iTurismo: Internacionalização e Lusofonia, por Atilio Forte

A falta de apoios à internacionalização das empresas portuguesas para países lusófonos e os efeitos multiplicadores da actividade turística são os temas do iTurismo de hoje. Para “O + da Semana”, Atilio Forte escolheu o turismo inclusivo e como “Tópicos da Semana” fala dos novos desafios das viagens de grupo, do crescimento hoteleiro em Dublin e das aquisições de hotéis por sul coreanos nos EUA.

Tópicos da Semana:

  • Os novos desafios das viagens de grupo: O crescimento deste segmento turístico tem vindo a acentuar-se seja no sector da hotelaria, seja no da distribuição. Contudo, dadas as facilidades permitidas pela actual tecnologia, o mesmo pedido de orçamento é enviado para um cada vez maior número de hotéis ou agências de viagens, o que motiva um grande aumento do seu volume de trabalho, o qual nem sempre poderá ser compensador.
  • Coreia do Sul “às compras” nos Estados Unidos: Devido às baixas taxas de juro e ao crescimento anémico da economia sul coreana, os seus principais investidores imobiliários na hotelaria – institucionais incluídos (como fundos de pensões) – estão a voltar-se para a maior economia do Mundo, onde têm feito aquisições significativas, principalmente de unidades localizadas à beira-mar ou de renome. Resta saber se a Europa também estará no seu radar…
  • Dublin cresce: Presentemente a capital da República da Irlanda tem um problema de escassez de oferta hoteleira, sobretudo na sua zona mais central, face à elevada procura de que tem sido alvo. Para ultrapassar este constrangimento estão já em construção cerca de 6.100 novos quartos que, progressivamente, serão inaugurados no decurso dos próximos três anos.

 

Comentário

Turisver.com – As empresas portuguesas do turismo que se têm internacionalizado, e algumas que equacionam fazê-lo, em especial para os países de língua portuguesa, não se sentem minimamente apoiadas pelas políticas governativas dos últimos anos. Como olha para esta questão?

Atilio Forte – Todos quantos, ao longo do tempo, têm acompanhado as nossas análises e comentários sabem que esta é uma questão que consideramos estruturante para a evolução e para o desenvolvimento da actividade turística em Portugal.

Pese embora o turismo seja uma actividade económica eminentemente privada e, portanto, cuja iniciativa compete em primeiro lugar ao dinamismo empresarial, não podemos alhear-nos que, por um lado, a obtenção de massa crítica, isto é, de dimensão, é um factor primordial para alcançar sucesso na captação de fluxos turísticos à escala global e, por outro lado, termos a exacta noção do que somos e do que representamos no panorama internacional, ou seja, um mercado pequeno – tanto em território, como em consumidores.

A adicionar a esta situação, devemos ter presente a nossa quase total dependência do(s) mercado(s) europeu(s) – o que até se afigura lógico por múltiplas e óbvias razões -, mas que, enquanto destino turístico, nos tem mantido de certa forma inertes, não nos levando a “pensar fora da caixa”, criando alternativas que, no mínimo, contribuam para atenuar qualquer contrariedade que possa surgir.

Isto significa que se pretendermos ter uma palavra a dizer no controlo dos grandes fluxos turísticos internacionais, somos obrigados a “resolver” bem estes dois desafios: ganhar massa crítica e ultrapassar a nossa própria escala – sem esquecer o “peso europeu”.

É por estas razões que, de há alguns anos a esta parte, vimos insistindo na defesa da criação de um mercado lusófono! E porquê?

