iTurismo: O Brinde e a Fava, por Atilio Forte

No iTurismo de hoje, que dada a quadra festiva que atravessamos será o último deste ano, o comentário de Atilio Forte versa, exclusivamente, sobre um tema: as “prendas” boas e menos boas que o turismo nacional recebeu ao longo de 2018. Não deixa, no entanto, em “O + da Semana”, de fazer referência aos últimos dados publicados pelo INE com base nos critérios da Conta Satélite do Turismo.

 

Tópicos da Semana:

  • Grandes tendências da hotelaria em 2019: Quartos tecnologicamente inteligentes, consciência ecológica, marketing de influência, ênfase na personalização dos serviços e maior número de iniciativas governamentais para impulsionar o turismo de modo a que os respectivos países ganhem visibilidade são, na opinião de muitos especialistas, algumas das tendências internacionais mais marcantes com que o sector hoteleiro se deparará no próximo ano.

 

  • Tratamento de dados é oportunidade e desafio para as empresas turísticas: Para além das questões da segurança – que são uma prioridade! – as empresas ligadas à actividade turística devem reflectir profundamente na forma como poderão tratar a gigantesca quantidade de dados (vulgo, “big data”)  que recolhem e no modo como dela conseguirão tirar partido, nomeadamente, no que se refere à personalização do contacto com os seus clientes.

 

  • Smartphones são “Lei” no que respeita ao entretenimento nos quartos: Nos tempos que correm é fácil constatar-se que tanto os hóspedes como as unidades hoteleiras estão num processo muito semelhante de alteração comportamental no que se relaciona com o entretenimento nos quartos, substituindo o tradicional serviço de “video-on-demand” pela reprodução de conteúdos provenientes dos dispositivos móveis dos clientes. A comprová-lo está um estudo realizado pela empresa HIS – Hotel Internet Services que comprova que a quase totalidade dos hóspedes (96%) traz consigo um “smartphone” e 46% viaja, pelo menos, com 2 dispositivos “inteligentes”.

 

Comentário

Turisver.com – Estamos em plena quadra natalícia, por isso decidimos utilizar excepcionalmente a nossa prerrogativa editorial pedindo-lhe que nos dissesse quais foram, na sua opinião, as prendas boas e menos boas que o Turismo nacional teve este ano?  

Atilio Forte – Em contraponto ao habitual modelo do “iTurismo”, que privilegia a resposta a perguntas colocadas pelos leitores, decidiu a Direcção Editorial da Turisver lançar-nos esta semana um desafio totalmente diferente cuja resolução – não escondemos – afigurou-se-nos complexa, por três grandes ordens de razões:

Desde logo, pelo facto de nos obrigar a uma selecção extremamente criteriosa das ”prendas boas e menos boas” que o turismo português recebeu durante o ano de 2018, de modo a não esvaziarmos parcialmente a tradicional Retrospectiva que fazemos no comentário inicial de cada novo ano; em seguida, com a importância acrescida que decorre naturalmente do primeiro argumento, porque as escolhas que apresentaremos são (como sempre) nossas e, por esse facto, eivadas de subjectividade; e, finalmente, por essas mesmas opções nos permitirem, num ou noutro caso, sublinhar aspectos que numa perspectiva mais ampla poderiam não ser merecedores de destaque.

Feito este “ponto de ordem” entendemos ser da maior justiça começar por reconhecer que o ano que está prestes a terminar foi – mais uma vez! – extremamente positivo para a actividade turística no nosso país e, portanto, é totalmente merecido que, logo a abrir, enalteçamos o trabalho de todos quantos, directa ou indirectamente, no sector público ou no privado, deram o seu contributo para que este resultado final fosse atingido.  No fundo, em 2018 o turismo português está (novamente) de parabéns! E isso é, sem sombra para qualquer dúvida, o que mais deve relevar-se.

Feita esta breve introdução, passemos então às boas prendas que o presente ano deixou no “sapatinho” do turismo nacional:

E neste particular é incontornável – e seria inadmissível! – que não começássemos por aquele que, porventura, foi o presente que a todos “mais encheu o olho”. Referimo-nos à eleição de Portugal, na recente cerimónia dos World Travel Awards e pelo segundo ano consecutivo, como Melhor Destino Turístico do Mundo. A repetição do mais ambicionado “Óscar do Turismo” é motivo de enorme orgulho para todos os portugueses(as), mesmo sabendo que um prémio desta natureza só aumenta as nossas responsabilidades futuras e que, óbvia mas inevitavelmente, não poderá ser sempre ganho.

Mas se este foi o presente mais “vistoso”, atrevemo-nos a referir que, pelo menos para a globalidade da comunidade turística, o mais “saboroso”, para não dizer mais valorizado, conveniente e desejado, foi o continuado aumento das receitas do turismo que, certamente, permitirá suplantar o excelente resultado que já havia sido obtido em 2017, reforçando o papel da actividade na economia nacional e permitindo às empresas recuperar algum do fôlego económico-financeiro entretanto perdido, para níveis muito semelhantes aos que antecederam o período da “crise” e da “troika”.

