iTurismo: O Louco Ano 20

O Brexit, as eleições nos Estados Unidos da América, a “guerra” comercial entre os EUA e a China que tem na tecnologia 5G uma das causas, e as alterações climáticas, são temas que irão marcar o ano que agora se inicia e que Atilio Forte comenta neste primeiro iTurismo de 2020, com que se assinala o sexto aniversário desta rubrica.

 

Volvida a habitual pausa natalícia, o iTurismo volta neste início de ano ainda a tempo para desejar às(aos) suas(seus) leitoras(es) um excelente 2020 e agradecer a companhia que nos têm feito ao longo dos seis anos de (quase) ininterrupta publicação semanal que comemoramos precisamente no dia de hoje (7 de Janeiro). E aqui estamos para continuar já que, do que nos tem sido dado ver, assunto é algo que não irá certamente faltar-nos durante o ano que agora está a começar e que com ele traz as esperanças, mas também as apreensões, de uma nova década.

Se é verdade que há um século o Mundo despertava para o que se antevia um decénio de prosperidade, de progresso e de paz, ultrapassados os tempos difíceis de uma I Guerra Mundial, e a indústria ocidental – liderada pelos americanos – prometia revolucionar o quotidiano dos cidadãos, atenta a quase insaciável necessidade de mão-de-obra que revelava e que permitia melhorias significativas das condições de vida, nomeadamente, transformando “muitos sonhos” – ter um electrodoméstico, ou até um automóvel – em realidade, o facto é que “os loucos anos vinte” (como para a História a época ficou conhecida) não passaram disso mesmo, terminando com a Grande Depressão (1929) terreno que se veio a revelar mais do que fértil para germinar os populismos e os nacionalismos que, entre outras causas, conduziram o Mundo a novos desentendimentos e conflitos que se arrastaram até culminarem noutro de amplitude global (II Guerra Mundial).

Hoje em dia, como é sabido, tudo se desenrola a uma velocidade vertiginosa, que faz com que o êxito e o falhanço, a prosperidade e a pobreza, a guerra e a paz, a verdade e a mentira, caminhem lado a lado confundindo-se e confundindo-nos, tantas e tantas vezes, e envolvendo-nos no turbilhão do e de um tempo que não temos para parar e pensar, que nos impele a agir por reflexo, instinto ou intuição e, consequentemente, aumentando exponencialmente a (nossa) probabilidade de errar. Erro esse que sabemos ser um dos “luxos” que mais raramente nos podemos permitir porque temos consciência, quase sempre, que há muito que ultrapassámos a fronteira do mero “preço a pagar” por o cometermos (ou termos cometido).

Estamos assim perante algumas das razões que nos levam a afirmar, contrariamente ao sucedido há um século, que esta não será uma década de facilidades nem de distracções pois, como vimos, a margem para falhar é ínfima ou nem sequer existe. E em 2020 temos que dar sinais inequívocos de que estamos preparados, de que sabemos o que fazer e do que queremos para o nosso futuro comum. Numa frase, acabámos de entrar “num ano louco”! Mesmo aos mais cépticos basta olhar para os quatro exemplos que em seguida apresentamos, para perceberem na perfeição a importância dos próximos 12 meses. Senão vejamos:

 

Até ao final do corrente mês o Reino Unido (RU) sairá da União Europeia (UE), consumando o afamado “Brexit”. É certo que o fará de forma ordenada. O que permanece incerto são as consequências que daí advirão, pois até agora só houve Estados a quererem entrar na UE e nunca algum a abandoná-la. A nível externo, estamos a falar da quinta maior economia do Mundo deixar de estar debaixo do “guarda-chuva europeu”, empobrecendo a UE e, simultaneamente, desprotegendo-se ou, pelo menos, vendo-se na situação de rapidamente ter de negociar (sozinha!) novos acordos económicos, sociais, políticos, etc., com os seus parceiros de sempre, isto sem sequer pretendermos imaginar o que será uma Europa menos – muitíssimo menos! – Atlântica ou, se se quiser, bem mais continental, leia-se “franco-alemã”. E, no plano interno, começar a ver o RU a braços, entre outras questões, com alguma perda de coesão territorial e social que inevitavelmente alimentará os movimentos independentistas, a par de um generalizado aumento da inflação e perda de poder de compra que, muito provavelmente, virão acompanhados de escassez de mão-de-obra e diminuição de gastos em muitas áreas de actividade económica, nomeadamente, na do turismo.

