iTurismo: O “Erro” da Economia, por Atilio Forte

No iTurismo desta semana Atilio Forte comenta, entre outros assuntos, a recente remodelação governamental, referindo, em conclusão que “esta foi mais uma oportunidade perdida para alterar o presente modelo de Ministério da Economia… e, simultaneamente, uma hipótese esbanjada para dar ao turismo o protagonismo político que por mérito lhe pertence”.

Tópicos da Semana:

  • Avaliação de “sites” turísticos: A empresa de pesquisa de opinião pública CivicScience levou a cabo uma sondagem junto dos consumidores para avaliar os níveis de notoriedade das principais plataformas tecnológicas que analisam e comercializam produtos e serviços turísticos. Do resultado desse estudo os sítios da TripAdvisor, da Google e da Trivago emergiram como sendo os mais “confiáveis” no que respeita às apreciações que efectuam. Contudo, 53% dos inquiridos afirma não atribuir grande credibilidade a qualquer daquelas plataformas, valorizando mais a informação “boca a boca”.
  • Limpeza sem químicos: O Hotel Herman K de Copenhaga é a primeira unidade hoteleira da Dinamarca que não utiliza produtos à base de químicos nas múltiplas acções diárias de limpeza que realiza, de modo a promover a sua sustentabilidade ecológica e ambiental factor ao qual, como se sabe, um cada vez maior número de consumidores é sensível.
  • Hotelaria atrai (mais) grandes nomes/marcas: Os estúdios de cinema Paramount, a cadeia de ginásios Equinox e as casas de alta-costura Armani e Versace são apenas alguns dos nomes/marcas sonantes que mais recentemente anunciaram a sua entrada no sector hoteleiro, o que tem motivado que vários analistas afirmem que o negócio dos hotéis está a transformar-se num negócio de “estilo de vida”.

 

Comentário

Turisver – O Governo acabou de promover uma remodelação, onde fez substituir vários ministros entre os quais o da Economia, com o Turismo a manter-se como Secretaria de Estado deste Ministério. No seu entender, esta foi mais uma oportunidade perdida para alavancar o Turismo para outros patamares de maior importância e poder decisório no Governo?

 

Atilio Forte – Como é habitual neste tipo de perguntas gostamos de começar por referir que a nossa análise nunca recai sobre pessoas mas sempre sobre estratégias, políticas, decisões e/ou factos. Portanto, tudo o que doravante dissermos nada tem a ver com aqueles que serviram e servem o Governo de Portugal enquanto Ministros da Economia.

É também digno de menção recordar que a definição da orgânica do Executivo, bem como a escolha dos seus Membros, é da exclusiva competência do Primeiro-Ministro e, por isso, devem respeitar-se as decisões daqueles que, legitimados pelo voto e pela Constituição, desde há quase duas décadas e meia (desde 1995) têm optado por contemplar na estrutura governativa um Ministério da Economia.

Finalmente, e no que ao turismo mais directamente respeita, deve salientar-se a episódica criação de um Ministério do Turismo, no XVI Governo Constitucional (Julho de 2004 a Março de 2005) liderado por Pedro Santana Lopes, apesar da existência de um Ministério das Actividades Económicas que, na altura, também integrou a área do Trabalho.

Feitas estas ressalvas convirá agora analisar a temática que nos é colocada dentro de um duplo enquadramento. Por um lado, para avaliar a razão de ser de um Ministério da Economia nos “moldes tradicionais” e, por outro lado, para aquilatar em que forma é que este modelo tem servido os “interesses e necessidades” da actividade turística.

Quanto ao primeiro aspecto deve dizer-se que, genericamente, o Ministério da Economia manteve-se quase sempre fiel ao seu propósito inicial – as oscilações que existiram foram meramente pontuais –, que resultou da “fusão” dos Ministérios da Indústria e Energia e do Comércio e Turismo, o que lhe permitiu Tutelar estas áreas de actividade, bem como, num primeiro momento, o sector empresarial do Estado que lhes estava associado para, posteriormente (com as privatizações), passar a assumir funções mais de nível normativo, regulatório e fiscalizador, tal como de protecção do consumidor.

Isto significa que o preciso momento da sua criação enfermou daquilo que nos atrevemos a chamar de “erro da economia”, já que por essa altura viviam-se momentos determinantes que viriam a alterar radicalmente o Mundo – e necessariamente as actividades económicas, os negócios e as nossas vidas –, de que a “explosão” das novas tecnologias de informação e comunicação, nomeadamente, com a “entrada” da internet no nosso quotidiano, a par do “disparar” do turismo para a liderança da economia mundial, são os exemplos mais paradigmáticos.

