iTurismo: Mantos de Silêncio

O impacto negativo que o novo coronavírus, surgido na China, pode ter em várias áreas da economia, e nomeadamente no turismo; a presença de Portugal nas feiras internacionais de turismo que continua a fazer-se sem a “umbrella” do Turismo de Portugal e o regresso da ideia de uma “frente ibérica” de promoção em mercados longínquos, são os temas abordados por Atilio Forte.

 

Do ponto de vista da saúde pública não se pode dizer que o Século XXI esteja a ser “simpático” para o Mundo, pois várias têm sido as epidemias e pandemias com que nos temos confrontado, desde as resultantes de novas espécies e estirpes de vírus, ao reaparecimento de outros, sob a forma de surto ou endemia que, para além de nos colocarem em “alerta social quotidiano” generalizado, afectam o normal funcionamento da economia e, por maioria de razão, perturbam grandemente as deslocações, as viagens, enfim, toda a actividade turística.

Por isso, temos bem presentes na nossa memória as angústias causadas pela síndrome respiratória aguda grave (vulgo SARS, acrónimo de Severe Acute Respiratory Syndrome) ocorrida em finais de 2002 e 2003, pela “gripe das aves” ou H5N1 (principalmente) em 2006, pela ”gripe A ou suína” de 2009 (H1N1), pelo ébola (2014), pelo dengue, pelo sarampo… e, nestes últimos dias, por um novel tipo de coronavírus surgido na China que, ao que tudo indica, origina um novo género de pneumonia, do qual ainda pouco se sabe, a não ser que é muito contagioso e de veloz propagação, tal como os seus antecessores.

Em consequência deste estado de coisas e na tentativa de conter a sua disseminação, o Governo Chinês já adoptou um vasto conjunto de medidas de entre as quais sobressaem: a maior quarentena de que há notícia, que “fechou” ao contacto com o exterior cerca de uma dezena e meia de cidades; a proibição de viagens em grupo para o estrangeiro; e a suspensão de todo o tipo de transportes nacionais e inúmeras ligações aéreas internacionais.

Num momento em que as informações sobre o que está verdadeiramente a acontecer “no terreno” ainda são escassas e em que a única certeza é o crescente aumento do número de casos registados de infectados em diferentes países de vários continentes, as primeiras consequências económicas começam a fazer-se sentir no turismo, ou não fosse a China actual o primeiro emissor de fluxos turísticos a nível mundial. Portugal não foge à tendência global, o que quer dizer que também já está a ser afectado, nomeadamente, pelo cancelamento de grupos. Naturalmente que esta situação irá igualmente ter impacto noutras áreas da economia, sobretudo no comércio, atento o crescimento que as compras de turistas chineses têm vindo a registar no nosso país.

Em sentido inverso, as agências de viagens e operadores turísticos que possuem oferta regular para a China também já sentem os reflexos deste quadro e muitas outras estão, compreensivelmente, apreensivas com as “ondas de choque” que daqui resultem, concretamente pela evolução e taxa de contaminação que o vírus possa revelar nalguns países “vizinhos” da China (Tailândia, Vietname, Coreia do Sul, Japão, etc.), também eles destinos turísticos de grande procura.

Perante um cenário desta gravidade, em que a vida de milhões de seres humanos pode estar em causa, ao que se devem somar os prejuízos económicos que, inevitavelmente, lhe estão associados, e mesmo considerando os esforços para evitar uma generalização do pânico, não se compreende o manto de silêncio debaixo do qual as autoridades chinesas têm procurado colocar o assunto e, por maioria de razão, a passividade da comunidade e dos organismos internacionais (que só há poucas horas alteraram para “elevada” a classificação do risco deste coronavírus para a saúde pública).

 

Mas a semana que findou ficou igualmente marcada pela realização, em Madrid, de mais uma edição da FITUR (uma das principais feiras de turismo do Mundo), que contou com uma fortíssima participação nacional, quer de empresas, quer de profissionais da actividade, em grande medida justificada pelo facto de Espanha, para além de “vizinha”, ser o nosso principal mercado emissor de fluxos turísticos e o terceiro maior em dormidas registadas em território português.

A este propósito e numa altura em que as matérias ligadas à promoção turística aparentam estar no topo das preocupações dos agentes económicos privados, persiste-se em “olhar para outro lado” para não (querer) ver (e compreender!) que o “Tricampeão” Melhor Destino Turístico do Mundo continua a marcar presença neste e noutros certames de grande projecção internacional sem um espaço próprio que o apresente como um todo coerente debaixo da marca “guarda-chuva” Portugal. É que já lá vai cerca de um ano e meio que o concurso público do Turismo de Portugal para a concepção, manutenção, transporte e montagem de um stand foi objecto de uma providência cautelar – interposta por uma das empresas concorrentes – que suspendeu a participação dessa forma daquele Instituto Público nesta tipologia de eventos, sem que alguma explicação ou esclarecimento tenham sido dados ao país e, principalmente, aos diversos agentes turísticos.

Apesar de poder argumentar-se (e respeitar-se!) que este é um assunto que está entregue à justiça e que, por esse motivo, dever-se-á aguardar pelas decisões dos seus Órgãos, e de (aparentemente) ninguém parecer muito interessado, dentro e fora do turismo, em querer saber o que verdadeiramente aconteceu, para que daí se pudessem extrair eventuais ilações, tal não pode nem deve obstar a que se persista em fingir que nada se passa, que tudo está bem e dentro da normalidade e que o tema continue coberto por um “aconchegante” manto de silêncio!

 

Ainda na sequência da FITUR, o Governo anunciou o desejo em aprofundar o trabalho com as autoridades espanholas de modo a que seja possível Portugal beneficiar dos fluxos turísticos oriundos de todo o Mundo que Espanha recebe. No fundo, repescando a “velhinha” e “cíclica” ideia da promoção turística conjunta nalguns mercados mais longínquos, na esperança que uma “frente Ibérica” nos traga mais turistas.

Espanha é, convirá não o esquecer, uma das maiores potências turísticas do Mundo tendo há largos anos lugar cativo no “pódio” do turismo internacional; em termos de aviação tem uma capacidade muito superior à nossa; tem uma oferta turística rica e diversificada – tal como nós – só que em maior quantidade, atenta a sua dimensão territorial, empresarial e populacional; a tudo isto deve adicionar-se a ferocidade da competição turística à escala planetária que acontece (diariamente) entre os diferentes destinos…

Dadas estas notas, e embora seja de saudar o voluntarismo e a genuína boa vontade do gesto, para além da sua aparente (e óbvia) lógica, conviria que alguém relembrasse o resultado de idênticas acções passadas e de como sempre saímos a perder de “parcerias” semelhantes. É que um destino com verbas tão exíguas destinadas à promoção turística internacional não pode dar-se ao luxo de dar “tiros ao lado”, metendo-se literalmente na “boca do lobo”, ou encolher os ombros e esperar que algo ou alguém “destape” o manto de silêncio que serve de capa a equívocos passados.

 

Nota – Não é demais recordar que o endereço de email iturismo@turisver.pt continua ao dispor das(os) nossas(os) leitoras(es).