Por seu turno, mais uma vez o denominado “mercado interno” revelou-se como uma “prenda segura”, sobretudo pelo grande dinamismo que manifestou ao longo de todo o ano o qual, nalgumas regiões, contribuiu decisivamente para “disfarçar” quebras de fluxos turísticos oriundos do exterior.

E por falarmos nas preferências dos portugueses em “irem para fora cá dentro”, vale também a pena registar, no domínio das “prendas boas”, que os inúmeros inquéritos sobre a actividade turística, levados a cabo junto dos nossos concidadãos, por um lado provaram que há uma grande empatia entre a sociedade e o turismo e, por outro lado, revelaram existir uma enorme e apurada consciência e sensibilidade para a importância que esta constelação de sectores teve e tem na melhoria e no progresso de Portugal e das próprias comunidades locais, factos que que acabam por contrariar – e desmentir categoricamente! – todos quantos vinham responsabilizando o turismo por ser causador de turbulência económico-social, acelerador da gentrificação e predador das culturas regionais.

Embora não querendo ser exaustivos, há algumas outras prendas que também merecem destaque na “nossa Árvore de Natal”, como sejam as impecáveis organizações do Festival da Eurovisão e da Web Summit e a enorme prova de solidariedade que todo o país manifestou para com a Região Centro – que tão fustigada havia sido pelos incêndios no ano transacto –, a qual situou-se muito para além da “mera ajuda material”, já que muitos decidiram dar o seu contributo através de uma pequena visita ou curta estada aos/nos concelhos sobre os quais a tragédia mais se tinha abatido, passando subliminarmente a mensagem que a fraternidade não é um exclusivo da quadra natalícia, mas algo que devemos ter a todo o momento presente e praticar constantemente.

Contudo, nem sempre o “Pai Natal” nos traz o que mais desejamos. Como já experienciámos, por vezes aparecem-nos no “sapatinho” prendas menos boas, de que gostamos menos ou, até, verdadeiras desilusões. Ora, 2018 também nos trouxe algumas dessas…

E neste capítulo começamos por destacar talvez uma daquelas por que todos os agentes turísticos mais vêm clamando, mas que ainda não foi este ano que lhes calhou “em sorte”. Referimo-nos ao novo aeroporto de Lisboa. Apesar das muitas declarações e promessas políticas, do reconhecimento que a actual infra-estrutura aeroportuária está mais do que esgotada, da ignóbil taxa de pontualidade que apresenta e dos péssimos níveis de serviço que presta, da deficiente imagem externa que dá de Portugal enquanto (melhor) destino turístico (do Mundo), o país em geral e a comunidade turística em particular assistiram, incrédulos, a um “jogo do empurra” de (maus) estudos ambientais, à criação de uma Comissão de Renegociação do Contrato de Concessão entre o Estado português e a ANA – Aeroportos de Portugal que, volvidos nove (longos) meses, ainda não apresentou qualquer resultado significativo, e à manutenção em funcionamento – como se nada se passasse – da afamada Base Aérea nº 6, localizada no Montijo…

Como se este entrave ao desenvolvimento do turismo no nosso país não fosse por si só suficiente, simultaneamente constatámos a retoma de alguns mercados mediterrânicos nossos concorrentes directos (Turquia, Tunísia e Egipto, por exemplo) e a quebra de outros mais tradicionais como o britânico – em grande parte por causa do Brexit, mas não só… – e o alemão, provando que houve “trabalho de casa” que (pelo menos) não terá sido (bem) feito – os alertas foram vários e atempados –, situação que nos fez vislumbrar a aproximação de algumas “nuvens cinzentas”, prenunciando a chegada de dias mais sombrios que, a confirmarem-se, aumentarão o grau de incerteza e exigência do nosso caminho turístico.

Ainda no que respeita a prendas menos boas, acontece que, por vezes, “calham-nos” coisas para as quais não estamos devidamente preparados ou habilitados. Foi o que sucedeu no Verão de 2018 com a qualidade global dos serviços prestados a decrescer, sobretudo nalgumas regiões do país que mais sofrem com a pressão turística nas épocas do ano de maior procura – de que o Algarve é ilustração maior –, deixando a nu as dificuldades em recrutar mão-de-obra qualificada com que a esmagadora maioria das empresas se debate.

E, por falar em Algarve, embora em proporções menores do que as registadas em 2017, a ”Época dos Fogos” teve a sua maior manifestação naquela região (Monchique), em plena estação alta. Apesar das consequências não terem atingido a dimensão verificada noutras zonas no ano anterior, o facto é que se tratou de uma nova calamidade que prejudicou toda a região e que paulatina e subconscientemente pode provocar com que muitos turistas comecem a pensar duas vezes antes de decidirem passar as suas férias de Verão entre nós.

