iTurismo: Jogo de Espelhos, por Atilio Forte

No iTurismo desta semana Atilio Forte comenta as recentes declarações do presidente executivo da TAP ao jornal Expresso e no Parlamento, e dá destaque à temática do 30º Congresso Nacional da Hotelaria e Turismo, que se realiza em Novembro, em Lisboa, e vai discutir “Turismo: Que Futuro Queremos?”.

Tópicos da Semana: 

  • Finlândia abriu um resort só para mulheres: É verdade! A malha da segmentação do mercado está a tornar-se crescentemente mais “fina”. Para o ilustrar destacamos a abertura numa ilha finlandesa (no passado dia 23 de Junho) do “Super She Island Resort”, destinado exclusivamente ao público feminino. Este “refúgio” pode alojar um máximo de 10 hóspedes e, entre outras comodidades, disponibiliza saunas finlandesas, diversas aulas de exercício físico e cursos de cozinha “da terra para a mesa”. 
  • A vantagem de disponibilizar carregadores para veículos eléctricos: Em virtude das vendas de automóveis (total ou parcialmente) eléctricos continuar em franca expansão, há um cada vez maior número de hotéis que vêem nestatendência uma oportunidade de novos negócios e de fidelização de clientes. Por isso está continuamente a aumentar o número de unidades que decidem instalar nas suas garagens os respectivos carregadores, por forma a melhor poderem corresponder aos desejos da procura e aumentarem os seus índices de atractividade junto dos consumidores. 
  • Atenção aos serviços digitais nas portarias (vulgo, “concierge”): Atenta a crescente utilização das novas tecnologias neste tipo de serviços que as unidades hoteleiras habitualmente disponibilizam, vários são os especialistas que alertam para o facto do “digital” não ser para todos, uma vez que se as marcas que têm por objectivo os “millennials” dele retiram benefícios outras, nomeadamente, os hotéis mais tradicionais e que apostam no segmento de luxo, podem prejudicar-se, dado que os seus hóspedes esperam (e desejam) que exista interacção humana.

 

Comentário

Turisver – Em menos de uma semana, Antonoaldo Neves, presidente executivo da TAP, deu uma grande entrevista ao jornal Expresso e esteve no Parlamento para responder aos Deputados. Das críticas às condições do aeroporto de Lisboa e às taxas praticadas, até à afirmação de que “a TAP não vai pagar o novo aeroporto”, o executivo falou de tudo o que à companhia diz respeito. No entanto, a ideia com que se fica é que nada está a ser feito para melhorar estas situações. É essa também a sua perspectiva?

 

Atilio Forte – Ao longo do tempo têm sido recorrentes as perguntas dos nossos leitores acerca do novo aeroporto de Lisboa, do funcionamento do actual e do nível de serviço prestado (aos seus utilizadores – passageiros e operadores aéreos –, ao turismo, à economia e ao país) seja pela ANA – Aeroportos de Portugal, seja pela própria TAP, as quais temos procurado aqui analisar explicando a cada momento o que está em causa, enquadrando os reflexos das decisões (indecisões ou não decisões) tomadas e, sobretudo, o que é que originou que chegássemos a este ponto e o que deve ser feito para que dele saíamos com o menor “estrago” possível, uma vez que neste caso já não há espaço para uma “saída limpa”.

No que respeita à TAP se é verdade que a aquisição de aeronaves e a contratação de mais pilotos e pessoal de cabina (medidas em curso ou já realizadas) podem vir a resolver as “dores de crescimento” que a companhia tem vindo a demonstrar – os próximos meses serão críticos para que essa avaliação possa ser feita correctamente –, nomeadamente repondo os seus índices de pontualidade e obviando o cancelamento de voos, não menos verdade é que existe a possibilidade destas acções virem a revelar-se insuficientes atentos os constrangimentos provocados na sua operação pelas deficiências de funcionamento do aeroporto de Lisboa que, há muito, tem a sua capacidade esgotada.

Note-se que a TAP não é a única “vítima” desta situação. Todas as transportadoras aéreas que utilizam esta infra-estrutura também o são. Simplesmente no caso da TAP o problema é mais visível (e grave) porque ela é o seu maior cliente, já que é no Aeroporto Humberto Delgado que a empresa tem a sua base de operações (“hub”), sendo esta a razão que (com certeza) levou o seu Presidente Executivo a fazer a afirmação citada na pergunta.

