iTurismo: Mais e Melhores Empregos, por Atilio Forte

No iTurismo de hoje, Atilio Forte detém-se sobre o tema escolhido pela OMT para celebrar, a 27 de Setembro, o Dia Mundial do Turismo: “Turismo e Emprego: um futuro melhor para todos”. A reivindicação feita à União Europeia pela ECTAA, para maior protecção dos passageiros que apenas adquirem passagens aéreas, é também alvo de comentário.

 

Tópicos da Semana:

  • A importância da geração “Z” para o turismo mundial: O mais recente estudo levado a cabo pela plataforma digital de reservas de produtos e serviços turísticos Booking.com vem chamar a atenção para a importância que a nova geração – composta por quem, presentemente, tem entre 16 e 24 anos – vai ter para a evolução do turismo mundial, já que demostra que os que dela fazem parte valorizam mais o acto de viajar do que o desejo de possuir bens e objectos materiais (onde se incluem, a casa, o carro, etc.), sobretudo se puderem ir a locais fora do comum. Para além deste aspecto, merece ainda destaque o facto de 40% dos inquiridos ter referido que tem a expectativa de visitar pelo menos três Continentes, durante a próxima década.

 

  • Possibilidade de “conversas em directo” cada vez mais um imperativo do turismo: Disponibilizar forma de interagir em directo com o consumidor (vulgo, “call centers” e/ou serviço de “chat” ou “chatbots”) é uma poderosa ferramenta que as empresas turísticas não devem enjeitar, por um variado conjunto de razões de entre as quais se destacam: atribuir um toque pessoal e humano ao contacto com o (potencial) cliente; conseguir ter capacidade imediata de responder a questões ou solicitações específicas; aumentar as vendas on-line de modo eficiente; e, manter um modelo de negócio proactivo.

 

  • “Luxo de ar livre” é uma tendência que se está a afirmar: De acordo com várias análises que vêm sendo feitas, o sector do alojamento de luxo de ar livre, mais conhecido por “glamping” (“glamour” + “camping”), está em franco crescimento, prevendo-se que nos próximos cinco anos as suas receitas ultrapassem os mil milhões de dólares. Para além deste aspecto, a explosão de oferta que se está a verificar à escala planetária, bem como o aparecimento de associações nacionais que representem o sector, como é o caso da American Glamping Association, são sinais inequívocos da cada vez maior afirmação deste ramo do alojamento.

 

Comentário

 

Turisver.com – A Organização Mundial do Turismo escolheu o tema  “Turismo e Emprego: um futuro melhor para todos” para as comemorações oficiais do Dia Mundial de Turismo, no próximo dia 27. Que lhe parece a escolha desta temática num momento em que o turismo a nível mundial não pára de crescer?

Atilio Forte – Como sempre a Organização Mundial do Turismo (UNWTO) aproveita este dia de celebração não apenas para chamar a atenção da comunidade internacional para a actividade turística mas, também, para projectar tópicos de reflexão cuja abrangência transcende em muito a mera actuação de todos quantos, de uma ou outra forma, estão ligados ao turismo.

E o tema do emprego é crucial para o escorreito desenvolvimento da actividade que, é bom não esquecer, utiliza mão-de-obra de modo intensivo, precisamente em mais um ano em que o turismo vem demonstrando a sua pujança – registou no primeiro semestre de 2019 um crescimento global homólogo de 4% –, o que significa uma necessidade proporcional de (mais) trabalhadores.

Não é por isso de estranhar que a UNWTO venha destacando quatro pontos acerca desta temática que, certamente, condicionarão as intervenções que serão proferidas no próximo dia 27, em Nova Deli (Índia), cidade escolhida para “sede” das comemorações do Dia Mundial do Turismo deste ano, os quais vale a pena aqui enunciar:

  1. Reconhecer o papel do turismo na criação de postos de trabalho, uma vez que o mesmo é amiúde subvalorizado, apesar de ser responsável por 10% dos empregos a nível mundial;
  2. Necessidade de implementar novas políticas que maximizem o potencial da actividade em gerar mais e melhores empregos, especialmente para mulheres e jovens, e de reflectir e incorporar os progressos e avanços tecnológicos que se vêm verificando;
  3. Tomar e implementar medidas e acções que dêem resposta ao desfasamento entre as competências e os conhecimentos turísticos que são ensinados e os que quem trabalha na actividade verdadeiramente precisa;
  4. Efectuar uma abordagem mais holística ao que será no futuro trabalhar no turismo, estreitando a cooperação entre todos os seus actores, incluindo os dos sectores público e privado.

