iTurismo: Hotéis Degradados e Agências Vs TAP, por Atilio Forte

No iTurismo desta semana, Atilio Forte comenta a necessidade de serem feitos investimentos na melhoria dos hotéis, bem como a nova política comercial da TAP. “Aproveitar a noite”, “Tornar o velho em novo” e “Procura aumenta na Rússia”, são os temas dos “Tópicos da Semana”, enquanto “O + da Semana”” versa sobre um novo segmento ou conceito de mercado: o “Bleisure” (business + leisure).

Tópicos da Semana:

  • Aproveitar a noite: Um pouco por todo o Mundo os hotéis, principalmente os “Resorts”, começam a tirar partido da “noite” como forma de aumentar as actividades que proporcionam aos seus hóspedes. De entre a lista das múltiplas ofertas – que não param de surgir – as preferências têm recaído em massagens à luz das velas; visitas a habitats naturais de animais; passeios de cavalo ao luar; tratamentos de spa baseados nas fases da lua; e aulas de yoga com pinturas corporais (brilhar no escuro).
  • Tornar o “velho” em “novo”: É uma das últimas tendências turísticas nos Estados Unidos, revelando-se como uma excelente estratégia de marketing. Readaptar a utilização de antigos edifícios com (uma) história é extremamente compensador pois enriquece a experiência dos clientes, permitindo ainda uma melhor penetração em mercados ou segmentos considerados “difíceis”. De entre as mais recentes unidades a fazerem parte dos “Historic Hotels of America” contam-se vários antigos quartéis militares, uma fábrica de chocolate e, até, uma grande oficina de joalharia.
  • Procura aumenta na Rússia: De acordo com a Agência Federal de Turismo russa a actividade apresenta claros sinais de crescimento, sobretudo nas regiões de Moscovo e São Petersburgo, motivada quer por uma política de preços mais flexível, quer como resultado de um maior número de acções de promoção interna. A comparação homóloga do primeiro quadrimestre 2015/16 regista um aumento de 16,5%. Note-se que esta análise não refere a situação internacional, a qual, em nossa opinião, tem (obviamente) um papel decisivo neste impulso turístico.

 

Comentário

 

Turisver.com – Algumas pessoas do “trade” têm-nos questionado sobre a degradação de algumas unidades hoteleiras, mesmo tendo em conta que os últimos anos, nos quais este se inclui, têm sido bons ao nível da ocupação e as receitas também têm aumentado. Na sua opinião porque não estão a ser feitos investimentos na melhoria de hotéis?

 

Atilio Forte – Pese embora todos quantos contactam mais directamente com a actividade turística – sejam consumidores, sejam profissionais – possam ter conhecimento de um ou outro caso de degradação, nesta ou naquela unidade, somos de opinião que se trata de excepções e, por isso, devemos ter algumas cautelas com eventuais generalizações.

A verdade é que o nosso “parque hoteleiro”, se comparado com o existente em destinos concorrentes, nomeadamente no Sul da Europa, apresenta níveis globais de grande qualidade, situando-se claramente acima do padrão médio de conforto e serviços oferecidos. Para tal muito contribuiu – e contribui – o surgir de novos investimentos, que aumentaram a oferta e a concorrência, ajudando a que todo o sector, progressivamente, se requalificasse.

E tudo isto foi conseguido no seio de uma conjuntura extremamente adversa, iniciada em 2008 com a crise económica mundial e prosseguida com o Programa de Assistência Económica e Financeira Internacional a que Portugal esteve sujeito.

Não obstante a melhoria dos resultados turísticos do país, que se vem verificando desde 2013, o facto é que só muito provavelmente no final do ano em curso, é que se atingirá o nível dos preços médios praticados pela hotelaria em 2007 (!), o que significa que durante quase uma década o sector – e o turismo português em geral – se viu a braços com dois movimentos antagónicos: por um lado, um forte crescimento da oferta e, por outro lado, uma baixa generalizada dos preços praticados, fruto da contracção do mercado.

Se a estes dois factores acrescentarmoso tempo que os bons resultados demoram a chegar à economia real, isto é às empresas, facilmente encontramos justificação para que num ou noutro caso, por exaustão de tesouraria, por dificuldades noacesso aocrédito (tanto por parte das empresas, como pela crise que também atingiu a banca) ou por opção entre manter as portas abertas ao invés de as encerrar, não tenha sido possível evitar a degradação deste ou daquelehotel.