Não obstante as deploráveis condições de serviço presentemente oferecidas pelo aeroporto de Lisboa às transportadoras aéreas, continuamos a assistir a sucessivos aumentos das taxas cobradas, em virtude dosmesmos – ou dos indicadores que os permitem – terem sido previstos no contrato celebrado entre o Estado português e a Vinci Airports no final de 2012, que concessionou a esta última a gestão dos equipamentos aeroportuários nacionais por um prazo de 50 anos. A tudo isto acrescem os transtornos causados aos passageiros, que vão desde longas filas para fazer o “check-in”, à demora na saída das bagagens, para nem sequer referirmos o tormento por que passam os turistas que pretendem entrar no nosso país e não são cidadãos comunitários…

Escusado será dizer-se que esta situação tem impacto negativo na vida de pessoas e empresas e prejudica directa e principalmente a actividade turística, mas também todas as demais áreas da economia nacional, para além de dar uma péssima imagem internacional de Portugal.

Por isso torna-se mais do que evidente que a adopção da solução que se discute desde a década de 60 do século passado (!), isto é, a criação de uma nova infra-estrutura aeroportuária que possa servir a região de Lisboa e o país, complementando e “aliviando” o actual aeroporto, deve estar no topo das “emergências” nacionais.

Apesar de tanto o Estado como a actual concessionária estarem de acordo quer quanto à sua necessidade, querquanto à sua localização tendo até, para o efeito, assinado em Fevereiro último um memorandum de entendimento que estabeleceu um calendário para a expansão da capacidade aeroportuária na região de Lisboa, através da instalação de uma infra-estrutura complementar no lugar onde está situada a Base Aérea nº 6 (Montijo) e de, entretanto, a ANA – Aeroportos de Portugal ter entregado o estudo de impacto ambiental previsto naquele documento, o facto é que, aparentemente, o processo “emperrou” com a entrada “em cena” (no final de Março) de uma comissão para a renegociação do actual contrato de concessão (conferir o iTurismo de 29 de Março ou ler em https://www.turisver.com/iturismo-do-montijo-a-ver-os-avioes-por-atilio-forte/).

Esta (injustificável) demora no consubstanciar da decisão não só alimenta dúvidas relativamente ao avanço daquela (consensual) solução, como deu origem a que mais “areia tenha entrado na engrenagem” em virtude:dos recentes sinais de perda de fulgor que a actividade turística vem denotando;da ideia de manter o aeroporto de Lisboa aberto durante toda a noite que discreta mas paulatinamente vem ganhando forma (e adeptos); da pressão que começa a fazer sentir-se para que, num futuro próximo, algumas operações possam vir a ser “desviadas” para o aeroporto de Beja (particularmente os voos não-regulares, vulgo “charters”); do protelar das obras e demais investimentos de reclassificação (para a Classe IV – aeroporto) do aeródromo de Tirespara que este equipamento possadar início ao acolhimento regular de todos os operadores de aviação privada (vulgo, executiva), cuja conclusão estava prevista para Julho passado;e, para só dar mais um exemplo, dando azo a que pequenos poderes (regionais e locais), por vezes com a ajuda de agentes turísticos, tenham retomado antigas reivindicações acerca de outras possíveis localizações para um novo aeroporto, sem atenderem que a (curta) distância é fundamental para a complementaridade de ambas as infra-estruturas.

E enquanto tal ocorre ou melhor não acontece, porque está parado, os operadores aéreos, os passageiros, a actividade turística, a economia e o país vão sofrendo, vão sendo prejudicados ou vendo as suas possibilidades de crescimento cerceadas, a nossa imagem vai degradando-se a olhos vistos,o Aeroporto Humberto Delgado vai ficando cada vez mais congestionado (se é que tal é possível) e … as taxas vão subindo!

Eis-nos, assim, perante um autêntico “jogo de espelhos” onde nada parece ser o que é! Por esta razão, em nenhum momento como hoje teve tanto fundamento a afirmação que vimos fazendo há mais de duas décadas: Portugal não tem, nem nunca teve, uma estratégia para a Aviação, tal como jamais a considerou parte integrante e peça fundamental da actividade turística.

E dizemo-lo porque temos plena noção que um aeroporto é, apenas e tão só, um instrumento da política que se quer para aAviação, tal como uma escola ou um hospital o são para a Educação ou para a Saúde e não a estratégia em si mesma. Perceber isto e agir em conformidade facilitariae aceleraria em muito a tomada de decisão.

