da (e para a) UE, o que significa que a materialização do Brexit traria por um lado encargos adicionais para os restantes 27 países que a integram (nos quais Portugal se inclui), que poderiam tornar-se difíceis de acomodar e, por outro lado, daria uma (ainda) maior competitividade aos produtos e serviços britânicos que, acreditamos, ficariam mais baratos por força de nova desvalorização da Libra, no caso, face ao Euro, mas também com reflexos nos mercados que tomam o Dólar por referência, tendo por consequência o que logo após a realização do Referendo no Reino Unido aqui tivemos oportunidade de enfatizar (cf, https://www.turisver.com/iturismo-brexit-atilio-forte/), isto é e sintetizando, a dinamização das exportações “made in UK” teria como contraponto, entre outros efeitos, uma mais acentuada perda de poder de compra por parte dos britânicos.

E é essencialmente neste aspecto que o “nosso” turismo e a economia nacional poderão ser afectados, já que os produtos e serviços turísticos oferecidos (em Euros) àquele mercado ficarão mais caros, logo menos competitivos face à diminuição da capacidade aquisitiva dos consumidores britânicos, levando com que recebamos menos turistas daí oriundos – como ao longo do corrente ano já aconteceu –, situação que impactará fortemente na actividade turística e que também terá, pelo fenómeno de “arrastamento”provocado, um efeito nefasto nas demais áreas da economia portuguesa, atenta a transversalidade e os efeitos indutores do turismo, ou não estivéssemos a referir-nos ao principal mercado emissor de fluxos turísticos para Portugal (dados de 2017).

Esta é a razão pela qual não deve estranhar-se a afirmação feita no estudo da CIP que as exportações nacionais podem sofrer uma quebra entre os 15% e os 26%, sendo o turismo uma das actividades mais atingidas, o que de algum modo pode considerar-se natural atenta a liderança indiscutível que vem assumindo no domínio dos bens (produtos e serviços) transaccionáveis.

Aliás, estamos em crer que todos os países do Sul da Europa – que integram a UE e o Euro – serão igualmente bastante prejudicados nas suas exportações, nomeadamente no turismo, com o Brexit. Ao invés e a manter-se o actual panorama internacional, mormente na bacia do Mediterrâneo – mas não só! –, inevitavelmente iremos assistir a um “desvio” assinalável de turistas britânicos para destinos como a Turquia, os países do Norte de África e as Caraíbas, embora para este último com menor intensidade por força do custo do avião, já que tratando-se de voos de longo curso o combustível (leia-se petróleo/Dólares) tem um “peso” significativo na formação do preço.

Por tudo o que acabámos de referir, sem esquecer o que há cerca de dois anos e meio afirmámos (no comentário atrás referenciado), e considerando a magnitude das consequências que daqui podem advir, não surpreende que com o aproximar da “hora da verdade”, tanto por parte do Reino Unido, como por parte da UE, se tenha chegado a um impasse nas negociações, como já tínhamos tido oportunidade de antecipar.

Para além disto não é despiciente também recordar que estamos perante um Referendo “não vinculativo”, crescentemente contestado internamente, que pode colocar em causa a própria coesão da Grã-Bretanha (veja-se as posições pró-europeístas da Escócia ou o desgaste nas relações com a República da Irlanda) e o futuro da UE e, mesmo que um acordo venha a ser obtido, o Parlamento inglês terá ainda direito a pronunciar-se sobre o dito, não sendo líquida a sua (taxativa) aprovação.

Portanto, é com expectativa (e preocupação!) redobrada que encaramos os dias e os meses até ao final de Março próximo, sem que isso signifique beliscar o inegável mérito deste “Estudo” e de muitas outras iniciativas levadas a cabo por organismos públicos ou privados – é sempre melhor estar preparado para o pior cenário e ser pró-activo, do que pecar por inacção –, dado que se mantém bem viva a dúvida se, realmente, o processo seguirá por diante.

No fim de contas, a grande interrogação com que estamos confrontados é se perante este quadro de consequências imprevisíveis poderão a UE e o Reino Unido dar-se ao “luxo de um divórcio”? Ou, fazendo uma adaptação livre, mas bem a propósito, da célebre frase da tragédia de “Hamlet” de William Shakespeare: Haver ou não haver Brexit, eis a questão!

 

Turisver – A cimeira tecnológica Web Summit está a chegar ao fim de mais uma edição em Lisboa, a terceira, mas vai ficar por cá mais 10 anos mediante contrapartidas anuais de 11 milhões de Euros e a expansão da Feira Internacional de Lisboa (FIL). Mesmo tendo em conta as contrapartidas anunciadas, a fixação deste mega evento em Portugal durante mais uma década é uma boa notícia para o turismo?

 

Atilio Forte – Sem dúvida alguma que a manutenção em Portugal (Lisboa) de um evento como a “Web Summit” por mais uma década deve ser considerada uma excelente notícia, por um variadíssimo conjunto de razões das quais nos permitimos destacar:

Em primeiro lugar, porque estamos garantidamente perante o maior e mais importante “evento tecnológico” que se realiza anualmente a nível mundial, o que quer dizer que a sua visibilidade internacional acabará por repercutir-se positivamente na imagem de Portugal, seja enquanto destino turístico, seja como país da “linha da frente” da inovação digital.

