iTurismo: O Canto da Sereia, por Atilio Forte

As Eleições Legislativas de Outubro próximo e a oportunidade que abrem em termos de poderem ser eleitos deputados que dêem o devido protagonismo à actividade económica do Turismo é um dos temas abordados por Atilio Forte no iTurismo de hoje. Em foco está também a preparação das empresas de hotelaria e restauração para colocarem em prática procedimentos amigos do ambiente.

 

Tópicos da Semana:

  • Captação das gerações mais jovens exige prontidão digital: Pelo menos foi isso que demonstrou uma recente sondagem patrocinada pela empresa Knightsbridge – uma das maiores fabricantes de mobiliário do Reino Unido – levada a cabo junto de 1.000 pessoas, de idade compreendida entre os 18 e os 34 anos. De acordo com os resultados obtidos, a geração “Y ou do milénio” dá preferência às empresas turísticas que possuam maior presença nas redes sociais e melhor velocidade “online”. E uma análise sumária ao estudo comprova-o, já que 80% dos respondentes diz fazer as suas buscas/procuras através do Google e mais de metade afirma não avançar com a reserva se o “website” consultado for muito lento ou complicado.

 

  • Desempenho dos hotéis “boutique” origina surto neste segmento de alojamento: Os dados mais recentes divulgados pela consultora de estudos de mercado STR e pela filial americana da multinacional imobiliária CBRE demonstram que as unidades hoteleiras “boutique” têm vindo a suplantar o desempenho geral da hotelaria tanto em ocupação, como em preço médio diário, como ainda em receita por quarto disponível (vulgo RevPAR), situação que tem atraído mais investidores e promotores para este subsector.

 

  • Procura pelas viagens de aventura luxuosas e sustentáveis aumenta: Na opinião de muitos especialistas a procura por viagens conscienciosas e responsáveis é vista como a mais recente evolução do turismo de luxo. Nelas, mais do que a mera sustentabilidade dos destinos, os turistas têm em conta os direitos humanos e a existência de comunidades preservadas e protegidas.

 

Turisver.com – Na Assembleia da República não tem havido Deputados que tenham dado o devido protagonismo à actividade económica do turismo, situação reflectida no fim da Subcomissão Parlamentar de Turismo. Como em Outubro vai haver Eleições Legislativas, os nossos leitores perguntam se, em seu entender, esta será uma oportunidade para que apareçam Deputados que reflictam sobre esta área tão importante da nossa economia?

Atilio Forte – Antes de entrarmos na resposta propriamente dita à questão que nos é colocada, convirá que aqui recordemos que a perda de “estatuto” político por parte do turismo no quadro da Assembleia da República (AR), não é uma situação que tenha acontecido recentemente.

Para melhor contextualizar, relembramos que a criação de uma Subcomissão Parlamentar de Turismo aconteceu no ano de 1996, decorria então a VII Legislatura (1995-1999), tendo exercido actividade até à XI Legislatura (2009-2011), altura em que foi extinta e “substituída” por um Grupo de Trabalho no âmbito da Comissão de Economia, formatação orgânica que se manteve até aos nossos dias.

Curiosamente, ou talvez não, a (aproximadamente) dúzia de anos em que esta Subcomissão esteve em funcionamento coincidiu com o período em que a actividade turística teve um maior “peso” político, bem expresso em inúmeros exemplos de entre os quais sobressaem como sendo os mais emblemáticos, as votações parlamentares que consagraram a entrada da CTP – Confederação do Turismo Português (agora Confederação do Turismo de Portugal) no CES – Conselho Económico e Social (1999) e na CPCS – Comissão Permanente de Concertação Social (2003) e a criação de um Ministério do Turismo, durante a vigência do XVI Governo Constitucional (2004-2005).

Portanto, assacar-se aos Deputados a responsabilidade da falta de protagonismo do turismo na “Casa da Democracia” afigura-se-nos excessivo, já que os mesmos, embora eleitos pelos portugueses(as), são escolhidos pelos Partidos Políticos e, por essa razão, acabam por ter de subordinar-se às agendas e opções definidas pelas respectivas Direcções Partidárias, junto das quais é crucial marcar (permanentemente) presença.

