iTurismo: Manter o Emprego

A possibilidade uma recessão económica sem precedentes se seguir à pandemia, com a inevitável quebra de rendimentos e aumento do desemprego, que desta feita atingirá também o turismo, actividade que está a ser profundamente afectada, é abordada por Atilio Forte que considera a manutenção do emprego uma prioridade. 

 

Ao longo de toda a semana transacta foi-se assistindo, progressiva e crescentemente, a um aumento da preocupação com os impactos económicos provocados pela pandemia causada pelo novo coronavírus, tanto por parte dos vários países, como do tecido empresarial como, muito principalmente, das pessoas, isto é, de quem trabalha e não tem qualquer outra fonte de rendimento. Seja a nível mundial, seja a nível europeu, seja a nível nacional, este estado de espírito tem vindo a ganhar substância e respaldo em todos os estudos e cenários que vão sendo realizados, os quais apontam para uma recessão económica, quebra de rendimentos e, consequentemente, um aumento (repentino) do desemprego.

Embora se saiba que Portugal, por ser uma pequena economia e estar extremamente dependente do exterior, pouco ou quase nada pode fazer para inverter este turbilhão global em que está envolvido, tal não significa que se abstenha de (pelo menos) tentar optimizar os escassos recursos de que dispõe ou a que pode recorrer para evitar casos que poderão ganhar proporções mais dramáticas no curto e médio prazos e, por isso, comprometerem no tempo mais longo a “entrada no combóio” da retoma económica que, inexoravelmente, se seguirá.

Ora, apesar de termos de reconhecer que o Governo está profundamente empenhado e a fazer um grande esforço para que as empresas sobrevivam e com elas o emprego continue a manter-se, a realidade é que as medidas já postas em prática mais não fazem do que distribuir alguns “balões de ar” – leia-se alívio momentâneo na tesouraria – a uma parte do tecido empresarial, através do adiamento de várias obrigações (sobretudo fiscais) e de um mais fácil acesso ao crédito bancário (endividamento), quando o que ele verdadeiramente precisa (no seu todo) é de “oxigénio” – leia-se entrada de dinheiro “vivo”, tecnicamente liquidez – para poder continuar a honrar os seus compromissos, nomeadamente, pagar (total ou parcialmente) salários e assegurar a manutenção de “serviços mínimos” que, em muitas situações, não vão além da sobrevivência até à retoma.

A este contexto acresce um outro que decorre da definição de medidas transversais para todas as áreas de actividade económica, sem atender que existem diferenças profundas entre elas, tanto do ponto de vista “genético”, isto é dos fundamentos da sua operação, como da forma diversa como o CoViD-19 impactou nos seus negócios e que, por estas razões, carecerem de “tratamento” distinto, como julgamos ter demonstrado no comentário do passado dia 31 (https://www.turisver.com/iturismo-turismo-grupo-de-risco/).

Vem tudo isto a propósito da “corrida desenfreada” ao layoff a que temos vindo a assistir, por um lado, e ao ganhar de consciência por parte de muitos empresários e gestores de que nem com recurso a este mecanismo irão lograr manter os postos de trabalho, dado as empresas serem incapazes de gerar as receitas que lhes permitam suportar a parcela que lhes cabe, por outro lado. A este aspecto soma-se mais um que é o de muitas sociedades não conseguirem ter acesso aos apoios concedidos, atenta a sua débil estrutura económico-financeira. Para nem sequer falarmos, principalmente no plano das micro e pequenas empresas, no facto dos “patrões” (ainda) não se verem abrangidos (leia-se, protegidos) pelo layoff, algo que é muitíssimo desmotivador, já que, na quase totalidade dos casos, eles são (e vêem-se!) mais um trabalhador da empresa, que desempenha diariamente as suas funções lado a lado com os que a “lei” designa por “seus empregados”, circunstância que acreditamos, pelo menos mantemos viva essa esperança, venha a ser corrigida a muito breve prazo.

