iTurismo: O Direito À Explicação, por Atilio Forte

O facto de Portugal estar a promover-se nas feiras internacionais sem a “umbrela” da sua imagem institucional, uma vez que o Turismo de Portugal está impedido de participar nestes certames com stand oficial, é um dos temas abordados por Atilio Forte no iTurismo de hoje. O comentador analisa também o impacto que a realização, em Lisboa, das Jornadas Mundiais da Juventude em 2022, pode ter para a cidade, o país e o segmento do Turismo Religioso.

 

Tópicos da Semana:

  • Países nórdicos com potencial de crescimento hoteleiro: Uma sondagem realizada entre os participantes da NHC – Nordic Hotel Investment Conference revelou que a esmagadora maioria antecipa um grande potencial de oportunidades de crescimento e investimento, tanto nos países da Escandinávia (Suécia, Dinamarca e Noruega), como nos circundantes (Finlândia, Islândia, Regiões Autónomas das Ilhas Faroé e da Gronelândia e do Arquipélago de Aland).

 

  • Hóspedes da hotelaria exigem mais das zonas públicas das unidades: Na opinião da maior parte dos especialistas, e para além das habituais comodidades oferecidas pelos hotéis, a grande tendência em 2019 será os hóspedes aumentarem as suas expectativas quanto aos aspectos distintivos que lhes serão disponibilizados, tais como, “spas”, salões de beleza, áreas públicas – nomeadamente os “lobbies” como espaços de encontro da (e com a) comunidade e de socialização –, obras-de-arte nas paredes e mobiliário clássico ou estilizado.

 

  • Gás natural significa menos custos energéticos: Graças ao aumento da produção de gás natural é previsível que os custos energéticos suportados pela actividade turística venham a decrescer já a partir deste ano, particularmente nos sectores da hotelaria e da restauração. É que apesar do impacto da volatilidade dos mercados e da imprevisibilidade das condições climatéricas, o valor do preço previsto deste combustível fóssil para os anos de 2020 a 2022 está no mais baixo nível de sempre.

 

Comentário

Turisver.com – Portugal continua a promover-se nas feiras internacionais sem imagem institucional e, por via disso, sem uma imagem compatível com a de Melhor Destino Turístico do Mundo. Em causa está o concurso para a construção do stand do Turismo de Portugal em feiras internacionais que motivou uma providência cautelar interposta por uma das empresas preteridas, que alega irregularidades no mesmo. O Turismo de Portugal está, assim, impedido de participar com o stand oficial nas feiras de turismo, situação que se  arrasta há muitos meses.  No seu entender, numa caso como este, o interesse nacional não deveria sobrepor-se?

 

Atilio Forte: Antes de partilharmos a nossa opinião acerca desta matéria, gostaríamos de aqui deixar duas notas prévias:

A primeira para dizer que, sem dúvida alguma, esta é uma pergunta de extrema pertinência e, mais importante, relativa a um assunto que (aparentemente) tem estado envolto num “manto de silêncio”, uma vez que, por um lado, ao país em geral e ao turismo em particular, já deveria ter sido dada uma explicação por parte do Turismo de Portugal e, por outro lado, se excepcionarmos algumas declarações públicas feitas por uma ou outra ERT – Entidade Regional de Turismo (ex-Região de Turismo) e/ou empresa parece que esta situação tem passado um pouco ao lado da comunidade turística.

E, uma segunda, para sublinhar que deverá ter-se em atenção que estamos perante um processo que actualmente se encontra no âmbito do foro jurídico, logo em segredo de justiça e, por essa razão, deveremos todos, sem excepção, aguardar pela decisão dos Órgãos Judiciais dado estes serem os únicos com competência para se pronunciarem sobre o mesmo. Não obstante, e numa perspectiva estritamente turística, existem outros aspectos que merecem ser relevados, sendo neles que a nossa análise incidirá.

Dito isto, vejamos então como é que esta (insólita) situação surgiu e quais são os seus principais reflexos:

Como é do conhecimento geral, ao longo dos anos a promoção turística do nosso país nos principais certames internacionais tem vindo a ser assegurada pelo Turismo de Portugal, através de um stand que, simultaneamente, oferece coerência imagética e proporciona espaço para que os diferentes agentes turísticos públicos, público-privados e privados possam realizar as suas acções promocionais e desenvolver contactos e negócios com todos quantos estejam potencialmente interessados na nossa oferta, sempre debaixo da “marca Portugal”.

Para esse efeito aquele Instituto subcontrata administrativamente, através de concurso público, a concepção, manutenção, transporte e montagem do respectivo stand, por um determinado período de tempo, a uma empresa especializada.