 

E, por falar em Atlântico, este vai ser um período crucial nos e para os Estados Unidos da América (EUA), o que quer dizer para todos nós atento o estatuto de superpotência que aquele país possui, dado prometer ser um ano (no mínimo) sui generis no qual, aparentemente, um processo de destituição (“impeachment”) de um seu Presidente se desenrolará a par da campanha e das eleições que elegerão um outro (que poderá ser o mesmo em caso de reeleição), em Novembro. Se a isto (que já não é pouco) adicionarmos as intervenções erráticas (para usar uma expressão lisonjeira) do seu Governo efectuadas desde a América Latina (bem ilustradas na construção de um muro para dividir a fronteira com o México) ao Médio Oriente (conflito israelo-palestiniano, Irão, Iraque, Síria, etc.), passando pela Ásia (tensão nas negociações comerciais com a China e estabelecimento de uma pseudo relação com a Coreia do Norte), facilmente constatamos que o Mundo tem muito com que se preocupar. Valem os resultados económicos obtidos internamente que, entre outros benefícios, têm permitido que os americanos viagem mais, inclusivamente para o nosso país, o que é uma boa notícia para a actividade.

Uma das causas da “guerra comercial” entre os EUA e a China tem sido a tecnologia 5G que dará outro sentido aos desenvolvimentos verificados nos domínios da inteligência artificial e das ferramentas quânticas e que, ao que tudo indica, a partir do corrente ano entrará “em força” nas nossas vidas, abrindo-nos em todos os campos (da ciência ao entretenimento, do aumento da esperança de vida, à comodidade e ao lazer) horizontes até há pouco tempo inimagináveis. Mais do que estarmos permanentemente “conectados”, deixaremos de fazer inúmeras tarefas que passarão a ser redundantes ou realizadas por máquinas, muitas delas (supostamente) controladas a partir do nosso telemóvel (“smartphone”), com uma rapidez, uma fiabilidade e capacidades superiores às nossas.

Contudo, e como é costume dizer-se, não há almoços grátis! Até que ponto é que tal nos atirará para uma sociedade orwelliana ou para a perda de controlo sobre a “máquina” é algo que jamais poderemos deixar de ter presente… No entretanto, tudo isto permitirá um incremento do turismo, quer por as pessoas terem mais tempo livre para viajar, quer pela melhoria da qualidade de vida de que beneficiarão quer, particularmente, pelas possibilidades de tratamento e melhor aproveitamento dos megadados (“big data”) de cada um que estão disponíveis no ciberespaço, de modo a formular as melhores e, sobretudo, mais personalizadas propostas de viagem.

 

Finalmente, temos a questão da década! Aquela que faz com que tudo o que acima dissemos pareça (quase) irrelevante e para a qual toda a comunidade cientifica já nos alertou. Referimo-nos à contagem decrescente em que se encontra “o relógio do Planeta”, ou seja, aos 10 anos que temos à nossa frente para evitar que as alterações climáticas se tornem irreversíveis. Depois de muitas Cimeiras sobre o tema, de alguns acordos, desacordos, avanços e recuos, chegou a hora, o minuto, o segundo, de tomar decisões. Queremos ou não sobreviver? E, enquanto seres racionais, sermos co-responsáveis pelo futuro das restantes espécies animais e vegetais, no fundo por toda a nossa “casa comum”! E, já agora, no que estritamente respeita à actividade turística, continuar a ter diversidade de locais para visitar, diferentes paisagens para observar, emoções (sempre) novas para desfrutar e viver…

Em suma, e por esta ser apenas a “ponta do iceberg”, não temos dúvidas em afirmar que estamos verdadeiramente perante um louco ano ’20!

 

Nota – Não é demais recordar que o endereço de email iturismo@turisver.pt continua ao dispor das(os) nossas(os) leitoras(es).