No tocante à emissão de fluxos turísticos para o exterior o excesso de oferta existente para alguns destinos e a subsequente “guerra de preços” gerada, a par das “partidas (quase) surpresa” de voos não-regulares (vulgo “charters”) do aeroporto de Beja, foram “prendas” cuja reacção ainda não foi possível avaliar na plenitude, mas que podem vir a ter impacto no comportamento dos consumidores, principalmente no regresso “em força” às reservas de última hora, de modo a conseguirem preços mais baratos por via de promoções, esboroando assim os bem-sucedidos esforços feitos ao longo de tantos anos pelos operadores turísticos e agências de viagens, para que as marcações se realizassem com maior antecedência.

Para além destes aspectos tivemos também casos de “prendas universais”, que nos deixaram verdadeiramente perplexos, pois caiu-se na generalização daquilo por que apenas poucos ansiavam e necessitavam. É exemplo disso o sucedido com a nova legislação sobre o Alojamento Local que submeteu o país por inteiro a regras que, em abono da verdade, só fazem sentido e só deveriam ser aplicadas em algumas Freguesias de Lisboa e do Porto, nomeadamente as que se encontram nas chamadas “zonas históricas”. A facilidade com que se assumiu que todos “iriam gostar” do mesmo, prova que a classe política ainda tem muito que aprender sobre turismo e acerca dos diferentes sectores que integram a constelação turística, para que não se deixe enlear por estereótipos que possam acabar por subverter o escorreito desenvolvimento da actividade e o cumprimento, por parte de cada um, das suas obrigações legais, fiscais e, até, sociais.

Finalmente, não podemos esquecer aquelas prendas em que nem sequer o embrulho é apelativo, antecipando a desilusão que inexoravelmente acaba por confirmar-se no momento da sua abertura. É o caso das taxas turísticas que foram consagradas ao longo do ano de 2018 como verdadeiro “porquinho mealheiro” das Autarquias, alastrando-se por todo o país e, dado tratar-se de “dinheiro fácil”, deixando antever que um cada vez maior número de municípios não apenas ficará “agarrado à manjedoura do presépio turístico” como terá tendência a “engordar”, pondo a culpa nas “iguarias suculentas” que tem ao dispor, ao invés de assumir a sua incontida voracidade.

Concluído que está o “apanhado” das prendas boas e menos boas que 2018 colocou no “sapatinho” do turismo, cremos poder afirmar que o “Pai Natal” foi generoso com o nosso país, pois nem sequer se esqueceu de colocar um “talão de troca” em muitos dos presentes que considerámos como sendo não tão bons. Agora o que não podemos é ficar à espera que seja ele a ir trocá-los. Isso é algo que temos (devemos!) de ser nós a fazer.

E para terminar dentro do espírito que a quadra impõe, resta-nos dizer que se compararmos o turismo a um bolo-rei devemos lembrar-nos que nele há um brinde… mas também há uma fava. Felizmente, nos últimos anos tem-nos saído sempre o brinde e, já por duas vezes, em forma de “Óscar”. Mas é preciso termos atenção pois a fava está garantidamente no bolo, o que significa que a qualquer momento pode calhar-nos, sobretudo se formos glutões!

 

O + da Semana:

Na passada segunda-feira foram divulgados pelo INE – Instituto Nacional de Estatística os números relativos aos anos de 2016 e 2017, elaborados de acordo com os critérios da CST – Conta Satélite do Turismo definidos pela Organização Mundial do Turismo (UNWTO). Tal significa que, finalmente, Portugal volta a dispor de elementos sólidos, fiáveis e internacionalmente comparáveis no que respeita ao desempenho da actividade turística, facto que é naturalmente merecedor de destaque após vários anos de abandono e, porque não dizê-lo, de incompreensível “opacidade” estatística e analítica a que estivemos sujeitos. Como os nossos leitores mais assíduos estarão certamente recordados, esta é uma temática pela qual sempre nos batemos e que aqui constantemente viemos chamando à atenção, por considerarmos a mesma crítica para melhor suportar todas as acções e consequentes decisões naquilo que ao turismo respeita. Do conjunto dos elementos agora revelados, vale a pena sublinhar que o total das actividades turísticas representou 13,7% do PIB – Produto Interno Bruto nacional no ano transacto e que, em 2016, o turismo empregava 417.000 pessoas, ou seja, 9,4% da população activa. Com a apresentação destes indicadores é legítima a expectativa que doravante a sua actualização se processe de forma mais célere, nomeadamente no que se refere já aos do corrente ano, pois tal será essencial e determinante principalmente na presente conjuntura em que se regista um aumento da concorrência e uma maior indefinição nalguns dos nossos mercados mais importantes e tradicionais.

 

Atenta a Quadra Natalícia o “iTurismo” só voltará no dia 10 de Janeiro de 2019.

Desejamos a todos os nossos leitores e respectivas famílias um Feliz Natal e um 2019 pleno de sucessos pessoais, profissionais … e turísticos!