Esta falta de visão estratégica e de percepção do Mundo – tão em voga na Europa do final do milénio – fez com que, logo à partida, duas das áreas que mais “peso” viriam a ter no desenvolvimento e crescimento das economias (o digital e o turismo), e muito particularmente na portuguesa, ficassem amputadas de elementos essenciais para o seu escorreito desenvolvimento – as novas tecnologias e a aviação – no que à sua Tutela respeitava, uma vez que a mesma se manteve na esfera do comummente designado Ministério das Obras Públicas, Transportes e Comunicações.

Escusado será dizer-se que persistir nesta quase imutabilidade, cega e surda aos sinais dos tempos – para não a adjectivar de outra forma –, tem-nos causado inúmeros “amargos de boca” ao longo dos 23 anos de existência de um Ministério da Economia nestes moldes. Mais a mais porque Portugal é uma democracia e uma economia de mercado (felizmente!), sendo por isso na iniciativa privada (nas empresas e nos empresários) que reside a força e o dinamismo da sua capacidade em criar riqueza, cabendo ao Estado o insubstituível papel de proporcionar condições políticas que fomentem e potenciem o escorreito desenvolvimento económico e o livre acesso ao mercado em igualdade de oportunidades (e não entraves e burocracias como mais frequentemente acontece).

Não espanta pois que ao longo dos anos o Ministério da Economia tenha sido uma das “pastas” pela qual mais responsáveis têm passado e estado quase sempre “debaixo de fogo” pois, por um lado, esteve quartado de áreas essenciais que se mantiveram (e mantêm!) sob a responsabilidade de outros Ministérios e, por outro lado, uma parte substancial dos seus resultados depende do desempenho do tecido empresarial o qual, também é bom que se diga, em muitos casos ainda vê o Estado como figura “paternal” exigindo-lhe coisas que deveriam ser da sua própria acção.

Aqueles que têm acompanhado as nossas intervenções públicas ao longo dos anos sabem que esta foi sempre a nossa visão que, note-se, não é contrária à existência de um Ministério da Economia, simplesmente vemo-lo de outra forma ou se se quiser com outro âmbito, nomeadamente Tutelando, Regulando e Fiscalizando os sectores mais tradicionais da actividade económica como sejam a agricultura, as pescas, a indústria, o comércio e os serviços. Já quanto à energia (faz sentido a sua ligação à área do ambiente, como voltou a acontecer nesta remodelação), ao digital e, claro está, ao turismo deveria ser-lhes dado outro protagonismo, ou “alavancagem” como é referido na pergunta, mais de acordo com as suas necessidades, com o Mundo actual e com o peso presente e importância crescente que irão ter no futuro (nosso, de Portugal, da Europa e do Mundo).

E é neste ponto que entronca o segundo aspecto que mencionámos, isto é, em que medida é que este modelo tem servido os interesses da actividade turística.

Para aqueles que nos acompanham não é surpresa o facto de defendermos a criação de um Ministério do Turismo, englobando (imperativamente) o sector da aviação (transporte aéreo, infra-estruturas aeroportuárias, navegação, controlo e segurança aéreas) dando assim peso político à actividade turística, mas também permitindo que melhores e mais escorreitas decisões sejam tomadas em prol do desenvolvimento sustentado de uma das principais áreas da economia do século XXI.

De uma vez por todas deve começar-se a pensar em erradicar preconceitos sem sentido e dar substância ao que de viva voz toda a “classe política apregoa” e a sociedade portuguesa há muito interiorizou, ou seja, que o turismo é uma das grandes actividades motoras da economia nacional. E, como tudo o que é importante, deve estar em primeiro lugar!

Se a isto somarmos o facto de ela ser uma das mais transversais e pluridisciplinares áreas da economia, que se entrecruza com quase todas as demais esferas da governação (seja em que Governo for) e que, por essa razão, pode ser afectada positiva ou negativamente por decisões terceiras, é mais do que óbvio – e até de elementar justiça pelo muito que tem contribuído para o “renascer” económico de Portugal – que passe a ter assento no principal centro executivo de decisão do país, o Conselho de Ministros.

Caso contrário continuaremos a elogiar muito o turismo e os seus agentes, a glorificar os seus resultados, a apontá-lo como exemplo de inovação e resiliência, a propalar a sua capacidade ímpar de criação de emprego, a embevecer-nos com os prémios e distinções conquistadas, etc., etc., e a não assumir que o avião é, por excelência, o principal meio de transporte de quem viaja, a ter aeroportos estrangulados, a persistir em distorções fiscais que prejudicam a competitividade internacional da actividade, a não valorizar as carreiras e profissões turísticas, a criar entraves ao investimento, a ver os turistas como “presa” fácil de receita através da cobrança de “taxas e mais taxinhas”, etc., etc..