Em nossa opinião se os três primeiros pontos são claros e “falam por si”, já o último carece de uma pequena reflexão adicional, pois tem sobretudo a ver com o colocar as pessoas e o trabalho que fazem no centro da economia, das políticas sociais e das práticas comerciais dos diferentes sectores que compõem a constelação turística, de maneira e num percurso que conduza ao desenvolvimento, à igualdade e à sustentabilidade no emprego, e que deverá estar alicerçado no aumento do investimento, tanto na capacitação de quem trabalha, como na existência de postos de trabalho condignos e duradouros.

Como facilmente se constata a UNWTO coloca-nos perante alguns dos problemas mais candentes com que o turismo actual se debate, sobretudo por ser uma actividade económica onde o ser humano, a pessoa, seja ela cliente/consumidor ou trabalhador, é o “centro” que justifica a existência de tudo o mais ou, como tanto a gostamos de definir, uma actividade feita por pessoas para pessoas.

Contudo, para que tal resulte na plenitude é fundamental que se valorize, que se dê verdadeira importância – com bem mais substância do que apenas boas intenções – aos impactos que a incomensurável capacidade de criação de empregos manifestada pelo turismo tem do ponto de vista económico e social e, acima de tudo, para a própria valorização e dignificação de jovens, mulheres e homens que nele encontram uma forma de sustento, para si e para as suas famílias, mas também de inclusão e utilidade na vida activa.

Tomando em consideração que o turismo irá continuar a crescer bem acima da média da economia mundial nas próximas três décadas, isso dá uma ainda maior dimensão e importância ao que acabámos de afirmar e obriga a que se tenha em atenção as especificidades próprias dos diversos sectores turísticos, nomeadamente ao nível dos institutos “jus laborais”, mas igualmente ao nível dos salários pagos, sendo que tanto uns quanto os outros devem espelhar que estamos perante áreas profissionais de enorme exigência e complexidade, seja porque a sua matéria-prima são pessoas, seja porque laboram 24 horas por dia, 7 dias por semana, 365 dias por ano e, como se tal já não bastasse, seja também porque o seu desenvolvimento escorreito ainda depende de uma enorme multiplicidade de factores exógenos como, por exemplo, o clima – e não nos referimos às alterações climáticas, mas à simples sucessão das Estações do Ano – ou os ritmos produtivos de outras actividades ou os calendários escolares, que ditam a existência daquilo que comummente se designa por sazonalidade, e que estão na origem das flutuações da intensidade de mão-de-obra que tanto se faz sentir nesta “parte” da economia, e que é fundamental acautelar e, principalmente, compreender, para que quem emprega e quem trabalha possa ter e contar com estabilidade profissional e material.

Ao invés, convirá entender que essa mesma estabilidade é algo que não existe na capacidade evolutiva das profissões turísticas, que estão em permanente mutação, sobretudo em tempos em que a tecnologia proporciona a cada dia que passa novas ferramentas e soluções mais rápidas, eficazes e inteligentes, mas ao mesmo tempo sem a transmissão das emoções que só alguém consegue demonstrar a outrem, motivo que faz com que no turismo muitas funções vão crescentemente passando a ser desempenhadas por máquinas e outras, novas e exclusivamente centradas no cliente, vão aparecendo e necessitem de recursos humanos com algo mais do que melhores conhecimentos técnicos, isto é, que também sejam detentores de aptidões emocionais, cognitivas e comportamentais que lhes permitam dar resposta aos novos requisitos do mercado de trabalho, o que determina uma cooperação sem precedentes entre quem transmite conhecimento e ensinamento (leia-se, estabelecimentos de ensino) e quem necessita recrutar, particularmente as empresas que, é bom não esquecer, são maioritariamente de micro, pequena e média dimensão.