 

Transpondo esta realidade para a actividade turística, constata-se que aí cada uma destas “barreiras” adquire muito maior dimensão, uma vez que estamos perante uma constelação de sectores de tecido empresarial profundamente atomizado e de mão-de-obra intensiva – em termos directos emprega cerca de 10% da população activa –, na qual aproximadamente 60% do total das receitas são geradas por micro, pequenas e médias empresas que são, “grosso modo”, responsáveis por 80% dos postos de trabalho. Isto quer dizer que se estas empresas não forem ajudadas, elas vão fechar, atirando milhares e milhares de trabalhadores para o desemprego, o que irá adicionar ao problema económico, do turismo e do país, um enorme revés social. No fundo, poderemos vir a ser confrontados com o inverso do verificado nos últimos anos, em que as actividades turísticas paulatinamente criaram dezenas de milhares de postos de trabalho, correndo-se agora o risco de voltamos, quase de rompante, à “estaca zero”.

Sendo o turismo (como nunca nos cansamos de repetir) uma actividade económica feita por pessoas para pessoas, qualquer recessão implicará uma regressão, pois o encerramento das empresas e o desemprego gerado farão com que haja conhecimentos e saberes que se perderão, motivando a diminuição da competitividade dos sectores que o integram, tal como a qualidade dos serviços prestados.

Como se comprova este não é um quadro animador. Do que nos é dado observar e se, entretanto, nada de mais profundo e eficaz for feito para garantir e apoiar o emprego podemos ter, já no final deste mês de Abril, os primeiros “dissabores”, com o encerramento (permanente) de muitas empresas, o que levará à extinção de numerosos postos de trabalho, agravando o drama económico-social da pandemia e, temos de ser pragmáticos, sobrecarregando os cofres do Estado com subsídios de desemprego.

É que uma actividade económica que é obrigada a estar parada por essa ser (até agora) a única “condição/remédio” eficaz que conhecemos para combater o novo coronavírus, que não tem possibilidade de (re)vender no futuro os produtos e serviços que está diariamente a deixar de comercializar, para quem adiar obrigações ou contrair (mais) endividamento bancário são sobrecargas que cumularão com as vindouras porque só poderão ser liquidadas com as receitas que então forem realizadas, em que 90% do seu tecido empresarial não vai, a curto prazo, conseguir gerar quaisquer proveitos mas que, em muitos casos, terá de continuar a suportar encargos de vária natureza para além dos salariais, que necessita intensivamente de mão-de-obra, e poderíamos prosseguir na exemplificação, se não tiver os apoios adequados às suas especificidades, não terá hipótese alguma, quanto mais liquidez – pelo menos na esmagadora maioria das situações – para assegurar a manutenção dos seus actuais índices de emprego.

Em conclusão, vale a pena perguntarmo-nos (a responsabilidade é de todos, sem excepção) o que é que é mais importante: garantir a preservação dos empregos nas actividades turísticas levando o Estado a pagar directamente aos trabalhadores o valor do seu salário, ainda que pelo montante do layoff, durante dois ou três meses ou tê-los a engrossar ao longo de muitos meses ou anos as listas do subsídio de desemprego? E, já agora, o que é que sairá mais barato? Isto, claro está, sem contar com o preço mais elevado, que será sempre o do flagelo social que daí decorrerá…

A resposta parece-nos óbvia. Tudo fazer para manter o emprego deve ser a prioridade!

 

Às (Aos) nossas(os) leitoras(es) e respectivas famílias desejamos uma Páscoa Feliz e, acima de tudo, com muita saúde!

Protejam-se a vós, aos vossos e, se possível ou necessário, ajudem o próximo. #vamostodosficarbem!

 

Nota – Não é demais recordar que o endereço de email iturismo@turisver.pt continua ao dispor das(os) nossas(os) leitoras(es).