iTurismo: Mal Me Quer, Bem Me Quer

A apresentação, pela Comissão Europeia, de um plano de recomendações para o restabelecimento das actividades turísticas e o relançamento dos transportes é dos temas focados no iTurismo desta semana. Numa semana que fica marcada, logo no início pela reabertura dos espaços de restaurarão e bebidas, Atilio Forte dedica também espaço a este tema e a este sector de actividade.

De entre os vários acontecimentos que marcaram a semana transacta no que à actividade turística respeita, sem dúvida que o mais importante foi o anúncio por parte da Comissão Europeia (CE) de um plano de orientações e recomendações aos vários Estados-Membro para que estes, de forma segura e gradual, começassem a levantar as restrições aplicadas à Actividade Económica do Turismo facto que, naturalmente, se saúda pois, por um lado, vem confirmar o controlo da pandemia no seio do espaço comunitário e, por outro lado, reconhecer quer a importância do Turismo na economia da União Europeia (10% do PIB), quer o relevante papel social que as actividades que o compõem desempenham seja ao nível do emprego, seja para o repouso, para o relaxamento ou para a mera fruição do ar-livre, por parte dos cidadãos europeus.

Curiosamente, este “pacote de medidas” foi apresentado no dia 13 de Maio, o que não deixa de ter a sua ironia atenta a simbologia da data para o nosso país, já que esta foi uma das raríssimas vezes (qual milagre!) em que o Executivo da UE demonstrou ter noção de que a actividade é verdadeiramente indispensável para o desenvolvimento, para o progresso e para a coesão do projecto europeu, ou não fosse a Europa o primeiro destino turístico do Mundo (acolhendo pouco mais de 50% dos total dos fluxos turísticos mundiais), uma vez que a “regra” tem sido mantê-la secundarizada, para não dizer ignorada, quanto mais não seja por a sua dimensão ter uma visibilidade totalmente diferente quando olhada pelo prisma das economias dos países do Sul (predominantemente receptores de turistas) do que pelo das dos do Norte (predominantemente emissores de turistas).

Feito este “reparo”, convirá dar nota muito positiva ao esforço de concertação de posições e de relançamento da actividade deste plano, apesar do mesmo não ser vinculativo, dado que ele vem rejeitar tomadas de posição unilaterais e, até, xenófobas, que se começavam a verificar por parte de alguns dos “27”, de que são exemplo a criação de passaportes de imunidade (Áustria) e corredores turísticos (entre os países Bálticos), para nem sequer mencionar a imposição de quarentenas obrigatórias (Espanha) e, simultaneamente, promover e estimular a retoma das viagens intracomunitárias, dentro de condições sanitárias seguras e, consequentemente, que possam oferecer garantias e confiança aos turistas.

Considerando e admitindo que nem todos os Estados-Membro estão no mesmo patamar no que respeita à crise de saúde pública derivada da disseminação do CoViD-19, justifica-se plenamente que lhes seja dada autonomia – e a responsabilidade! – para dialogarem e avaliarem qual o melhor momento para, de forma coordenada, procederem à abertura das suas fronteiras, asseverando e garantindo estarem preparados para darem resposta afirmativa aos três eixos em que assenta o plano delineado pela CE, a saber: a situação epidemiológica, leia-se demonstrarem possuir o surto controlado e provarem-no através da disponibilização de informação clara, transparente e de acesso universal; terem possibilidade de aplicar medidas de confinamento e tratamento nos casos de aumento súbito do número de infectados ou de contaminação dos turistas, para além de atestarem capacidade para fazer cumprir todas as normas de higienização, utilização de equipamentos de protecção individual (EPI) e distanciamento social, tanto por parte das empresas turísticas, como dos seus clientes; e priorizarem as considerações económicas e sociais, ou seja, manterem critérios de abertura progressivos e com precedências definidas, respeitando as liberdades de circulação e de não discriminação, para que a retoma das viagens aconteça de modo suave e gradual.

Evidentemente que neste quadro o relançamento dos transportes, muito em particular o aéreo, assume um papel determinante. Contudo, também aqui o plano remete as decisões para os Estados-Membro, apesar de salientar a importância de todos os passageiros e tripulantes utilizarem EPI’s e de, paradoxalmente, não recomendar a existência de qualquer limitação de lugares nos aviões, assumindo que não haverá o distanciamento social exigido, por exemplo, à hotelaria e à restauração, posição que só é entendível à luz do sector da aviação ser um dos últimos a regressar à actividade e, por isso, poder beneficiar tanto da “aprendizagem” dos novos hábitos, como da expectável evolução positiva do número de contágios.

