iTurismo – O comentário de Atilio Forte

Turisver.com – Estamos no início do ano e estreamos a rubrica “iTurismo pelo que se impõe começar por fazer o balanço de 2013 – um ano que praticamente começou com a alteração do titular da pasta do Turismo. Foi uma surpresa? Atilio Forte – Relativamente às mudanças na Secretaria de Estado, gostaria de esclarecer que nesta rubrica não comentamos pessoas, comentamos políticas e é nessa perspectiva que vamos analisar essa mudança. Temos que reconhecer que o turismo não estava com a visibilidade e a afirmação política que a actividade e o país necessitavam – era assim por razões várias que vêm desde a formação do governo, quando chegou a estar em dúvida se haveria, ou não, uma Secretaria de Estado do Turismo. Esta mudança, logo no início de 2013, foi positiva porque sublinhou uma maior vontade de afirmar e dar visibilidade à actividade económica do turismo, centrando-se na procura de resolução de aspectos e problemas muito pontuais e objectivos. Do lado negativo está a falta de uma estratégia concertada com os agentes económicos, porque o turismo é uma actividade eminentemente privada mas o Estado, sobretudo na área da regulação, deve ter um papel mais afirmativo, mais assertivo. Nesse aspecto temos que saudar que, ao longo de 2013, sob o ponto de vista político, a actuação da Secretaria de Estado do Turismo em particular e do Ministério da Economia em geral, se pautou por alguma preocupação de – para utilizar uma expressão que o próprio secretário de Estado utilizou – “desamparar a loja”, ou seja, não ser um obstáculo ao normal exercício da actividade económica do turismo e da vida das empresas, e ser um facilitador e tentar alterar, atenuar e diminuir alguns custos de contexto. Turisver.com – Situação que percorreu parte de 2013 e ainda não está resolvida na totalidade é a do Turismo de Portugal. Gostava que comentasse todo este processo. Atilio Forte – O que aconteceu no Turismo de Portugal acaba por fundamentar um pouco o que disse relativamente à inexistência de uma estratégia de médio e longo prazo. O Turismo de Portugal não é mais do que o instrumento da implementação da politica e, ao não existir política, acaba por se justificar o arrastamento do processo. Uma medida positiva foi o lançamento do concurso já à luz da nova forma de nomeação de altos quadros para a administração pública, iniciativa que este governo implementou criando a CReSAP – Comissão de Recrutamento e Selecção para a Administração Pública. Contudo, no que devemos reflectir – e provavelmente, num próximo comentário voltaremos a esta matéria – é que estamos perante uma crónica de nomeações anunciadas. Ou seja, praticamente todos nós que estamos ligados à actividade turística, antes mesmo de o concurso ter saído já sabíamos quem seriam os nomeados ou os escolhidos. Assim que o concurso saiu bastava ler o caderno de encargos para entender que em alguns casos só faltava pôr o nome. Que não se infira que isto é uma crítica porque entendo que são lugares de muita responsabilidade, estamos a falar do organismo que é o instrumento da aplicação da política no terreno e, portanto, a escolha deve e tem que ser da confiança política do governo. Agora o que se calhar não valeria a pena era estarmos a protelar tanto estas escolhas no tempo. Mas também acabámos por constatar que estas escolhas tiveram o aval dos agentes económicos porque é conhecida a realização de reuniões, nomeadamente de entidades associativas, que validaram a escolha de alguns dos nomes propostos. Turisver.com – Os resultados do ano turístico não são finais mas tudo aponta para que tenhamos excelentes resultados. O reverso disto é que as empresas estão em pior estado financeiro. Atilio Forte – Há duas ou três notas que considero importante sublinhar. Em primeiro lugar, mais uma vez se prova que o turismo é, porventura, a actividade económica a nível mundial que maior e mais rápida capacidade de regeneração tem. Isto já tinha acontecido, a nível global, no pós-crise de 2008 quando cerca de 15 meses depois do “crash” o turismo começou a apresentar resultados positivos. Relativamente a Portugal e a 2013 há que dizer que os resultados são extremamente positivos. Sabemos que para isso contribuiu a conjuntura internacional, nomeadamente as situações de instabilidade em países da bacia do Mediterrâneo, mas se não podemos escamotear este benefício também não podemos justificar com ele todos os bons resultados. Há um gigantesco trabalho que foi efectuado, nomeadamente por parte das empresas, dos empresários e dos profissionais do turismo em Portugal que muito contribuiu para esses resultados, e devemos todos regozijar-nos pelo facto dos mesmos terem sido tão positivos. Mas estamos perante um paradoxo: embora estejamos perante um excelente ano de turismo, se falarmos individualmente com as empresas verificamos que do ponto de vista da nossa capacidade instalada, 50% da capacidade hoteleira é ociosa e isto deve-nos fazer pensar. Sobretudo, não estamos a conseguir criar uma perspectiva de futuro, não estamos a conseguir criar factores de diferenciação, não estamos a conseguir responder à simples pergunta “quais as razões válidas para escolher Portugal?” Ou seja, temos na falta de inovação e, consequentemente, de diferenciação, uma das grandes razões que fazem com que tenhamos uma enorme capacidade hoteleira ociosa, não conseguindo nós dar o salto em frente e dar razões válidas para que o consumidor nos escolha. Turisver.com – Face à leitura de 2013, quais seriam as duas medidas essenciais a tomar em 2014?br> Atilio Forte – Julgo que deverá haver uma enorme preocupação em criar condições financeiras para as empresas estarem no mercado. Esta é uma questão fulcral, em alguns casos para a sobrevivência das próprias empresas, e por isso gostava que ela fosse devidamente abordada e tratada. Acho que aí, os empresários e, sobretudo, a sua representação associativa, deveria centrar as suas preocupações. Decorrendo desta, também procurar obter esses estímulos mas com uma dupla vertente, dando-os apenas quando verificadas duas condições. Por um lado, a criação de emprego – o turismo é, porventura, dada a sua capacidade regenerativa, a actividade económica que mais rapidamente pode criar postos de trabalho e os fluxos financeiros deveriam ser canalizados para projectos geradores de novos empregos – e, por outro lado, premiar quem inova e quem diferencia, porque quem faz mais do mesmo vai continuar a arrastar-nos por um caminho que não é sustentável em termos de futuro. Outra questão fundamental, de que obviamente iremos falar outras vezes, é a promoção, porque Portugal, mais do que precisar de mais promoção, precisa de melhor promoção, mais de acordo com o perfil do consumidor que hoje disputamos. Porque hoje nós disputamos cada cliente com qualquer outro destino e é muito importante compreender qual o perfil do consumidor que queremos captar e o que vamos fazer para lá chegar. E isso tem tudo a ver com diferenciação, com autenticidade. Nota: Dado que as perguntas que temos recebido ([email protected]) têm incidido muito na criação de uma Agência Nacional para a Promoção Turística, na próxima semana iremos dedicar parte significativa da nossa conversa a esta matéria.