Em conclusão, esta foi mais uma oportunidade perdida para alterar o presente modelo de Ministério da Economia, actualizando-o de modo a colocá-lo em linha com a realidade e apto para responder aos desafios do terceiro milénio e, simultaneamente, uma hipótese esbanjada para dar ao turismo o protagonismo político que por mérito lhe pertence.

De uma coisa temos a certeza: um dia (não muito distante) o “erro da economia” será corrigido!

 

Turisver – A Associação da Hotelaria de Portugal lançou, na passada semana, a plataforma click2portugal.com que é, segundo classifica a AHP, o primeiro agregador da hotelaria portuguesa. A plataforma, que permite a reserva online de alojamento, está integrada no portal visitportugal.com do Turismo de Portugal. Que comentário lhe merece esta iniciativa da AHP?

 

Atilio Forte – Já por diversas vezes aqui abordámos a importância crescente que a tecnologia vem assumindo na distribuição e comercialização da oferta turística. Como também temos destacado o esforço que todo o sector do alojamento, particularmente a hotelaria, vem fazendo para conquistar maior independência dos grandes conglomerados digitais de venda de produtos e serviços turísticos, sobretudo no que respeita aos hotéis que não operam debaixo do “guarda-chuva” das grandes cadeias internacionais. E, por último, mas seguramente não menos importante, temos ainda enfatizado que nos dias de hoje os consumidores quando “navegam na net” pretendem obter, quase em simultâneo, quer a informação sobre o que procuram, quer a possibilidade de “em poucos passos” efectuarem a respectiva reserva, caso assim o entendam.

Por tudo isto, esta iniciativa da AHP – Associação da Hotelaria de Portugal, que conta com a estreita parceria do Turismo de Portugal, através do portal visitportugal.com, tem o mérito de não só responder a todos estes requisitos, como também de dar corpo a uma presença mais “agressiva” (no bom sentido do termo) do nosso país no ciberespaço.

Neste sentido, atrevemo-nos a qualificar a plataforma click2portugal.com como uma inevitabilidade face às tendências e comportamentos de consumo actuais e como uma mais-valia que a AHP passa a disponibilizar aos seus associados, pois garante aos mesmos que continuam a ser eles a fazer a gestão da reserva, logo a manterem o contacto directo com o cliente, uma vez que não há lugar a qualquer intermediação.

Contudo, e como existe um envolvimento oficial através do sítio do Turismo de Portugal, cremos que será este o ponto que poderá gerar alguma controvérsia, particularmente por parte do sector das agências de viagens e turismo (nos últimos dias chegaram-nos bastantes manifestações de desagrado sobre o tema). É que, se se compreende a iniciativa do lado da AHP, já o Turismo de Portugal pode vir a ser confrontado com o facto de estar a preterir um sector – o da distribuição – em favor de outro(o da hotelaria) pondo em causa o seu papel de equidistância enquanto Regulador da actividade turística.

Antevemos por isso que este será um assunto que está longe de estar encerrado. No entanto, acreditamos que tanto a Secretaria de Estado do Turismo, como o Turismo de Portugal, como a AHP, como a própria APAVT – Associação Portuguesa das Agências de Viagens e Turismo saberão encontrar forma de superar eventuais divergências, preservando a iniciativa e, quem sabe, acrescentando-lhe (mais) valor. Aguardemos pois…

 

O + da Semana:

 No final da passada semana a ERTA – Entidade Regional de Turismo do Algarve apresentou um estudo sobre “Turismo Culinário e Enológico” com o objectivo de colocar o principal destino turístico nacional “no mapa” de um segmento que não pára de conquistar adeptos em todo o Mundo, já que aos prazeres da “boa mesa” adiciona um vasto acervo de conhecimentos acerca da produção ou captura dos alimentos, da sua escolha e locais de aquisição, da sua transformação e confecção até chegarem ao prato (ou ao copo), da cultura e tradições que (quase sempre) estão na sua origem e que motivam todo um conjunto de interacções com as comunidades locais que, pela sua autenticidade, valorizam a experiência turística. Ora, como se sabe, quer a gastronomia, quer a enologia, são um dos vectores de diferenciação mais enaltecidos por todos quantos nos visitam fazendo por isso todo o sentido que a maior região de turismo de Portugal procure, na parte que lhe cabe, potenciar todos os factores endógenos que neste domínio possui tentando, simultaneamente, sistematizá-los e dá-los a conhecer ao mercado e, assim, criar novas valências que, por um lado, complementem e acrescentem valor ao vasto leque de atracções turísticas que já integram a oferta que disponibiliza e, por outro lado, que também possam dar (mais) um precioso contributo para a atenuação da sazonalidade que tradicionalmente afecta aquela região do nosso país.