Acontece que em Julho passado – após ser conhecido o resultado de mais um desses actos administrativos – uma das empresas que a ele concorreu, por não ter sido a escolhida e/ou por considerar terem existido irregularidades no mesmo, decidiu apresentar uma providência cautelar com o intuito de suspender a participação do Turismo de Portugal em feiras internacionais, nos termos que atrás referimos, acção que mereceu provimento.

Conhecida a decisão do Tribunal este Instituto Público viu-se, assim, impedido de continuar a marcar presença nos mais diferentes eventos, nos moldes habituais (leia-se com stand próprio), tendo a representação de Portugal passado a ser assegurada, consoante o mercado, por uma das ERT’s.

Em termos práticos isso significou que, logo em Setembro, na Paris Expo 2018 o espaço destinado ao nosso país tivesse ficado deserto (?), em Novembro no World Travel Market (Londres) a coordenação da participação nacional tivesse sido assegurada pela ERTA – Entidade Regional de Turismo do Algarve, situação que se repetiu a semana passada, na FITUR (Madrid), desta feita com articulação a cargo da ERTL – Entidade Regional de Turismo de Lisboa, isto para só referirmos três dos casos mais emblemáticos.

Escusado será dizer que, obviamente – e não estando em causa o meritório esforço feito pelas ERT’s –, a imagem e a promoção turística do nosso país saem claramente prejudicadas, dado não ser possível a apresentação de um todo coerente sob a marca “guarda-chuva” Portugal, aspecto que ganha maior dimensão pelo facto de, nos últimos dois anos, termos sido eleitos “Melhor Destino Turístico do Mundo”, o que, convenhamos, desperta um acréscimo de curiosidade junto dos participantes profissionais e visitantes nos diferentes eventos em verem e perceberem o que temos para oferecer e que, certamente, acabam a interrogar-se tanto sobre como tal foi possível, pois do que lhes é dado ver o nosso stand fica bastante abaixo das expectativas e, igualmente, onde está “aquele país” que habitualmente era quase sempre premiado pelas organizações atenta a qualidade, beleza e funcionalidade dos espaços que apresentava.

Pese embora possa alegar-se que isto prejudica “o interesse nacional” – e prejudica! –, como é referido na pergunta, este é (infelizmente) mais dos incontáveis casos em que muito pouco haverá a fazer, e que por isso é previsível que se arraste mais no tempo, com um adensar do prejuízo turístico, considerando a morosidade da nossa Justiça. Só que nesta situação é o Estado a “provar do seu próprio veneno”, em parte, por continuar a adiar a Reforma da Justiça, em virtude de a “outra parte” penalizar “os do costume”, concretamente os cidadãos e as empresas, neste caso quem está directamente ligado ao negócio na actividade turística.

Tendo em conta tudo o que foi dito, e mesmo sabendo que o processo se encontra em segredo de justiça, é nossa opinião que tal não é suficiente, quanto mais impeditivo, para que se omita uma justificação sobre o assunto. Mais a mais sabendo-se que na contratação pública é muito frequente existirem impugnações e outro tipo de contestações, o que obriga (ou deveria obrigar) as diversas entidades contratantes a considerarem os processos concursais com maior dilação temporal de modo a precaverem situações de natureza análoga àquela que aqui referimos acautelando, por essa via, quaisquer danos que daí possam resultar.

Por isto, concluímos do mesmo modo com que iniciámos esta resposta: o turismo e o país há muito tempo que são merecedores (e credores!) por parte do Turismo de Portugal de uma satisfação sobre o que verdadeiramente se passou (e está a passar-se). A manutenção de uma atitude de aparente normalidade – que não existe! – e o silêncio só geram ruído, interrogações, especulações e estragos de diversa ordem que o turismo e os seus agentes não merecem, nem precisam. Todos, sem excepção, temos o direito à (pelo menos a uma) explicação!

 

Turisver.com – Foi confirmado pelo Papa Francisco que Portugal irá receber as Jornadas Mundiais da Juventude em 2022, em Lisboa. Na sua perspectiva o que é que esta situação pode representar para o país, para Lisboa e para o turismo religioso?

 

Atilio Forte – Em contraponto à temática analisada na pergunta anterior, esta foi (é!) uma excelente notícia para o país e, em particular, para a comunidade católica, para a economia, para a região de Lisboa e, naturalmente, para o turismo português.