Mesmo assim, não cremos ser excessivo dizer-se que a hotelaria nacional venceu estoicamente um dos seus períodos mais difíceis, existindo até situações em que se conseguiram “ressuscitar” projectos que, pela conjugação destas e outras adversidades, acabaram por implodir.

Poder-se-á perguntar se estes argumentos explicam tudo? Ao que respondemos, em grande parte, sim! Mas faltaríamos à verdade se não disséssemos que outros houve (e há), em que a ausência de conhecimento e saber – de quem investe, de quem gere e de quem trabalha –, em que a miragem do turismo ser uma actividade em franco crescimento (em Portugal e no Mundo) e, portanto, aparentemente de lucro fácil – os turistas têm sempre de encontrar solução para o “onde ficar?” –, em que (antes de investir) não se fazem estudos de mercado, de definição do posicionamento do produto, da sua diferenciação, da sua segmentação, do modo como ele agregará valor e disponibilizá-lo-á ao hóspede, se adicionadas à ignorância que a actividade, e muito em particular a hotelaria, é uma área de capital intensivo na qual, nesses casos, quase nunca se conta com as necessárias renovações, substituições, reposições e inovações, constituem-se como a principal razão (para não dizer, a quase exclusiva) do nível de degradação a que alguns hotéis chega(ra)m.

É sempre bom lembrar que a actividade turística já era global, antes do próprio conceito de “globalização” ter sido criado; que a sua matéria-prima são pessoas; que é a maior actividade económica do Mundo e, por estes motivos, é uma realidade altamente complexa, onde não há lugar para “aventureiros e curiosos” e na qual o erro tem sempre um custo elevadíssimo.

Felizmente que em Portugal não existe um grande número de hotéis degradados. Mesmo quando tudo aponta nessa direcção, o próprio mercado normalmente encarrega-se de “corrigir o erro”: ou alguém compra; ou a gestão passa para mãos capazes; ou o encerramento torna-se inevitável.

Em conclusão, se não existir qualquer fenómeno imponderável que venha alterar a senda de bons resultados anuais, acreditamos que Portugal melhorará, diferenciará e aumentará a qualidade da sua oferta hoteleira, mantendo-se como uma referência no panorama turístico mundial.

 

Turisver.com – A TAP está a mudar a sua política comercial a começar pelas novas classes que está a introduzir nos seus aviões. Vários agentes de viagens colocam questões e mostram-se preocupados sobre a possibilidade de uma degradação das relações comerciais com a maior companhia aérea a operar em Portugal. Como olha para o evoluir desta situação?

 

Atilio Forte – Em nossa opinião este é claramente um dos casos que entronca no que definimos como os vértices do “Novo Turismo”, ou os três “T’s” do “Novo Turismo” – como a eles nos costumamos referir, quer nas intervenções públicas que efectuamos, quer nesta rubrica –, os quais irão moldar, nas próximas décadas, o futuro da actividade. São eles: o Transporte (sobretudo o aéreo); a Tecnologia; e, o Turista.

Ora, como se sabe, hoje em dia vivemos no primado do consumidor, isto é do “Turista”. É a procura quem determina a oferta e, por essa via, a condiciona. E tal só foi possível após o advento da internet e da subsequente evolução das tecnologias de informação e comunicação, as quais vieram colocar esse “poder” nas pontas dos dedos dos consumidores, oferecendo-lhes liberdade de escolha à distância de um “clique”, um pouco à semelhança do que aconteceu nos anos 50 do século XX, com o aparecimento dos aviões comerciais a jacto, os quais tornaram as viagens mais rápidas e o Mundo mais próximo, contribuindo decisivamente para a “democratização” do turismo e impondo-se como meio de deslocação por excelência.

O aparecimento de novos modelos de negócio no seio da aviação, como foi o das companhias de baixo custo (vulgo “lowcost”), veio dessacralizar a necessidade dos consumidores pagarem um preço (médio/alto) para viajarem de avião, reduzindo drasticamente esse custo (para um valor baixo/quase nulo).

