iTurismo: Não Havia Necessidade!

A onda de contestação gerada em torno do calendário de abertura de rotas apresentado pela TAP para os meses de Junho e Julho e a exposição pública a que a companhia está a ser sujeita é um dos temas do iTurismo desta semana. Atilio Forte tece, também, comentários sobre a favorável situação sanitária no país, à excepção da região de Lisboa, principal porta de entrada em Portugal.

 

Há determinadas matérias que têm uma espécie de efeito galvanizador na nossa sociedade e que, por essa razão, mobilizam transversalmente o país levando a que todos – todos mesmo! – tenham sobre elas uma opinião, independentemente do nível de conhecimento, individual ou colectivo, que possuam sobre as ditas. No topo das mais preferidas contam-se o futebol – quem nunca fez o papel de “treinador de bancada”? –, o Turismo – a mais pequena viagem transforma o ilustre viajante num profundo perito da maior actividade económica do Mundo – e, claro está, para os que já andaram ou gostam de aviões, a TAP! É, assim, natural ouvir qualquer um discorrer amplamente sobre estas temáticas, sendo que as certezas, as convicções e a capacidade discursiva são, quase sempre, inversamente proporcionais ao que o emissor verdadeiramente sabe sobre o assunto, levando-o a falar do que desconhece e, quanto maior for o seu grau de ignorância, mais extenso e detalhado será o seu parecer.

Não é por isso de espantar que o calendário de reabertura de rotas apresentado na semana passada pela maior companhia aérea de Portugal tenha sido amplamente escalpelizado e objecto das mais profundas reflexões, seja por parte dos Órgãos de Soberania, seja por parte dos Partidos Políticos, das Autarquias, da comunicação social, de notáveis analistas, etc., etc.. O facto é que o país inteiro não se fez rogado e, praticamente sem excepção, meteu a sua “colherada” no plano de voos anunciado, dado o dito privilegiar amplamente Lisboa, diga-se desde já em claro e injustificável detrimento (sobretudo) do Porto e também de Faro, nele descortinando os “velhinhos fantasmas” do garrote centralista da capital, argumento de peso que, de imediato, foi arrebanhado pelos defensores da nacionalização da empresa, que logo tomaram conta do debate relegando a vital questão da recapitalização da companhia para uma zona de penumbra.

De um momento para o outro, parece ter existido um “apagão (alargado) de memória” que (quase) fez esquecer, entre muitos outros aspectos: que após os processos de privatização e reprivatização por que a transportadora passou, esta não fora a primeira vez que houve decisões de gestão controversas que prejudicaram o Norte, beneficiando Lisboa; que já havia sinais de um grande mal-estar no seio dos diferentes accionistas da TAP, tanto entre os que constituem o “lado privado” (consórcio Atlantic Gateway), como entre estes e o “lado público” (Estado), antes mesmo do aparecimento do novo coronavírus; que o Estado nunca demonstrou pretender participar na gestão executiva e diária da companhia, quer quando foi accionista minoritário, quer (principalmente) quando “impôs” ficar com 50% do seu capital; que o plano estratégico e de sustentabilidade da TAP em vigor, aprovado por unanimidade, estava a apresentar resultados totalmente distintos dos previstos (avultados prejuízos em vez de lucros); que o eclodir da presente pandemia e a consequente abrupta paragem do Turismo, que incluiu a aviação, veio expor as enormes debilidades económico-financeiras da empresa, que só sobreviverá com uma injecção de capital, a qual já começa a pecar por tardia.

Porventura o dado mais curioso do amplo (e caricato) debate a que assistimos, foi ninguém ter procurado uma explicação técnica que justificasse as opções tomadas, confrontando os seus criadores, já que tal não só desarmadilharia a controvérsia que se adivinhava, como colocaria o foco estritamente no patamar operacional, porque poria a nu as suas deficiências, evitando a contaminação da discussão por outras temáticas, igualmente candentes, mas que requerem grande recato para serem resolvidas. Caso contrário, não sendo esta uma situação inédita como atrás vimos, e tomando como certo que o bom senso existe e impera nos órgãos de gestão executiva da companhia, aconteceria o que era mais do que previsível e óbvio, isto é, quando o plano fosse tornado público iria suscitar o coro de reacções a que acabámos por assistir impondo-se, nessa sequência, a sua natural substituição por um outro, como prontamente foi anunciado.