Assim sendo, facilmente se constata que não é preciso ser-se um especialista em turismo para perceber que, no que toca ao nosso país, muitos dos aspectos que aqui focámos fazem parte de um quotidiano com que é preciso romper. Compreender, construir pontes de diálogo entre os diversos intervenientes, conseguir inovar e ter capacidade de cooperação e compromisso serão, entre muitos outros, factores fundamentais para ultrapassar os actuais constrangimentos. Mas, mais importante, é perceber que isso por si só não basta, que estamos perante algo que não chega definir e identificar. É preciso agir, dar-lhe conteúdo e reconhecer o seu cariz estruturante e vital para o desenvolvimento futuro da actividade no “país turístico” e, igualmente, no “não turístico”.

É que por cá tanto quanto no Mundo é preciso ir além do amanhã e, queira-se ou não, assumir sem tibiezas o papel incontornável e estratégico da actividade económica do turismo na dignificação e na melhoria das condições de vida da população mundial, através da sua capacidade ímpar em contribuir para criar mais e melhores empregos.

 

Turisver.com – Em apenas dois anos eleva-se a 36 o número de falências de companhias aéreas, com milhares de passageiros deixados em terra. Estas ocorrências levaram a ECTAA – Confederação Europeia das Associações de Agências de Viagens, a emitir um comunicado onde  reivindica da União Europeia, uma maior protecção para os passageiros que apenas adquirem bilhetes de avião e não pacotes turísticos. Como olha para esta situação?

Atilio Forte – Devemos começar por referir que este não é de todo um fenómeno novo, uma vez que sempre existiu, remontando as suas raízes ao próprio aparecimento da aviação comercial. Mas, vamos por partes:

Basta olharmos uns anos para trás para constatarmos que, por altura do virar do milénio, por um lado as chamadas “companhias de bandeira”, quase sempre tendo os respectivos Estados como accionistas, deixaram de contar com esse “proteccionismo” na sua actuação, nomeadamente no seio da União Europeia (UE) devido às regras de concorrência (leal) que passaram a impedir (entre outras intervenções) as injecções de capitais públicos para suprir prejuízos, transformando-se em empresas “normais”, isto é, sujeitas às flutuações dos mercados e da procura e à sua capacidade em serem bem-sucedidas e, por outro lado, que a própria aviação comercial evoluiu no seu modelo de negócio, o que originou o aparecimento de um novo tipo de transportadoras aéreas, as companhias de “baixo custo” (vulgo, “low cost”), que com elas trouxeram a introdução de um maior risco nas operações que desenvolviam.

Contudo, a protecção que de uma forma geral a aviação comercial sempre gozou – até, como vimos, pela natureza da generalidade dos seus accionistas (Estados) –, motivou que a regulação do sector mantivesse um pendor parcial, mais vocacionado para a exigência de garantias a terceiros (onde se incluem as agências de viagens e os operadores turísticos que comercializa(va)m os lugares dos seus aviões), do que, sequer, em admitir a possibilidade de qualquer falha por parte de alguma das suas reguladas (companhias aéreas), assumindo uma postura sobranceira e em tudo semelhante ao que se passou com e no sector financeiro (banca e seguros) até à crise económica mundial de Agosto de 2008.

Paralelamente, as várias Directivas Comunitárias respeitantes à venda de produtos e serviços turísticos sempre obrigaram o sector da distribuição a acautelar a protecção do consumidor, mesmo nos casos em que o que vendia não lhe pertencia tendo, em última análise, a responsabilidade de ressarcir os seus clientes, não obstante estarmos muitas vezes perante circunstâncias que configuram a mera intermediação.

Esta é a razão pela qual quem hoje em dia compra um bilhete de avião fica desprotegido em caso cessação das operações ou de insolvência da transportadora, enquanto ao adquirir um “pacote” (dois ou mais serviços vendidos a um preço global) em qualquer agência de viagens ou operador turístico está ao abrigo do sistema de garantias criado no espaço comunitário que, naturalmente, também inclui o ressarcimento da componente aérea.