Sem pretendermos ser exaustivos aqui deixamos alguns argumentos:

  • Porque um mercado “interno” lusófono confere-nos automaticamente a dimensão que nos falta. Relembramos que, actualmente, este é um espaço com cerca de 250 milhões de consumidores, com crescente peso económico – apesar da conjuntura que Brasil e Angola presentemente atravessam – mas que até 2050 aumentará em 110 milhões, ou seja, daqui a pouco mais de três décadas estaremos a dirigir-nos a 360 milhões de clientes, cujas adversidades actuais já terão sido (certamente) ultrapassadas;
  • Porque aí encontramos uma matriz cultural idêntica, embora diversificada. E não nos referimos apenas à língua, não obstante reconheçamos a sua importância, mas também ao património monumental e histórico, à gastronomia, numa expressão, a toda uma herança civilizacional comum;
  • Porque existe uma clara complementaridade dos produtos turísticos. Peguemos naquele que poderá ser o exemplo mais gritante, o Sol & Mar: embora tendo a mesma base motivacional, temos que reconhecer as diferenças que existem se compararmos o do Atlântico europeu com o do Brasil ou com o da África ocidental, para já não relembrarmos outras, mais marcantes, como o do Índico ou o do Mar de Timor;
  • Porque as plataformas regionais de transporte aéreo e infra-estruturas aeroportuárias existentes permitem a captação de novo tráfego nas suas respectivas zonas de influência, expandindo assim as “fronteiras do mercado interno lusófono original”;
  • Porque possibilita a existência de um verdadeiro intercâmbio do conhecimento, seja sobre mercados, seja sobre consumidores, produtos ou mesmo empresarial. E todos temos noção da crescente importância que a partilha do saber tem nos tempos que correm;
  • Finalmente, porque tal também estimularia o aprofundamento das parcerias empresariais e comerciais, independentemente da forma jurídica ou económica que as mesmas assumissem. Claramente, estaríamos a potenciar a dimensão empresarial.

Como já se compreendeu, esta visão estratégica apresenta uma tripla vantagem, porque garante, no plano global, massa crítica aos destinos turísticos lusófonos, rasga novos horizontes para as suas empresas (dimensão, internacionalização, etc.) e contribui para atenuar a excessiva dependência dos mercados mais próximos que, no nosso caso, são os europeus.

Com tantos benefícios em perspectiva, somos de opinião que este poderia ser um desígnio a assumir tanto por Portugal, como pelos demais países lusófonos. Arriscamos mesmo a dizer que este deveria ser um dossiê prioritário no âmbito da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), até porque, não nos esqueçamos, o turismo é, também, a actividade económica da paz, da compreensão e do respeito pelas diferenças entre os povos.

Apesar dos esforços realizados por vários dos nossos Governos, nomeadamente no que respeita à chamada diplomacia económica – alguns com êxito maior do que outros -, não se compreende que mais não tenha sido feito neste sentido, uma vez que, pelas razões que expusemos, acreditamos que um maior apoio ao tecido empresarial português, particularmente ao do turismo, dentro do “mundo lusófono”, com certeza traria e daria excelentes, mais rápidos e, principalmente, mais perenes resultados.

Não se entenda que criticamos outras apostas levadas a cabo. Trata-se apenas de uma questão de prioridades, ou se se quiser, de pormos em primeiro lugar aquilo que nos poderá dar mais garantias no longo prazo, embora reconheçamos que o esforço inicial possa ser mais exigente…

A terminar gostaríamos ainda de aqui deixar duas notas:

Uma primeira, para salientar que qualquer presença empresarial nacional além-fronteiras é sempre (ou também) uma “guarda avançada” da promoção de Portugal e, portanto, um complemento e uma enorme ajuda a tudo quanto do ponto de vista político possa ser feito neste domínio, até porque o que está em risco é o capital das empresas.

E, uma segunda, para referir que no âmbito da recolha de sugestões para a “Estratégia Turismo 2027” – que o actual Governo apresentou e colocou para debate público até ao final de 2016 -, aqui deixamos este nosso contributo, com a expectativa que ele possa ser uma proposta válida e a considerar no que toca ao “reforço da internacionalização de Portugal enquanto destino turístico” (sic), como é mencionado nesse documento (págs. 83 e 84). É que nos dias e no Mundo de hoje, isoladamente ninguém chega a algum lado!

 

Turisver.com – O crescimento do turismo em Portugal tem impactado de forma positiva em muitas empresas que não se encontram no âmbito directo da actividade turística, como é o caso dos transportes e do comércio. Estes efeitos multiplicadores indirectos estão a ser bem aproveitados no sentido de fazerem sentir à sociedade civil que o turismo é um forte pilar gerador de riqueza?