Finalmente, a CE afirma querer continuar a apoiar o Turismo e as suas empresas, recordando os 100 mil milhões de Euros que já disponibilizou aos Estados-Membro para salvar empregos (Programa SURE – financia os custos nacionais da redução dos tempos e postos de trabalho), os 8 mil milhões de Euros de financiamento a 100.000 pequenas empresas afectadas pela crise (através do Fundo Europeu de Investimento) e a flexibilidade das regras em matéria de auxílios estatais que, entretanto, autorizou. Em suma, sobre a desejável criação de uma linha específica de apoio directo ou de financiamento do Turismo, em conformidade com a liderança mundial da actividade pelo “Velho Continente”, com a preocupação demonstrada e o consequente plano apresentado… nada. Nem um Euro!

Para que possamos ter algum termo de comparação, recorde-se que, também na semana passada, só a França, onde o Turismo representa 7% do PIB e que é presentemente o maior destino turístico do Planeta (com cerca 90 milhões de turistas recebidos), aprovou uma “bazuca” de 1,3 mil milhões de Euros exclusivamente para dar apoio às (suas) empresas turísticas!

Em conclusão, não obstante a boa vontade manifestada, o reconhecimento da importância da actividade turística na e para a economia da UE, o desejo de dar segurança e restaurar a confiança a consumidores e agentes económicos, a preocupação de evitar o “cada um por si” e um eventual descontrolo na tipologia de medidas adoptadas e na abertura das fronteiras, a CE acabou por dar mais um “tiro de pólvora seca” no que respeita ao Turismo, demonstrando não ser capaz de ter para lhe oferecer mais do que um “mal(-)me(-)quer”!

 

O momento em que escrevemos este comentário coincide com o dia da reabertura dos estabelecimentos de restauração e bebidas, facto que também devemos aqui destacar, pois ele não só representa mais um passo em direcção à retoma da nossa normalidade quotidiana, como se conjuga, felizmente, com outras “aberturas” (creches, lares, museus, monumentos, algumas escolas e comércio, etc.), o que confirma que estamos “no bom caminho”. No entanto, é bom termos presente que esta segunda quinzena de Maio vai ser decisiva, pois ao termos maior liberdade de circulação e de contacto, isso significa que a possibilidade de contágio pode aumentar caso baixemos a guarda e não cumpramos com todas as recomendações e conselhos que nos são transmitidos pelas autoridades de saúde pública. Assim sendo, não se deve confundir descompressão com despreocupação, nem desconfinamento com erradicação do vírus. Tenhamos consciência que ele continua a andar por aí…

Vem isto a propósito de como algumas boas práticas de instituições da dita sociedade civil podem e devem servir de exemplo, quer para superarmos os nossos medos – individuais e colectivos – e ganharmos coragem para prosseguir, como serem usados por terceiros como modelo de actuação a replicar, independentemente dos resultados alcançados já que esses, como se sabe, dependem muito mais do nosso comportamento cívico, do que de qualquer outro factor.

É o caso da AHRESP – Associação da Hotelaria Restauração e Similares de Portugal que para além de ter sido, até ao momento, o rosto mais visível do Turismo durante toda a pandemia, nunca perdeu o foco na ajuda e esclarecimento dos seus associados, que culminou na edição de um “Guia de Boas Práticas para os Estabelecimentos de Restauração e Bebidas”, ainda no decurso da semana passada, de modo a que todos estivessem aptos a abrir as suas portas nesta segunda-feira, caso fosse essa a sua opção, cumprindo com os preceitos definidos pela DGS – Direcção-Geral da Saúde.

Em tempos tão conturbados para o Turismo é vital que sejam as suas próprias instituições as primeiras a dar o mote, a procurarem as melhores soluções mesmo antes de pedirem – e merecerem! – que a actividade seja ajudada e a encontrarem diariamente formas de expressarem o quanto bem lhe querem!

 

Protejam-se a vós, aos vossos e, se possível ou necessário, ajudem o próximo. #vamostodosficarbem!

Nota – Não é demais recordar que o endereço de email iturismo@turisver.pt continua ao dispor das(os) nossas(os) leitoras(es).