Sendo a aviação, não apenas no turismo, mas à escala planetária, o mais competitivo de todos os sectores, esta “revolução” ou “quebra de dogma” colocou gigantescos desafios tanto às “companhias tradicionais”, como às “recém-nascidas” do novo paradigma. E esses desafios têm vindo a ser superados graças à inovação introduzida nas empresas, à evolução da “tecnologia” e à permanente pressão dos “turistas”.

A conjugação de todos estes factores tem tido inúmeras repercussões, que vão desde a flexibilização, por aproximação, dos dois grandes modelos de negócio que “dividem” a aviação (companhias tradicionais e de baixo custo), ao aparecimento de novas formas de distribuição (e desintermediação), como as “Online Travel Agencies” (OTA’s) ou os “consolidadores” (vulgo grossistas de venda de passagens aéreas).

As consequências de tudo isto são, por um lado, o paulatino esforço das companhias de baixo custo em fazerem-se remunerar por “benefícios” dados aos passageiros (reserva de lugar, transporte de bagagem, etc.) e as companhias tradicionais introduzirem uma maior segmentação de classes em cada avião, correspondendo cada lugar a determinado nível de serviço (refeições, cadeiras reclináveis, etc.), que reflectem no preço e, por outro lado, ao emergir das OTA’s, dos consolidadores e dos grandes grupos internacionais de agências de viagens, como reconhecidos – pelos consumidores e transportadoras – “distribuidores/vendedores oficiais” de bilhetes de avião.

Assim, justifica-se a natural apreensão das agências de viagens nacionais perante o anúncio feito pela TAP em alterara sua política comercial, concretamente no respeitante à introdução de novas classes nos seus aviões, pois intuem que a tendência levará a uma crescente utilização dos canais online(próprios ou de terceiros com grande dimensão e presença internacional ou digital) para venda do produto ”transporte aéreo”, o que desvalorizará (por esvaziamento) o seu actual papel.

Aliás, esta é a estratégia que sustenta as alterações que a International Air Transport Association (IATA) pretende introduzir ao actual “Billing and Settlement Plan” (BSP), transformando-o no “New Generationof IATA Settlement Systems” (New Gen ISS), que aqui analisámos e comentámos há cerca de um mês.

Por certo este será um assunto muitíssimo debatido, até porque pode assumir contornos vitais para a sobrevivência de inúmeras empresas. Contudo, e embora não seja fácil prever a sua evolução, vale sempre a pena recordar que quando apareceram as companhias de baixo custo muitos previram que elas não iriam “vingar”, enquanto outros tantos defendiam que elas iriam “terminar” com as companhias tradicionais. Mas, nada disso aconteceu!

Como, também, quando as companhias aéreas decidiram deixar de comissionar as agências de viagens pela venda de passagens aéreas, houve quem tivesse previsto que isso significava o “fim da linha” para estas últimas. E, mais uma vez, nada disso aconteceu!

Finalizamos, por isso, com uma palavra de optimismo, alicerçada no facto de oturismo ser, porventura, a mais simbiótica de todas as actividades económicas. E, por possuir essa característica endógena, acabará sempre – como diria Charles Darwin –, tal como a natureza, por encontrar o seu caminho.

 

O + da Semana:

 

Num estudo levado a cabo pela Carlson Wagonlit Travel’s Solutions Group revelado recentemente, refere-se que cerca de 20% das pessoas que viajam em negócios aproveita essa deslocação para gozar alguns dias de lazer no destino, antes ou depois do trabalho. Mas o documento vai mais além, mencionando: que 35% prefere reservar esses dias antes da sua actividade profissional, enquanto 65% os deixa para antes e para depois; que quanto mais longa for a viagem maior a probabilidade de tal acontecer; e que nos últimos cinco anos estes valores têm permanecido estáveis. Os 29 milhões de viagens de negócios analisados, que constituíram a amostra, são por si só um factor de credibilidade para as conclusões alcançadas, o que nos demonstra que estamos perante um novo segmento (ou conceito) de mercado: o “Bleisure” (business + leisure), que integra 1 em cada 5 pessoas que viajam por motivos profissionais, como aí é avançado. Tal significa que nos deparamos com uma nova oportunidade de negócio e que qualquer gestor de viagens “corporate” deverá passar a tê-la em consideração quando efectuar o seu contacto ou oferta junto do cliente, sobretudo para os que tenham que realizar viagens de longo curso.