Por outro lado, deve sublinhar-se que quando a Subcomissão de Turismo foi extinta pouquíssimas foram as “vozes” vindas do seio do turismo que questionaram essa decisão – a nossa foi uma delas! –, eventualmente por não verem importância ou vantagem na sua existência ou por haverem, nos tempos que corriam, preocupações bem maiores, nomeadamente as decorrentes da crise económica mundial (2008) a qual, como se sabe, teve sérios impactos na actividade turística – sobretudo ao longo de 2009 – que, no caso português, somou-se à difícil situação interna que o país atravessava e que acabou por desaguar no pedido de assistência financeira internacional feito em 2011.

O facto é que a página da “crise e da troika” foi voltada e o turismo português tem vindo a passar por uma conjuntura de excelentes resultados, aos quais a “classe política” em geral não tem hesitado em associar-se, enaltecendo-os e deles tirando proveito – como é o caso das taxas turísticas municipais –, mas sem muito fazer seja para compreender e conhecer melhor a actividade em si, seja para criar condições que permitam o seu crescimento e desenvolvimento sustentáveis – como acontece com a questão do novo aeroporto (complementar) de Lisboa –, seja ainda para lhe atribuir a prioridade política que o seu peso económico e social há muito reclamam.

Obviamente que nestes aspectos existe alguma responsabilidade por parte dos diversos actores turísticos em manterem “vivos” os assuntos mais prementes do turismo e em condicionarem de forma positiva a agenda política, particularmente a dos diferentes Partidos Políticos e, por maioria de razão, a daqueles que têm representação parlamentar, deixando-se embalar num rol de promessas que amiúde revelam-se ineficazes ou mesmo estéreis, pois em política a passagem das palavras aos actos (infelizmente) nem sempre é linear.

E esta é uma atenuante que mitiga (e justifica parcialmente) a acção – e nalguns casos a inacção – dos diferentes agentes turísticos, pois se a dado momento exigirem garantias daquilo que lhes é prometido, inevitavelmente deparam-se com uma espécie de “barreira protectora”, sempre respaldada nos mais diversos e criativos argumentos os quais, aos olhos da opinião pública, parecem fazer sentido e não “comprometem” o voto mas que, a prazo, abrandam ou condicionam o desenvolvimento da actividade e, consequentemente, da economia e do país.

Por isso há que continuar a porfiar, com inteligência e muita tenacidade. E os anos de Eleições Legislativas são oportunidades que não podem, nem devem, ser enjeitadas. Mais a mais em tempos como aqueles em que vivemos e onde tanto se fala da necessidade de uma maior aproximação entre eleitores e eleitos, isto é, entre quem vota e os Deputados presentes na AR.

É que para a sociedade em geral tem mais importância conhecer os candidatos e saber o que defendem, os compromissos que assumem e o que se predispõem fazer caso sejam eleitos, do que o Partido Político que representam. Identificar pessoas e rostos com causas, propostas e projectos é uma fórmula simples e eficaz que, para além de aproximar os cidadãos da política e dos políticos, também contribui para uma “prestação de contas” mais transparente e efectiva, para que dentro dos diferentes Órgãos de Soberania existam “especialistas” bem informados e profundamente conhecedores sobre as matérias a que são chamados a decidir e, no limite, para que os Partidos tenham programas mais de acordo com o sentir e o pulsar das populações, das empresas, das organizações e das diferentes áreas da economia e não tanto com aquilo que os seus dirigentes “acham ou entendem” ser o melhor para o país.

A título de ilustração, veja-se o que tem vindo a suceder num número crescente de Autarquias portuguesas, em que muitos candidatos independentes, totalmente fora do “Sistema Partidário”, acabam por merecer e recolher o apoio eleitoral dos munícipes, porque estes lhes reconhecem as competências, os conhecimentos e as capacidades para gerir o presente e o futuro próximo da comunidade.

Ora, enquanto não chega a tão propalada Reforma do Sistema Eleitoral e sendo o turismo uma actividade económica tão determinante para a criação de riqueza, emprego, coesão territorial e social de Portugal e, simultaneamente, tão complexa e com tantas especificidades e interacções com outras áreas da vida nacional e internacional do país, seria muito importante, para não dizer decisivo, que no nosso principal “centro” de decisão política – a Assembleia da República – existissem mais eleitos a “compreenderem e a falarem a sua língua”, que ajudassem os demais a entenderem e a conhecerem a realidade turística interna e externa, complementando desse modo as raríssimas situações em que presentemente tal já acontece, assumindo-se como verdadeiros parceiros no e para o diálogo, bem informados e com pleno domínio sobre as matérias em análise e discussão, quer junto dos diferentes agentes turísticos, quer com os demais interlocutores.