Depois, porque o simples facto de acolhermos esta cimeira faz com que o frenesim à sua volta contagie muitos dos nossos jovens e empreendedores a reflectirem sobre as oportunidades que o mesmo lhes oferece (ou pode oferecer) ou a porem em prática as suas ideias, isto é, transformando-as em (possível) negócio.

Em terceiro lugar, porque estamos diante de um acontecimento que atrai um grande número de personalidades de renome dos mais diversos quadrantes e áreas, as quais pela sua presença dão visibilidade à cimeira, mas pelo facto da mesma realizar-se em “terras lusas” também têm oportunidade de visitar a cidade e o país e desse modo serem “contagiadas” pela nossa cultura, beleza, património, hospitalidade, gastronomia, natureza, etc., ficando (certamente) com vontade de voltar com mais tempo ou tornando-se “embaixadores” itinerantes do destino.

Merece ainda destaque a habitual complexidade organizativa que rodeia um acontecimento desta natureza que, não obstante possuir uma equipa que é responsável pelo mesmo, também significa que há por parte das mais diversas entidades nacionais capacidade de colaboração, mobilização e cooperação, tal como infra-estruturas e equipamentos capazes de darem resposta a todas as solicitações que, directa ou indirectamente, devem ser e estar asseguradas para instalar e acolher um mega evento como este, bem como os milhares de pessoas que nele participam. E isso também sinaliza perante terceiros que temos condições para receber, com a mesma qualidade, reuniões internacionais de idêntica envergadura.

Finalmente, e para não nos alongarmos em excesso, porque do ponto de vista económico (do turismo, mas não só) os “dividendos” que retiramos do seu impacto são de assinalável importância, considerando quer a multiplicidade de consumos (turísticos e não-turísticos) motivados pelo simples facto da cimeira se realizar em Portugal, quer as incontáveis referências e promoção gratuita que os seus participantes farão de Lisboa, da região e do país, nomeadamente nas redes sociais, a qual contribuirá para aumentar a nossa notoriedade a variadíssimos níveis.

Perante, todos estes argumentos – aos quais acresce a expansão da FIL – Feira Internacional de Lisboa (praticamente duplicará) – 11 milhões de Euros anuais parece-nos uma contrapartida aceitável, considerando que a edição deste ano acolheu cerca de 70.000 participantes – provenientes de 170 países – e 2.500 jornalistas e que, de acordo com a informação veiculada pelo Governo, em 2017, só em receitas fiscais resultantes directamente da “Web Summit”, os cofres públicos nacionais arrecadaram cerca de 30 milhões de Euros.

Assim, do mesmo modo que se saúda a visão por parte do Estado em apostar na continuidade deste mega evento, também em consciência não poderíamos terminar a nossa resposta sem aqui registar – e lamentar! – que, infelizmente, não tem havido a mesma postura e empenho no que respeita às verbas canalizadas para a promoção turística nacional – que continuam muito aquém do desejável – ou na análise à dedutibilidade do IVA nas despesas profissionais de alojamento, recepção e transporte que, justamente, tanto penalizam eventos de índole semelhante que, embora não tendo a mesma dimensão, são igualmente importantes para o turismo, para a economia nacional e para o país.

Afinal, e no final, estamos sempre a falar de turismo, razão pela qual não pode haver dois pesos e duas medidas, porque mais importante do que acolher um mega evento de 4/5 dias, é termos diariamente turistas, reuniões, congressos, seminários, etc.!

 

O + da Semana:

Como bastas vezes aqui temos salientado o “produto golfe” é um dos que maior notoriedade tem dado ao turismo e ao país, sendo ainda responsável por atrair muitos milhares de turistas nas chamadas épocas “média” e “baixa”os quais, com a sua vinda até nós, dão um fortíssimo contributo para atenuar a sazonalidade com que algumas regiões se debatem, de entre as quais destaca-se a do Algarve, garantindo que muitas empresas permaneçam abertas nas alturas do ano mais críticas para a actividade e, consequentemente, também muitos postos de trabalho sejam mantidos. Apesar desta importância quase vital para a nossa oferta turística, o golfe continua fiscalmente a ser olhado como “um luxo”, apenas atraente para quem possui um elevado desafogo financeiro e não como aquilo que realmente é, uma fortíssima motivação turística. Só isso explica que o brutal aumento do IVA de 6% para 23% que atingiu o sector durante o período da “crise e da troika” continue a ser mantido pelos sucessivos Governos que, assim, dão mostra de estarem totalmente alheados dos múltiplos benefícios que uma maior competitividade fiscal neste domínio poderia dar ao país, à economia, ao turismo e às empresas. Não obstante esta “cegueira” política, Portugal foi o grande vencedor dos World Golf Awards, que ocorreram no passado fim-de-semana em La Manga (Múrcia), Espanha, tendo entre outros prémios e pelo quinto ano consecutivo (!) vencido nas categorias de “Melhor Destino de Golfe do Mundo” e de “Melhor Destino de Golfe da Europa”, facto que aqui não podíamos deixar de assinalar.