Em suma, está mais do que na hora de pôr um ponto final a este assunto e assumir-se uma posição. Seja ela qual for. Doa a quem doer. O país tem o direito de saber com o que pode contar. Nesse sentido cabe ao Governo, em geral, e aos Ministérios do Planeamento e Infra-Estruturas e da Economia, em particular, esclarecer este imbróglio e sem tibiezas, clarificar o que ficou consagrado no contrato de concessão (e respectivos anexos) da ANA – Aeroportos de Portugal e, de uma vez por todas, decidir e agir em conformidade dizendo “preto no branco” se vai ou não avançar para a criação de um novo equipamento aeroportuário.

 

Turisver – O 30º Congresso Nacional da Hotelaria e Turismo, organizado pela Associação da Hotelaria de Portugal, vai realizar-se em Lisboa, nos dias 15 e 16 de Novembro e o tema escolhido foi “Turismo: Que Futuro Queremos?”. Como olha para a oportunidade de colocar este tema em debate?

 

Atilio Forte – Antes de mais gostaríamos de aqui deixar expressa uma palavra de felicitação à AHP – Associação da Hotelaria de Portugal por atingir com o seu Congresso Nacional deste ano a marca redonda de 30 edições, pois tal prova a vitalidade e a perseverança da instituição e de todos quantos através dela e ao longo dos anos têm dado (e dão) o melhor de si próprios em prol do associativismo e, neste caso em particular, ao sector da hotelaria.

Quanto ao tema que servirá de pano de fundo para os debates que aí ocorrerão, somos de opinião que, mais do que “servir que nem uma luva” ao momento actual por que passa o turismo português, ele é pleno de sentido e objectividade, já que coloca nas mãos de alguns dos grandes protagonistas da actividade turística a reflexão sobre quais os caminhos que pretendem que o turismo nacional venha a trilhar e, simultaneamente, como é que o sector hoteleiro deverá reagir aos desafios, novas tendências e evolução dos mercados e consumidores para continuar na senda do sucesso que tem registado nos últimos anos.

Assim, e tal como aqui já havíamos referido a propósito do XLIV Congresso Nacional da APAVT – Associação Portuguesa das Agências de Viagens e Turismo que terá lugar uma semana depois, em Ponta Delgada, sob o lema “Os Desafios do Crescimento”, isto prova por um lado que a AHP também está verdadeiramente empenhada em debater em profundidade o futuro do turismo nacional e, por outro lado que, à semelhança da APAVT, tem plena consciência que a actividade turística está num momento de viragem, avizinhando-se a entrada num novo ciclo sobre o qual é preciso reflectir, sendo para o efeito necessário convocar todos os seus associados e demais agentes do turismo.

Esta “vizinhança” de dois dos principais acontecimentos anuais da actividade com motes muito semelhantes, mas seguramente abordados nos diferentes painéis sob perspectivas diversas, com toda a certeza proporcionará uma grande riqueza aos debates e, assim se espera, às conclusões destas duas reuniões magnas.

Por último, valerá também a pena recordar que estes Congressos realizar-se-ão numa data muito “em cima“ da aprovação do Orçamento de Estado para 2019 e, portanto, poderão ser palco privilegiado tanto para a insistência nalgumas das principais reivindicações de cada um destes sectores, como do turismo no seu todo, como ainda de anúncio por parte do Governo de medidas que se proporá implementar no ano que vem o qual, é bom não esquecermos, será de Eleições Legislativas e Europeias.

 

O + da Semana:

 De acordo com um comunicado efectuado pela TripAdvisor no final da passada semana, o Tribunal Criminal de Lecce (Itália), numa decisão sem precedentes e que pode considerar-se histórica para o ambiente digital em que vivemos, condenou o proprietário da empresa Promo Salento a nove meses de prisão efectiva e a uma multa de 8.000 Euros por vender pacotes de falsas avaliações (“fakereviews”), a estabelecimentos turísticos italianos. Muito antes das “fakenews” (notícias falsas), expressão agora tão em voga, já aqui havíamos alertado para o perigo das “fakereviews”, atenta a maior (quase sempre exagerada) credibilidade que os consumidores tendem a dar à informação que recolhem no ciberespaço acerca dos mais diversos produtos e serviços turísticos, em vez de recorrerem ao conselho de empresas e profissionais especializados em turismo. A própria Organização Mundial do Turismo (UNWTO) já veio regozijar-se com esta decisão judicial, uma vez que a mesma vai ao encontro das directrizes elaboradas pelo Comité Mundial de Ética no Turismo daquela Agência das Nações Unidas, as quais foram anunciadas no ano passado visando “orientar o uso responsável de classificações e avaliações em plataformas digitais” (sic.) para combater este tipo de fraude. Ainda de acordo com a TripAdvisor, desde 2015 foram encerradas mais de 60 empresas que se dedicavam a este tipo de actividade criminosa.