Atilio Forte – Não temos qualquer dúvida em afirmar que a percepção que o cidadão português comum tem da actividade turística é que ela é decisiva para o desenvolvimento do país, para o aumento da actividade económica e para a criação de emprego.

Mas não só. Em qualquer conversa, em qualquer expressão de opinião pessoal, facilmente notamos que os portugueses também valorizam e reconhecem no turismo uma enorme capacidade dinamizadora de outras áreas da economia que, por arrastamento, dele retiram óbvios benefícios e, nalguns casos, encontram justificação para a sua própria existência.

Esta inteligência com que os nossos concidadãos olham para a actividade e para as vantagens que o país dela retira, felizmente ultrapassa mesmo (em muito) aquilo que os próprios agentes turísticos – públicos ou privados – são capazes de deixar transparecer ou comunicar.

Este modo de olhar para o turismo tem muito a ver com as nossas características enquanto povo, moldadas secularmente por uma história que nos enraizou o cosmopolitismo, a sã convivência com outros povos e a renomada hospitalidade porque somos reconhecidos. Não é em vão que, seja em que estudo ou inquérito for, o aspecto mais marcante que todos os que nos visitam salientam é a nossa “arte de bem receber”.

Como também não é sem sentido que, principalmente nas zonas do interior, tanto se procura atrair investimento turístico, pois há a certeza que conseguido esse objectivo, atrás dele virá o estabelecimento de outros negócios que gravitam em seu redor.

Para além de tudo isto, é ainda curioso assinalar que a sociedade portuguesa sabe bem que o turismo pode também ser a via, o motivo e a justificação para ver as suas próprias condições de vida melhoradas, mesmo nas coisas mais simples, como no arranjo de um jardim, na recuperação de um monumento, na criação de um espaço mais aprazível, na dinamização de agendas culturais locais, etc., etc., etc..

E este “saber de experiência feito” contrasta bastas vezes, com entendimentos ou linhas de orientação política que, por terem consciência que os turistas não votam, consideram que estes podem ser um “bom alvo” de decisões infundadas, como as taxas de dormida ou de desembarque ou as portagens sem formas de pagamento acessíveis (cobradas através pórticos), para apenas referirmos dois exemplos.

Em suma, mais e melhor pode sempre ser feito. Contudo, se há domínios em que a consciência colectiva nacional está bem desperta, este é seguramente um deles.

 

O + da Semana:

Em Portugal, Verão é sinónimo de praia, tanto para os que cá residem, quanto para os milhões que nesta época do ano nos procuram e assim contribuem decisivamente para o bom desempenho da actividade turística e demais economia nacional. Mas o simples gesto de “ir à praia” e dela usufruir deve ser possível a todos, sem restrições. Pelo que fez para concretizar este desejo “básico”, a Câmara Municipal de Torres Vedras está de parabéns, já que foi a primeira autarquia do Mundo a introduzir uma nova sinalética, em doze das suas praias, que permite àqueles que são daltónicos que as desfrutem na sua plenitude. Esta decisão, no âmbito daquilo que comummente se designa por Turismo Inclusivo, consiste no hastear de mais uma bandeira que tem inserido um símbolo identificativo da respectiva cor (vermelha, amarela ou verde), permitindo deste modo, a todos quantos pretendam banhar-se, uma mais fácil leitura e percepção do estado do mar e das recomendações de segurança. De acordo com vários estudos internacionais estima-se que, no total, 10% dos homens e 0,5% das mulheres sejam daltónicos, por isso esta é uma decisão que, seguramente, terá um grande impacto. Acrescente-se que os contentores para recolha selectiva de resíduos que se encontram nessas praias, também estão abrangidos por este sistema de identificação de cores, denominado “CollorAdd”, o qual foi desenvolvido pelo designer gráfico português Miguel Neiva. Sem dúvida que este é um exemplo que merecia e deveria ser seguido por muitos outros municípios!