Ao admitirmos olhar o assunto por este prisma facilmente constatamos que as partes – leia-se accionistas – estão a “forçar a nota”, pois têm noção que o desfecho não vai ser agradável. O Estado sabe que, seja sob que forma for, vai ter de salvar a empresa, mas não a quer nacionalizar e tem consciência que este não é um bom momento para procurar parcerias, atenta a profunda crise em que o transporte aéreo está mergulhado à escala global. Os privados, por seu turno, não demonstram estar disponíveis para desembolsarem e investirem mais capital e, acima de tudo, querem sair do negócio airosamente, o que significa recuperarem, senão a totalidade, pelo menos uma parcela importante do que nele já puseram.

Tudo isto teria sido escusado se Portugal evitasse continuar anos a fio – como ainda acontece – a persistir em não ter uma estratégia para a Aviação, nem sequer a considerando como parte integrante e peça fundamental da actividade turística, o que, inexoravelmente, tem conduzido a décadas de más decisões por parte de sucessivos Governos, de entre as quais se destacam as relativas à TAP, antes, durante e após a (re)privatização.

Em suma, nada do que está a suceder pode ser considerado surpresa, pelo menos para nós claramente não o é (bem que aqui temos procurado alertar!), sendo esta ao que tudo indica uma “novela” a que voltaremos, agora que o “verniz estalou” entre sócios… Sobre este último e triste episódio uma coisa é certa e merece ser dita: não havia necessidade!

 

A semana que terminou ficou igualmente marcada pela favorável evolução da situação sanitária no país, que naturalmente se saúda, excepção feita à região de Lisboa, onde o número de novos infectados diários rondou os 90% do total nacional, facto que passou a ser motivo de preocupação por parte das autoridades de saúde pública e que, no mínimo, deve merecer a apreensão dos que habitam e/ou trabalham nesta área geográfica, em virtude da contaminação estar, sobretudo, a processar-se devido a comportamentos negligentes que, numa derradeira análise, podem pôr em causa o esforço colectivo feito nos últimos 2 meses.

Ora, com o início da terceira fase do denominado “desconfinamento” e a consequente retoma das actividades económicas e da vida social, é fundamental que as boas práticas de resguardo, de protecção e de higienização sejam mantidas, para salvaguarda da segurança individual mas, também, para precaver um eventual recrudescimento do surto de CoViD-19.

Vale a pena recordar a boa imagem internacional conquistada por Portugal devido à forma como soube lidar com a pandemia, a qual, do ponto de vista turístico, começa a dar os primeiros frutos. Por isso, qualquer refluxo da situação, particularmente na região onde se localiza a principal “porta de entrada no país” – o aeroporto de Lisboa –, pode influenciar negativamente a decisão de muitos turistas estrangeiros em viajarem até nós, neste caso arrastando, pela sua importância, todo o território continental e causando um agravar da já de si periclitante situação em que a maior parte das empresas turísticas se encontra.

Assim, e numa semana em que teremos o regresso da principal competição futebolística do país, em que os estádios estarão vazios, mas em que transmissão televisiva será efectuada através de canais pagos, espera-se que não existam grandes aglomerados de adeptos e que o sentido de responsabilidade cívica e o respeito pela vida – própria e alheia –, motivem uma radical alteração de comportamentos. É que não há nada, nada, mesmo nada, que justifique essa necessidade!

 

Protejam-se a vós, aos vossos e, se possível ou necessário, ajudem o próximo. #vamostodosficarbem!

 

Nota – Não é demais recordar que o endereço de email iturismo@turisver.pt continua ao dispor das(os) nossas(os) leitoras(es).