Dito isto, em nossa opinião, estamos claramente perante uma situação típica de ausência de regulação que, naturalmente, impede quer a fiscalização, quer a existência de garantias que protejam o consumidor e, em simultâneo, assegurem a igualdade no acesso ao mercado às empresas que comercializem a mesma tipologia de produtos, concretamente lugares de avião.

Sabendo-se o cuidado que todos os organismos e instâncias comunitárias têm vindo crescentemente a colocar nos aspectos relacionados com a protecção e defesa dos consumidores e na regulação da concorrência é, no mínimo, incompreensível como é que este estado de coisas persiste, quando está mais do que provado – e comprovado! – que, mormente nas últimas duas décadas, o risco de ocorrências de incumprimento por parte das companhias aéreas aumentou vertiginosamente e, quando se verifica, conduz a que quem contratou e pagou pelo serviço, comprando um simples bilhete de avião, fique completamente desamparado e espoliado do valor gasto.

Mas não são só os consumidores os prejudicados quando algum sobressalto ocorre com uma companhia aérea, já que o sector da distribuição também fica a descoberto de quaisquer garantias sobre a intermediação que faz, para nem sequer mencionar os próprios destinos, nalguns casos países, que “investem e patrocinam” uma transportadora para que ela lhes faça chegar determinados fluxos turísticos e que durante o período contratado se confrontam com a incapacidade desta em assegurar a boa continuidade da operação.

Em suma, algo pode, deve e tem de ser obrigatória e urgentemente feito neste domínio, tanto ao nível da UE, como a uma escala mais global, sob pena dos prejuízos se avolumarem, a desconfiança acabar por se instalar e o turismo sair penalizado!

 

O + da Semana:

Depois do sucesso que o “Programa Revive” de reabilitação, requalificação e valorização de edifícios do Estado devolutos tem vindo a registar, e que já tivemos oportunidade de elogiar, veio agora o Governo criar um novo instrumento, desta feita destinado à recuperação de imóveis públicos que estejam inseridos na natureza com a consequente contrapartida de autorização de exploração com fins turísticos, denominado Programa Revive Natureza o qual, logicamente, não podemos deixar de também aqui destacar, mais a mais porque desde há década e meia que nos incluímos entre aqueles que vêm propondo e defendendo algo muito semelhante ao que acaba de ser aprovado. Neste início, o Fundo Imobiliário Especial que fará a operacionalização deste Programa terá a seu cargo a gestão de um número considerável de imóveis do Estado (96), maioritariamente compostos por antigas casas de guardas florestais e antigos postos fiscais que foram sendo abandonados ao longo dos anos. Para além de evitar a perda deste património, esta é uma medida que vai contribuir para uma maior dinamização das economias locais, para a criação de emprego (sobretudo no interior) e permitir uma maior e melhor fruição do produto “Natureza” que, como temos vindo a enfatizar nas nossas análises, é dos que maior taxa de crescimento está presentemente a registar. Numa altura em que as questões ecológicas e ambientais estão na “ordem do dia” e nas preocupações de todos nós, e onde a sustentabilidade e a preservação do meio ambiente e dos territórios são princípios que qualquer actividade económica deve ter em consideração, eis uma excelente resposta e um exemplo dado pelo turismo português que, esperemos, possa frutificar à escala internacional.

 

Nota Editorial: Desde que apareceu há pouco mais de cinco anos e meio, o iTurismo tem procurado sempre inovar de modo a conseguir cativar o interesse do público, em geral, e da comunidade turística, em particular, para as temáticas nacionais ou internacionais que, mais directa ou indirectamente, acabam por ter impacto ou relacionar-se com a actividade económica do turismo. Assim, e aproveitando o início de uma nova Legislatura e a entrada em funções de uma renovada Comissão Europeia, é chegado o momento de refrescar os comentários e análises de Atilio Forte, que semanalmente publicamos. Por isso, vamos fazer uma breve pausa, prometendo voltar no próximo dia 15 de Outubro com um novo figurino.