Ganhava o país. Ganhavam os Partidos Políticos. Ganhavam os eleitores. Ganhava o turismo! Credibilizava-se a política e os políticos. E, acima de tudo, acabava-se com esta espécie de “canto da sereia” no qual, quase sem nada se saber ou conhecer, tudo se promete, mas onde pouco ou muito pouco se faz.

 

Turisver.com – As empresas da hotelaria e restauração estão preparadas para responderem aos clientes mais sensíveis a questões ambientais, agora que esta matéria está na ordem do dia e já é uma preocupação generalizada?

Atilio Forte – Sempre dissemos e defendemos que a actividade turística é, por definição e necessidade, a melhor amiga da preservação ecológica e ambiental do Planeta, pois sabe que da fruição sustentável dos recursos naturais existentes muito depende o seu sucesso futuro.

Acontece que, por múltiplas razões (alterações climáticas, efeito de estufa, poluição diversa, aquecimento global, delapidação dos ecossistemas, extinção de espécies animais e de plantas, etc.), a nossa consciência está cada vez mais desperta – e alerta – para estas situações, o que influencia os comportamentos que temos enquanto consumidores.

Não é por isso de estranhar que a adopção de algumas práticas, por vezes pequenos gestos, que passaram a fazer parte do nosso quotidiano (por exemplo a separação do lixo orgânico, do plástico, do vidro e do papel) nos leve a procurar, quando viajamos, destinos e prestadores de serviços turísticos com idêntica preocupação e empenho.

Estas são apenas algumas das razões que justificam que desde há várias décadas as empresas turísticas, mormente as que actuam nos sectores da hotelaria e da restauração, tenham percebido que a protecção do meio-ambiente era – e continua a ser! – um aspecto fundamental a considerar e um garante da defesa do seu próprio negócio.

É pois sem qualquer surpresa que nos habituámos a ver nos quartos de hotel informação acerca da mudança da roupa de cama ou dos atoalhados, a partir dos anos ’80 do século passado, a reutilização de águas residuais (depois de devidamente tratadas) para a rega dos campos de golfe, a recolha para reciclagem dos óleos alimentares usados ou que, há cerca de 2 a 3 anos, tenha sido o turismo a iniciar o movimento de abolição das “palhinhas de plástico” que habitualmente acompanham as bebidas.

Medidas simples, mas com um mesmo objectivo: a preservação ecológica!

Assim, ao assistirmos actualmente a esta sintonia de vontades entre as empresas turísticas e os consumidores acreditamos que a tendência ditará uma crescente intensificação deste tipo de preocupações, acelerando decisões, priorizando investimentos, reorientando e reinventando produtos e exigindo mais dos poderes públicos.

E, escusado será dizer, as empresas turísticas que não incorporarem nas suas operações diárias estas práticas estarão, inexoravelmente, a comprometer o seu futuro, pois sairão fora dos padrões de quem consome.

Em suma, acreditamos firmemente que o tecido empresarial do turismo não só tenderá a reforçar a incorporação dos melhores processos de salvaguarda ambiental que há décadas vem implementando, como continuará na linha da frente da liderança do “movimento” que visa proteger quer os recursos naturais, quer a sustentabilidade ecológica do “Planeta Azul” que é, até ao momento, a única “casa” de que dispomos.

 

O + da Semana:

O INE – Instituto Nacional de Estadística (Espanha) revelou nos últimos dias os dados respeitantes ao emprego na actividade económica do turismo, referentes ao ano transacto, recolhidos através da pesquisa EPA – Encuesta de Población Activa, que vem realizando todos os trimestres desde 1964 e que tem por finalidade a obtenção de elementos sobre a população em relação ao mercado de trabalho, na globalidade do país. Assim, e de acordo com esta pesquisa, 2.604.899 pessoas encontravam-se a trabalhar nas diferentes actividades turísticas em 2018, cerca de mais 94.000 que em 2017, o que corresponde a um aumento homólogo de 3,7%. É ainda digno de registo enfatizar que a percentagem de desemprego no turismo se situou nos 11,8%, o valor mais baixo verificado desde 2009. Mas, porventura, o facto que merece maior destaque é o relacionado com a criação de emprego no país “vizinho”, uma vez que, no ano passado, um quinto dos postos de trabalho que aí tiveram origem registaram-se no turismo, ou seja, 1 em cada 5 novos empregos surgiu devido ao dinamismo manifestado pela constelação turística espanhola.