É que para além da visita do Papa, que por si só gera uma grande dinâmica em termos da influência que tem nos fluxos turísticos – basta recordar o que se passou há dois anos aquando da sua vinda ao nosso país para participar na celebração do Centenário das Aparições de Fátima –, as Jornadas Mundiais da Juventude atraem centenas de milhares de jovens, sem sequer contarmos com a participação de muitas outras pessoas que de igual forma professam a fé católica. A título de curiosidade vale a pena relembrar que só este ano, no Panamá, estiveram presentes cerca de 200.000 jovens, provenientes de 155 países.

Mas isto também significa que por ter conseguido acolher a próxima edição deste evento, o nosso país estará até lá e, por maioria de razão, durante a semana em que as “Jornadas” ocorrerem, no radar internacional dos grandes acontecimentos religiosos, com sistemáticas notícias em todos os órgãos de comunicação e informação, numa “gigantesca campanha promocional” que seria impensável e incomportável levar a cabo a nossas próprias expensas.

Por outro lado não podemos esquecer-nos que tal, aliado à projecção turística que temos vindo a construir, funcionará como factor adicional de atracção a um dos maiores e mais renomados Santuários Marianos do Mundo (Fátima) e a um país com um assinalável património religioso (católico) como o nosso, o que beneficiará directamente – e recompensará – em muito o segmento do turismo religioso e todos quantos têm investido no seu desenvolvimento e, indirectamente, a demais oferta turística, atenta a grande diversidade de produtos que Portugal tem para oferecer, num território de exíguas dimensões.

Mas o benefício ainda poderá ser maior, considerando que estas Jornadas Mundiais da Juventude estarão muito voltadas para o “espaço lusófono” – ao que parece a escolha de Portugal terá, em grande parte, ficado a dever-se à nossa estreita relação com África e com o Brasil –, que integra mercados em franco desenvolvimento económico e turístico dos quais, legitimamente, muito podemos esperar.

Não espanta pois que algumas projecções já avancem que a região de Lisboa (e o país no seu todo) poderá vir a receber cerca de 1 milhão de jovens naquela semana, o que a verificar-se, colocaria este grande evento ao nível dos maiores acontecimentos do Mundo, nomeadamente, do Campeonato do Mundo de Futebol e dos Jogos Olímpicos.

Com números desta grandeza é (quase) escusado falar dos impactos económicos, directos e indirectos, que as Jornadas Mundiais da Juventude de 2022 terão no turismo, na cidade, na região de Lisboa e no país. Basta referir que, se nos cingirmos apenas à semana em que as mesmas decorrerão, teremos a grande maioria de toda essa gente (participantes, jornalistas e curiosos) a necessitar de chegar à capital, de ter onde dormir, comer, divertir-se, passear, fazer compras, numa palavra, consumir. E isso vai ser excelente para a economia nacional!

Se outros motivos não houvesse – que os há – bastava este para sublinhar que Portugal e os portugueses(as) estão de parabéns por esta “conquista”! Como igualmente carecem de agradecimento todos quantos contribuíram e trabalharam para este sucesso, nomeadamente a Igreja Católica Portuguesa.

 

O + da Semana:

 

A Organização Mundial do Turismo (UNWTO) em parceria com o Instituto Ipsos (a terceira maior empresa de pesquisa e inteligência de mercado do Mundo) realizou um inquérito online em 15 países com o objectivo de perceber e avaliar a percepção de quem vive nas cidades sobre as estratégias para o turismo por estas seguidas e os impactos desta actividade económica na vida e na gestão urbana. Foram sensivelmente 12.000 respostas que, ao serem analisadas em conjunto, deixam transparecer de forma cristalina o que é que as pessoas verdadeiramente pensam e acham sobre a actividade turística e das consequências que a mesma provoca no seu quotidiano. De entre as conclusões apuradas permitimo-nos destacar que 50% dos respondentes entende que o turismo influencia positivamente a criação de riqueza e a promoção do intercâmbio cultural; 47% do total é de opinião que vive em cidades que recebem um grande número de turistas, embora apenas 12% defenda a existência de uma qualquer limitação a esse afluxo; ao contrário 49% mostra-se favorável à tomada de medidas que contribuam para melhorar a gestão do turismo, sendo que 70% (!) do universo dos inquiridos pugna para que essas disposições sejam principalmente dirigidas para a (re)qualificação das infra-estruturas e para a criação de atracções que beneficiem tanto os turistas como os residentes urbanos. Em suma, constata-se o que sempre defendemos e que ao longo dos anos (também) aqui temos vindo a expressar: o que é bom para o turismo, é igualmente vantajoso para as comunidades locais e vice-versa.