iTurismo: Negociar, Negociar, Negociar

O resultado das eleições no Reino Unido e o Brexit, o acordo comercial parcial entre os Estados Unidos da América (EUA) e a República Popular da China (RPC) e ainda o Orçamento de Estado para 2020, são os três temas analisados neste último iTurismo de 2019. Três temas que justificam plenamente o título escolhido por Atílio Forte: “Negociar, negociar, negociar”.

 

A passada semana foi fértil em acontecimentos que, pela sua grande importância internacional e impactos na actividade turística, merecem que os olhemos com particular atenção, pois irão marcar a “agenda mundial” no curto e médio prazos, o que significa que durante o próximo ano muito ouviremos falar deles. Em concreto referimo-nos às eleições no Reino Unido (RU) e ao acordo comercial parcial entre os Estados Unidos da América (EUA) e a República Popular da China (RPC). Só é pena que o assunto mais estruturante e, consequentemente, de prazo mais longo e que, porventura, mais importava para a Humanidade e para o futuro do Planeta, que se discutiu em Madrid na COP25 – Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, tenha redundado num fracasso, já que não houve acordo em qualquer dos pontos principais que estiveram em debate durante as duas (!?) semanas que duraram os trabalhos.

Mas voltando ao acto eleitoral da última quinta-feira, e se dúvidas houvesse, ele veio provar que, quase três anos e meio volvidos repletos de exaustivas discussões, há uma posição maioritária, coerente e consistente a propósito do “Brexit”, dado os seus resultados terem reconfirmado os do Referendo inicial (Junho de 2016) e os das Eleições Europeias de Maio de 2019.

Independentemente da opinião que cada um tenha sobre o tema, a verdade é que a democracia funcionou (por diversas vezes) e foi expresso de forma inequívoca o desejo do RU abandonar a União Europeia (UE), não a qualquer preço, nem à força, mas de modo ordeiro e com um acordo.

Assim sendo, desenganem-se aqueles – e são muitos! – que se dizem saturados deste processo. Agora é que “a procissão vai começar a sair para o adro”! Se a consumação do “Brexit” até 31 de Janeiro de 2020 é mais do que certa, não menos correcto é dizer-se que só a partir daí é que terão início as conversações para o estabelecimento de um novo acordo (sucedâneo do alcançado para a saída) que regulará as relações entre a UE e o RU findo o período de transição, ou seja, a partir de Dezembro de 2020, nomeadamente nos planos económico e migratório – embora exista a possibilidade de haver um adiamento que, para já, ninguém diz querer –, às quais se somarão as relacionadas com a questão da fronteira entre as “Irlandas” (que não está completamente resolvida) e a da independência da Escócia (que vem ganhando força). Paralelamente, acentuar-se-ão os impactos da “saída”, tanto externa, como internamente, sejam eles positivos ou negativos.

No que ao turismo respeita, e enquanto decorrerem as negociações para o(s) acordo(s) pós-transição, não se antevêem alterações significativas no comportamento dos fluxos turísticos britânicos para o exterior, para além das que decorrem da diminuição do poder de compra como consequência da desvalorização da Libra. Já quanto à dinâmica turística interna as reticências são maiores, pois não se percebe como é que uma área de actividade económica de mão-de-obra intensiva pode continuar a crescer, se não existir gente para nela trabalhar. Convém não esquecer que, presentemente, a esmagadora maioria dos postos de trabalho em todos os sectores que integram a constelação do turismo, com o alojamento e a restauração à cabeça, são ocupados por “não britânicos”. Ora, se as políticas do RU relativas à imigração passarem a ser mais restritivas, poderemos estar perante uma equação de difícil solução…

Em suma, e no que respeita ao “Brexit”, 2020 será o ano de (quase) todas as negociações!

 

Quanto ao acordo comercial parcial entre os EUA e a RPC deve mencionar-se que, para já, o seu âmbito apenas se circunscreveu à aplicação das novas tarifas aduaneiras que se projectava que entrassem em vigor a partir de Domingo passado (dia 15), daí que tenha sido apropriadamente cognominado de “fase um”.

Tanto quanto nos é dado ver, as duas principais economias mundiais dão início àquilo que aparenta ser um período de “tréguas” na “guerra comercial” em que se envolveram, cuja extensão dependerá quer dos progressos negociais que possam obter nas “fases” que se seguirão quer, sobretudo, na evolução que se registar da economia americana, uma vez que no final do ano que vem ocorrerão eleições presidenciais nos EUA nas quais o desempenho económico do país será um dos factores presentes a “julgamento”.

Escusado é dizer-se que a actividade turística, à semelhança das demais áreas da economia, também beneficiará desta “acalmia”, mais a mais porque estão em causa dois países que têm vindo a reforçar a sua importância na emissão de fluxos de turistas à escala global (veja-se a subida que ao longo de 2019 registaram para o nosso país).

Perante este cenário, não é de estranhar que entre estes dois Estados e ao longo do próximo ano, negociar vá (passar a) ser a palavra de ordem!

 

Debruçando-nos agora sobre o plano nacional, verificamos que esta última semana foi dominada pela temática relacionada com o Orçamento de Estado para 2020 (OE 2020) – cuja entrega aconteceu em simultâneo com o momento em que escrevíamos este iTurismo, isto é, ontem, dia 16 – ou, melhor dizendo, para as (boas e más) notícias que o documento aprovado no Conselho de Ministros do passado Sábado podia já conter e, muito principalmente, ter “folga” para vir a acolher em sede de debate e negociação na especialidade.

Daquilo que, entretanto, veio a público, há dois aspectos que claramente marcam esta proposta de Orçamento. Um prende-se com o facto de 50 anos depois Portugal prever apresentar um superávite nas suas contas (a última tinha sido em 1970), sendo a primeira vez que tal acontece em democracia; o outro está relacionado com a infinidade de assuntos que ainda estão em aberto no projecto inicial avançado pelo Governo, leia-se pendentes de negociação.

Desde a baixa no IVA na electricidade, aos aumentos das reformas e dos funcionários públicos, aos apoios e incentivos às empresas, nomeadamente de ordem fiscal, para estimular o investimento e atenuar os efeitos do aumento dos salários, à maior progressividade nos escalões do IRS com o objectivo de aliviar a classe média, até ao reforço das verbas do SNS – Serviço Nacional de Saúde, muitas e variadas são as matérias que, objectivamente, serão alvo de negociação, tanto na Assembleia da República, como na CPCS – Comissão Permanente de Concertação Social.

Naturalmente, no meio de tantas “conversas” convirá que o turismo esteja de “olhos bem abertos” no que se refere aos “seus dinheiros” para que, por um lado, não “seja (eventualmente) apanhado numa qualquer curva” e acabe vítima do seu próprio sucesso – como temos visto, os bons resultados que têm vindo a ser alcançados tornaram a actividade e os turistas alvos apetecíveis para financiar “muitas outras coisas” – e, por outro lado, para se assegurar que alguns investimentos públicos, como os relacionados como o novo aeroporto complementar de Lisboa, aí estão ou ficam previstos.

Em suma, até ao dia 6 de Fevereiro (dia em que está prevista a votação final global do OE 2020), antevê-se um grande frenesim negocial.

 

Atenta a Quadra Natalícia o “iTurismo” só voltará no dia 7 de Janeiro de 2020.

Desejamos a todos os nossos leitores e respectivas famílias um Feliz Natal e um ano de 2020 pleno de sucessos pessoais, profissionais … e turísticos!

 

Nota – Não é demais recordar que o endereço de email iturismo@turisver.pt continua ao dispor dos(as) nossos(as) leitores(as).